quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A Alegria de não ser Santo - Teologia com Zélia Duncan

É comum que os seguidores dos fundadores de uma ideologia, ou religião, se percam e passem a não perceber que seus mestres eram, na verdade, os hereges, traidores e revolucionários de sua época. Jesus e os apóstolos (erradamente acusados de fundar uma nova religião) não se tornaram exceções. A moralidade e o dualismo greco-romano institucionalizaram a fé cristã e a distanciaram de sua religião-mãe, produzindo, inclusive,  a base onde se firmou o anti-semitismo.

O foco que pretendo dar, está nesse Jesus escandaloso  que desafiou costumes que se distanciaram de seu objetivo. Costumes que se tornaram meras observações tradicionais que nada comunicavam de bom, antes, distanciavam o ser humano de si mesmo e dos outros. Ensinos que classificavam  os não cumpridores de injustos e pecadores.

Igualando-se a esses pecadores, Jesus manifestou a divina presença nas limitações humanas: O errado, ele justificou e o santo condenou. Para ele,  o confessado como puro, internamente, era podre. E os céus estavam abertos para as prostitutas que entrariam no reino antes dos religiosos. Amigo de pecadores, festeiro, advogado dos culpados e adversário dos santos e imaculados, Jesus cavou a própria cova.

Contudo, o mistério cristão confirma sua aprovação por parte de Deus que, em protesto por sua execução, o ressuscitou e o fez Senhor dos senhores. E, mais tarde, ele mesmo foi entendido como o Deus dos pais. O Deus do Antigo Testamento que encarnou-se e se tornou membro da genealogia humana. O criador se tornou criatura e se juntou aos pecadores.

Uma canção da Zélia Duncan seguirá nossa reflexão:

A alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina(o)
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu


Assim imagino o filho de Deus... separado do ser humano e distanciado deles. Não por sua vontade e nem separado de verdade. Mas doutrinas de retribuição aproximam Deus dos santos e afasta-os dos que ousam desobedecer sua vontade. Esse filho de Deus, contudo, cansou dessa "farsa" e resolveu ser humano, resolveu ser reconhecido como qualquer um. E o Filho "descobre" a beleza de ser humano e a alegria de não ser divino. E,justamente por isso, Jesus encontra Deus em si mesmo. Não mas regras e condutas aprovadas pelo bom costume e pelo juízo. Mas como um grande transgressor.

Transgressor do costume irracional do Schabat; Transgressor da pureza ritual; Transgressor da lei da justiça contra a adúltera; Transgressor das boas regras de comportamento nas festas; Transgressor do costume dos templos; Transgressor universalista que rejeita a doutrina da eleição israelita; Transgressor das esperanças religiosas quanto ao Messias; Transgressor da boa educação... e Assim, a alegria desses pecados de seu tempo  (pois o pecado moral é temporal), tomava conta dele.

E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano


Diferente do que se prega, Jesus não deseja uma espera do Reino. Ele testemunha sua presença dentro do ser humano ao afirmar que "O reino de Deus não vem com aparência exterior;  nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Eí-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17.20-21). Jesus apontou que dentro do ser humano há essa parcela divina. Dessa forma,  o Reino de Deus é inerente ao ser humano. O ser humano não vai ao seu encontro, o ser humano o descobre dentro de si, dentro de sua humanidade. Então esse mundo, cada vez mais humanizado, se torna cada vez mais divino.

O prazer de estar aqui, em seu mundo, é confirmado por Mateus que desconhece sua ida aos céus (segundo o codex sinaítico, Lucas também não fala de ascensão aos céus):

"e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos". (Mt 28.20b)

Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser carne e osso.


Nada mais verdadeiro do que aplicar esses versos a Jesus! As perfeições exigidas pela religião desumana é um peso, uma hipocrisia e um convite à transgressão, pois exige do homem que ele negue seus instintos, negue sua humanidade: não coma da árvore do conhecimento, fuja dela, pois morrerá! No fundo, a religião esconde o real motivo de fugir do conhecimento:

Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente (Gn 3.22)

O conhecimento de si mesmo (se percebem nus, após comer da fruta) leva ao conhecimento divino e "Deus"/religiosos sentem-se ameaçados.Jesus,  todavia, incentiva e demonstra a grandiosidade do conhecimento libertador dos "edens religiosos", esses falsos paraísos criados para dar tranquilidade e impedir o ser humano de transcender, de se chegar ao conhecimento de si e de Deus: "filhos de Abraão", "seguidores da Lei". ou hoje: cristãos; eleitos; filhos de Deus; discípulos. Jesus denuncia esses títulos e o peso que vem junto com eles (ao mesmo tempo que sua superioridade) como se fossem a espada do Éden e os querubins, protegendo o acesso à vida (árvore da vida):

Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando. Mateus 23:13

Homens e mulheres que descobriram um jeito sem sal de rejeitar quem são: carne e osso. Justamente o que o Logos de Deus honrou ao se tornar:

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. (João 1.14).

Rejeitam o que são em nome de Deus e se colocam acima os outros. Para esses, Jesus conta a história do fariseu e do publicano que foram orar. Aquele que confiava em sua fidelidade a Deus, foi rejeitado por Ele. E o que acreditou na gratuidade do amor divino, foi por Ele justificado  (tornado justo).

É muito bom ser humano! Ser membro da raça humana! Tão bom que até o filho de Deus se tornou um. Divino como Jesus, só pode ser humano mesmo. Que aprendamos o prazer de estar na Terra cada vez mais. De encontrarmos, neste mundo, o Deus que ama a vida humana. O Deus que faz das imperfeições humanas, o belo de se ser humano.

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