quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Natal: onde Deus estiver

Naquele primeiro Natal, na aldeia de Belém, em que estabelecimento não sabemos:
Mateus: 2. 11. E entrando na CASA ( οἰκία = oikía, casa, habitação) viram o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra.
Lucas: 2. 4 e 7 Subiu também José, da Galiléia, da cidade de Nazaré, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, (...) e teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem (κατάλυμα = katalyma, alojamento).
O que sabemos é que Mateus demonstra que Jesus foi bem recebido pela família (casa) a despeito das acusações levantadas contra Maria. Embora fosse ele, segundo os magos e a acusação irônica de Pilatos, o "Rei dos Judeus", nascera não em um palácio ou na bela cidade de Jerusalém, onde se esperava um rei. Ele nasceu no seio da família, em Belém.
O que sabemos, segundo Lucas, é que uma possibilidade seria a de que a lei de hospitalidade, comum e exigida na Torah, não foi respeitada pelos demais, por conta de Maria estar para dar a Luz. Uma mulher que viesse a parir estaria impura, segundo o costume. E sua impureza poderia ser transmitida aos demais. Lucas nos diz que o filho de Deus fois posto em uma manjedoura. Um texto apócrifo de Mateus relembra a seguinte profecia de Isaías 1.3:
"O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende".
As duas histórias são diferentes, mas transmitem realidades bem duras:
Para Mateus, enquanto celebramos a Deus em templos luxuosos e ostentamos orgulhosamente saber onde Deus deveria estar (Jerusalém, lugar do templo e do palácio real), Ele nos surpreende ensinando que está em casa: no lar aberto a receber a vida; que se importa mais em amar e em abrir mão da rejeição e do moralismo nocivo (em alusão à concepção fora do casamento); no cotidiano de uma casa que festeja a chegada de um menino à vida, não importando o caminho imoral que seguiu a isso.
Ou, para Lucas, damos prioridades aos ritos religiosos e à nossa pureza e "santidade". Fechando nossas portas àqueles que nos causariam "problemas". Mensagem que Lucas repete na parábola do Bom Samaritano; na escolha de Jesus para se hospedar na casa de Zaqueu; nas parábolas da Ovelha Perdida , Dracma Perdida e Filho Pródigo e chega ao seu auge com a escolha pelo salvamento de Barrabás e condenação de Jesus. Desde que nasce, Jesus nos ensina: sempre rejeitamos a quem Deus escolheria e acolheria.
Em todas essas possibilidades, poucas certezas: Deus está onde os religiosos não estão; Deus está onde a rejeição e o desprezado cotidiano ocorrem; Deus não quis ser especial, não quis ser melhor; Quis está onde a vida acontece: fora dos templos, dentro de casa ou entre os animais.
Poucos notam isso... e aqui relembro a frase mais do que oportuna do grande teólogo Levy Bastos:
"Ainda hoje os muitos ‘magos do oriente’ percebem melhor e mais cristalinamente por onde segue a estrela de Belém, que leva ao menino Jesus, a redenção da humanidade, do que os cristãos/ãs".
Feliz Natal e, de preferência, onde Deus estiver.
"Foi lá que cristo me disse:
Rapaz deixe de tolice. Não se deixe amedrontar.
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar"

Cidadão, letra de Lúcio Barbosa, cantada pelo brilhante Zé Ramalho.

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