quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ah Eclesiastes! Esse santo herege...

Que proveito tira o trabalhador de sua obra? Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens:
todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.
Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida; e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.
Eclesiastes 3:9-13

E disse em seguida ao homem: "Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar."
Gênesis 3:17-19


A sabedoria de Israel é um movimento "herético" no melhor sentido da palavra. Questiona todos as teologias. Desde as que nascem no templo, com seu discurso oficial, até as que vivem à margem da religião. As populares, por assim dizer. O livro de Eclesiastes põe em xeque a crença na retribuição a partir de atitudes boas (teologia oficial) e a esperança de uma vida após a morte (teologia de dissidência). A primeira, a vida nos ensina que ele está certo. A segunda, temos esperança, a partir da experiência do Cristo Ressuscitado, de que esteja errado.

Contudo, o foco aqui é outro. Lado a lado estão colocados dois textos. Um deles apresenta o fruto do trabalho como um dom de Deus. Enquanto em outro texto, mais antigo que o Eclesiastes, há uma referência de que o pão, como fruto do trabalho, seria um castigo de Deus.

Podemos notar que o autor de Eclesiastes conhecia esse texto de Gênesis. Ele responde a pergunta dizendo que viu o trabalho que Deus "impôs aos homens", como também a outra referência ao texto de Gênesis em "todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo".

Entretanto, ele se separa de Gênesis. Ele contesta a pergunta que, em si, tinha um caráter retórico cuja resposta seria: não há nenhum proveito. O Qoelet, pelo contrário, diz que há sim! E que não há nada melhor para o homem do que trabalhar (procurar o bem-estar durante a vida e comer, beber e gozar do fruto do seu trabalho). E ainda diz que isto é dom de Deus, e não castigo.

Como unir esse pensamento? Não há como unir! Acredito que, na verdade, há uma outra forma de ler o texto de Gênesis. Isso já cheguei a tratar em outra postagem aqui. Mas, contudo, neste momento, podemos olhar para a própria Bíblia como, segundo se entende, a grande intérprete dela mesma. Os ditos populares afirmam que "o trabalho enobrece o homem". Um tipo de pensamento que vai no caminho do Qoelet. Ele olha para o texto Bíblico e o reinterpreta de forma diferente. Olha com outros olhos para aquilo que possui uma interpretação "pronta".

Este desafio do Qoelet é o desafio de todo aquele que procura realizar uma hermenêutica sincera. É preciso olhar as implicâncias de uma interpretação pronta. Olhar sua validade. Compreender as consequências daquela interpretação tão massificada. E, ao notar algo nocivo, procurar perguntar ao texto: o que mais você tem a me dizer?

O Qoelet perguntou ao texto e encontrou. E nós? Se perguntarmos ao Eclesiastes "como você viu dom de Deus em um texto que narra que Deus impôs aos homens, como você mesmo mencionou?". O Qoelet nos diz: olhe a vida! Olhe o rosto de um pai ao encontrar um trabalho. Olhe o rosto de um jovem ao conquistar o primeiro emprego. Veja o prazer do pai de família ao comprar o alimento que conseguiu com seu suor. Como pode isso ser uma maldição?

Alguns dirão que a maldição é ter que trabalhar para conseguir o alimento. E o Qolet diria que não há nada melhor para o homem do gozar do fruto do seu trabalho. Logo, sem essa "maldição", a "melhor coisa" não existiria. É, portanto, chamada de dom de Deus. 

É interessante perceber que Deus também trabalhou e se alegrou ao ponto de, no Sábado, descansar e desfrutar do seu trabalho: "Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. Ele abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse dia repousara de toda a obra da Criação" (Gênesis 2:2,3). O próprio Deus é um trabalhador. No outra versão sobre a origem de tudo (História de Adão e Eva), Deus é um lavrador. Deus planta um jardim. Deus é um trabalhador.

Na controvérsia sobre o sábado, Jesus disse:

"Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" João 5:17

Embora a questão não passe por aí, e independente da contradição criada por Jesus - onde aponta que Deus não descansa e continua trabalhando - há a demonstração de que, na bíblia, o trabalho, por vezes, é visto como algo bom. A questão, entretanto, é outra. Voltemos ao ponto focal.

A sabedoria olha para a vida e busca, nela, a inspiração para a compreensão dos mistérios "reveláveis" de Deus. Ao olhar o texto bíblico, não o percebe como algo pronto. Como uma "caixinha de promessas". Compreende, contudo, como algo que precisa ser relido à luz da vida. A vida, o cotidiano, o Deus presente na vida do ser são as ferramentas do sábio.

No que aprendemos com isso? Que tal reler o texto de Gênesis à luz do Qoelet?

Deus diz: "Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente
Gênesis 2:16,17

A serpente diz:

"Oh, não! - tornou a serpente - vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal."
Gênesis 3:4,5

E eis o motivo da expulsão do Jardim:

E o Senhor Deus disse: "Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente."
Gênesis 3:22

Parece que a serpente estava falando a verdade...

Trata-se uma provocação! De uma forma de observarmos os textos bíblicos e repararmos essas "santas heresias" que nos permitem investigar, questionar e encontrar um novo sentido em textos tão "prontos" e com interpretação tão "segura". Que, na verdade, nem tão segura assim. O olhar atento do Qoelet precisa ser o olhar atento de todo aquele que se aproxima dos textos bíblicos. De todo aquele que aceita o caminho da Teologia.

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