segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sobre a Morte...

Faltando poucos dias para o aniversário de minha saudosa mãe, mais uma vez sou levado a refletir sobre a morte. Há quem diga que a melhor forma de lidar com a vida é nos sabermos temporários. De fato, a noção de que a cada segundo que passa, menos um segundo temos de vida, pode nos levar a dizer as palavras não ditas, os abraços não dados, a buscar realizar as loucuras não realizadas e a aproveitar o máximo possível do desconhecido pouco tempo que nos resta.

Mas como encarar à morte? Será que ela realmente deve ser vista como um castigo? O fruto da desobediência humana! Será que devemos encarar como a grande limitadora da existência? Seria a morte o fim da vida? Há algo depois? A vida tem sentido?

É preciso aceitar um fato: quando falamos de religião, estamos falando de símbolo. Não apenas isso, mas símbolo, rito e mitos. Essas são as bases de toda e qualquer religião. O símbolo aponta para algo além dele. Não é aquilo que aponta, mas o "concretiza" (considere as aspas). Como exemplo, a Bíblia como o livro que aponta para a palavra de Deus. Não é a palavra, mas aponta para ela. O rito presentifica o que foi realizado no passado. Torna presente o que não se pode esquecer. Nos permite viver o que não vivemos no passado: A ceia; O mito comunica uma verdade que no mundo cientítico não pode ser esclarecido: a trindade.

É dessa forma que entendemos que a luz vermelha é apenas uma luz colorida. Mas se um semáforo o reflete, entendemos que é o símbolo que nos ordena parar. Ele não é a ordem, mas a simboliza e não pode ser ignorado. Um aperto de mão nada mais é do que duas mãos que se encontram, contudo, ele simboliza "prazer", "aceitação", "boa recepção" e por aí vai. Negar apertar a mão de alguém é "deixar no vácuo", "desrespeitar", simboliza a rejeição e a decisão por ignorar a pessoa.

Com a morte e com a vida, as coisas não foram diferentes. A ausência de sentido para a vida, onde ela se torna uma rotina de acordar e dormir, nos conduz ao desespero e, por vezes, essa percepção da vida vazia surge como um dos sintomas da depressão. A todo momento, nossa vida precisa de sentido, do contrário, apenas caminhamos para a morte ou a esperamos chegar. Mas a morte, como já dito, também não ficou livre da simbologia. Ela já foi um deus (Tánatos, na grécia; Mot, em Canaã), por exemplo.

Na Bíblia seu sentido é diverso em tempos e autores diversos: fruto da condenação de Adão e Eva (Gn 3); se vem cedo é final de infidelidade(2Cr 35) Preciosa aos olhos de Deus, caso o morto seja seu servo (Sl 116); Desprazerosa, se é a morte de um pecador (Ez 18.32); Terra do silêncio, não havendo nada após ela (Ec 9.5;9.10); Para a tradição Apocalíptica, é apenas um sono esperando a ressurreição final; Para Paulo é lucro (Fp 1).

Isso falando de religião judaico-cristã. Outras confissões religiosas (e mesmo algumas vertentes dessa mesma raíz) interpretam a morte de outra forma. Enfim, tanto vida quanto morte necessitam de sentido, pois o vazio é abandonador demais.

A quantidade de interpretações religiosas ou não sobre a morte nos levanta o dilema de que todas podem estar erradas. E é justamente aí que mora o perigo. Quando aquilo que faz parte do mundo do símbolo se torna aquilo que o símbolo aponta. É assim que nasce o chamado fundamentalismo religioso. Se encararmos as religiões a partir desse "desvio simbológico", sim, todas estão erradas, ou no mínimo, ousariam dar certeza sobre o que não se tem garantia. Quando descartamos o símbolo como forma interpretativa e o vestimos como a própria verdade, desvirtuamos a fé e o sentido do ser religioso.

Dessa forma, as várias respostas sobre a vida e a morte ganham tons de verdade absoluta. E nascem discursões das mais diversas a partir, ironicamente, de textos  e mensagens simbólicas, ritos fúnebres e discursos mitológicos sobre o "fim da vida". A verdade é que nada sabemos e assim continuaremos. Friamente, a vida não tem sentido. Não há um plano especial para a sua e nem a minha existência. E isso em nada se afirma a inexistência de Deus. Antes, podemos confirmá-la. A fé afirma que a vida nasce do dom gratuito de Deus. Não há pagamento para se cumprir em troca. Nasce do único interesse divino de produzir vida. E a morte?

A morte faz parte do "pacote". Não é o fim da vida. É parte integrante dela. Negar à morte é também negar à vida. Tratar a morte como inimiga é personificá-la. É dar-lhe um símbolo que não nos favorece. Pois esse "inimigo" sempre ganha.

A tradição apocalíptica - que a personifica - diz que o último inimigo a ser vencido é a morte. A morte não pode ser vencida depois de sua chegada. Vence-se a morte em vida. Ao percebê-la como parte integrante da existência. Ou a encará-la com esperança. Se com esperança de um além, com suas diversas possibilidades (ressurreição ou desencarnação), ou com um além do sono eterno, não importa. O importante é encará-la antes de sua chegada. Só assim se pode vencer. Vence-se a morte vivendo. E vivendo da melhor maneira possível. O que é impossível sem considerar e aceitar sua existência e, com isso, nossa finitude.

A palavra latina é "defunctus", de onde vem a nossa "defunto". E tem o sentido de "cumpriu sua função". Minha mãe e meus amigos, ou entes que se foram, não importando a causa de suas mortes, cumpriram sua função. Daí se pode buscar uma explicação religiosa, ou apenas aceitar o fato de que não há mais nada que eles tenham ou possam fazer. O que lhes cabia, já se foi. Ainda que, de alguma forma, permaneçam vivos em nós. E isso é simbólico. E isso é verdadeiro. E isso é real. A morte leva a pessoa, mas não leva a vida dela. Voltamos ao discurso que permanece no símbolo e na certeza de que não se pode ter certeza sobre os mistérios da vida. E nem saber se eles realmente existem. Só podemos e devemos viver... por pouco tempo.

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