quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

E quem é Jesus?

Marcos, Mateus e Lucas nos deixam registrado um episódio bem interessante. Segundo a versão mais antiga:

"e no caminho perguntou aos seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que eu sou? E eles responderam: João o Batista; e outros: Elias; mas outros: Um dos profetas. E ele lhes disse: Mas vós, quem dizeis que eu sou? E, respondendo Pedro, lhe disse: Tu és o Cristo". Marcos 8:27-29

Já Mateus e Lucas acrescentam a informação "Filho do Deus vivo" e "Filho de Deus", respectivamente. João não nos informa esse episódio, mas mantém a declaração, agora, nos lábios de Marta, que diz "Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo" - João 11:27. Em comum, em todas as versões, está a declaração pessoal de Pedro - que fala em nome dos discípulos - e de Marta, que, mesmo em luto, compreende a auto declaração de Jesus "Eu sou a Ressurreição e a Vida".

Mas e hoje? Quem seria Jesus? Há livros que o chamam de psicólogo; outros copiam sua forma de liderança com o intuito de aumentar o lucro de suas corporações; há quem o julgue como o líder fundador de uma grande religião; Mas há os cristãos que - além de existir no meio deles essas mesmas declarações - dizem que ele é o Filho de Deus. Usam a mesma palavra de Pedro e que Marta. E, com essa declaração, não dizem absolutamente nada. Uns reduzem Jesus, outros, nada dizem dele.

Tentando voltar nossa mente para o que se passava antigamente, lembraremos de um imperador romano chamado César Augusto. Para quem não sabe, seu nome original era Caio Otaviano (ou Cai Otávio). Filho adotivo de Júlio César que, ao se tornar imperador, seu nome ficou conhecido como Imperador Augusto, ou Imperador César Augusto, Filho de Deus (Imperator Caesar Divi Filius Augustus).

Júlio César, segundo o Senado Romano, foi recebido entre o deuses como um igual e ganhou o título de Deus (apoteose). Augusto, sendo filho de Júlio, era, então, o Divi Filius, o  filho de Deus. É preciso entender que isso não se trata simplesmente de um título sem fundamento religioso. Muito pelo contrário! Havia estátuas e cultos ao imperador, à sua essência divina. Ao mesmo tempo, este título possuía um apelativo político, posto que o cabeça de Roma era um deus. O título Augusto é bem isso: digno de adoração, de veneração - Sebastos, em grego.

O que os primeiros cristãos deveriam responder quando perguntavam quem é Jesus?

Essa é a grande questão! Os cristãos sabiam bem que era Jesus e havia, certamente, muitos rumores sobre ele. Roma não teria problema algum em receber mais um deus em seu panteão. Havia espaço, certamente! O grande problema era a resposta que os cristãos davam sobre Jesus.... De um lado estava o "Imperador César Augusto", do outro o "Senhor Jesus Cristo". Mas não se tratava de apenas uma oposição nomina. Era uma oposição real! Ao ser chamado de Cristo (e somente Cristo), os cristãos já deixavam claro que sobre ele havia a verdadeira realeza dos judeus. Jesus era o ungido de Javé, prometido pelos profetas e que, certamente, livraria do jugo de Roma. Ao acrescentar "Filho de Deus", ou "Filho do Deus vivo", colocavam-no em "pé de igualdade" com o romano imperador. Entretanto, esse "pé de igualdade" é totalmente questionável, já que Augusto é filho do deus Júlio César, divindade não reconhecida pela cultura de Jesus e de seus seguidores. Jesus é o filho de Javé! Nas preciosas palavras de Mateus, filho do Deus Vivo. Em João a coisa fica ainda mais pesada e mais clara! João afirma que "Deus enviou seu unigênito filho". Deus envio o único filho que gerou ao mundo! Único! Nenhum outro pode ser chamado "Divi Filius".

Tal intitulação não tinha nenhuma ignorância política! Era política! Tal intitulação não tinha nenhuma ignorância religiosa! Era religiosa! Numa união indivisível entre religião e política, a declaração cristã tinha como olho atacar diretamente o culto e a cultura dominadora de Roma. O contrário do que se diz hoje, Jesus, mesmo que morto por Roma, continuava sendo aquele que lutava contra o império romano. Sua luta nunca foi despolitizada! Era política! Sua luta nunca deixou de olhar a vida humana em sua dimensão espiritual! Era Espiritual! A espiritualidade está não apenas nos atos de piedade... A espiritualidade humana envolve sua vida consigo, com o outro e com o meio. É, portanto, psicológica, social e política! Declarar Jesus como "Filho de Deus" era abarcar todas essas dimensões e, ao mesmo tempo, confrontar aqueles "dominadores deste mundo tenebroso". Que, infelizmente, a igreja aprendeu a pensar ser o diabo e não o diabólico imperador.

Dizer, hoje, que Jesus é o filho de Deus, nada comunica! Nada fala! Nada acrescenta! Ainda mais em um mundo onde todos se declaram filhos de Deus. É preciso resgatar a força dessa declaração, apresentando um Jesus que está dentro da sociedade e não em um "alto e sublime trono". Aliás, a imagem desse trono já deixa clara, também, sua visão política: Deus é o rei!

É triste quando o evangelho se torna algo religioso, preocupado em salvar as pessoas do inferno. Dando garantias sobre algo que ninguém garante nada (pós-morte). É triste quando o evangelho vira um engodo para se conseguir dinheiro, fama e sucesso. É triste quando o nome de Jesus sai das lutas sociais, se distancia da periferia, some dos prostíbulos, desaparece do cotidiano por ser "puro demais". É imensamente doloroso quando Jesus se torna defensor da moral e dos bons costumes  - atitude de Augusto que se tornou "Pai das famílias de Roma". Não! Jesus não é o pai das famílias e nem fica lutando pelas famílias de modelo "comercial de margarina". Jesus é o Jesus dos leprosos, dos doentes, das prostitutas, dos publicanos traidores, dos marginalizados, daqueles que são considerados impuros. A pureza mantém Jesus elevado. Enaltece o Cristo como um imperador romano!  A miséria conhece o Jesus que anseia por dividir pães e peixes; bagunçar um templo dedicado a Deus onde as pessoas ganham dinheiro; conhece o Jesus que trata as mulheres como mães e as prostitutas como irmãs. Um Jesus que não se preocupava em nos livrar do inferno, mas construir, aqui, um paraíso. E ao céu ele promete levar o "malfeitor" da cruz, enquanto, que para os religiosos, diz “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estes que, segundo Mateus, tiveram dele as seguintes palavras: Ai de vós, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um convertido; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.

Esse é o Jesus que eu conheço... Se me perguntar é o que responderei.

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