quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sobre as Fabíolas...

Quando gargalhamos da tragédia alheia algo realmente está errado. Não sou moralista e tão pouco situações como a que recentemente se tornou viral me fazem buscar o culpado. Apenas me fazem refletir o quanto estamos prontos a tornar tudo piada. Existe uma palavra muito simples cujo significado não é bem percebido no cotidiano: empatia. A palavra vem do grego "empatheia" e tem o sentido de se estar "dentro do sentimento do outro". É a capacidade de se pensar "como eu agiria no lugar dessa pessoa?", ou ainda e, talvez, melhor, "o que eu sentiria nas mesmas circunstâncias?".

Sim, falo do "caso Fabíola". Dele fiquei sabendo ainda no trem quando alguém exibia, na minha frente, o vídeo para uma colega. Não ouvi som algum e até agora não sei as palavras usadas. Mas parte das imagens foi suficiente para que eu não me preocupasse em continuar vendo. Não me interessei e nem procurei saber sobre o que se tratava. Alguém que ficou interessado ou até recebido informações, deve saber o nome das três pessoas. Eu, no entanto, durante a maior parte do momento só ouvia falar de "Fabíola". Não conhecia nada dela! Apenas o nome! E já sabia que ela era "vagabunda", que "não se dava o respeito", que era "piranha", "safada" e que muitos homens, por acharem isso dela, sentiam (ainda que veladamente) uma inveja erotizada do "amante". Sim... Nesse mundo onde o machismo reina, mulher "vagabunda" não serve para nada, mas para sexo serve muito. E quando se torna "publicamente safada", passa a ser publicamente desejada e perde sua "autoridade" de negar qualquer investida. Essa é a Fabíola que todo o Brasil conhece. E ainda que ela tenha o "comportamento sexual" imoral (ou imoralizado), isso nada tem a ver com ela. O ser humano é muito mais do que isso. O ser humano, em uma sociedade, é filho, irmão, amigo, profissional, vizinho e, acima de tudo, é um universo de valores éticos e antiéticos, morais e imorais que somente ele conhece. Já dizia a tão admirada Clarice "Se for falar mal de mim, me chame. Sei coisas horríveis a meu respeito!".

Mas falo também do desequilíbrio emocional do marido machista que acha que por ser traído tem o direito de bater, humilhar e expor aquela a quem dia antes disse "te amo". Dizem que o amor é algo que não exige retorno. E é bem verdade... quantos homens não amam mulheres que não correspondem? Ou mulheres que amam homens que nada sentem por elas? O amor não exige retorno para existir, mas nós exigimos retorno para permitir que o amor nos guie. Na ausência de retorno, nos tornamos donos. Sendo homens (falo como uma pessoa do sexo masculino) temos todo o discurso de nossos breves antepassados que nos permitem "lavar nossa honra". Expor as mulheres que nos traem é uma forma de esconder nossa culpa e fazê-las únicas culpadas. Haverá quem nos console, haverá quem nos zoe, mas, acima de tudo, haverá justiça! Não carregaremos nossa vergonha sozinhos! Se sentimos vergonha, que as mulheres que amamos e devotamos respeito, por terem não correspondido a esse jogo de interesse que chamamos "amor", sejam crucificadas. E, assim, a irracionalidade toma conta e o "corno" se torna "maluco", "retardado", "imbecil" e "idiota". Classificações que com o tempo somem e, sinceramente, até brincando se chama um amigo assim. Ela, entretanto, se torna a "vagabunda". E isso a marcará para todo o sempre.

Mas quem se importa? Quem se lembra que sabe coisas horríveis de si mesmo? Quem se importa se havia amor naquele encontro de motel e não apenas "lascívia"? Quem se importa com o prejuízo material (carro), emocional, psicológico, social e com o profundo medo de sair na rua? Da profunda vergonha de se olhar no espelho e do desejo insistente de suicídio? Ninguém se importa... é tudo piada e motivo para rirmos. Empatia? Aquele sentimento que nos torna humanos e nos faz pensar o que eu sentiria nas mesmas situações (exposição na hora e exposição contínua na internet) não tem significado algum...

Jesus, um tempo atrás, viveu algo semelhante. Um pessoal se reuniu na "rede social" da época e "postou" um "vídeo" expondo uma mulher pega em flagrante adultério. A postura do mestre foi a de "não ver o vídeo" e, sem olhar para ele, convidar cada um a "deletar" o arquivo, ao dar condições de fazerem pensar sobre as "coisas horríveis" que cada um sabia a seu respeito e que, nessas horas, a gente infelizmente esquece. E ninguém ousou continuar tacando "adjetivos" nela. E Jesus, que nem viu o vídeo e por isso não foi testemunha de nada, não tinha nada a dizer a ela a não ser "vai cuidar da sua vida e se preserve". Uma verdadeira aula de empatia...

Acho que nem precisa dizer o que nos tornamos... fica bem fácil entender qual seria o sentido de antipatia. Se por algum motivo fica difícil, essa também vem do grego e o sentido é o oposto de empatia e nada tem a ver com ser chato ou metido. Antipático é aquele que sente o contrário do que o alheio sente. Isso quer dizer exatamente o que somos. Enquanto as pessoas sofrem de verdade, a gente ri do sofrimento delas. O sofrimento virou piada. Somos isso... antipáticos. Ai dos outros, por isso...

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