segunda-feira, 18 de abril de 2016

Jesus, o Bastardo dos Bastardos

Genealogias normalmente ficam à margem dos estudos bíblicos das igrejas. isso porque são tratadas como mera informação. A mensagem e beleza das mensagens tratadas nas genealogias acabamos ficando de lado e não damos o valor ao que é comunicado pelo escritor.

No caso da genealogia de Mateus, há algumas dicas bem interessantes. Mas antes de continuar, é preciso uma informação. Entre os judeus, corria uma história de que Jesus era um filho bastardo de José e, portanto, sua messianidade era ilegítima e sua mãe uma pecadora. Mateus, então, inicia o seu evangelho dando uma resposta a essas acusações.

A genealogia escrita por Mateus possui um padrão. Esse padrão é "fulano gerou a beltrano". Esse padrão apenas é quebrado cinco vezes:

E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá - Mateus 1:3
E Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; - Mateus 1:5
Boaz gerou de Rute a Obede - Mateus 1:5
e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias - Mateus 1:6
José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo - Mateus 1:16

Algo de muito importante está sendo dito por Mateus para ele apresentar apenas estas cinco mulheres. Será necessário vermos o que elas têm comum para entendermos o porquê de ele citá-las:

Tamar era nora de Judá. Para cumprir a lei do levirato - onde o cunhado assume a esposa do irmão morto e gera filhos para este morto - o filho mais novo de Judá estava ainda bastante jovem. Assim, porém, que atingiu a idade do casamento, Judá não cumpriu sua palavra. Com o intuito de dar uma lição no sogro, Tamar se disfarça de uma prostituta. Judá, que foi atrás dos serviços de uma, acaba se deitando com ela e deixa como pagamento um cajado seu. Ao passar alguns meses, fica claro que Tamar está grávida. Considerando que sua nora havia cometido adultério, Judá resolve queimá-la diante da comunidade enfurecida pela traição de Tamar. Ao ficar sabendo que, na verdade, o filho que a mesma carregava era seu (pois ela tinha o cajado para provar que tinha sido com ela que Judá havia se deitado), Judá a justifica e diz que ela é mais justa do que ele. Ela se livrou da morte pela justificação de Judá e gerou, dele, filhos ilegítimos e bastardos que, inclusive, são bem vistos pelo autor de Rute (4:12). Tamar entrou para a história como justa, apesar de ser uma mulher que, conscientemente, se prostituiu e se deitou com seu sogro, lhe gerando dois filhos gêmeos.

Raabe é chamada pelo texto bíblico de prostituta. Embora se questione essa prostituição. Considera-se que as mulheres que viviam sem marido e trabalhavam sustentando sua casa, eram vistas como prostitutas. Provavelmente Raabe esteja nesse situação. Tendo fama de prostituta pela sociedade e não pelo ofício. Independente disso, trata-se de alguém de má fama que se casou com Salmom e gerou a Boaz. Raabe teve sua justificação ao, sendo prostituta, se tornar uma mulher que gera um dos antepassados de Davi. Aliás, um antepassado bem conhecido, o esposo de Rute.

Rute, Guiada por Noemi, que mandou se vestir, colocar um bom perfume e etc, seduz Boaz. Rute é a estrangeira que sai em busca do amante (muito bem representada no livro cântico dos cânticos). Da qual a sabedoria considera um perigo. Boaz não a expõe, pois fica "maravilhado" por ela. Ao ponto da própria Noemi garantir que depois de todo o jogo de sedução, Boaz ficará louco por resolver a questão e casar com ela. Rute toma uma atitude negativa no que diz respeito à sexualidade feminina diante da visão sacerdotal e, até certo ponto, da sabedoria. No entanto, no lugar de se tornar uma mulher de má fama, se torna bisavó de Davi. Se torna um exemplo a ser considerado, inclusive, como uma oposição à condenação do casamento misto. Que é a Teologia de Esdras/Neemias e Crônicas.

Bate-Seba nem mesmo tem seu nome citado. Porque o que interessa não é falar que Salomão era ilegítimo. A criança ilegítima morreu. Salomão quando nasceu foi considerado amado por Deus (2 Sm 12:24). Contudo, o que Mateus quer deixar claro é que a união entre Davi e Bate-Seba foi ilegítima. Ela era esposa de Urias que foi morto para satisfazer o desejo do rei de não ser condenado e ficar com sua mulher. Dessa união ilegítima, nasce Salomão. Bate-Seba entra para a história como mãe do rei sábio. Ainda que tenha se unido ilegitimamente com Davi.

Maria é um problema perturbador... Mateus não diz que José gerou de Maria, como das outras vezes em que essas mulheres apareceram. Diz que ele é casado com Maria e que dela nasceu Jesus. Maria, segundo a acusação judaica, gerou Jesus de um pai desconhecido. E esse desconhecimento do pai, Mateus, na genealogia, não estava confortável o suficiente para negar.

Toda essa árvore genealógica, cheia de conflitos e "imoralidade", culmina com o nascimento de Jesus. Pois José é casado com Maria e ela gera Jesus. Mais um ilegítimo!

A resposta (até aqui) de Mateus é bem simples: Sim, Jesus é ilegítimo, tal qual uniões foram ilegítimas e filhos ilegítimos e mulheres de má fama durante toda a genealogia do rei Davi. Se aceitamos Davi, podemos aceitar a Jesus. Pois Maria foi recebida como esposa de José. Logo, José assumiu a criança e ela recebeu seu nome (Mt 13.55). Ele é Jesus, Filho de José. E se José o chama de filho, assim deve ser considerado. A própria Mishnah, na Bava Batra 8.6, entende que apenas um pai pode dizer que o filho é dele, ao afirmar "Se ele diz ‘esse é meu filho’, deve ser acreditado". Portanto, não importava o que diziam os judeus sobre a má fama que Maria tinha (de ter engravidado de outro homem), Jesus era filho de José. Legitimado e, portanto, filho de Davi e Filho de Abraão. Se tornando, assim, o Messias de Deus.

Estranho? Talvez sim... mas quantos filhos ilegítimos existem? Quantos nascidos de adultério, ou de uma gravidez indesejada na adolescência, ou de um estupro, ou ainda de uma simples atitude mal avaliada? Estes, muitas vezes, vivem sem o amor dos pais ou de algum dos pais. Precisando, as vezes, de terapia para se virem livres ou conviverem melhor com o sentimento de rejeição. O filho de Deus se torna, dessa forma, um ilegítimo! Que entende bem o preconceito ou a dor de ser um bastardo. Deus nos entende, Deus se torna, assim, o menor de todos os desprezados por motivos imbecis e mesquinhos.

Deus (Jesus) é um bastardo! O bastardo dos bastardos e tem uma mãe de fama duvidosa. Jesus entende bem o que é estar entre os desprezados e, por isso mesmo, se torna remidor, salvador e transformador da história daqueles que sofrem a dor da condenação social. Dor essa que diminui a autoestima, por conta de uma moral sexual que nada tem a ver com o amor divino. O cristianismo nascente, assim, declara sua fé no Deus dos bastardos. No Deus dos discriminados...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A gênese da vida - uma nova versão

Tendo Deus criado o ser humano, homem e mulher o criou, a imagem de Deus os criou, plenamente livres e criativos. Colocou-os no Jardim que havia criado para eles. A vida deles limitava-se a: acordar, namorar, cuidar do Jardim e dormir. Era um marasmo! Os anjos chegavam a achar o paraíso uma monotonia! Nenhuma novidade, nenhuma grande mudança. Um eterno ciclo que Homem e Mulher estavam vivendo. Inocentes, viviam como os animais, obedecendo a seus instintos e ao ciclo diário que era mais do que constante. Gabriel, um dos primeiros anjos, chegou-se a Deus, dizendo:
- Senhor Eterno, não disseste que os homens seriam como tu? Livres e criativos? Por que não criam novas coisas? Estão bastante tempo aqui e nada de diferente aconteceu. Mudaste de idéia e fizeste-os limitados à tua vontade?

Deus não respondeu de imediato. Fitou o infinito como se tivesse vendo algo que era incapaz de qualquer ser criado enxergar. Abaixou sua cabeça e disse ao anjo que estava ao seu lado, sem contudo lhe olhar:
- Neste exato momento estou para dar um passo muito importante na vida deles e na minha. E já posso sentir o quanto será difícil.

Deus foi ao Jardim e caminhava em direção ao casal que brincava no rio. Do centro do Jardim, onde estava a árvore do conhecimento, chamou-os:
- Filhos, venham aqui.
O casal ouviu, do rio, a voz de Deus que lhes soava como um doce canção e correram para o centro da árvore, ao encontro de Deus:
- Vocês lembram o que lhes disse sobre essa árvore?
- Não devemos comer, se não morreremos -  disse Eva.
- Exato, vejo que guardaram bem o que lhes disse. Mas, por acaso, vocês nunca se per¬guntaram porque eu a plantei, bem no centro do Jardim, já que não deve ser provado o seu fruto?
- Estávamos conversando sobre isso hoje... – disse Adão.
- Vai nos dizer? - Eva pergunta.
- Sim e não! O sim consiste nisto: Se vocês comerem terão que sair daqui. E ir lá pra fora. Lá tudo é belo, tão ou mais belo que aqui. Mas existe o perigo: O perigo da morte, do medo, da tristeza, da incerteza e da dor. Essas coisas existirão depois de vocês. Seus descendentes criarão. E possivelmente tudo aquilo que foi criado irá morrer e eu serei esquecido.
- Jamais! Não queremos sair daqui! Não poderia suportar ver isso. Ver meus filhos des¬truindo tudo o que foi criado - protestou Eva.
- Filha, entendo o que está sentindo. Mas existem coisas boas lá também. Vocês poderão criar coisas novas, serem livres.
- Somos livres e optamos por continuar aqui. Disse para não comermos o fruto da ár¬vore. Mudou de idéia? -  Perguntou Adão.
- Não filho! O que eu mais quero é que vocês decidam ficar comigo. Não quero que fiquem se não desejam. Entendo que gostam da vida daqui. Contudo existem coisas maiores do que essas, que estão em suas mãos fazer.
- Somos livres e optamos ficar.
- Tudo bem, filhos. Fico feliz com a decisão de vocês.

Neste momento Deus vira as costas e passa a andar olhando para tudo o que criou, com um aperto no coração, já antevendo uma saudade insuportável. Ao se distanciar, Eva sai correndo ao seu encontro:
- Pai!
- Sim, meu amor!
- O Senhor disse que nos revelaria o sim e o não de ter criado a árvore. O que é o não?
- Se vocês comerem do fruto, serão como eu. Conhecedor do bem e do mal.
- Mas nós não já fomos criados à sua imagem?
- Sim, e há em vocês um potencial, uma capacidade criativa e libertadora que é necessá¬rio se conhecerem para poder vivenciá-la. Vocês poderão criar um Jardim até mais belo do que esse se comerem essa árvore.
- Mas a que preço? A preço da morte?  
- Filha, eu não quero que morra. As coisas ruins que falei não existem ainda. Cabe a vocês, humanos, impedirem que elas ocorram. Mas para isso, precisam conhecer o que elas são.
- Eu iria, se pudesse voltar pra cá - Onde vocês estiverem, eu estarei. Onde estivermos isso aqui – abriu os braços como que abraçando todo o jardim - pode se repetir.
- E o Senhor estará conosco, então?
- Sempre!
- Poderemos falar com o Senhor, ouvir o Senhor?
- Não me verão como vêem agora. Mas eu estarei em vocês.
- Não poderemos te ver? 
- Me encontrarão nos animais, nas árvores, nos rios e mares e em tudo aquilo que de bom que vocês produzirem.
- E se tudo der errado? 
- Eu estarei com vocês mesmo assim.
- Tenho medo... 

Deus abraçou a mulher, demonstrou seu amor e disse:
- Sempre que tiver medo poderá correr para mim.
- Sentirei o Senhor?
- A todo instante, apenas ensine seus filhos e vocês mesmos andem no caminho do amor.
- Prometo criar um Jardim mais belo do que esse. Vezes mais belo. Prometo cultivar o bem, ainda que conheça o mal e prometo ensinar meus filhos a amar ao Senhor e tudo o que foi criado por suas mãos.
Deus e a mulher Eva seguiram até o centro do Jardim. Ela pegou uma fruta que estava no ramo da árvore do conhecimento do bem e do mal. De lá Eva gritou o nome de seu companheiro. Ouvindo sua voz, vindo do centro do Jardim, Adão correu ao seu encon¬tro, vendo Deus ao seu lado, e o fruto na mão de sua irmã, Adão parou frente a ela. Ouviu tudo o que Eva tinha lhe falado. Eva comeu um pedaço da fruta e Adão pegou o fruto de sua mão. Adão comeu...

Num instante Deus já não estava à vista deles. O Jardim havia mudado. Tudo era muito diferente. Não viam Deus, mas sentiam-no dentro deles impulsionando-os a cumprir a promessa de Eva e foram construir seu paraíso.

Muito tempo se passou e eles tiveram filhos. Caim, o mais velho e Abel, o mais moço. Eva ensinou-lhes a amar a natureza e ao seu Criador. Caim amou a terra e tornou-se agricultor. Abel amou aos animais frágeis e foi um bom pastor de ovelhas. Ocorrendo uma dissenção entre eles, Caim partiu para o seu irmão e lhe feriu ao ponto que este veio a falecer. Foi a primeira vez que Caim viu a morte de um ser humano. Sentiu um vazio e uma dor que não conseguia compreender. Gritou seu irmão, mas ele não respondeu. Correu e foi chamar seu pai e sua mãe. Contou-lhes o que ocorreu. Eva sentiu uma dor profunda em seu peito e correu ao corpo do morto. Abraçou-o bem forte em seu peito e gritava por seu nome. Logo atrás dela, em pé, estava Adão consolando o irmão assassino. Todos sabiam o que estava acontecendo: o mal entrara no mundo. Caim conheceu o mal e por ele optou. Eva, chorando muito, gritava: 
- Deus, eu tentei. Eu juro que tentei. Me perdoa por não te dar o paraíso e te oferecer um morto no lugar. Me perdoa meu Pai. Eu falhei, eu falhei...
Em seu íntimo, ouviu Deus falar:
- Não chores filha. A caminhada mais difícil começou. Caim é livre e optou pelo mal. Diferente de Abel, Adão e você, meu amor. Não desista. Muitos outros seguirão o mesmo caminho de Caim. Mas haverá um momento em que aprenderão o caminho da justiça e do bem. E nesse dia Abel voltará para você e o paraíso que me prometeu estará realizado. Saíram dali e enterraram Abel. E o prantearam por anos...

Eva viu, durante toda a sua longa vida, seus filhos, netos e bisnetos optando pelo bem e pelo mal, muitas vezes. Mas esperava ansiosa por ver o dia em que aprenderiam o ca¬minho do amor, que Deus lhe falara. E morreu nessa esperança.
Após a morte de Adão e Eva, Gabriel voou até Deus, pois lhe viu chorar:
- Senhor, eles conseguirão reconstruir o paraíso?
- Sim, Gabriel -  disse Deus - conseguirão.
- Como o Senhor sabe, se eles são livres e, por isso, fazem o que quer e não o que o Senhor quer.
- Tenho fé neles Gabriel. E a fé não precisa conhecer o futuro, ou os segredos mais pro¬fundos. Ela apenas precisa existir. E sua existência é a prova de que ela está certa e é a única prova que se precisa.
- Mas e se não acontecer assim? Tudo estaria acabado?
- Tudo! Tudo o que fiz, tudo o que foi criado, acabaria. Mas eles conseguirão. Nem que pra isso eu empenhe minha própria vida...