quinta-feira, 13 de julho de 2017

Democracia?

 Quem sabe observar não entende a condenação de Lula como inesperada. Da mesma forma, não achou que o impedimento de Dilma fosse evitável. A observação implica em "sair" do cenário. Tornar-se atento não a um fato, mas ao todo. Isso implica em se observar também. Notar se suas emoções, sentimentos e conceitos estão atrapalhando a conclusão.

A melhor forma, para isso  (já que psicologicamente é impossível sair de si), é ler, ouvir e entender quem discorda de suas posições. É por isso que sou contra gritos de "fascista", "não passarão", "bandido bom é bandido morto" e coisas parecidas. Esses refrões tendem a se tornar mera repetição de uma ideia difundida mas não raciocinada. Eu prefiro que as pessoas falem. A "velha opinião formada sobre tudo" atrapalha perceber-se ultrapassado, errado e até injusto.

Dessa forma, li juristas a favor e contra Lula e Dilma. Não sou economista, não sou cientista político e tão pouco sou ligado a esse ou àquele partido. É por isso que dependo da observação. Sem ela, reproduzo. Torno-me um megafone que amplia a voz dos outros, sem contudo ter voz própria. A não ser aquela que executa um ruído irritante, para chamar a atenção do que o outro quer falar por meio de mim. A observação não garante que se está certo. Porém, permite que se esteja mais seguro de suas convicções ou se abra mão delas. É a melhor forma de não ficar parado no tempo e de aprender constantemente. Mais do que preocupado em acertar, preocupa-se em aprender sobre o outro e sobre si mesmo.

Convenhamos, Dilma fez um governo muito ruim. Mas seu governo ruim está intimamente ligado às alianças que o PT, por amor ao poder, à corrupção e ao que mais não se sabe, fez. Ingenuidade daqueles que pensam que corrupção é uma criação de um partido. E ingênuo é, também, quem não percebe que a "perseguição" ao PT existe porque ele deu todos os motivos para isso. Revelou-se hipócrita. Mudou suas práticas sem mudar seu discurso: tornou-se um engano. Da mesma forma, é inocência julgar que o impedimento de Dilma foi movido por luta contra a corrupção. Quem lutou contra ela? PMDB? Que sempre esteve no poder e se tornou o partido profissional em transformar vice em presidente? O PMDB que nunca esteve fora do poder em momento algum dessa simbólica, frágil e infantil democracia? Um partido que tem como expoentes Cunha, Jucá, Renan e Temer? Era nisso que se acreditava?

Quem foi às ruas fez o papel esperado pelos reais interessados nisso. Deu aparência de legitimidade a intenções ilegítimas. Governo ruim não justifica impedimento. Governo ruim é, inclusive, didático. Ensina a votar. Mas em "governo ruim", devemos, talvez, separar a péssima equipe de Dilma da ingovernabilidade que Cunha enfiou o país, acelerando a crise política. Pautas, como a proposta de Dilma contra a corrupção, sequer foram discutidas na Câmara. Havia forte empenho de que ela não governasse, ainda que continuasse no cargo. O "governo ruim" e as práticas criminosas do PT deram ao "povo" o desejo de tirá-la. Mas não foi em atenção a esse pedido que retiraram. Temer, pessoalmente, fez pior do que Dilma e se mantém no poder, apoiado por quem gritava contra a corrupção. Ou seja, não foi o grito de quem foi passear na orla ou fazer danças. Foi o desejo de um grupo em particular. O grupo para quem Temer prometeu governar.

Golpe. E dizer que não foi golpe por seguir trâmites legais, é prova cabal de inocência. Pois má fé está presente no uso das formalidades para realizar a vontade ilegítima. Um golpe dentro das regras é legal, mas anti-ético. Apoiar isso não é atitude democrática. Democracia é sujeição à vontade da maioria e tornar, essa vontade, a que você vai defender que se cumpra. Mesmo que contrária à sua. Índice de rejeição não justifica, também  um impedimento. E Temer está aí pra mostrar isso, já que é mais rejeitado do que Dilma. Impedimento é justificável por crime de responsabilidade. E só. Portanto  aliar-se a isso, porque seu voto foi vencido, é matar a democracia e instaurar a aristocracia. Desejo presente naqueles que queriam a separação do nordeste ou voto de peso maior para quem tem "estudo". Entretanto, desejar algo ilegal é compreensível, em uma abordagem não hipócrita. Mas deve ficar apenas no desejo. O Brasil pretendia ser uma democracia e por ela deveríamos lutar.

Sobre Lula, a observação há de notar muita coisa estranha no processo. Mas é preciso que se abra a mente e se perceba realidades tristes e que pouco temos força para mudar; como, também, notar que "nem tudo que reluz é ouro". 

Doa a quem doer, há uma realidade mais do que certa: inúmeros partidos não querem Lula como candidato. Não se pode perder de vista a luta pelo poder: Lula quer se tornar o primeiro a presidir a nação três (ou quatro) vezes; e os aliados ao PSDB não querem isso. Há  ego dos dois lados. Essa realidade é facilmente notável se você ficou feliz com a condenação dele porque Lula se tornará inelegível. Não faria diferença, para muitos, se ele fosse condenando ou não, contanto que houvesse garantia de que seu retorno não ocorresse. Se há esse sentimento em você, sua busca por justiça morreu. O que há é sua vontade política. Que, para sua realização, você não se importa com os valores do estado democrático de direito. Porque, afinal, você é um aristocrata.

Outra realidade que sabemos, mas ignoramos e, no caso do Lula muitos resolveram notar, é que ninguém chega à presidência do Brasil ajudando na travessia de idosos nas ruas. Também não existe um anjo enviado do céu com poderes de nomear esse ou aquele. Nosso sistema político e a moral desviante do brasileiro apelam para um aliança entre Deus e o diabo. Não se quer com isso justificar crimes. Pelo contrário! Quer se denunciar a parcialidade com que lidamos com os crimes: Cunha foi considerado herói, o "malvado favorito"; Temer brinca com o poder para não ser cassado. Com manobras realmente tenebrosas; Aécio é o eterno injustiçado; os áudios com a fala do Jucá não mobilizam sequer um protesto. Não há preocupação pela justiça, com a prisão do Lula. Há uma aristocracia implantada. Há procuradores querendo seus nomes na história. Há ego e nada mais que isso. Lula tem a maioria das intenções de voto. Isso, ao mesmo tempo, diz que a maioria não acredita, não foi convencida, ou não se importa se o sítio ou o triplex são dele. O povo o elegendo, diz: não o prendam!

A justiça, todavia, se baseia na lei, na jurisprudência e nos costumes. Portanto, se provada sua culpa, ele deve ser preso.  O que não se pode é escolher o criminoso e depois procurar o crime. É fato que se essa atitude ocorrer contra qualquer líder do executivo  (de municipal a federal), se encontrarão indícios. E em alguns casos, provas. Pois a política no Brasil se faz assim. Escolher o criminoso e depois o crime é errado! Lula ter que provar sua inocência é errado! O ônus da prova é do acusador. Ao réu cabe  a presunção da inocência. Lula em momento algum foi tratado como inocente e, a todo momento, se cobra que ele prove sua inocência. Notícia de jornal foi apresentada como prova! Se é inocente? Não creio! Mas minha crença não gera provas.  

Daí se percebem dois fatos interessantes: Juiz não deve lutar contra a corrupção. Juiz é passivo. Deve ser provocado para julgar. Não deve se comportar como amigo, parceiro de trabalho ou membro do Ministério Público. Juiz não deve crer no que dizem. Nem a confissão do réu é considerada como prova cabal. O juiz deve se preocupar com a verdade dos fatos. Não a encontrando, no fim do processo, deve presumir a inocência do réu. Da mesma forma o MP. Sua busca não é a condenação. Mas a verdade. Os indícios servem para se iniciar um processo. Se o próprio MP não conseguir encontrar a verdade, deve abrir mão do processo. Leia, faça esse esforço, a posição do MP e a dos advogados. Por fim, leia a condenação. E seja franco sobre se a verdade foi realmente esclarecida. Dificilmente dirá que sim.

A Democracia é dolorida mesmo. É necessário maturidade psicológica para se render à vontade contrária à sua. Mas é isso que a Lei faz conosco. Nos permitindo fazer tudo o que ela não proíbe e controlando as ações da administração pública. Obrigando-os a atuar somente onde ela permite. Mas essa maturidade não está presente na grande maioria das pessoas, não importa sua classe social ou seus estudos. O poder corrompe? De fato... Mas só corrompe quem é corruptível. Quem não é assim, entende que o poder é o "poder servir". Compreende que o governante não fala, age ou trabalha para si. Ele não é patrão do povo. É seu empregado. Mas é impossível que essa realidade esteja presente em um país onde os protetores da Constituição, os juízes, os legisladores e os líderes do executivo  fazem parte de uma casta com privilégios que aproximam sua realidade da de nobres da idade média. 

Dessa forma, devo concluir que não há democracia. Há aristocracia! E enquanto formos repetidores de discursos e colocarmos nossa vontade acima da decisão da maioria, continuaremos nesse regime. Hoje ele pode ser bom para você, já que sua vontade prevaleceu. Mas entenda, ninguém olhou sua vontade. Foi apenas coincidência suficiente para que a legitimidade tenha aparência de existência. Há vontades que estão além das suas. E essas "tenebrosas transações" ganham seu apoio inconsciente enquanto a democracia morre antes mesmo de chegar à juventude.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Éden, a Evolução do Homem


A história do Jardim do Éden, por conta de sua natureza simbólica, recebeu e receberá diversas interpretações. Uma tradição mais positiva observa, na "desobediência" de Adão e Eva, o melhor que poderiam fazer. Nota, no próprio texto, que a expulsão do "paraíso" se deu mais por uma elevação do que por uma queda do ser humano:

"Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente. O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden para lavrar a terra, de que fora tomado" - Gn 3.22-23

Nessa visão, a serpente não mentiu:

"Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal" Gn 3.4-5
O que ocorreu no Éden se assemelha ao mito grego do titã Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu aos homens. Aquilo que pertencia somente aos deuses, passou a ser, também, dos homens. Os deuses Castigaram Prometeu, mas o fogo continuou com os homens, ainda assim. No caso do Éden, o conhecimento do bem e do mal foi dado ao ser humano pelo próprio ser humano. Não tomando de Deus. Não diminuindo a Deus, mas elevando a humanidade a ser "como Deus".

As histórias seguintes continuam fazendo oposição entre Deus e o humano. Elas são de momentos e locais diferentes. Mas são harmonizadolas pela tradição:  a Arca de Noé  e a Torre de Babel.

A primeira relembra o cativeiro Babilônico e na segunda, os que não foram  deportados observam o tamanho do império Babilônico, que chega "até aos céus". Mas que é grande apenas aos olhos humanos. Pois, ironicamente, Deus precisa descer para ver do que se trata.

Por fim, esse Deus dá ao povo a Torah. O ensinamento de Deus sobre o bem e o mal, a morte e a vida. Deus dá o fruto da árvore. Numa atitude de selar a paz entre os opostos, Deus toma a iniciativa. Nesse sentido, é Deus que aprende que, de opositor, o homem, conhecendo o bem e o mal, pode se tornar parceiro. Co-criador com Ele.

Diversas culturas surgiram. Em muitas delas, os reis são deuses ou filhos de deuses; os sacerdotes são "pontes" entre um  deus rigoroso e raivoso; e o restante da humanidade perdida e pecadora.

Essas imagens que depreciam alguns se mantém ainda hoje. Uma delas, por exemplo, elevou o espírito e diminuiu o valor do corpo. Fez um dualismo entre carne e espírito. Ser "carnal" é ser fraco. Ser espiritual é ser elevado. A despeito delas, o cristianismo primitivo ousou dizer:

"No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. E o Logos se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai" - João 1.1,14

Na sua tentativa de "fazer as pazes", os cristãos afirmaram que Deus é carne e é humano. Ou, para uma fidelidade ao termo, o Conhecimento (Logos) se fez carne. Deus se humaniza. O conhecimento de Deus se humaniza e se torna "palpável" (1 João 1.1).
Deus é humano. E, por isso, castigado pelo próprio castigo imposto aos rebeldes Eva e Adão. Se, no Éden, o homem se tornou semelhante a Deus, em Cristo, Deus se tornou semelhante ao homem. Se lá houve uma evolução humana, aqui há um "esvaziamento" de Deus. Como lá houve um castigo por tal ousadia, aqui, no mundo dos homens, Deus recebeu seu castigo: morto numa cruz, como um criminoso; alguém que desobedeceu a autoridade que governava esse "Jardim"; que roubou o conhecimento libertador e deu aos seus seguidores. Tornando-os, como diziam do imperador, filhos de Deus.

Nessa história longa, que ainda hoje se escreve, Deus e a humanidade estão entrelaçados. É por isso que o que tem fome, está nu, preso ou doente, pode ser identificado com o Cristo. E E. Wiesel pode responder para si a pergunta da fé justificadamente abalada:


"A SS enforcou a dois homens judeus e a um jovem diante de todos os internos no campo. Os homens morreram rapidamente, a agonia do jovem durou meia hora. ‘Onde está Deus? Onde está?’, perguntou um atrás de mim. Quando depois de longo tempo o jovem continuava sofrendo, enforcado no laço, ouvi outra vez o homem dizer: ‘Onde está Deus agora?’. E em mim mesmo escutei a resposta: Onde está? Aqui... Está ali enforcado no madeiro”.

O Éden não é saudade de um passado. E nem lamento de uma queda. É o início da linda aventura human e divina. Um paraíso pode ser um objetivo realizável agora. Já que Deus e humanidade não são mais opostos e, juntos, podemos comer tanto da árvore do conhecimento, quanto da árvore da vida.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Caim e Abel, sobre projetos

Caim e Abel formam a história do primeiro homicídio/fratricídio. Numa leitura fundamentalista, nada temos de grande informação para saber o porquê de Deus rejeitar a oferta de um e se agradar da do outro. É preciso "voltar no tempo". Compreender a situação do autor e de seus destinatários. Há, no texto, uma verdadeira disputa entre dois projetos de sociedade. Um, necessariamente, se opõe ao outro. O autor, obviamente, toma partido de seu grupo.

O primeiro projeto está firmado nos primórdios da humanidade: a vida nômade. Abel é pastor e e a essa atividade está associada a vida nômade. Curiosamente colocado como filho mais novo e é, justamente, o fiel ao projeto abandonado por Caim. Caim é lavrador. Alguns veem em seu nome um joguete com a palavra de "posse", outros fixam em seu significado, "lança". Em qualquer sentido, trata-se de uma ameaça à vida nômade, ou pela propriedade ou pela violência.

Como agricultor, Caim passa pelo processo de sedentarização: fixa residência, explora a terra e a determina como sua propriedade. A propriedade de Caim sofre na mão dos pastores nômades que não respeitam a posse da terra nas mãos de uma pessoa. Toda a terra lhes pertence, como pertence a todos os animais. Qualquer terra com pasto pertence a suas ovelhas. Assim, agricultores matam pastores pela "ameaça" que suas ovelhas trazem ao plantio. Muitas dessas mortes eram realizadas pelos proprietários de terra ou pelo exército. Pois o agricultor recebia a "proteção exploradora" das cidades.

As cidades eram abastecidas pelo agricultor que, em honra ao seu Deus, levava os dízimos, as ofertas e os impostos ao Templo citadino que foi dedicado, estrategicamente, ao seu Deus. Dessa forma, o autor denúncia a ingenuidade do agricultor, ao pensar que Deus recebia sua oferta. A oferta era para o rei - verdadeiro proprietário de toda a terra "protegida" por ele - e para o sacerdote. Deus era a justificativa religiosa para conseguir explorar o trabalho do agricultor. O projeto da cidade explora o camponês e, ao mesmo tempo, por conta da alienação religiosa, faz dele seu cúmplice. Deus não receberá a oferta! Deus não aprovará esse projeto!

Abel, em hebraico, é "ar", "vento". Em Eclesiastes, traduzido como "vaidade", possui o sentido de "efêmero", "transitório"...  Com esse nome, o autor deixa claro que o projeto inicial está morrendo... O "regresso disfarçado de progresso", a "modernidade irracional", a "involução", matarão o projeto da habitação comum. Abel morrerá. O autor é bem pragmático! Denuncia o projeto opressor fortalecido pelas mãos ingênuas dos cooperadores explorados, mas compreende que o projeto que defende está chegando ao fim. Não há ilusão... Caim é mais forte e nos matará.

Atualizando essa história, é preciso compreender que ali estão registradas duas visões diferentes a partir da mesma religião . Não é uma crítica feita de fora. Mas de dentro dela, a partir dela. Por isso, os dois personagens servem a Javé. O autor critica a religião que mata, que toma posse daquilo que é comum. Denuncia a fé que explora a produção da terra como forma de propriedade e não como partilha. Questiona o projeto que situa Deus dentro de um território. O Deus criador de todas as coisas é limitado a um Deus deste ou daquele povo. No nosso caso, desta ou daquela religião. Deus, assim como a terra, pertence a todos. Deus, assim como a natureza, é para o prazer e a saciedade de todos. Alguém morrer de fome é uma afronta ao projeto Divino. Alguém morrer de frio porque precisa pagar um aluguel, precisa comprar uma casa para ter como se proteger, é uma afronta ao Deus que, como diz Jesus, veste a erva do campo e cuida dos pássaros. Um sistema que nasce religioso, falsamente se seculariza e é firmado no ilusório discurso da meritocracia, transforma as pessoas em Abel (vítima fiel ao projeto da comunhão ou vítima do projeto "moderno") ou em Caim (algoz alienado ou algoz consciente). E Caim não assume sua responsabilidade diante do que Abel sofre. Tal qual esse projeto que vivemos! Nos anestesia e não nos sentimos responsáveis pelos miseráveis, famintos, nus e presos. Junto com Caim, perguntamos dissimuladamente "sou eu tutor do meu irmão?", "o que eu tenho a ver com isso?". O triste é que, já no início, o autor deixa claro que é uma briga infantil e injustificável entre dois irmãos.

Mas Caim que não se iluda! O sangue de Abel clama da Terra! E Deus, um dia, há de atender esse clamor!

"Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade; Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar". Mateus 23:34,35

Vocês esperam uma intervenção divina
Mas não sabem que o tempo agora está contra vocês
Vocês se perdem no meio de tanto medo de não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender

E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo e se começa um dia acaba, eu tenho pena de vocês

E as ameaças de ataque nuclear
Bombas de nêutrons não foi Deus quem fez
Alguém, alguém um dia vai se vingar
Vocês são vermes, pensam que são reis

Não quero ser como vocês
Eu não preciso mais
Eu já sei o que eu tenho que saber
E agora tanto faz...

Três crianças sem dinheiro e sem moral não ouviram a voz suave que era uma lágrima
E se esqueceram de avisar pra todo mundo
Que ela talvez tivesse nome e era Fátima

E de repente o vinho virou água
E a ferida não cicatrizou
E o limpo se sujou e no terceiro dia ninguém ressuscitou...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Saudade de Asherah

A religião Bíblica nunca se deu bem com deuses. Javé, por vezes, foi apresentado como um "Deus ciumento" que exigia do seu povo adoração única a ele. Tal zelo da religião retirou uma deusa muito importante para a cultura e religião da época: Asherah. Muitas vezes traduzida na Bíblia como "Aserá" ou "bosque". Obviamente, tratada de forma negativa. Embora, ela mesma, não fosse uma deusa negativa: Esposa de EL, mais tarde, talvez com a associação de EL com Javé ou/e também, por conta do possível "Golpe de Estado" que Javé aplica em EL (SL 82), ela se tornou sua esposa. Deusa do amor, do sexo e da fertilidade. No monoteísmo, contudo, não importa se era boa, protetora da família e se seu nome era ao lado de Javé usando como bênção. Ela precisava ser eliminada.

Não seria isso um grande delito se a imagem masculina de Javé, também, fosse eliminada. Se javé se tornasse um Deus andrógino (ανδρος = andros, homem e γενος = genos, mulher) e não “Varão de Guerra”, “Senhor”, “Marido”, “Noivo” e “Pai”. Essa questão parece ser de pouca importância se por trás não houvesse a necessidade de extinguir da divindade uma associação feminina.  Nada mais justificável para isso do que o fato de que o único Deus seja, obviamente, um varão, um pai.

Ainda assim, a necessidade e a sombra de uma mãe sempre esteve por aí. Dar ao Deus Pai as propriedades de mãe é um caminho muito bonito. Contudo, chamar esse Deus de "Deusa" ou "Mãe" causa espanto aos ouvidos mais devotos. Há muitos que usam textos onde Deus se identifica com o universo feminino. Essa identificação, contudo, é limitada a uma "inclusão" da mulher. Bem ali, à margem, escondidinha. Não perturbando ninguém. A dificuldade de se ter uma sacerdotisa católica ou de igrejas evangélicas desconfiarem do ministério pastoral feminino, dizem muita coisa sobre esse assunto. Que o digam Eva e Maria, coitadas...

Eva é a sedutora que conduz o homem ao pecado. Imagem ainda presente em expressões bem estúpidas como "essa mulher acabaria com meu casamento". A mulher, ela, e somente ela, é responsável pelo “mal”. Maria é injustiçada em sentido oposto. Para que seja santa e imaculada precisa ser virgem! O sexo suja a imagem da mulher, no imaginário religioso. Por isso uma homem "vadio" é motivo de graça e uma mulher "vadia" objeto sexual/fonte de pecado. Para nos salvar dessa carência maternal que a religião nos deixou, ao matar o culto a Asherah e às deusas romanas, a religião nos trouxe Maria. Mas para ela se firmar como "Mãe de Deus", "Rainha do Céu" e "Nossa Mãe do Céu" precisou ser assexuada. Asherah era a deusa do sexo, do amor, da fertilidade. Deus não é o Deus do sexo e nem Maria a deusa do sexo - talvez seja da castidade. No fim, nosso problema é sexo. Já o dizia Freud...

E mesmo que haja a sombra da sexualidade "profana/santa" na Bíblia, fechamos nossos olhos para ela: Tamar pode ser uma adúltera/incestuosa; Rute pode ser a estrangeira; a jovem sedutora e "vadia" do Cântico dos cânticos, não sei porquê, virou esposa do homem que seduz e, "inexplicavelmente", se transformou em figura da igreja. Já o seu amado, em figura de Cristo; Uma mulher adúltera é, sequer, tratada como "pecadora com um plus" por Jesus. Ainda assim não entendemos nada.

Enquanto o sexo for escândalo nas igrejas e Deus não se tornar “Deus do sexo”, teremos um Deus pobre! Enquanto Maria for assexuada e considerada santa por isso, sua divindade será pobre! Enquanto o protestantismo tiver dificuldade de lidar com Maria, quer seja a virgem, quer seja a chamada "prostituta" (Madalena), teremos uma religião pobre; Enquanto o próprio carnal Jesus for considerado assexuado, teremos um Jesus pobre!

Asherah se foi... Mas a necessidade que temos de sua inspiração se mantém. Todos estamos órfãos de Mãe. Temos apenas um Pai que se tornou, cada vez mais, Pai (macho). Precisamos de Asherah! Daquela deusa que nos faça ver o sexo de forma santa e profana. E justamente, por isso, belo, precioso e divino! Esse Deus Pai que enxerga castidade como sinônimo de santidade, que faz seu filho nascer de uma virgem, que é homem e que exige que a mulher cubra seu corpo para que o homem não seja tentado, precisa, definitivamente, ser morto! Precisa ser excluído do culto a Jesus! Em seu lugar, precisamos ressuscitar Asherah e seu Esposo, Pai de Jesus! Trazer de volta não os ídolos, mas a imagem santa de um Deus que é completamente mulher e completamente homem. Assim entenderemos o Deus presente em todo o viver humano e mesmo em canções que nos ensinam isso. Como a que termino esse texto:

Super-homem, a canção

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria do que eu quisesse ter
Que nada!
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender!
Oh, Mãe, quem dera!
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história por causa da mulher?