quinta-feira, 29 de junho de 2017

Éden, a Evolução do Homem


A história do Jardim do Éden, por conta de sua natureza simbólica, recebeu e receberá diversas interpretações. Uma tradição mais positiva observa, na "desobediência" de Adão e Eva, o melhor que poderiam fazer. Nota, no próprio texto, que a expulsão do "paraíso" se deu mais por uma elevação do que por uma queda do ser humano:

"Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente. O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado" - Gn 3.22-23

Nessa visão, a serpente não mentiu:

"Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal" Gn 3.4-5
O que ocorreu no Éden se assemelha ao mito grego do titã Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu aos homens. Aquilo que pertencia somente aos deuses, passou a ser, também, dos homens. Os deuses Castigaram Prometeu, mas o fogo continuou com os homens, ainda assim. No caso do Éden, o conhecimento do bem e do mal foi dado ao ser humano pelo próprio ser humano. Não tomando de Deus. Não diminuindo a Deus, mas elevando a humanidade a ser "como Deus".

As histórias seguintes continuam fazendo oposição entre Deus e o humano. Elas são de momentos e locais diferentes. Mas são harmonizadolas pela tradição:  a Arca de Noé  e a Torre de Babel.

A primeira relembra o cativeiro Babilônico e na segunda, os que não foram  deportados observam o tamanho do império Babilônico, que chega "até aos céus". Mas que é grande apenas aos olhos humanos. Pois, ironicamente, Deus precisa descer para ver do que se trata.

Por fim, esse Deus dá ao povo a Torah. O ensinamento de Deus sobre o bem e o mal, a morte e a vida. Deus dá o fruto da árvore. Numa atitude de selar a paz entre os opostos, Deus toma a iniciativa. Nesse sentido, é Deus que aprende que, de opositor, o homem, conhecendo o bem e o mal, pode se tornar parceiro. Co-criador com Ele.

Diversas culturas surgiram. Em muitas delas, os reis são deuses ou filhos de deuses; os sacerdotes são "pontes" entre um  deus rigoroso e raivoso; e o restante da humanidade perdida e pecadora.

Essas imagens que depreciam alguns se mantém ainda hoje. Uma delas, por exemplo, elevou o espírito e diminuiu o valor do corpo. Fez um dualismo entre carne e espírito. Ser "carnal" é ser fraco. Ser espiritual é ser elevado. A despeito delas, o cristianismo primitivo ousou dizer:

"No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. E o Logos se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai" - João 1.1,14

Na sua tentativa de "fazer as pazes", os cristãos afirmaram que Deus é carne e é humano. Ou, para uma fidelidade ao termo, o Conhecimento (Logos) se fez carne. Deus se humaniza. O conhecimento de Deus se humaniza e se torna "palpável" (1 João 1.1).
Deus é humano. E, por isso, castigado pelo próprio castigo imposto aos rebeldes Eva e Adão. Se, no Éden, o homem se tornou semelhante a Deus, em Cristo, Deus se tornou semelhante ao homem. Se lá houve uma evolução humana, aqui há um "esvaziamento" de Deus. Como lá houve um castigo por tal ousadia, aqui, no mundo dos homens, Deus recebeu seu castigo: morto numa cruz, como um criminoso; alguém que desobedeceu a autoridade que governava esse "Jardim"; que roubou o conhecimento libertador e deu aos seus seguidores. Tornando-os, como diziam do imperador, filhos de Deus.

Nessa história longa, que ainda hoje se escreve, Deus e a humanidade estão entrelaçados. É por isso que o que tem fome, está nu, preso ou doente, pode ser identificado com o Cristo. E E. Wiesel pode responder para si a pergunta da fé justificadamente abalada:


"A SS enforcou a dois homens judeus e a um jovem diante de todos os internos no campo. Os homens morreram rapidamente, a agonia do jovem durou meia hora. ‘Onde está Deus? Onde está?’, perguntou um atrás de mim. Quando depois de longo tempo o jovem continuava sofrendo, enforcado no laço, ouvi outra vez o homem dizer: ‘Onde está Deus agora?’. E em mim mesmo escutei a resposta: Onde está? Aqui... Está ali enforcado no madeiro”.

O Éden não é saudade de um passado. E nem lamento de uma queda. É o início da linda aventura human e divina. Um paraíso pode ser um objetivo realizável agora. Já que Deus e humanidade não são mais opostos e, juntos, podemos comer tanto da árvore do conhecimento, quanto da árvore da vida.