domingo, 3 de janeiro de 2016

O pecado de Sodoma e Gomorra

Histórias e mitos sobre cidades destruídas por deuses ou desastres naturais são comuns na antiguidade. No caso da Bíblia, temos a história de Sodoma e Gomorra (Gn 18-19). Para que não se perca de vista o que esse relato procura falar, é preciso observar que Sodoma e Gomorra não são exclusividades do Gênesis e, tão pouco, o seu relato é o primeiro a mencioná-las.  O profetismo e a sabedoria de Israel vêem as duas cidades como símbolo da infidelidade de Judá e Israel Ambas, simbolicamente, são chamadas de Sodoma e Gomorra. Vemos isso em Amós 4.11;  Jeremias 23.14; Isaías 1.10-11; Lamentações 4.6 e Ezequiel 16.49-50.

É bom atentar que esses livros são datados de antes do livro de Gênesis e, por isso, demonstram que a história de Sodoma e Gomorra era já conhecida no meio do povo. Talvez como um provérbio sobre o julgamento divino. Entretanto, é comum se falar que o pecado das duas cidades esteja ligado ao homossexualismo. Tal afirmação é reducionista e bastante injusta. No texto de Ezequiel, por exemplo, já vemos que se fala de soberba, fartura de pão (rica mas avarenta), ociosidade e que as cidades não tinham amor pelos necessitados. Alguns ainda podem pensar que a palavra "abominações" se refira à homossexualidade. Ainda assim, tal colocação demonstraria um pensamento bastante simplista e equivocado.

É preciso lembrar de um costume muito comum, no mundo antigo, antes de falarmos sobre a história: a "Lei de Hospitalidade". Essa lei pregava que ao chegar um estrangeiro em sua terra, você deveria recebê-lo em sua casa e guardá-lo sob sua proteção. Garantir segurança, saúde e alimento. Havia, inclusive, a ideia de que os deuses poderiam aparecer como errantes, a fim de testar a bondade dos homens, nesse sentido. Essa situação é a que ocorre com a Abraão no início do episódio. Três homens aparecem e o justo Abraão os recebe em casa. Sem saber, em princípio, que um deles é seu Deus, testando-lhe a hospitalidade. Sua divindade é revelada progressivamente. É pensando nele e em Ló que Hebreus narra:

"Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos".
Hebreus 13:2

Os dois homens que estão com Javé devem ser interpretados como homens no sentido restrito da palavra. A expressão "anjos" (Gn 19,1) nada tem de conotação necessariamente transcendental. É comum a tradução "anjos" se referindo aos homens enviados por Deus à Sodoma e Gomorra. O termo em hebraico, contudo, não possui necessidade alguma de se pensar um ser divino ou espiritual. A palavra  מַלְאָךְ (mal'ak) nada mais é do que "Mensageiro". É a interpretação do tradutor que põe a palavra "anjo" (por sinal derivada do grego ἄγγελος - angelos - que quer dizer "mensageiro") e dá a nós o sentido transcendental.  Contudo, sem essa influência grega, o texto deve ser lido como dois tipos de "profetas" que são enviados para Sodoma e Gomorra. Ainda, contudo, que se pregue a ideia de serem seres transcendentais (como possivelmente Hebreus faz), deve-se entender o porquê do envio. Isto é mais importante do que a identidade deles.

Em oposição à atitude de Sodoma e Gomorra está a de Abraão e Sarah: ambos recebem os viajantes sem saber quem são e lhes dedica atenção, repouso e alimento. Cumprem fielmente o costume da hospitalidade. No entanto, ao chegar na cidade, os dois mensageiros (espirituais ou não), são bem recebidos apenas por Ló, sobrinho de Abraão, que age da mesma forma que o tio. Contudo, os homens da cidade, desejam abusar dos visitantes:

"E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros
Gênesis 19:4"

O texto deixa claro que todos os homens, sem exceção resolvem fazer isso. Ou seja, não havia NINGUÉM na cidade que cumpria a lei de hospitalidade. Aliás, não apenas não cumpriam como abusavam dos visitantes. Ló poderia ser apontado como o único da cidade a praticar o costume, entretanto, os homens garantem que ele não era natural da cidade:

"Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo? Agora te faremos mais mal a ti do que a eles(...)" - Gênesis 19:9

Tal abuso possui conotação sexual? A palavra יָדַע - yada`, pode possuir outros significados: notar, observar, descobrir como ele é, reconhecer e, sim, "ter relações sexuais" que parece ser o utilizado no texto. A passagem paralela a essa, em Juízes 19, onde a concubina do levita é morta e estuprada, deixa claro o sentido sexual do termo. Entretanto, é preciso salientar que o estupro faz parte da violência denunciada contra Sodoma. Se no lugar de irem mensageiros, fossem mensageiras, a situação seria a mesma. Não é a homossexualidade o problema, é, sim, serem violentos.

A denúncia contra Sodoma não está pautada em sua decisão sexual, mas em não cumprir a hospitalidade. Decisão tratada por Deus como o cúmulo da maldade. Dentre as denúncias proferidas por Ezequiel (antes do relato do Gênesis) não há menção à sexualidade. Bem verdade que o relato de Sodoma "ganhou" a presença de Abraão, justamente pra poder demonstrar a diferença entre o homem justo e os homens injustos.

Há de se considerar, também, que no ambiente de retorno do cativeiro, onde esse relato ganhou exatamente a forma como a que temos, era necessário deixar claro o motivo da destruição de Judá e de Israel pelas mãos dos Babilônicos e Assírios. Nesse recontar, os autores procuram deixar marcado na mente do povo que se agirem novamente como Sodoma e Gomorra, a terra será devastada como foi no cativeiro. E, ao mesmo tempo, demonstrar que a proteção ao estrangeiro, o cumprimento da hospitalidade, é abençoador. No caso de Abraão, lhe concedeu o cumprimento do nascimento do filho Isaque, sendo ele já um idoso juntamente com sua esposa Sarah. Lembro que "Sodoma e Gomorra" já eram expressões "comuns" usadas contra Israel e Judá. Nesse sentido, o comportamento do Abraão é demonstrado em profundo confronto com o comportamento das cidades que afirmam tê-lo como patriarca.

Olhar para o texto que narra a destruição de Sodoma e Gomorra e se limitar a atitude "homossexual" dos moradores da cidade é, na verdade, procurar base bíblica para alimentar o próprio ódio, a própria homofobia. As preocupações dos profetas são sempre voltadas para a injustiça, opressão, ganância, exploração, corrupção e violência. Tudo isso realizado em nome de Deus agrava a ira de Javé e piora as palavras de condenação dos profetas . E é nesse sentido que Judá e Israel são, por vezes, colocadas como Sodoma e Gomorra. O próprio Jesus denuncia que para Cafarnaum (Mateus 11:23,24), uma cidade da Galiléia, haveria mais rigor no julgamento do que para Sodoma e Gomorra. Nisto ele se refere à sua incredulidade diante dos sinais que a cidade presenciou, e não a suas práticas sexuais.

Antes de julgarmos às pessoas como "Sodoma e Gomorra", ou seja, alvos da condenação divina, devemos, como os judeus que voltaram do cativeiro e escreveram essa história, pensar o quão de Sodoma e Gomorra somos. O quanto de violentos, exploradores, injustos, avarentos, gananciosos e o quanto abusamos dos outros - sexualmente ou não. É contra isso que os profetas divinamente inspirados se erguem.

Um comentário: