quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Saudade de Asherah

A religião Bíblica nunca se deu bem com deuses. Javé, por vezes, foi apresentado como um "Deus ciumento" que exigia do seu povo adoração única a ele. Tal zelo da religião retirou uma deusa muito importante para a cultura e religião da época: Asherah. Muitas vezes traduzida na Bíblia como "Aserá" ou "bosque". Obviamente, tratada de forma negativa. Embora, ela mesma, não fosse uma deusa negativa: Esposa de EL, mais tarde, talvez com a associação de EL com Javé ou/e também, por conta do possível "Golpe de Estado" que Javé aplica em EL (SL 82), ela se tornou sua esposa. Deusa do amor, do sexo e da fertilidade. No monoteísmo, contudo, não importa se era boa, protetora da família e se seu nome era ao lado de Javé usando como bênção. Ela precisava ser eliminada.

Não seria isso um grande delito se a imagem masculina de Javé, também, fosse eliminada. Se javé se tornasse um Deus andrógino (ανδρος = andros, homem e γενος = genos, mulher) e não “Varão de Guerra”, “Senhor”, “Marido”, “Noivo” e “Pai”. Essa questão parece ser de pouca importância se por trás não houvesse a necessidade de extinguir da divindade uma associação feminina.  Nada mais justificável para isso do que o fato de que o único Deus seja, obviamente, um varão, um pai.

Ainda assim, a necessidade e a sombra de uma mãe sempre esteve por aí. Dar ao Deus Pai as propriedades de mãe é um caminho muito bonito. Contudo, chamar esse Deus de "Deusa" ou "Mãe" causa espanto aos ouvidos mais devotos. Há muitos que usam textos onde Deus se identifica com o universo feminino. Essa identificação, contudo, é limitada a uma "inclusão" da mulher. Bem ali, à margem, escondidinha. Não perturbando ninguém. A dificuldade de se ter uma sacerdotisa católica ou de igrejas evangélicas desconfiarem do ministério pastoral feminino, dizem muita coisa sobre esse assunto. Que o digam Eva e Maria, coitadas...

Eva é a sedutora que conduz o homem ao pecado. Imagem ainda presente em expressões bem estúpidas como "essa mulher acabaria com meu casamento". A mulher, ela, e somente ela, é responsável pelo “mal”. Maria é injustiçada em sentido oposto. Para que seja santa e imaculada precisa ser virgem! O sexo suja a imagem da mulher, no imaginário religioso. Por isso uma homem "vadio" é motivo de graça e uma mulher "vadia" objeto sexual/fonte de pecado. Para nos salvar dessa carência maternal que a religião nos deixou, ao matar o culto a Asherah e às deusas romanas, a religião nos trouxe Maria. Mas para ela se firmar como "Mãe de Deus", "Rainha do Céu" e "Nossa Mãe do Céu" precisou ser assexuada. Asherah era a deusa do sexo, do amor, da fertilidade. Deus não é o Deus do sexo e nem Maria a deusa do sexo - talvez seja da castidade. No fim, nosso problema é sexo. Já o dizia Freud...

E mesmo que haja a sombra da sexualidade "profana/santa" na Bíblia, fechamos nossos olhos para ela: Tamar pode ser uma adúltera/incestuosa; Rute pode ser a estrangeira; a jovem sedutora e "vadia" do Cântico dos cânticos, não sei porquê, virou esposa do homem que seduz e, "inexplicavelmente", se transformou em figura da igreja. Já o seu amado, em figura de Cristo; Uma mulher adúltera é, sequer, tratada como "pecadora com um plus" por Jesus. Ainda assim não entendemos nada.

Enquanto o sexo for escândalo nas igrejas e Deus não se tornar “Deus do sexo”, teremos um Deus pobre! Enquanto Maria for assexuada e considerada santa por isso, sua divindade será pobre! Enquanto o protestantismo tiver dificuldade de lidar com Maria, quer seja a virgem, quer seja a chamada "prostituta" (Madalena), teremos uma religião pobre; Enquanto o próprio carnal Jesus for considerado assexuado, teremos um Jesus pobre!

Asherah se foi... Mas a necessidade que temos de sua inspiração se mantém. Todos estamos órfãos de Mãe. Temos apenas um Pai que se tornou, cada vez mais, Pai (macho). Precisamos de Asherah! Daquela deusa que nos faça ver o sexo de forma santa e profana. E justamente, por isso, belo, precioso e divino! Esse Deus Pai que enxerga castidade como sinônimo de santidade, que faz seu filho nascer de uma virgem, que é homem e que exige que a mulher cubra seu corpo para que o homem não seja tentado, precisa, definitivamente, ser morto! Precisa ser excluído do culto a Jesus! Em seu lugar, precisamos ressuscitar Asherah e seu Esposo, Pai de Jesus! Trazer de volta não os ídolos, mas a imagem santa de um Deus que é completamente mulher e completamente homem. Assim entenderemos o Deus presente em todo o viver humano e mesmo em canções que nos ensinam isso. Como a que termino esse texto:

Super-homem, a canção

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria do que eu quisesse ter
Que nada!
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender!
Oh, Mãe, quem dera!
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história por causa da mulher?

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