quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Natal: onde Deus estiver

Naquele primeiro Natal, na aldeia de Belém, em que estabelecimento não sabemos:
Mateus: 2. 11. E entrando na CASA ( οἰκία = oikía, casa, habitação) viram o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra.
Lucas: 2. 4 e 7 Subiu também José, da Galiléia, da cidade de Nazaré, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, (...) e teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem (κατάλυμα = katalyma, alojamento).
O que sabemos é que Mateus demonstra que Jesus foi bem recebido pela família (casa) a despeito das acusações levantadas contra Maria. Embora fosse ele, segundo os magos e a acusação irônica de Pilatos, o "Rei dos Judeus", nascera não em um palácio ou na bela cidade de Jerusalém, onde se esperava um rei. Ele nasceu no seio da família, em Belém.
O que sabemos, segundo Lucas, é que uma possibilidade seria a de que a lei de hospitalidade, comum e exigida na Torah, não foi respeitada pelos demais, por conta de Maria estar para dar a Luz. Uma mulher que viesse a parir estaria impura, segundo o costume. E sua impureza poderia ser transmitida aos demais. Lucas nos diz que o filho de Deus fois posto em uma manjedoura. Um texto apócrifo de Mateus relembra a seguinte profecia de Isaías 1.3:
"O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende".
As duas histórias são diferentes, mas transmitem realidades bem duras:
Para Mateus, enquanto celebramos a Deus em templos luxuosos e ostentamos orgulhosamente saber onde Deus deveria estar (Jerusalém, lugar do templo e do palácio real), Ele nos surpreende ensinando que está em casa: no lar aberto a receber a vida; que se importa mais em amar e em abrir mão da rejeição e do moralismo nocivo (em alusão à concepção fora do casamento); no cotidiano de uma casa que festeja a chegada de um menino à vida, não importando o caminho imoral que seguiu a isso.
Ou, para Lucas, damos prioridades aos ritos religiosos e à nossa pureza e "santidade". Fechando nossas portas àqueles que nos causariam "problemas". Mensagem que Lucas repete na parábola do Bom Samaritano; na escolha de Jesus para se hospedar na casa de Zaqueu; nas parábolas da Ovelha Perdida , Dracma Perdida e Filho Pródigo e chega ao seu auge com a escolha pelo salvamento de Barrabás e condenação de Jesus. Desde que nasce, Jesus nos ensina: sempre rejeitamos a quem Deus escolheria e acolheria.
Em todas essas possibilidades, poucas certezas: Deus está onde os religiosos não estão; Deus está onde a rejeição e o desprezado cotidiano ocorrem; Deus não quis ser especial, não quis ser melhor; Quis está onde a vida acontece: fora dos templos, dentro de casa ou entre os animais.
Poucos notam isso... e aqui relembro a frase mais do que oportuna do grande teólogo Levy Bastos:
"Ainda hoje os muitos ‘magos do oriente’ percebem melhor e mais cristalinamente por onde segue a estrela de Belém, que leva ao menino Jesus, a redenção da humanidade, do que os cristãos/ãs".
Feliz Natal e, de preferência, onde Deus estiver.
"Foi lá que cristo me disse:
Rapaz deixe de tolice. Não se deixe amedrontar.
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar"

Cidadão, letra de Lúcio Barbosa, cantada pelo brilhante Zé Ramalho.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sobre a Morte...

Faltando poucos dias para o aniversário de minha saudosa mãe, mais uma vez sou levado a refletir sobre a morte. Há quem diga que a melhor forma de lidar com a vida é nos sabermos temporários. De fato, a noção de que a cada segundo que passa, menos um segundo temos de vida, pode nos levar a dizer as palavras não ditas, os abraços não dados, a buscar realizar as loucuras não realizadas e a aproveitar o máximo possível do desconhecido pouco tempo que nos resta.

Mas como encarar à morte? Será que ela realmente deve ser vista como um castigo? O fruto da desobediência humana! Será que devemos encarar como a grande limitadora da existência? Seria a morte o fim da vida? Há algo depois? A vida tem sentido?

É preciso aceitar um fato: quando falamos de religião, estamos falando de símbolo. Não apenas isso, mas símbolo, rito e mitos. Essas são as bases de toda e qualquer religião. O símbolo aponta para algo além dele. Não é aquilo que aponta, mas o "concretiza" (considere as aspas). Como exemplo, a Bíblia como o livro que aponta para a palavra de Deus. Não é a palavra, mas aponta para ela. O rito presentifica o que foi realizado no passado. Torna presente o que não se pode esquecer. Nos permite viver o que não vivemos no passado: A ceia; O mito comunica uma verdade que no mundo cientítico não pode ser esclarecido: a trindade.

É dessa forma que entendemos que a luz vermelha é apenas uma luz colorida. Mas se um semáforo o reflete, entendemos que é o símbolo que nos ordena parar. Ele não é a ordem, mas a simboliza e não pode ser ignorado. Um aperto de mão nada mais é do que duas mãos que se encontram, contudo, ele simboliza "prazer", "aceitação", "boa recepção" e por aí vai. Negar apertar a mão de alguém é "deixar no vácuo", "desrespeitar", simboliza a rejeição e a decisão por ignorar a pessoa.

Com a morte e com a vida, as coisas não foram diferentes. A ausência de sentido para a vida, onde ela se torna uma rotina de acordar e dormir, nos conduz ao desespero e, por vezes, essa percepção da vida vazia surge como um dos sintomas da depressão. A todo momento, nossa vida precisa de sentido, do contrário, apenas caminhamos para a morte ou a esperamos chegar. Mas a morte, como já dito, também não ficou livre da simbologia. Ela já foi um deus (Tánatos, na grécia; Mot, em Canaã), por exemplo.

Na Bíblia seu sentido é diverso em tempos e autores diversos: fruto da condenação de Adão e Eva (Gn 3); se vem cedo é final de infidelidade(2Cr 35) Preciosa aos olhos de Deus, caso o morto seja seu servo (Sl 116); Desprazerosa, se é a morte de um pecador (Ez 18.32); Terra do silêncio, não havendo nada após ela (Ec 9.5;9.10); Para a tradição Apocalíptica, é apenas um sono esperando a ressurreição final; Para Paulo é lucro (Fp 1).

Isso falando de religião judaico-cristã. Outras confissões religiosas (e mesmo algumas vertentes dessa mesma raíz) interpretam a morte de outra forma. Enfim, tanto vida quanto morte necessitam de sentido, pois o vazio é abandonador demais.

A quantidade de interpretações religiosas ou não sobre a morte nos levanta o dilema de que todas podem estar erradas. E é justamente aí que mora o perigo. Quando aquilo que faz parte do mundo do símbolo se torna aquilo que o símbolo aponta. É assim que nasce o chamado fundamentalismo religioso. Se encararmos as religiões a partir desse "desvio simbológico", sim, todas estão erradas, ou no mínimo, ousariam dar certeza sobre o que não se tem garantia. Quando descartamos o símbolo como forma interpretativa e o vestimos como a própria verdade, desvirtuamos a fé e o sentido do ser religioso.

Dessa forma, as várias respostas sobre a vida e a morte ganham tons de verdade absoluta. E nascem discursões das mais diversas a partir, ironicamente, de textos  e mensagens simbólicas, ritos fúnebres e discursos mitológicos sobre o "fim da vida". A verdade é que nada sabemos e assim continuaremos. Friamente, a vida não tem sentido. Não há um plano especial para a sua e nem a minha existência. E isso em nada se afirma a inexistência de Deus. Antes, podemos confirmá-la. A fé afirma que a vida nasce do dom gratuito de Deus. Não há pagamento para se cumprir em troca. Nasce do único interesse divino de produzir vida. E a morte?

A morte faz parte do "pacote". Não é o fim da vida. É parte integrante dela. Negar à morte é também negar à vida. Tratar a morte como inimiga é personificá-la. É dar-lhe um símbolo que não nos favorece. Pois esse "inimigo" sempre ganha.

A tradição apocalíptica - que a personifica - diz que o último inimigo a ser vencido é a morte. A morte não pode ser vencida depois de sua chegada. Vence-se a morte em vida. Ao percebê-la como parte integrante da existência. Ou a encará-la com esperança. Se com esperança de um além, com suas diversas possibilidades (ressurreição ou desencarnação), ou com um além do sono eterno, não importa. O importante é encará-la antes de sua chegada. Só assim se pode vencer. Vence-se a morte vivendo. E vivendo da melhor maneira possível. O que é impossível sem considerar e aceitar sua existência e, com isso, nossa finitude.

A palavra latina é "defunctus", de onde vem a nossa "defunto". E tem o sentido de "cumpriu sua função". Minha mãe e meus amigos, ou entes que se foram, não importando a causa de suas mortes, cumpriram sua função. Daí se pode buscar uma explicação religiosa, ou apenas aceitar o fato de que não há mais nada que eles tenham ou possam fazer. O que lhes cabia, já se foi. Ainda que, de alguma forma, permaneçam vivos em nós. E isso é simbólico. E isso é verdadeiro. E isso é real. A morte leva a pessoa, mas não leva a vida dela. Voltamos ao discurso que permanece no símbolo e na certeza de que não se pode ter certeza sobre os mistérios da vida. E nem saber se eles realmente existem. Só podemos e devemos viver... por pouco tempo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Quando a Igreja Reafirma a Cultura do Estupro...

Os nosso olhos seletivos sobre a Bíblia justificam a coisificação dos corpos femininos. Agimos com naturalidade para coisas que deveriam nos chocar. Tal naturalidade desonesta e desprovida de espiritualidade real demonstra o quanto falamos ao texto e rejeitamos o que ele nos diz. E o que isso tem a ver com o corpo feminino? Veremos e, entre aspas, nossa compensação desonesta a esses abusos.

Abraão, o herói da fé com escrava sexual (Gn 16.3) - "mas ela ficou abusada depois de ter concebido de Abraão";

Ló, o justo, oferece as filhas para serem estupradas pelos habitantes de Sodoma. Para, assim, proteger os "estrangeiros" que estão em sua casa (Gn 19.8) - "mas a lei de hospitalidade exigia esses sacrifícios. não há mal algum".

Jacó, o herói da fé que tinha escravas sexuais (Gn 30.1-6 e 30.9) - "mas os filhos delas se tornaram os patriarcas, foi honroso a elas" (obviamente ignorando que os filhos na verdade eram de suas senhoras).

O homem segundo o coração de Deus  (piada) usa seu poder de rei para abusar de uma mulher casada (2 Sm 11.1-4) - "ah ta! O REI quer se deitar com ela. Acha que ela não curtiu? Não gostou? Isso se ela não de insinuou pra ele enquanto se banhava".

Esse mesmo "Santo Rei" age sem amor para com a filha estuprada pelo próprio irmão. E ficamos contra seu filho que considera o pai omisso e injusto.

As mulheres são culpadas pelos pecados de Salomão (Ne 13.26) - "e não foram? Estrangeiras idólatras".

Para não ficar tão extenso, paro aqui de listar os textos que mostram a coisificação da mulher e onde, ainda, achamos uma forma de justificar os homens abusadores.

Mas ainda somos relativizadores quando a Bíblia defende a mulher desses abusos:

As mulheres denunciam os abusos sofridos nas mãos dos guardas em cântico dos cânticos (Ct 5.7) -"mas o livro é uma alegoria do amor entre Jesus e a igreja" (dá vontade de rir de raiva).

Quando Amós denuncia a prática de escrava sexual como condenada por Deus (Am 2.7), não dizemos nada. Ninguém lê Amós...

Quando o livro de Rute é escrito como uma forma de defender a mulher sensual e estrangeira, normalmente atacada pelo sacerdócio e pela sabedora, ficamos somente com o relato da "amiga" Rute que ficou ao lado de Noemi. O caráter denunciador do preconceito e defensor dessas mulheres morre.

Quando Jesus não dá a mínima para o que a mulher fez (Nem eu tampouco te condeno
João 8:11), a gente diz "mas ele disse pra ela não pecar".

Quando Jesus, a despeito do preconceito contra samaritanos e contra mulheres, resolve ensinar a uma mulher Samaritana, transformamos a mulher em uma pessoa de má fama a partir de indícios falsos e pobres.

Quando Paulo diz que não há nem judeu e nem grego, nem escravo e nem livre, nem homem e nem mulher, mas que todos são um em Cristo. Ignoramos que, com isto, ele disse que todos são iguais. E preferimos os textos onde um pseudo-paulo diz que a mulher deve ficar calada, aprender com o marido e lhe ser submissa como a igreja é submissa a Cristo.

Enfim, a igreja, com sua leitura estranha dos textos, alimenta essa cultura do estupro que nós constantemente afirmamos não existir. Quando a Bíblia defende a mulher, nós relativizamos essa defesa. Quando a Bíblia coisifica a mulher, não prestamos atenção, pois o que importa é o relato sobre o herói. E quando notamos, reafirmamos o caráter machista do texto, como no caso do pseudo-paulo.

Mais honestidade na leitura bíblica fatalmente nos conduzirá a confrontos bem sérios...

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Jesus, o Bastardo dos Bastardos

Genealogias normalmente ficam à margem dos estudos bíblicos das igrejas. isso porque são tratadas como mera informação. A mensagem e beleza das mensagens tratadas nas genealogias acabamos ficando de lado e não damos o valor ao que é comunicado pelo escritor.

No caso da genealogia de Mateus, há algumas dicas bem interessantes. Mas antes de continuar, é preciso uma informação. Entre os judeus, corria uma história de que Jesus era um filho bastardo de José e, portanto, sua messianidade era ilegítima e sua mãe uma pecadora. Mateus, então, inicia o seu evangelho dando uma resposta a essas acusações.

A genealogia escrita por Mateus possui um padrão. Esse padrão é "fulano gerou a beltrano". Esse padrão apenas é quebrado cinco vezes:

E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá - Mateus 1:3
E Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; - Mateus 1:5
Boaz gerou de Rute a Obede - Mateus 1:5
e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias - Mateus 1:6
José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo - Mateus 1:16

Algo de muito importante está sendo dito por Mateus para ele apresentar apenas estas cinco mulheres. Será necessário vermos o que elas têm comum para entendermos o porquê de ele citá-las:

Tamar era nora de Judá. Para cumprir a lei do levirato - onde o cunhado assume a esposa do irmão morto e gera filhos para este morto - o filho mais novo de Judá estava ainda bastante jovem. Assim, porém, que atingiu a idade do casamento, Judá não cumpriu sua palavra. Com o intuito de dar uma lição no sogro, Tamar se disfarça de uma prostituta. Judá, que foi atrás dos serviços de uma, acaba se deitando com ela e deixa como pagamento um cajado seu. Ao passar alguns meses, fica claro que Tamar está grávida. Considerando que sua nora havia cometido adultério, Judá resolve queimá-la diante da comunidade enfurecida pela traição de Tamar. Ao ficar sabendo que, na verdade, o filho que a mesma carregava era seu (pois ela tinha o cajado para provar que tinha sido com ela que Judá havia se deitado), Judá a justifica e diz que ela é mais justa do que ele. Ela se livrou da morte pela justificação de Judá e gerou, dele, filhos ilegítimos e bastardos que, inclusive, são bem vistos pelo autor de Rute (4:12). Tamar entrou para a história como justa, apesar de ser uma mulher que, conscientemente, se prostituiu e se deitou com seu sogro, lhe gerando dois filhos gêmeos.

Raabe é chamada pelo texto bíblico de prostituta. Embora se questione essa prostituição. Considera-se que as mulheres que viviam sem marido e trabalhavam sustentando sua casa, eram vistas como prostitutas. Provavelmente Raabe esteja nesse situação. Tendo fama de prostituta pela sociedade e não pelo ofício. Independente disso, trata-se de alguém de má fama que se casou com Salmom e gerou a Boaz. Raabe teve sua justificação ao, sendo prostituta, se tornar uma mulher que gera um dos antepassados de Davi. Aliás, um antepassado bem conhecido, o esposo de Rute.

Rute, Guiada por Noemi, que mandou se vestir, colocar um bom perfume e etc, seduz Boaz. Rute é a estrangeira que sai em busca do amante (muito bem representada no livro cântico dos cânticos). Da qual a sabedoria considera um perigo. Boaz não a expõe, pois fica "maravilhado" por ela. Ao ponto da própria Noemi garantir que depois de todo o jogo de sedução, Boaz ficará louco por resolver a questão e casar com ela. Rute toma uma atitude negativa no que diz respeito à sexualidade feminina diante da visão sacerdotal e, até certo ponto, da sabedoria. No entanto, no lugar de se tornar uma mulher de má fama, se torna bisavó de Davi. Se torna um exemplo a ser considerado, inclusive, como uma oposição à condenação do casamento misto. Que é a Teologia de Esdras/Neemias e Crônicas.

Bate-Seba nem mesmo tem seu nome citado. Porque o que interessa não é falar que Salomão era ilegítimo. A criança ilegítima morreu. Salomão quando nasceu foi considerado amado por Deus (2 Sm 12:24). Contudo, o que Mateus quer deixar claro é que a união entre Davi e Bate-Seba foi ilegítima. Ela era esposa de Urias que foi morto para satisfazer o desejo do rei de não ser condenado e ficar com sua mulher. Dessa união ilegítima, nasce Salomão. Bate-Seba entra para a história como mãe do rei sábio. Ainda que tenha se unido ilegitimamente com Davi.

Maria é um problema perturbador... Mateus não diz que José gerou de Maria, como das outras vezes em que essas mulheres apareceram. Diz que ele é casado com Maria e que dela nasceu Jesus. Maria, segundo a acusação judaica, gerou Jesus de um pai desconhecido. E esse desconhecimento do pai, Mateus, na genealogia, não estava confortável o suficiente para negar.

Toda essa árvore genealógica, cheia de conflitos e "imoralidade", culmina com o nascimento de Jesus. Pois José é casado com Maria e ela gera Jesus. Mais um ilegítimo!

A resposta (até aqui) de Mateus é bem simples: Sim, Jesus é ilegítimo, tal qual uniões foram ilegítimas e filhos ilegítimos e mulheres de má fama durante toda a genealogia do rei Davi. Se aceitamos Davi, podemos aceitar a Jesus. Pois Maria foi recebida como esposa de José. Logo, José assumiu a criança e ela recebeu seu nome (Mt 13.55). Ele é Jesus, Filho de José. E se José o chama de filho, assim deve ser considerado. A própria Mishnah, na Bava Batra 8.6, entende que apenas um pai pode dizer que o filho é dele, ao afirmar "Se ele diz ‘esse é meu filho’, deve ser acreditado". Portanto, não importava o que diziam os judeus sobre a má fama que Maria tinha (de ter engravidado de outro homem), Jesus era filho de José. Legitimado e, portanto, filho de Davi e Filho de Abraão. Se tornando, assim, o Messias de Deus.

Estranho? Talvez sim... mas quantos filhos ilegítimos existem? Quantos nascidos de adultério, ou de uma gravidez indesejada na adolescência, ou de um estupro, ou ainda de uma simples atitude mal avaliada? Estes, muitas vezes, vivem sem o amor dos pais ou de algum dos pais. Precisando, as vezes, de terapia para se virem livres ou conviverem melhor com o sentimento de rejeição. O filho de Deus se torna, dessa forma, um ilegítimo! Que entende bem o preconceito ou a dor de ser um bastardo. Deus nos entende, Deus se torna, assim, o menor de todos os desprezados por motivos imbecis e mesquinhos.

Deus (Jesus) é um bastardo! O bastardo dos bastardos e tem uma mãe de fama duvidosa. Jesus entende bem o que é estar entre os desprezados e, por isso mesmo, se torna remidor, salvador e transformador da história daqueles que sofrem a dor da condenação social. Dor essa que diminui a autoestima, por conta de uma moral sexual que nada tem a ver com o amor divino. O cristianismo nascente, assim, declara sua fé no Deus dos bastardos. No Deus dos discriminados...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A gênese da vida - uma nova versão

Tendo Deus criado o ser humano, homem e mulher o criou, a imagem de Deus os criou, plenamente livres e criativos. Colocou-os no Jardim que havia criado para eles. A vida deles limitava-se a: acordar, namorar, cuidar do Jardim e dormir. Era um marasmo! Os anjos chegavam a achar o paraíso uma monotonia! Nenhuma novidade, nenhuma grande mudança. Um eterno ciclo que Homem e Mulher estavam vivendo. Inocentes, viviam como os animais, obedecendo a seus instintos e ao ciclo diário que era mais do que constante. Gabriel, um dos primeiros anjos, chegou-se a Deus, dizendo:
- Senhor Eterno, não disseste que os homens seriam como tu? Livres e criativos? Por que não criam novas coisas? Estão bastante tempo aqui e nada de diferente aconteceu. Mudaste de idéia e fizeste-os limitados à tua vontade?

Deus não respondeu de imediato. Fitou o infinito como se tivesse vendo algo que era incapaz de qualquer ser criado enxergar. Abaixou sua cabeça e disse ao anjo que estava ao seu lado, sem contudo lhe olhar:
- Neste exato momento estou para dar um passo muito importante na vida deles e na minha. E já posso sentir o quanto será difícil.

Deus foi ao Jardim e caminhava em direção ao casal que brincava no rio. Do centro do Jardim, onde estava a árvore do conhecimento, chamou-os:
- Filhos, venham aqui.
O casal ouviu, do rio, a voz de Deus que lhes soava como um doce canção e correram para o centro da árvore, ao encontro de Deus:
- Vocês lembram o que lhes disse sobre essa árvore?
- Não devemos comer, se não morreremos -  disse Eva.
- Exato, vejo que guardaram bem o que lhes disse. Mas, por acaso, vocês nunca se per¬guntaram porque eu a plantei, bem no centro do Jardim, já que não deve ser provado o seu fruto?
- Estávamos conversando sobre isso hoje... – disse Adão.
- Vai nos dizer? - Eva pergunta.
- Sim e não! O sim consiste nisto: Se vocês comerem terão que sair daqui. E ir lá pra fora. Lá tudo é belo, tão ou mais belo que aqui. Mas existe o perigo: O perigo da morte, do medo, da tristeza, da incerteza e da dor. Essas coisas existirão depois de vocês. Seus descendentes criarão. E possivelmente tudo aquilo que foi criado irá morrer e eu serei esquecido.
- Jamais! Não queremos sair daqui! Não poderia suportar ver isso. Ver meus filhos des¬truindo tudo o que foi criado - protestou Eva.
- Filha, entendo o que está sentindo. Mas existem coisas boas lá também. Vocês poderão criar coisas novas, serem livres.
- Somos livres e optamos por continuar aqui. Disse para não comermos o fruto da ár¬vore. Mudou de idéia? -  Perguntou Adão.
- Não filho! O que eu mais quero é que vocês decidam ficar comigo. Não quero que fiquem se não desejam. Entendo que gostam da vida daqui. Contudo existem coisas maiores do que essas, que estão em suas mãos fazer.
- Somos livres e optamos ficar.
- Tudo bem, filhos. Fico feliz com a decisão de vocês.

Neste momento Deus vira as costas e passa a andar olhando para tudo o que criou, com um aperto no coração, já antevendo uma saudade insuportável. Ao se distanciar, Eva sai correndo ao seu encontro:
- Pai!
- Sim, meu amor!
- O Senhor disse que nos revelaria o sim e o não de ter criado a árvore. O que é o não?
- Se vocês comerem do fruto, serão como eu. Conhecedor do bem e do mal.
- Mas nós não já fomos criados à sua imagem?
- Sim, e há em vocês um potencial, uma capacidade criativa e libertadora que é necessá¬rio se conhecerem para poder vivenciá-la. Vocês poderão criar um Jardim até mais belo do que esse se comerem essa árvore.
- Mas a que preço? A preço da morte?  
- Filha, eu não quero que morra. As coisas ruins que falei não existem ainda. Cabe a vocês, humanos, impedirem que elas ocorram. Mas para isso, precisam conhecer o que elas são.
- Eu iria, se pudesse voltar pra cá - Onde vocês estiverem, eu estarei. Onde estivermos isso aqui – abriu os braços como que abraçando todo o jardim - pode se repetir.
- E o Senhor estará conosco, então?
- Sempre!
- Poderemos falar com o Senhor, ouvir o Senhor?
- Não me verão como vêem agora. Mas eu estarei em vocês.
- Não poderemos te ver? 
- Me encontrarão nos animais, nas árvores, nos rios e mares e em tudo aquilo que de bom que vocês produzirem.
- E se tudo der errado? 
- Eu estarei com vocês mesmo assim.
- Tenho medo... 

Deus abraçou a mulher, demonstrou seu amor e disse:
- Sempre que tiver medo poderá correr para mim.
- Sentirei o Senhor?
- A todo instante, apenas ensine seus filhos e vocês mesmos andem no caminho do amor.
- Prometo criar um Jardim mais belo do que esse. Vezes mais belo. Prometo cultivar o bem, ainda que conheça o mal e prometo ensinar meus filhos a amar ao Senhor e tudo o que foi criado por suas mãos.
Deus e a mulher Eva seguiram até o centro do Jardim. Ela pegou uma fruta que estava no ramo da árvore do conhecimento do bem e do mal. De lá Eva gritou o nome de seu companheiro. Ouvindo sua voz, vindo do centro do Jardim, Adão correu ao seu encon¬tro, vendo Deus ao seu lado, e o fruto na mão de sua irmã, Adão parou frente a ela. Ouviu tudo o que Eva tinha lhe falado. Eva comeu um pedaço da fruta e Adão pegou o fruto de sua mão. Adão comeu...

Num instante Deus já não estava à vista deles. O Jardim havia mudado. Tudo era muito diferente. Não viam Deus, mas sentiam-no dentro deles impulsionando-os a cumprir a promessa de Eva e foram construir seu paraíso.

Muito tempo se passou e eles tiveram filhos. Caim, o mais velho e Abel, o mais moço. Eva ensinou-lhes a amar a natureza e ao seu Criador. Caim amou a terra e tornou-se agricultor. Abel amou aos animais frágeis e foi um bom pastor de ovelhas. Ocorrendo uma dissenção entre eles, Caim partiu para o seu irmão e lhe feriu ao ponto que este veio a falecer. Foi a primeira vez que Caim viu a morte de um ser humano. Sentiu um vazio e uma dor que não conseguia compreender. Gritou seu irmão, mas ele não respondeu. Correu e foi chamar seu pai e sua mãe. Contou-lhes o que ocorreu. Eva sentiu uma dor profunda em seu peito e correu ao corpo do morto. Abraçou-o bem forte em seu peito e gritava por seu nome. Logo atrás dela, em pé, estava Adão consolando o irmão assassino. Todos sabiam o que estava acontecendo: o mal entrara no mundo. Caim conheceu o mal e por ele optou. Eva, chorando muito, gritava: 
- Deus, eu tentei. Eu juro que tentei. Me perdoa por não te dar o paraíso e te oferecer um morto no lugar. Me perdoa meu Pai. Eu falhei, eu falhei...
Em seu íntimo, ouviu Deus falar:
- Não chores filha. A caminhada mais difícil começou. Caim é livre e optou pelo mal. Diferente de Abel, Adão e você, meu amor. Não desista. Muitos outros seguirão o mesmo caminho de Caim. Mas haverá um momento em que aprenderão o caminho da justiça e do bem. E nesse dia Abel voltará para você e o paraíso que me prometeu estará realizado. Saíram dali e enterraram Abel. E o prantearam por anos...

Eva viu, durante toda a sua longa vida, seus filhos, netos e bisnetos optando pelo bem e pelo mal, muitas vezes. Mas esperava ansiosa por ver o dia em que aprenderiam o ca¬minho do amor, que Deus lhe falara. E morreu nessa esperança.
Após a morte de Adão e Eva, Gabriel voou até Deus, pois lhe viu chorar:
- Senhor, eles conseguirão reconstruir o paraíso?
- Sim, Gabriel -  disse Deus - conseguirão.
- Como o Senhor sabe, se eles são livres e, por isso, fazem o que quer e não o que o Senhor quer.
- Tenho fé neles Gabriel. E a fé não precisa conhecer o futuro, ou os segredos mais pro¬fundos. Ela apenas precisa existir. E sua existência é a prova de que ela está certa e é a única prova que se precisa.
- Mas e se não acontecer assim? Tudo estaria acabado?
- Tudo! Tudo o que fiz, tudo o que foi criado, acabaria. Mas eles conseguirão. Nem que pra isso eu empenhe minha própria vida...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A ilusão de se retribuir algo a Deus...

Uma das tentações da religião que se mantém dentro da cultura capitalista é a da retribuição. As religiões  judaica e cristã compreendem o amor como a graça de Deus que faz nascer o sol para justos e injustos. Nessa confissão, ambas entendem que não se trata de merecer ou desmerecer, mas da graciosidade divina de conceder tudo o que há. Justamente por isso, os profetas confessam as riquezas ou o amor por elas como um desvio dessa vontade profunda de partilha, presente em Deus.

Tal amor ao dinheiro ou ao poder, promove desvios dessa partilha e mergulha a criação de Deus  (humana, fauna ou flora) na miséria, por retirar deles aquilo que lhes foi concedido gratuitamente. A miséria é fruto de corações que se assenhoram daquilo que foi dado igualmente a todos.

Quando a religião justifica esses acúmulos e os qualifica como bênção de Deus, acaba por criar uma anomalia e transformar Deus em um promotor da dor, da fome e das injustiças sociais. Como forma de proporcionar paz no espirito e na mente daqueles que amam ao dinheiro e o tornam fruto da bondade de divina, cria-se a lenda da retribuição:

Deus, em sua infinita graça - contraditoriamente ao termo - requer de nós corações gratos. Entendendo "corações gratos" como corações prontos a retribuir a Deus.

Essas retribuições nada mais são do que fruto de uma não aceitação da graça divina. Não interessa, à graça, retribuição. Não interessa, à graça divina, restituição ou devolução de nada. Muito menos se pode considerar o acúmulo, ou viver bem por conta da miséria alheia, como bênção ou fruto da fidelidade a Deus.

Trabalhe 24h em prol do Reino de Deus e dele você terá o mesmo, financeiramente, que aquele que dele não se ocupa.

Retribuição não existe! Não se consegue devolver e, sequer, se espera devolução. Qualquer atitude caridosa não deve estar ligada à gratidão a Deus, mas ao profundo desejo se desfazer injustiças ou, no mínimo, mitiga-las. Pois, se compreendemos que as injustiças produtoras da miséria ferem a graciosidade da natureza, a graciosidade de Deus, as atitudes de caridade ou de luta contra a desigualdade se tornam bandeiras de quem aceita e defende atuação dessa injusta e maravilhosa graça.

Fazer do outro alvo de minha misericórdia para evoluir espiritualmente, conseguir coisas de Deus, aliviar minha consciência consumista e/ou exploradora,  ou de "retribuição" pelo muito que recebi de Deus, é uma traição à mensagem da graça e do amor imensurável de Deus que não requer devolução de nada. Deus dá, Deus ama e isso lhe é suficiente.

A exigência divina não passa pelo caminho do "estamos quites": Deus deu, eu devolvo parte. Passa sim, pela compreensão da igualdade de todos os seres e do direito à vida e de tudo aquilo que vem das mãos bondosas e misericordiosas de Deus. Passa pela consciência de que esse mundo está errado, que esse mundo transformou-nos  em merecedores e que esse sistema que tenta transformar Deus em um patrão, empresário do reino, na verdade nos faz nos dobrar diante de Satan. Diante daquilo que se opõe a consciência e a capacidade de se sentir imerecedor e se viver bem com isso.

Essa aliança entre o capital, a ganância, o desejo de retribuir a Deus "o pouco do muito recebido"  e o mestre de Nazaré é,  em termos religiosos, uma blasfêmia por si só. Uma demonização de Jesus, uma transformação do "Eterno, imortal e invisível" em um promotor de um sistema que coisifica a fauna, a flora e o ser humano.

Nesses termos, "gratidão" deve ser entendida como a aceitação da bondade de Deus sem cair na tentação de lhe devolver algo, como retribuição. A impossibilidade de se retribuir e a confissão alegre disso é ser agradecido. Entender que a graça de Deus é um favor e não uma troca, ou uma barganha. Uma busca idiotizada de se estar "quite" com Deus.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A Alegria de não ser Santo - Teologia com Zélia Duncan

É comum que os seguidores dos fundadores de uma ideologia, ou religião, se percam e passem a não perceber que seus mestres eram, na verdade, os hereges, traidores e revolucionários de sua época. Jesus e os apóstolos (erradamente acusados de fundar uma nova religião) não se tornaram exceções. A moralidade e o dualismo greco-romano institucionalizaram a fé cristã e a distanciaram de sua religião-mãe, produzindo, inclusive,  a base onde se firmou o anti-semitismo.

O foco que pretendo dar, está nesse Jesus escandaloso  que desafiou costumes que se distanciaram de seu objetivo. Costumes que se tornaram meras observações tradicionais que nada comunicavam de bom, antes, distanciavam o ser humano de si mesmo e dos outros. Ensinos que classificavam  os não cumpridores de injustos e pecadores.

Igualando-se a esses pecadores, Jesus manifestou a divina presença nas limitações humanas: O errado, ele justificou e o santo condenou. Para ele,  o confessado como puro, internamente, era podre. E os céus estavam abertos para as prostitutas que entrariam no reino antes dos religiosos. Amigo de pecadores, festeiro, advogado dos culpados e adversário dos santos e imaculados, Jesus cavou a própria cova.

Contudo, o mistério cristão confirma sua aprovação por parte de Deus que, em protesto por sua execução, o ressuscitou e o fez Senhor dos senhores. E, mais tarde, ele mesmo foi entendido como o Deus dos pais. O Deus do Antigo Testamento que encarnou-se e se tornou membro da genealogia humana. O criador se tornou criatura e se juntou aos pecadores.

Uma canção da Zélia Duncan seguirá nossa reflexão:

A alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina(o)
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu


Assim imagino o filho de Deus... separado do ser humano e distanciado deles. Não por sua vontade e nem separado de verdade. Mas doutrinas de retribuição aproximam Deus dos santos e afasta-os dos que ousam desobedecer sua vontade. Esse filho de Deus, contudo, cansou dessa "farsa" e resolveu ser humano, resolveu ser reconhecido como qualquer um. E o Filho "descobre" a beleza de ser humano e a alegria de não ser divino. E,justamente por isso, Jesus encontra Deus em si mesmo. Não mas regras e condutas aprovadas pelo bom costume e pelo juízo. Mas como um grande transgressor.

Transgressor do costume irracional do Schabat; Transgressor da pureza ritual; Transgressor da lei da justiça contra a adúltera; Transgressor das boas regras de comportamento nas festas; Transgressor do costume dos templos; Transgressor universalista que rejeita a doutrina da eleição israelita; Transgressor das esperanças religiosas quanto ao Messias; Transgressor da boa educação... e Assim, a alegria desses pecados de seu tempo  (pois o pecado moral é temporal), tomava conta dele.

E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano


Diferente do que se prega, Jesus não deseja uma espera do Reino. Ele testemunha sua presença dentro do ser humano ao afirmar que "O reino de Deus não vem com aparência exterior;  nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Eí-lo ali! pois o reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17.20-21). Jesus apontou que dentro do ser humano há essa parcela divina. Dessa forma,  o Reino de Deus é inerente ao ser humano. O ser humano não vai ao seu encontro, o ser humano o descobre dentro de si, dentro de sua humanidade. Então esse mundo, cada vez mais humanizado, se torna cada vez mais divino.

O prazer de estar aqui, em seu mundo, é confirmado por Mateus que desconhece sua ida aos céus (segundo o codex sinaítico, Lucas também não fala de ascensão aos céus):

"e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos". (Mt 28.20b)

Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser carne e osso.


Nada mais verdadeiro do que aplicar esses versos a Jesus! As perfeições exigidas pela religião desumana é um peso, uma hipocrisia e um convite à transgressão, pois exige do homem que ele negue seus instintos, negue sua humanidade: não coma da árvore do conhecimento, fuja dela, pois morrerá! No fundo, a religião esconde o real motivo de fugir do conhecimento:

Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente (Gn 3.22)

O conhecimento de si mesmo (se percebem nus, após comer da fruta) leva ao conhecimento divino e "Deus"/religiosos sentem-se ameaçados.Jesus,  todavia, incentiva e demonstra a grandiosidade do conhecimento libertador dos "edens religiosos", esses falsos paraísos criados para dar tranquilidade e impedir o ser humano de transcender, de se chegar ao conhecimento de si e de Deus: "filhos de Abraão", "seguidores da Lei". ou hoje: cristãos; eleitos; filhos de Deus; discípulos. Jesus denuncia esses títulos e o peso que vem junto com eles (ao mesmo tempo que sua superioridade) como se fossem a espada do Éden e os querubins, protegendo o acesso à vida (árvore da vida):

Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando. Mateus 23:13

Homens e mulheres que descobriram um jeito sem sal de rejeitar quem são: carne e osso. Justamente o que o Logos de Deus honrou ao se tornar:

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. (João 1.14).

Rejeitam o que são em nome de Deus e se colocam acima os outros. Para esses, Jesus conta a história do fariseu e do publicano que foram orar. Aquele que confiava em sua fidelidade a Deus, foi rejeitado por Ele. E o que acreditou na gratuidade do amor divino, foi por Ele justificado  (tornado justo).

É muito bom ser humano! Ser membro da raça humana! Tão bom que até o filho de Deus se tornou um. Divino como Jesus, só pode ser humano mesmo. Que aprendamos o prazer de estar na Terra cada vez mais. De encontrarmos, neste mundo, o Deus que ama a vida humana. O Deus que faz das imperfeições humanas, o belo de se ser humano.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Milagre da divisão dos pães e dos peixes.

Cada ano surgem novos smartphones; novos computadores; novos carros; a indústria da moda cria novas tendências ou reaproveita a tendência antiga, repagina e lança como nova. Cria-se um ambiente que nos faz sentir ultrapassados.  Que nos ensina a enxergar que o que possuímos, que mal completou um ano, está fora de linha. Há toda uma cultura para nos tornar invejosos ou pessoas invejadas. E há de se sentir bem se alguém está no segundo grupo.

Todo esse ambiente estimula a incompletude. Criando a falsa necessidade de consumir para se completar. Surgem assim os chamados "sonhos de consumo". Há de se considerar que todo sonho realizado abre espaço para um sonho ainda não sonhado. Somos naturalmente movidos pelo que não temos, ou melhor, pelo que almejamos. Uma vez realizada a "utopia", uma nova precisa substituir a antiga, do contrário, perecemos, nos deprimimos. Na cultura do consumo, o estímulo é nunca estar saciado. Nunca poder dizer: já chega.

Tratando-se de religião, nada mais certeiro para que criar pessoas gananciosas, orgulhosas por serem invejadas e invejosas do que colocar Deus como aprovador dessa cultura. Ao se criar cristãos ansiosos pelo dinheiro,  fama e posses, o cristianismo atual faz as pazes com mamon (o que já falamos nesse blog) e mata com requintes de crueldade a fé original, marcada pelo amor e pela partilha.

É assim que um texto que fala sobre o "partir do pão", vira o texto da multiplicação do pão. Ao lermos atentamente a passagem de Marcos 6.30-44 não encontraremos em momento algum a palavra "multiplicação". Da mesma forma, não encontraremos nenhuma menção a milagre ou poder de Deus.
O que encontramos é um homem que, com seus cansados discípulos, resolveu se retirar para comer. A multidão "atrapalha" a refeição e o faz ensinar um pouco mais. Esse "pouco mais" transforma a hora em "avançada". Os discípulos e ele não comeram ainda e nem as pessoas. Esse homem não ousa dispersar a multidão com fome e depois ir para junto dos seus e alimentar-se: se o que temos pra comer é pouco, todos comerão desse pouco. Há uma partilha, uma divisão do alimento e não uma multiplicação.

Gostamos de milagres! Gostamos de poder! A vida nos é interessante se houver um pouquinho de "Harry Potter" no dia-a-dia. Contudo, não é assim e aqui não estamos diante de um caso desses. Jesus não multiplica! Jesus divide, parte o pão e o peixe. Todavia, há uma informação que alimenta o prazer pelo milagre e nos faz "perceber" a exigência matemática da multiplicação e não da partilha:

E todos comeram e se fartaram. Em seguida, recolheram doze cestos cheios dos pedaços de pão e de peixe. Ora, os que comeram os pães eram cinco mil homens. Mc 6.42-44.

Cinco mil pessoas se alimentaram de cinco pães e dois peixes. E ainda há doze cestos cheios de pães e peixes a serem recolhidos. Há alguma explicação que não seja a de multiplicação?

Sempre procuro enfatizar que os textos bíblicos possuem seu caráter histórico, mas nos termos da história antiga, reinterpretada à luz da fé antiga e escrita por homens e mulheres da antiguidade. O que quer dizer que os textos se distanciam dos relatos históricos dos padrões atuais e se aproximam bastante da mitologia e da simbologia.

Existem outros relatos de "Multilplicação de Pães e Peixes" mas que os estudiosos chegam ao comum acordo que se trata de um único relato contado repetidas vezes. Com mudanças, obviamente, devido a natureza da tradição oral sobre o história.

Pensando nisso, devemos relembrar o que já foi dito: não existe relato de multiplicação. O que há é uma divisão do pouco alimento. Em todos os relatos a questão numérica é bem interessante. Sempre se recolhe sete cestos ou doze, de acordo com a "memória" da tradição. E sempre há o número sete (como quantidade de pães ou como soma de cinco pães e dois peixes). A quantidade de gente também é um número fabuloso! Quatro mil pessoas! Cinco mil homens (fora as mulheres e crianças)!

É totalmente improvável estarmos diante de uma contagem dos dias atuais. Esses números, tanto de alimento quanto de pessoas, estão mais ligados à qualidade do que à quantidade! Pertencem ao mundo do símbolo religioso e não da matemática. Não há lógica e nem uma reunião de matérias para criar novos peixes e novos pães. 

O sentido desse texto esta na importância da partilha, do partir do pão (alimento) e não do pensamento egoísta: que vá e comprem pão pelo caminho, o que temos é só nosso. Óbvio que partir cinco pães e dois peixes entre cinco mil pessoas é manter todos com fome, na matemática fria e desprovida de símbolo/poesia.

Justamente por isso não se trata de fazer uma conta e sim de se pensar na qualidade do ato e na consequência desse ato. A mensagem é simples: se todos tomarem a iniciativa de repartirem seu pão, ninguém passará fome. Se ousarmos, todos, repartir o que temos, resolveríamos o problema da fome. Ter suas necessidades saciadas e não observar que o outro, alvo de sua mensagem religiosa, não possui o que comer é cair no eterno dilema entre fé e obras:

"E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e nào lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?" - Tiago 2:15,16

Diferente dos líderes religiosos que bancam suas "vidas de marajás" com o dinheiro das pessoas que creem e usa esse mesmo texto para ganhar delas alguma oferta, fazendo-as acreditar que Deus multiplicará aquilo que lhe foi ofertado, Jesus oferta o que tem para a multidão, correndo o risco de ele mesmo ficar sem condições de saciar sua fome. E faz seus discípulos entenderem a necessidade de fazer isso.

Uma compreensão antiga desse texto, faz pensar que não apenas os discípulos tinham o que comer. A quantidade de pessoas presentes - que dificilmente seria possível ser mais de quinhentas pessoas - também fizeram a caminhada tendo o que comer. E a atitude de Jesus de dividir o que tinha, fez com que cada um, que guardava sua comida para si, golpeado pela consciência e desprendimento do mestre, fizesse o mesmo gesto. Oferecendo, assim, também, os pães e peixes que possuíam. Obviamente, àqueles que nada trouxeram, foram agraciados pelo gesto de solidariedade gerado através do exemplo do Mestre.

Tal interpretação parte do princípio de que existe algo histórico por trás desse episódio. Pouco podemos concluir se tal situação realmente aconteceu, embora, obviamente, pelos sinais de "não multiplicação", mas de PARTILHA, essa versão se apresente com mais coerência. Na, claro, possível historicidade da narrativa.

Entretanto, se factual ou não, essa, certamente, é a mensagem que Marcos procura transmitir: a importância não da multiplicação, como que dizendo que Deus/"Natureza criada por Deus" não nos dá o suficiente. Mas a exigência da partilha. Daquele que tem muito, dividir com nada tem. E, ambos, se saciarem e ainda, devido a profundidade do gesto, ter suficiente para o depois. Como nos cestos recolhidos depois. Estes pertencem ao grupo e não mais àqueles que ofertaram.

Que a partilha, a divisão do alimento, o repartir do amor e da solidariedade nos ilumine. Retire de nós o anseio pela multiplicação, pelo consumo, por ser invejado  e, certamente, nos afaste do caminho do egoísmo.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O pecado de Sodoma e Gomorra

Histórias e mitos sobre cidades destruídas por deuses ou desastres naturais são comuns na antiguidade. No caso da Bíblia, temos a história de Sodoma e Gomorra (Gn 18-19). Para que não se perca de vista o que esse relato procura falar, é preciso observar que Sodoma e Gomorra não são exclusividades do Gênesis e, tão pouco, o seu relato é o primeiro a mencioná-las.  O profetismo e a sabedoria de Israel vêem as duas cidades como símbolo da infidelidade de Judá e Israel Ambas, simbolicamente, são chamadas de Sodoma e Gomorra. Vemos isso em Amós 4.11;  Jeremias 23.14; Isaías 1.10-11; Lamentações 4.6 e Ezequiel 16.49-50.

É bom atentar que esses livros são datados de antes do livro de Gênesis e, por isso, demonstram que a história de Sodoma e Gomorra era já conhecida no meio do povo. Talvez como um provérbio sobre o julgamento divino. Entretanto, é comum se falar que o pecado das duas cidades esteja ligado ao homossexualismo. Tal afirmação é reducionista e bastante injusta. No texto de Ezequiel, por exemplo, já vemos que se fala de soberba, fartura de pão (rica mas avarenta), ociosidade e que as cidades não tinham amor pelos necessitados. Alguns ainda podem pensar que a palavra "abominações" se refira à homossexualidade. Ainda assim, tal colocação demonstraria um pensamento bastante simplista e equivocado.

É preciso lembrar de um costume muito comum, no mundo antigo, antes de falarmos sobre a história: a "Lei de Hospitalidade". Essa lei pregava que ao chegar um estrangeiro em sua terra, você deveria recebê-lo em sua casa e guardá-lo sob sua proteção. Garantir segurança, saúde e alimento. Havia, inclusive, a ideia de que os deuses poderiam aparecer como errantes, a fim de testar a bondade dos homens, nesse sentido. Essa situação é a que ocorre com a Abraão no início do episódio. Três homens aparecem e o justo Abraão os recebe em casa. Sem saber, em princípio, que um deles é seu Deus, testando-lhe a hospitalidade. Sua divindade é revelada progressivamente. É pensando nele e em Ló que Hebreus narra:

"Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos".
Hebreus 13:2

Os dois homens que estão com Javé devem ser interpretados como homens no sentido restrito da palavra. A expressão "anjos" (Gn 19,1) nada tem de conotação necessariamente transcendental. É comum a tradução "anjos" se referindo aos homens enviados por Deus à Sodoma e Gomorra. O termo em hebraico, contudo, não possui necessidade alguma de se pensar um ser divino ou espiritual. A palavra  מַלְאָךְ (mal'ak) nada mais é do que "Mensageiro". É a interpretação do tradutor que põe a palavra "anjo" (por sinal derivada do grego ἄγγελος - angelos - que quer dizer "mensageiro") e dá a nós o sentido transcendental.  Contudo, sem essa influência grega, o texto deve ser lido como dois tipos de "profetas" que são enviados para Sodoma e Gomorra. Ainda, contudo, que se pregue a ideia de serem seres transcendentais (como possivelmente Hebreus faz), deve-se entender o porquê do envio. Isto é mais importante do que a identidade deles.

Em oposição à atitude de Sodoma e Gomorra está a de Abraão e Sarah: ambos recebem os viajantes sem saber quem são e lhes dedica atenção, repouso e alimento. Cumprem fielmente o costume da hospitalidade. No entanto, ao chegar na cidade, os dois mensageiros (espirituais ou não), são bem recebidos apenas por Ló, sobrinho de Abraão, que age da mesma forma que o tio. Contudo, os homens da cidade, desejam abusar dos visitantes:

"E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros
Gênesis 19:4"

O texto deixa claro que todos os homens, sem exceção resolvem fazer isso. Ou seja, não havia NINGUÉM na cidade que cumpria a lei de hospitalidade. Aliás, não apenas não cumpriam como abusavam dos visitantes. Ló poderia ser apontado como o único da cidade a praticar o costume, entretanto, os homens garantem que ele não era natural da cidade:

"Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo? Agora te faremos mais mal a ti do que a eles(...)" - Gênesis 19:9

Tal abuso possui conotação sexual? A palavra יָדַע - yada`, pode possuir outros significados: notar, observar, descobrir como ele é, reconhecer e, sim, "ter relações sexuais" que parece ser o utilizado no texto. A passagem paralela a essa, em Juízes 19, onde a concubina do levita é morta e estuprada, deixa claro o sentido sexual do termo. Entretanto, é preciso salientar que o estupro faz parte da violência denunciada contra Sodoma. Se no lugar de irem mensageiros, fossem mensageiras, a situação seria a mesma. Não é a homossexualidade o problema, é, sim, serem violentos.

A denúncia contra Sodoma não está pautada em sua decisão sexual, mas em não cumprir a hospitalidade. Decisão tratada por Deus como o cúmulo da maldade. Dentre as denúncias proferidas por Ezequiel (antes do relato do Gênesis) não há menção à sexualidade. Bem verdade que o relato de Sodoma "ganhou" a presença de Abraão, justamente pra poder demonstrar a diferença entre o homem justo e os homens injustos.

Há de se considerar, também, que no ambiente de retorno do cativeiro, onde esse relato ganhou exatamente a forma como a que temos, era necessário deixar claro o motivo da destruição de Judá e de Israel pelas mãos dos Babilônicos e Assírios. Nesse recontar, os autores procuram deixar marcado na mente do povo que se agirem novamente como Sodoma e Gomorra, a terra será devastada como foi no cativeiro. E, ao mesmo tempo, demonstrar que a proteção ao estrangeiro, o cumprimento da hospitalidade, é abençoador. No caso de Abraão, lhe concedeu o cumprimento do nascimento do filho Isaque, sendo ele já um idoso juntamente com sua esposa Sarah. Lembro que "Sodoma e Gomorra" já eram expressões "comuns" usadas contra Israel e Judá. Nesse sentido, o comportamento do Abraão é demonstrado em profundo confronto com o comportamento das cidades que afirmam tê-lo como patriarca.

Olhar para o texto que narra a destruição de Sodoma e Gomorra e se limitar a atitude "homossexual" dos moradores da cidade é, na verdade, procurar base bíblica para alimentar o próprio ódio, a própria homofobia. As preocupações dos profetas são sempre voltadas para a injustiça, opressão, ganância, exploração, corrupção e violência. Tudo isso realizado em nome de Deus agrava a ira de Javé e piora as palavras de condenação dos profetas . E é nesse sentido que Judá e Israel são, por vezes, colocadas como Sodoma e Gomorra. O próprio Jesus denuncia que para Cafarnaum (Mateus 11:23,24), uma cidade da Galiléia, haveria mais rigor no julgamento do que para Sodoma e Gomorra. Nisto ele se refere à sua incredulidade diante dos sinais que a cidade presenciou, e não a suas práticas sexuais.

Antes de julgarmos às pessoas como "Sodoma e Gomorra", ou seja, alvos da condenação divina, devemos, como os judeus que voltaram do cativeiro e escreveram essa história, pensar o quão de Sodoma e Gomorra somos. O quanto de violentos, exploradores, injustos, avarentos, gananciosos e o quanto abusamos dos outros - sexualmente ou não. É contra isso que os profetas divinamente inspirados se erguem.