sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Milagre da divisão dos pães e dos peixes.

Cada ano surgem novos smartphones; novos computadores; novos carros; a indústria da moda cria novas tendências ou reaproveita a tendência antiga, repagina e lança como nova. Cria-se um ambiente que nos faz sentir ultrapassados.  Que nos ensina a enxergar que o que possuímos, que mal completou um ano, está fora de linha. Há toda uma cultura para nos tornar invejosos ou pessoas invejadas. E há de se sentir bem se alguém está no segundo grupo.

Todo esse ambiente estimula a incompletude. Criando a falsa necessidade de consumir para se completar. Surgem assim os chamados "sonhos de consumo". Há de se considerar que todo sonho realizado abre espaço para um sonho ainda não sonhado. Somos naturalmente movidos pelo que não temos, ou melhor, pelo que almejamos. Uma vez realizada a "utopia", uma nova precisa substituir a antiga, do contrário, perecemos, nos deprimimos. Na cultura do consumo, o estímulo é nunca estar saciado. Nunca poder dizer: já chega.

Tratando-se de religião, nada mais certeiro para que criar pessoas gananciosas, orgulhosas por serem invejadas e invejosas do que colocar Deus como aprovador dessa cultura. Ao se criar cristãos ansiosos pelo dinheiro,  fama e posses, o cristianismo atual faz as pazes com mamon (o que já falamos nesse blog) e mata com requintes de crueldade a fé original, marcada pelo amor e pela partilha.

É assim que um texto que fala sobre o "partir do pão", vira o texto da multiplicação do pão. Ao lermos atentamente a passagem de Marcos 6.30-44 não encontraremos em momento algum a palavra "multiplicação". Da mesma forma, não encontraremos nenhuma menção a milagre ou poder de Deus.
O que encontramos é um homem que, com seus cansados discípulos, resolveu se retirar para comer. A multidão "atrapalha" a refeição e o faz ensinar um pouco mais. Esse "pouco mais" transforma a hora em "avançada". Os discípulos e ele não comeram ainda e nem as pessoas. Esse homem não ousa dispersar a multidão com fome e depois ir para junto dos seus e alimentar-se: se o que temos pra comer é pouco, todos comerão desse pouco. Há uma partilha, uma divisão do alimento e não uma multiplicação.

Gostamos de milagres! Gostamos de poder! A vida nos é interessante se houver um pouquinho de "Harry Potter" no dia-a-dia. Contudo, não é assim e aqui não estamos diante de um caso desses. Jesus não multiplica! Jesus divide, parte o pão e o peixe. Todavia, há uma informação que alimenta o prazer pelo milagre e nos faz "perceber" a exigência matemática da multiplicação e não da partilha:

E todos comeram e se fartaram. Em seguida, recolheram doze cestos cheios dos pedaços de pão e de peixe. Ora, os que comeram os pães eram cinco mil homens. Mc 6.42-44.

Cinco mil pessoas se alimentaram de cinco pães e dois peixes. E ainda há doze cestos cheios de pães e peixes a serem recolhidos. Há alguma explicação que não seja a de multiplicação?

Sempre procuro enfatizar que os textos bíblicos possuem seu caráter histórico, mas nos termos da história antiga, reinterpretada à luz da fé antiga e escrita por homens e mulheres da antiguidade. O que quer dizer que os textos se distanciam dos relatos históricos dos padrões atuais e se aproximam bastante da mitologia e da simbologia.

Existem outros relatos de "Multilplicação de Pães e Peixes" mas que os estudiosos chegam ao comum acordo que se trata de um único relato contado repetidas vezes. Com mudanças, obviamente, devido a natureza da tradição oral sobre o história.

Pensando nisso, devemos relembrar o que já foi dito: não existe relato de multiplicação. O que há é uma divisão do pouco alimento. Em todos os relatos a questão numérica é bem interessante. Sempre se recolhe sete cestos ou doze, de acordo com a "memória" da tradição. E sempre há o número sete (como quantidade de pães ou como soma de cinco pães e dois peixes). A quantidade de gente também é um número fabuloso! Quatro mil pessoas! Cinco mil homens (fora as mulheres e crianças)!

É totalmente improvável estarmos diante de uma contagem dos dias atuais. Esses números, tanto de alimento quanto de pessoas, estão mais ligados à qualidade do que à quantidade! Pertencem ao mundo do símbolo religioso e não da matemática. Não há lógica e nem uma reunião de matérias para criar novos peixes e novos pães. 

O sentido desse texto esta na importância da partilha, do partir do pão (alimento) e não do pensamento egoísta: que vá e comprem pão pelo caminho, o que temos é só nosso. Óbvio que partir cinco pães e dois peixes entre cinco mil pessoas é manter todos com fome, na matemática fria e desprovida de símbolo/poesia.

Justamente por isso não se trata de fazer uma conta e sim de se pensar na qualidade do ato e na consequência desse ato. A mensagem é simples: se todos tomarem a iniciativa de repartirem seu pão, ninguém passará fome. Se ousarmos, todos, repartir o que temos, resolveríamos o problema da fome. Ter suas necessidades saciadas e não observar que o outro, alvo de sua mensagem religiosa, não possui o que comer é cair no eterno dilema entre fé e obras:

"E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e nào lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?" - Tiago 2:15,16

Diferente dos líderes religiosos que bancam suas "vidas de marajás" com o dinheiro das pessoas que creem e usa esse mesmo texto para ganhar delas alguma oferta, fazendo-as acreditar que Deus multiplicará aquilo que lhe foi ofertado, Jesus oferta o que tem para a multidão, correndo o risco de ele mesmo ficar sem condições de saciar sua fome. E faz seus discípulos entenderem a necessidade de fazer isso.

Uma compreensão antiga desse texto, faz pensar que não apenas os discípulos tinham o que comer. A quantidade de pessoas presentes - que dificilmente seria possível ser mais de quinhentas pessoas - também fizeram a caminhada tendo o que comer. E a atitude de Jesus de dividir o que tinha, fez com que cada um, que guardava sua comida para si, golpeado pela consciência e desprendimento do mestre, fizesse o mesmo gesto. Oferecendo, assim, também, os pães e peixes que possuíam. Obviamente, àqueles que nada trouxeram, foram agraciados pelo gesto de solidariedade gerado através do exemplo do Mestre.

Tal interpretação parte do princípio de que existe algo histórico por trás desse episódio. Pouco podemos concluir se tal situação realmente aconteceu, embora, obviamente, pelos sinais de "não multiplicação", mas de PARTILHA, essa versão se apresente com mais coerência. Na, claro, possível historicidade da narrativa.

Entretanto, se factual ou não, essa, certamente, é a mensagem que Marcos procura transmitir: a importância não da multiplicação, como que dizendo que Deus/"Natureza criada por Deus" não nos dá o suficiente. Mas a exigência da partilha. Daquele que tem muito, dividir com nada tem. E, ambos, se saciarem e ainda, devido a profundidade do gesto, ter suficiente para o depois. Como nos cestos recolhidos depois. Estes pertencem ao grupo e não mais àqueles que ofertaram.

Que a partilha, a divisão do alimento, o repartir do amor e da solidariedade nos ilumine. Retire de nós o anseio pela multiplicação, pelo consumo, por ser invejado  e, certamente, nos afaste do caminho do egoísmo.

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