quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A ilusão de se retribuir algo a Deus...

Uma das tentações da religião que se mantém dentro da cultura capitalista é a da retribuição. As religiões  judaica e cristã compreendem o amor como a graça de Deus que faz nascer o sol para justos e injustos. Nessa confissão, ambas entendem que não se trata de merecer ou desmerecer, mas da graciosidade divina de conceder tudo o que há. Justamente por isso, os profetas confessam as riquezas ou o amor por elas como um desvio dessa vontade profunda de partilha, presente em Deus.

Tal amor ao dinheiro ou ao poder, promove desvios dessa partilha e mergulha a criação de Deus  (humana, fauna ou flora) na miséria, por retirar deles aquilo que lhes foi concedido gratuitamente. A miséria é fruto de corações que se assenhoram daquilo que foi dado igualmente a todos.

Quando a religião justifica esses acúmulos e os qualifica como bênção de Deus, acaba por criar uma anomalia e transformar Deus em um promotor da dor, da fome e das injustiças sociais. Como forma de proporcionar paz no espirito e na mente daqueles que amam ao dinheiro e o tornam fruto da bondade de divina, cria-se a lenda da retribuição:

Deus, em sua infinita graça - contraditoriamente ao termo - requer de nós corações gratos. Entendendo "corações gratos" como corações prontos a retribuir a Deus.

Essas retribuições nada mais são do que fruto de uma não aceitação da graça divina. Não interessa, à graça, retribuição. Não interessa, à graça divina, restituição ou devolução de nada. Muito menos se pode considerar o acúmulo, ou viver bem por conta da miséria alheia, como bênção ou fruto da fidelidade a Deus.

Trabalhe 24h em prol do Reino de Deus e dele você terá o mesmo, financeiramente, que aquele que dele não se ocupa.

Retribuição não existe! Não se consegue devolver e, sequer, se espera devolução. Qualquer atitude caridosa não deve estar ligada à gratidão a Deus, mas ao profundo desejo se desfazer injustiças ou, no mínimo, mitiga-las. Pois, se compreendemos que as injustiças produtoras da miséria ferem a graciosidade da natureza, a graciosidade de Deus, as atitudes de caridade ou de luta contra a desigualdade se tornam bandeiras de quem aceita e defende atuação dessa injusta e maravilhosa graça.

Fazer do outro alvo de minha misericórdia para evoluir espiritualmente, conseguir coisas de Deus, aliviar minha consciência consumista e/ou exploradora,  ou de "retribuição" pelo muito que recebi de Deus, é uma traição à mensagem da graça e do amor imensurável de Deus que não requer devolução de nada. Deus dá, Deus ama e isso lhe é suficiente.

A exigência divina não passa pelo caminho do "estamos quites": Deus deu, eu devolvo parte. Passa sim, pela compreensão da igualdade de todos os seres e do direito à vida e de tudo aquilo que vem das mãos bondosas e misericordiosas de Deus. Passa pela consciência de que esse mundo está errado, que esse mundo transformou-nos  em merecedores e que esse sistema que tenta transformar Deus em um patrão, empresário do reino, na verdade nos faz nos dobrar diante de Satan. Diante daquilo que se opõe a consciência e a capacidade de se sentir imerecedor e se viver bem com isso.

Essa aliança entre o capital, a ganância, o desejo de retribuir a Deus "o pouco do muito recebido"  e o mestre de Nazaré é,  em termos religiosos, uma blasfêmia por si só. Uma demonização de Jesus, uma transformação do "Eterno, imortal e invisível" em um promotor de um sistema que coisifica a fauna, a flora e o ser humano.

Nesses termos, "gratidão" deve ser entendida como a aceitação da bondade de Deus sem cair na tentação de lhe devolver algo, como retribuição. A impossibilidade de se retribuir e a confissão alegre disso é ser agradecido. Entender que a graça de Deus é um favor e não uma troca, ou uma barganha. Uma busca idiotizada de se estar "quite" com Deus.