sexta-feira, 15 de abril de 2016

A gênese da vida - uma nova versão

Tendo Deus criado o ser humano, homem e mulher o criou, a imagem de Deus os criou, plenamente livres e criativos. Colocou-os no Jardim que havia criado para eles. A vida deles limitava-se a: acordar, namorar, cuidar do Jardim e dormir. Era um marasmo! Os anjos chegavam a achar o paraíso uma monotonia! Nenhuma novidade, nenhuma grande mudança. Um eterno ciclo que Homem e Mulher estavam vivendo. Inocentes, viviam como os animais, obedecendo a seus instintos e ao ciclo diário que era mais do que constante. Gabriel, um dos primeiros anjos, chegou-se a Deus, dizendo:
- Senhor Eterno, não disseste que os homens seriam como tu? Livres e criativos? Por que não criam novas coisas? Estão bastante tempo aqui e nada de diferente aconteceu. Mudaste de idéia e fizeste-os limitados à tua vontade?

Deus não respondeu de imediato. Fitou o infinito como se tivesse vendo algo que era incapaz de qualquer ser criado enxergar. Abaixou sua cabeça e disse ao anjo que estava ao seu lado, sem contudo lhe olhar:
- Neste exato momento estou para dar um passo muito importante na vida deles e na minha. E já posso sentir o quanto será difícil.

Deus foi ao Jardim e caminhava em direção ao casal que brincava no rio. Do centro do Jardim, onde estava a árvore do conhecimento, chamou-os:
- Filhos, venham aqui.
O casal ouviu, do rio, a voz de Deus que lhes soava como um doce canção e correram para o centro da árvore, ao encontro de Deus:
- Vocês lembram o que lhes disse sobre essa árvore?
- Não devemos comer, se não morreremos -  disse Eva.
- Exato, vejo que guardaram bem o que lhes disse. Mas, por acaso, vocês nunca se per¬guntaram porque eu a plantei, bem no centro do Jardim, já que não deve ser provado o seu fruto?
- Estávamos conversando sobre isso hoje... – disse Adão.
- Vai nos dizer? - Eva pergunta.
- Sim e não! O sim consiste nisto: Se vocês comerem terão que sair daqui. E ir lá pra fora. Lá tudo é belo, tão ou mais belo que aqui. Mas existe o perigo: O perigo da morte, do medo, da tristeza, da incerteza e da dor. Essas coisas existirão depois de vocês. Seus descendentes criarão. E possivelmente tudo aquilo que foi criado irá morrer e eu serei esquecido.
- Jamais! Não queremos sair daqui! Não poderia suportar ver isso. Ver meus filhos des¬truindo tudo o que foi criado - protestou Eva.
- Filha, entendo o que está sentindo. Mas existem coisas boas lá também. Vocês poderão criar coisas novas, serem livres.
- Somos livres e optamos por continuar aqui. Disse para não comermos o fruto da ár¬vore. Mudou de idéia? -  Perguntou Adão.
- Não filho! O que eu mais quero é que vocês decidam ficar comigo. Não quero que fiquem se não desejam. Entendo que gostam da vida daqui. Contudo existem coisas maiores do que essas, que estão em suas mãos fazer.
- Somos livres e optamos ficar.
- Tudo bem, filhos. Fico feliz com a decisão de vocês.

Neste momento Deus vira as costas e passa a andar olhando para tudo o que criou, com um aperto no coração, já antevendo uma saudade insuportável. Ao se distanciar, Eva sai correndo ao seu encontro:
- Pai!
- Sim, meu amor!
- O Senhor disse que nos revelaria o sim e o não de ter criado a árvore. O que é o não?
- Se vocês comerem do fruto, serão como eu. Conhecedor do bem e do mal.
- Mas nós não já fomos criados à sua imagem?
- Sim, e há em vocês um potencial, uma capacidade criativa e libertadora que é necessá¬rio se conhecerem para poder vivenciá-la. Vocês poderão criar um Jardim até mais belo do que esse se comerem essa árvore.
- Mas a que preço? A preço da morte?  
- Filha, eu não quero que morra. As coisas ruins que falei não existem ainda. Cabe a vocês, humanos, impedirem que elas ocorram. Mas para isso, precisam conhecer o que elas são.
- Eu iria, se pudesse voltar pra cá - Onde vocês estiverem, eu estarei. Onde estivermos isso aqui – abriu os braços como que abraçando todo o jardim - pode se repetir.
- E o Senhor estará conosco, então?
- Sempre!
- Poderemos falar com o Senhor, ouvir o Senhor?
- Não me verão como vêem agora. Mas eu estarei em vocês.
- Não poderemos te ver? 
- Me encontrarão nos animais, nas árvores, nos rios e mares e em tudo aquilo que de bom que vocês produzirem.
- E se tudo der errado? 
- Eu estarei com vocês mesmo assim.
- Tenho medo... 

Deus abraçou a mulher, demonstrou seu amor e disse:
- Sempre que tiver medo poderá correr para mim.
- Sentirei o Senhor?
- A todo instante, apenas ensine seus filhos e vocês mesmos andem no caminho do amor.
- Prometo criar um Jardim mais belo do que esse. Vezes mais belo. Prometo cultivar o bem, ainda que conheça o mal e prometo ensinar meus filhos a amar ao Senhor e tudo o que foi criado por suas mãos.
Deus e a mulher Eva seguiram até o centro do Jardim. Ela pegou uma fruta que estava no ramo da árvore do conhecimento do bem e do mal. De lá Eva gritou o nome de seu companheiro. Ouvindo sua voz, vindo do centro do Jardim, Adão correu ao seu encon¬tro, vendo Deus ao seu lado, e o fruto na mão de sua irmã, Adão parou frente a ela. Ouviu tudo o que Eva tinha lhe falado. Eva comeu um pedaço da fruta e Adão pegou o fruto de sua mão. Adão comeu...

Num instante Deus já não estava à vista deles. O Jardim havia mudado. Tudo era muito diferente. Não viam Deus, mas sentiam-no dentro deles impulsionando-os a cumprir a promessa de Eva e foram construir seu paraíso.

Muito tempo se passou e eles tiveram filhos. Caim, o mais velho e Abel, o mais moço. Eva ensinou-lhes a amar a natureza e ao seu Criador. Caim amou a terra e tornou-se agricultor. Abel amou aos animais frágeis e foi um bom pastor de ovelhas. Ocorrendo uma dissenção entre eles, Caim partiu para o seu irmão e lhe feriu ao ponto que este veio a falecer. Foi a primeira vez que Caim viu a morte de um ser humano. Sentiu um vazio e uma dor que não conseguia compreender. Gritou seu irmão, mas ele não respondeu. Correu e foi chamar seu pai e sua mãe. Contou-lhes o que ocorreu. Eva sentiu uma dor profunda em seu peito e correu ao corpo do morto. Abraçou-o bem forte em seu peito e gritava por seu nome. Logo atrás dela, em pé, estava Adão consolando o irmão assassino. Todos sabiam o que estava acontecendo: o mal entrara no mundo. Caim conheceu o mal e por ele optou. Eva, chorando muito, gritava: 
- Deus, eu tentei. Eu juro que tentei. Me perdoa por não te dar o paraíso e te oferecer um morto no lugar. Me perdoa meu Pai. Eu falhei, eu falhei...
Em seu íntimo, ouviu Deus falar:
- Não chores filha. A caminhada mais difícil começou. Caim é livre e optou pelo mal. Diferente de Abel, Adão e você, meu amor. Não desista. Muitos outros seguirão o mesmo caminho de Caim. Mas haverá um momento em que aprenderão o caminho da justiça e do bem. E nesse dia Abel voltará para você e o paraíso que me prometeu estará realizado. Saíram dali e enterraram Abel. E o prantearam por anos...

Eva viu, durante toda a sua longa vida, seus filhos, netos e bisnetos optando pelo bem e pelo mal, muitas vezes. Mas esperava ansiosa por ver o dia em que aprenderiam o ca¬minho do amor, que Deus lhe falara. E morreu nessa esperança.
Após a morte de Adão e Eva, Gabriel voou até Deus, pois lhe viu chorar:
- Senhor, eles conseguirão reconstruir o paraíso?
- Sim, Gabriel -  disse Deus - conseguirão.
- Como o Senhor sabe, se eles são livres e, por isso, fazem o que quer e não o que o Senhor quer.
- Tenho fé neles Gabriel. E a fé não precisa conhecer o futuro, ou os segredos mais pro¬fundos. Ela apenas precisa existir. E sua existência é a prova de que ela está certa e é a única prova que se precisa.
- Mas e se não acontecer assim? Tudo estaria acabado?
- Tudo! Tudo o que fiz, tudo o que foi criado, acabaria. Mas eles conseguirão. Nem que pra isso eu empenhe minha própria vida...

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