quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Caim e Abel, sobre projetos

Caim e Abel formam a história do primeiro homicídio/fratricídio. Numa leitura fundamentalista, nada temos de grande informação para saber o porquê de Deus rejeitar a oferta de um e se agradar da do outro. É preciso "voltar no tempo". Compreender a situação do autor e de seus destinatários. Há, no texto, uma verdadeira disputa entre dois projetos de sociedade. Um, necessariamente, se opõe ao outro. O autor, obviamente, toma partido de seu grupo.

O primeiro projeto está firmado nos primórdios da humanidade: a vida nômade. Abel é pastor e e a essa atividade está associada a vida nômade. Curiosamente colocado como filho mais novo e é, justamente, o fiel ao projeto abandonado por Caim. Caim é lavrador. Alguns veem em seu nome um joguete com a palavra de "posse", outros fixam em seu significado, "lança". Em qualquer sentido, trata-se de uma ameaça à vida nômade, ou pela propriedade ou pela violência.

Como agricultor, Caim passa pelo processo de sedentarização: fixa residência, explora a terra e a determina como sua propriedade. A propriedade de Caim sofre na mão dos pastores nômades que não respeitam a posse da terra nas mãos de uma pessoa. Toda a terra lhes pertence, como pertence a todos os animais. Qualquer terra com pasto pertence a suas ovelhas. Assim, agricultores matam pastores pela "ameaça" que suas ovelhas trazem ao plantio. Muitas dessas mortes eram realizadas pelos proprietários de terra ou pelo exército. Pois o agricultor recebia a "proteção exploradora" das cidades.

As cidades eram abastecidas pelo agricultor que, em honra ao seu Deus, levava os dízimos, as ofertas e os impostos ao Templo citadino que foi dedicado, estrategicamente, ao seu Deus. Dessa forma, o autor denúncia a ingenuidade do agricultor, ao pensar que Deus recebia sua oferta. A oferta era para o rei - verdadeiro proprietário de toda a terra "protegida" por ele - e para o sacerdote. Deus era a justificativa religiosa para conseguir explorar o trabalho do agricultor. O projeto da cidade explora o camponês e, ao mesmo tempo, por conta da alienação religiosa, faz dele seu cúmplice. Deus não receberá a oferta! Deus não aprovará esse projeto!

Abel, em hebraico, é "ar", "vento". Em Eclesiastes, traduzido como "vaidade", possui o sentido de "efêmero", "transitório"...  Com esse nome, o autor deixa claro que o projeto inicial está morrendo... O "regresso disfarçado de progresso", a "modernidade irracional", a "involução", matarão o projeto da habitação comum. Abel morrerá. O autor é bem pragmático! Denuncia o projeto opressor fortalecido pelas mãos ingênuas dos cooperadores explorados, mas compreende que o projeto que defende está chegando ao fim. Não há ilusão... Caim é mais forte e nos matará.

Atualizando essa história, é preciso compreender que ali estão registradas duas visões diferentes a partir da mesma religião . Não é uma crítica feita de fora. Mas de dentro dela, a partir dela. Por isso, os dois personagens servem a Javé. O autor critica a religião que mata, que toma posse daquilo que é comum. Denuncia a fé que explora a produção da terra como forma de propriedade e não como partilha. Questiona o projeto que situa Deus dentro de um território. O Deus criador de todas as coisas é limitado a um Deus deste ou daquele povo. No nosso caso, desta ou daquela religião. Deus, assim como a terra, pertence a todos. Deus, assim como a natureza, é para o prazer e a saciedade de todos. Alguém morrer de fome é uma afronta ao projeto Divino. Alguém morrer de frio porque precisa pagar um aluguel, precisa comprar uma casa para ter como se proteger, é uma afronta ao Deus que, como diz Jesus, veste a erva do campo e cuida dos pássaros. Um sistema que nasce religioso, falsamente se seculariza e é firmado no ilusório discurso da meritocracia, transforma as pessoas em Abel (vítima fiel ao projeto da comunhão ou vítima do projeto "moderno") ou em Caim (algoz alienado ou algoz consciente). E Caim não assume sua responsabilidade diante do que Abel sofre. Tal qual esse projeto que vivemos! Nos anestesia e não nos sentimos responsáveis pelos miseráveis, famintos, nus e presos. Junto com Caim, perguntamos dissimuladamente "sou eu tutor do meu irmão?", "o que eu tenho a ver com isso?". O triste é que, já no início, o autor deixa claro que é uma briga infantil e injustificável entre dois irmãos.

Mas Caim que não se iluda! O sangue de Abel clama da Terra! E Deus, um dia, há de atender esse clamor!

"Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade; Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar". Mateus 23:34,35

Vocês esperam uma intervenção divina
Mas não sabem que o tempo agora está contra vocês
Vocês se perdem no meio de tanto medo de não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender

E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo e se começa um dia acaba, eu tenho pena de vocês

E as ameaças de ataque nuclear
Bombas de nêutrons não foi Deus quem fez
Alguém, alguém um dia vai se vingar
Vocês são vermes, pensam que são reis

Não quero ser como vocês
Eu não preciso mais
Eu já sei o que eu tenho que saber
E agora tanto faz...

Três crianças sem dinheiro e sem moral não ouviram a voz suave que era uma lágrima
E se esqueceram de avisar pra todo mundo
Que ela talvez tivesse nome e era Fátima

E de repente o vinho virou água
E a ferida não cicatrizou
E o limpo se sujou e no terceiro dia ninguém ressuscitou...

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