terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O Reino não é desse mundo...

O reino de Deus, ou reino dos Céus, segundo Mateus, era o centro da mensagem de Jesus de Nazaré.  Gosto da expressão "Senhorio de Deus". Creio que traduza melhor a ideia, mas seguirei com "Reino de Deus", para melhor guiar dentro dos textos bíblicos. Leonardo Boff diz que Jesus não veio pregar a Igreja, mas pregar o reino de Deus. Mais do que caminho comum na pesquisa bíblica, está a oposição: Reino de Deus de um lado e Império Romano de outro. Como uma proposta política que diverge da proposta imperial.

No Império, César é a cabeça de Roma e sua forma de domínio, baseada na "pax romana", prega a superioridade do império e da cultura romana sobre os demais povos. Há, de fato, de se reconhecer a superioridade bélica, de engenharia e higiênica: mais fortes, mais limpos e com grandes construções, os romanos tinham motivo de sobra para se sentirem superiores. Contudo, um povo resolveu resistir suas tentações culturais e seu domínio (não apenas este, mas este é o que importa no momento): os judeus.

A resistência judaica era  bastante presente nos movimentos populares que erguiam Messias com promessas de libertação e independência política (hoje, certamente, chamaríamos de terroristas, se fôssemos pró-Roma): Judas o Galileu, Teudas, a Revolta Judaica de 64 e Simão Barcovah são alguns exemplos. Todos estes usavam a mesma lógica romana para guerrear contra ela: a lógica bélica. A lógica da vitória a partir da guerra, a partir da violência. Alimentados pela esperança de uma manifestação divina, os judeus que se uniam a estes Messias estavam dispostos, inclusive, ao martírio, para instaurar o reino de Deus, independente e superior ao império romano.

Eis que no cenário surge um Mestre judeu chamado Jesus, filho de José; ou Jesus, filho de Maria; ou ainda, Jesus de Nazaré. Como sempre falo, dele temos poucas informações. O que sabemos com maior segurança é aquilo que seus discípulos interpretaram sobre ele. E eles afirmaram categoricamente: Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo. Entendiam Jesus como Messias e como o libertador do jugo de Roma. Mas nos escritos que deixaram para nós, não entendiam sua proposta política como uma nova Roma: conquistadora, dominadora, temida e reverenciada. Entendiam o reino não como uma colonização, mas como uma manifestação da bondade, liberdade, fraternidade e justiça. A oposição contra Roma não se tratava de uma guerra nos termos bélicos. Mas de uma ideologia que fazia de todos os seres humanos irmãos, membros da família de Deus. Quando perguntado sobre seu Reino, o Jesus joanino dizia:

O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui
João 18:36

Seu reino não pertencia a essa forma de pensar e agir dos "reinos do mundo". Jesus não estava simplesmente, em uma conotação fora da realidade, dizendo que seu reino pertencia a uma esfera superior, como que separando o mundo secular do mundo religioso. Jesus está afirmando que seu reino não pertence a esse sistema. Não segue a mesma linha que o que Roma seguia, do contrário, ele não seria entregue. Ele foi entregue justamente por seguir uma outra lógica: a lógica do "YHWH Shalom" e não da "Pax Romana".

Falo sobre isso, de início, para escrever sobre outra coisa. É comum o pensamento religioso colocar o Reino de Deus como um lugar lá no céu, longe desse "Mundo tenebroso". Uma verdadeira rejeição a este mundo criado. Uma condenação a este mundo que as Escrituras Sagradas chamam de mundo de Deus. Esperam a aparição apocalíptica de um Deus descendo dos altos céus, se manifestando e demonstrando sua superioridade contra a humanidade corrompida, corrupta e corruptora. Há outro texto, contudo, que demonstra a existência de outra forma de entender. Estas palavras vêm diretamente do Jesus lucano:

E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior.Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós.
Lucas 17:20,21

Oposto ao desejo alienante de um futuro hollywoodiano, onde Deus, de forma muito infantil, se manifesta e diz a ateus e membros de outras religiões: "Vejam minha glória e minha superioridade! Os cristãos estavam certos". Este cenário encontra total apoio na mentalidade do império romano, mas destoa das propostas interpretadas pelos evangelistas. Assim diz o Jesus, segundo Marcos:

Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles; Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Marcos 10:42-45

Um reino onde o Rei (Jesus, no caso) é, na verdade, servo. Serve aos seus seguidores e não se assenhora. O reino onde o rei é um igual e exige igualdade. Um reino onde o rei não age como superioridade, mas como um igual, um irmão. Tal situação foi muito bem entendida por outro evangelista, João, ao substituir o relato da santa ceia pelo "lava pés" (tarefa destinadas a escravos):

Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes. João 13:12-17

A superioridade da proposta política de Jesus é, por isso, chamada de utopia (sem lugar, não lugar). Não há lugar para isso nesse sistema. Não existem condições de se viver isso dentro do império Romano. É um sacrilégio des-divinizar ao César e torná-lo, por exemplo, igual a um escravo. É demasiadamente louco colocar um sacerdote em pé de igualdade com um cego mendicante. Como um mestre judeu, que deveria estar em acordo com as regras de pureza, ousa tocar em um leproso? As castas ou classes sociais se continuarem existindo, nessa proposta, existirão como que inexistentes: todos são iguais. Já não há tarefa de servo, tarefa de senhor, serviçais e senhores. Todos deveriam ser iguais.

Lógica completamente inexistente nos cristianismos de discipulados ou de falsa apostolicidade de nossos dias. Da mesma forma, inexistente nas propostas cristãs de superioridade religiosa ou cultural. O movimento pós-pascal não nasce para ser superior, mas para ser servo. Para demonstrar, pela fraternidade, o quão malignas são as armas e opressões político-religiosas.

Costumam utilizar um texto interessante para transformar o reino de Deus em uma mágica. Em um poder sobrenatural sobre o cotidiano humano:

Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. Mateus 6:31-34

Colocam nos seguintes termos: frequentem uma igreja, jejuem, leiam a bíblia, preguem o evangelho e todas essas necessidades serão supridas. Como se Deus, de alguma forma, por você estar trabalhando para a ampliação da instituição religiosa que você congrega (sob a desculpa de estar fazendo para Deus), fizesse com que todas as suas necessidades fossem supridas.

Não! É justamente buscar (ζητέω) com esforço, dedicação, com exigência, com o intuito de realmente encontrar o reino de Deus. Essa busca, ou procura, não é por um lugar visível. Em todo caso, por algo que possa ser encontrado. Como alguém que sabe que sua busca encontrará resultado. É necessário procurar por esse reino e por sua justiça (δικαιοσύνη). Uma palavra grega que traduz a Tsedacá, hebraico. Cujo sentido é igualdade. Como que "ajustando" o que está "fora do eixo". O judaísmo entendia que a Tsedacá aproximava a vinda do Messias. Na procura pelo reino de Deus e na busca (prática) da justiça desse reino, óbvio, a consequência é todas as necessidades serem supridas.

Um reino de justiça, amor, igualdade e fraternidade, elimina a fome, a miséria e a desigualdade social. Logo, a busca e implantação dos valores do Reino de Deus (um reino utópico, por assim dizer) faz com que "todas essas coisas sejam acrescentadas". A busca por essas coisas, sem a justiça e sem a igualdade (o que é comum em nosso mundo, em nosso reino), nos coloca em competição, amplia o desejo pela desigualdade e nos faz, inclusive, invejosos e disputadores. Tudo o que é bem aceito e sua nocividade escondida  pelo falso senso de meritocracia. No reino de Deus não há meritocracia. Há misericórdia, compaixão e igualdade. Por isso mesmo, "não é desse mundo". Não é desse sistema desigual! Não ergue uns acima dos outros. Elimina a pirâmide. Por isso mesmo... não nos interessa. Somos desse mundo! E quem deseja implantar essa blasfêmia entre nós, crucificamos! Pois é assim que funciona no mundo dos homens.

Nenhum comentário:

Postar um comentário