quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Um Desabafo, apenas um Desabafo

Há apenas uma certeza sobre o que pretendo falar. Antes, contudo, preciso ponderar algumas coisas: não importa se você mora no campo, na favela ou nos grandes centros; se vive uma cobertura no Leblon ou em uma favela esquecida. Você, certamente, não gostaria de ser discriminado e você, certamente, não gostaria de ser assaltado. Aquilo que não gostamos de que seja feito conosco, é justamente o que fazemos ou o que, de certa forma, aprovamos.

Leio discursos que me doem as vistas e ouço falas que me machucam os ouvidos: "cidadão de bem", "pessoas honestas" e tantas outras qualificações que me deixam, ao mesmo tempo, indignado e perdido. E completando, há outras que me causam semelhantes dores: "marginais", "bandido bom é bandido morto" e similares. Expressões que me fazem perguntar: do que estamos falando?

Meu pai é lanterneiro e minha mãe era manicure, costureira e cabeleireira. Ele estudou até a 4ª série e ela até a 7ª. Todos viemos de Pernambuco (meus pais, dois irmãos mais velhos e eu). Morando na parte pobre da Baixada Fluminense, vivi uma época em que as pessoas mais ricas que eu conhecia eram as que tinham carro e telefone, em casa. E, ainda assim, essas eram as pobres, diante de tanta riqueza concentrada na Zona Sul que, confesso, lembro-me de ter ido duas vezes quando criança: na Praia de Copacabana e na Praia da Urca. Não me recordo de discriminação pois, embora filho de mulato e descendente de índio, era, até meus 16 anos, considerado loiro (ou de cabelo claro), meu irmão do meio era moreno de cabelo tão liso que nem se precisava pentear e meu irmão mais velho, branco. 

Cedo, encontrei na Igreja Metodista a possibilidade de conhecer outras pessoas e de outros mundos, até então desconhecidos para mim. Em encontros regionais e nacionais, conheci adolescentes muito ricos e outros mais pobres do que eu. Contudo, ali, no meio, eu não tinha "malícia" suficiente para saber quem era quem e nem me importava com isso. A inocência de minha adolescência era gigante. Por algum motivo, alguns "ricos" achavam que eu fazia parte do mesmo grupo e deles ouvia comentários que me deixavam assustado. 

Devido a estes encontros e conhecer "novos mundos", consegui notar o que não via: Dentro da minha comunidade de fé havia a discriminação racial e, também, social. O que me tornou um adolescente fechado para algumas pessoas e com grande dificuldade de entender certos comportamentos. Mas uma coisa eu tinha certeza, eu era bem pobre e por mais que, por motivos alheios ao meu entendimento, me sentisse bem recebido em determinados grupos, ainda assim, não me sentia parte e, por vezes, me indignava estar ali.

Meu irmão mais velho, um dia, resolveu se sacrificar e me pagar um curso de informática básica (Windows, Word, Excel e PowerPoint). Foi onde descobri que tinha talento para o mundo tecnológico. Um tempo depois, um amigo me indicou para trabalhar em uma empresa que fazia impressão de crachás e cartões de crédito. Lá notei ser autodidata: aprendi, sozinho (pois a Internet era discada e não poderia usar para pesquisa) a usar o Corel Draw e o Photoshop. Incluindo, assim, no meu trabalho, não apenas a impressão dos dados, mas a arte dos Crachás e Cartões de Crédito. Contratado por uma concorrente, fui trabalhar na Zona Norte. Em Cascadura. Meu primeiro emprego fora da Baixada Fluminense. Até aí, nenhum problema. Todos éramos da "parte pobre" do Estado. Nos dávamos muito bem! Eu só havia conhecido o preconceito dentro da Igreja e por parte de adolescentes e jovens. Algo que era fácil "driblar" na mente.

Da Zona Norte, fui dar aula de Informática em Queimados, na Baixada. Lá tive contato com pessoas de todo o tipo. Reencontrei o preconceito entre os próprios alunos. Como era muito jovem (20 anos), era fácil encontrar alunos mais velhos e mais novos. Lidando com o mundo da informática e tendo meu primeiro computador (usado), pude, em casa, ver que o desenvolvimento de sistemas e sites era parte do talento que havia descoberto. Facilmente, aprendi o suficiente para trabalhar em outra empresa, como desenvolvedor web. Onde fiz tanto a intranet quanto o Site. Lá conheci pessoas, também, de outros lugares onde, em momento algum, classifiquei como inferiores. Embora, por vezes, ouvia a necessidade de eu me mudar. De sair de Mesquita para um lugar melhor. 

Ouvia isso de pessoas que NUNCA haviam pisado no chão da minha cidade. Foi o início real do que eu entendi ser rotulado, simplesmente, por morar em um lugar afastado do grande centro. Engraçado que o rótulo foi de julgarem que eu tinha condições de morar em outra lugar. Seria bem-vindo numa área melhor. Queriam que eu fizesse parte de um grupo mais elevado, em termos territoriais.

Mas nada foi pior do que a experiência de cursar a Faculdade de Teologia do Bennett, no Flamengo/RJ, no sentido do que estou falando, claro.. Algumas pessoas me consideravam inteligente e quando ouviam que eu morava em Mesquita, estranhavam e diziam que eu parecia ser alguém da Zona Sul. Porque tinha "a cabeça muito boa para quem mora na Baixada". Alguns juravam que eu era membro da Igreja do Catete, o que me irritava, mas não em condições de externalizar. Apenas olhava com cara de paisagem para aquelas pessoas que pensavam estar me fazendo um elogio.

Dessa empresa, fui para onde estou até hoje (desde 2008). Já com nível superior e com especialização em Engenharia de Software e, agora, membro da chama Classe Média. Aqui testemunhei todo tipo de discriminação possível. Ao ponto de ouvir que as pessoas que andavam de trem eram "gente sem educação e sem acesso ao conhecimento". A pessoa não sabia que eu era um dos tais. Mas devo dizer que, com 31 anos de idade, vindo da camada pobre e, agora, fazendo parte da chamada classe média, testemunhei discriminação somente nas classes superiores. No máximo, percebi trauma e ferimento do lugar de onde vim.

Quando era criança ou adolescente, brincando entre os que eram, sem eu saber, rotulados como pobres, éramos todos iguais. Brigas e disputas eram e são bem naturais. De forma que quando ouço alguém se julgando "cidadão de bem", porque tem o que ser roubado, eu me sinto parte daqueles que não recebem esse "apelido". Contudo, "vítima da sociedade" é um pouco pesado demais para mim. Mas a tentação de roubar, a tentação de conseguir o que você acha que JAMAIS vai conseguir, é real. Tanto que levou alguns amigos meus. Levou para o caminho do roubo e para o caminho da morte. Na mente lembro de alguns que tinham a minha idade e outros ainda mais novos que hoje levam a vida que, apenas Deus sabe o motivo, não segui.

Fiz essa caminhada da minha vida profissional, justamente, para que os que pensam na  verdade da frase "não trabalha quem não quer" e "quem corre atrás consegue mudar sua vida", possam cair na minha armadilha e achar que isso faz realmente algum sentido.

Não, não posso dizer de FORMA ALGUMA, que me esforcei. Tudo era uma aventura e uma brincadeira, para mim. Entender códigos, padrões, desenvolver, conhecer essa máquina que estou usando para para digitar esse texto era e é, apenas, diversão. Alguém, louco, resolveu me pagar para que eu pudesse "brincar". Mas, por outro lado, eu vim da camada mais pobre e cheguei mesmo a conhecer o que era ter apenas água na geladeira. E, por lá, eu vi amigos lutarem e morrerem lutando por um lugar ao sol, sem cair na tentação do roubo. E outros que só conseguiram por estudar muito e passar em um concurso público.

Certeza de quem veio de lá: a oportunidade não está ao alcance de todos. Isso é lenda! A meritocracia é uma ilusão! Não há mérito algum para uma pessoa nascer em uma cobertura no Leblon. Como não há mérito algum de outra nascer na favela. E não tenham a ilusão de que ambos têm a mesma chance. Porque não têm!

Se a meritocracia funcionou para você, sorte sua! Mas não pense que sempre haverá condições de você estar no mesmo nível da pirâmide social daquele que sempre teve tudo desde o berço. Há quem consiga! Há quem nada tinha e se torna um dos homens mais ricos que você possa conhecer. Para este, o capitalismo foi perfeito! Mas não se iluda! A pirâmide social é mais larga embaixo. E é ali que cabe mais gente. Cada camada acima é sempre menor. E a mobilidade social ocorre sim. Mas ocorre quando um governo resolve trabalhar para que isso ocorra. E não haverá mobilidade sem peso no bolso rico! Sem peso no bolso da classe média! Jamais teremos um "quadrado social".

Não se sinta um cidadão de bem, porque espanca ou mata o pobre que foi fraco de espírito o suficiente para ver no roubo sua chance de conseguir algo. Você não é alguém de bem! Você é do mal! Você serve ao mal! E continuará a servir se assim seguir porque o preconceito nasce em você! Foi sua classe que definiu que pode e quem não pode. Quem é aceito e quem não é. Ao outro cabe seguir a honestidade em humilhação, ou se tornar um bandido. Como bandido, deve ser preso, deve ser julgado e ser tratado segundo a lei. Mas xenofobia, preconceito racial e preconceito social eu vi! Eu testemunhei! Está presente nos almoços de trabalho! Nas conversas de corredores das empresas. Nas comunidades cristãs! Na sua leitura matinal do jornal. Na sua mentalidade limitada que acha que conhece bem o que é ser pobre! Ou na sua amnésia, por ter vindo da pobreza e não se lembrar do que é ser tentado, inicialmente, a pegar um biscoito que está exposto no mercado e resistir a isso, mesmo tendo apenas água em casa!

Você serve ao mal! E continuará servindo por não perceber que há políticos e juízes que mantém toda essa bagunça! Que estão acima do bem e do mal e tornam a vida do pobre pior do que ela já seria. Você que nunca passou por isso, não sabe o que é ser honesto e devolver uma carteira achada no chão, não tendo dinheiro em casa. Não sabe o que é encontrar um celular melhor do que o seu e ficar horas tentando entrar em contato com a pessoa e você mesmo ir entregar! Não sabe o que é devolver o troco errado. Não entende que honestidade real é quando você não aceita levar pra casa o que não é seu, mesmo sendo o que você precisa para levar para casa. Esse seu ódio voltado contra menores ou maiores infratores mostra que você, no lugar deles, não resistiria à tentação. Pois a tentação de matar e espancar o "pobre bandido" é a tentação que coube a você. E você não resistiu. Ainda que apenas em palavras, você mata, você espanca, você caiu na armadilha da "desonestidade rica".

É muito fácil o forte bater no fraco. É muito fácil espancar o mendigo, queimá-lo, surrar o gay pobre (pois há muitos gays ricos e alguns podem ser seus pais que temem se expor) e entender que todos são menores do que você é. Mas não são! O que separa você deles se chama oportunidade e educação. Alguns tiveram, e não souberam aproveitar, outros, sequer, entendem bem o que isso significa. São culpados pelos crimes? São! São vítimas da sociedade? Não! Mas do sistema sim! Tanto quanto você! Eles por se tornarem aquilo que você abomina e você por abominá-los. Pois essa mentalidade nasce, justamente, de alguém que, "vitimado" (ou preferido) pelo sistema, se considera superior.

E como resolver o problema dos arrastões e da criminalidade no centro? Essa é a questão que falei no início! Há apenas uma certeza nisso tudo. Não é a de como resolver. Mas a de como não resolver: violência e segregação. Tenham certeza de uma coisa: o pobre e o favelado não são cachorros de rua. Eles revidam! E lembre-se de outra coisa: eles são a maioria. Sempre! Um conselho de quem, um dia, quando foi à praia, certamente foi rotulado como favelado ou como "gente esquisita". Que, hoje, por algum motivo besta, você pensa que faz parte do seu grupo: mude sua cabeça. São pessoas como você que se tornam líderes do povo, governam a sociedade e, no fim, apenas preservam toda essa dor. Tanto do pobre, quanto do rico. Tanto de quem não tem dinheiro para "ir e vir" e cai na tentação de roubar, quanto de quem nunca soube o que é ter fome, mas saberá o que é ser assaltado e, infelizmente, até morto.

Antes que sua mente viaje muito e você pense que defendo. Não defendo! Criminoso, pobre ou rico, deve ser preso. Mas não suporto o criminoso pobre e negro, que roubou seu celular, ser preso, enquanto seus pais, que sonegam impostos ou você mesmo, que bate em morador de rua, gay ou humilha empregados, se mantém solto. Você ou os seus são tão criminosos quanto ele. Matam, tanto quanto ele! Quero todos na cadeia! Quero todos presos! Mas, acima de tudo, quero todos corrigidos! Olhe nossas cadeias, olhe nossos centro para adolescentes que cometem crimes, olhe nossas favelas, olhe nosso senso real de justiça, observe os argumentos dos advogados para que os bandidos de colarinho branco fiquem soltos e me responda: acha mesmo que bater em adolescente é a solução? Consegue realmente aprovar isso? De fato o problema maior que temos é esse e assim se resolve?

Pense... e, mais uma vez, mude a cabeça. E, por favor, aprenda de uma vez por todas, não faço parte do seu grupo!

Um comentário:

  1. Pra quem ainda não aprendeu o que é profetizar... este é um belo exemplo!

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