quarta-feira, 1 de junho de 2016

Quando a Igreja Reafirma a Cultura do Estupro...

Os nosso olhos seletivos sobre a Bíblia justificam a coisificação dos corpos femininos. Agimos com naturalidade para coisas que deveriam nos chocar. Tal naturalidade desonesta e desprovida de espiritualidade real demonstra o quanto falamos ao texto e rejeitamos o que ele nos diz. E o que isso tem a ver com o corpo feminino? Veremos e, entre aspas, nossa compensação desonesta a esses abusos.

Abraão, o herói da fé com escrava sexual (Gn 16.3) - "mas ela ficou abusada depois de ter concebido de Abraão";

Ló, o justo, oferece as filhas para serem estupradas pelos habitantes de Sodoma. Para, assim, proteger os "estrangeiros" que estão em sua casa (Gn 19.8) - "mas a lei de hospitalidade exigia esses sacrifícios. não há mal algum".

Jacó, o herói da fé que tinha escravas sexuais (Gn 30.1-6 e 30.9) - "mas os filhos delas se tornaram os patriarcas, foi honroso a elas" (obviamente ignorando que os filhos na verdade eram de suas senhoras).

O homem segundo o coração de Deus  (piada) usa seu poder de rei para abusar de uma mulher casada (2 Sm 11.1-4) - "ah ta! O REI quer se deitar com ela. Acha que ela não curtiu? Não gostou? Isso se ela não de insinuou pra ele enquanto se banhava".

Esse mesmo "Santo Rei" age sem amor para com a filha estuprada pelo próprio irmão. E ficamos contra seu filho que considera o pai omisso e injusto.

As mulheres são culpadas pelos pecados de Salomão (Ne 13.26) - "e não foram? Estrangeiras idólatras".

Para não ficar tão extenso, paro aqui de listar os textos que mostram a coisificação da mulher e onde, ainda, achamos uma forma de justificar os homens abusadores.

Mas ainda somos relativizadores quando a Bíblia defende a mulher desses abusos:

As mulheres denunciam os abusos sofridos nas mãos dos guardas em cântico dos cânticos (Ct 5.7) -"mas o livro é uma alegoria do amor entre Jesus e a igreja" (dá vontade de rir de raiva).

Quando Amós denuncia a prática de escrava sexual como condenada por Deus (Am 2.7), não dizemos nada. Ninguém lê Amós...

Quando o livro de Rute é escrito como uma forma de defender a mulher sensual e estrangeira, normalmente atacada pelo sacerdócio e pela sabedora, ficamos somente com o relato da "amiga" Rute que ficou ao lado de Noemi. O caráter denunciador do preconceito e defensor dessas mulheres morre.

Quando Jesus não dá a mínima para o que a mulher fez (Nem eu tampouco te condeno
João 8:11), a gente diz "mas ele disse pra ela não pecar".

Quando Jesus, a despeito do preconceito contra samaritanos e contra mulheres, resolve ensinar a uma mulher Samaritana, transformamos a mulher em uma pessoa de má fama a partir de indícios falsos e pobres.

Quando Paulo diz que não há nem judeu e nem grego, nem escravo e nem livre, nem homem e nem mulher, mas que todos são um em Cristo. Ignoramos que, com isto, ele disse que todos são iguais. E preferimos os textos onde um pseudo-paulo diz que a mulher deve ficar calada, aprender com o marido e lhe ser submissa como a igreja é submissa a Cristo.

Enfim, a igreja, com sua leitura estranha dos textos, alimenta essa cultura do estupro que nós constantemente afirmamos não existir. Quando a Bíblia defende a mulher, nós relativizamos essa defesa. Quando a Bíblia coisifica a mulher, não prestamos atenção, pois o que importa é o relato sobre o herói. E quando notamos, reafirmamos o caráter machista do texto, como no caso do pseudo-paulo.

Mais honestidade na leitura bíblica fatalmente nos conduzirá a confrontos bem sérios...

Um comentário:

  1. Sensacional crítica aos textos bíblicos, uma visão transparente e esclarecedora, infelizmente o contrário do que é visto no dia a dia de estudo cristão!

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