terça-feira, 29 de setembro de 2015

Penélope

É com grande alegria e satisfação que apresento aqui meu primeiro livro: Penélope. Uma drama fictício de fácil leitura. O livro, narrado em primeira pessoa, conta a história de Heitor e de sua família.


O personagem é um jovem de 25 anos que recebeu do pai doente a missão de procurar pela irmã dois anos mais nova. Penélope, com um ano de idade, foi levada pela mãe, que abandonou filho e marido. Contrariado, o jovem sai em busca da irmã com a ajuda de Faris, um amigo de infância – descendente de uma tribo antiga, portadora dos saberes místicos da vida.Nessa procura, contudo, Heitor viverá experiências que vão da alegria à tristeza; do ganho à perda. Experiências que desafiarão sua visão de vida e de mundo. Um convite ao amadurecimento e ao mergulho dentro de si mesmo.


Este livro trata não apenas da história de uma família desfeita e de seus conflitos. Mas dos nossos conflitos, das nossas dificuldades. É um livro para se envolver, rir, chorar e se surpreender. Contudo, ao mesmo tempo, é um drama que nos interpela. Conduz-nos em reflexão sobre as consequências reais de nossas atitudes e nossa posição frente a elas. Não apenas no que diz respeito às outras pessoas, mas, também, a nós mesmos.

É uma história de amizade e de amores fraternos, que nos leva a pensar sobre até onde vamos e até onde devemos ir pelos outros e por nós mesmos.

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Ou, para um exemplar autografado, mande um e-mail para silviorazec@gmail.com .

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Textos Bíblicos: Acréscimos e Ausências

A comparação entre manuscritos nos permite perceber partes de textos que descendem de outra tradição, acréscimos realizados e mesmo, até, investigar o porque deles. Isso é importante pois, de verdade, se torna o primeiro passo para uma abertura de mente. Olhando as Escrituras defendidas em um pensamento "engessador" por outro prisma, se pode notar que "inspiração" nada tem a ver com "imutabilidade", antes, deve, unicamente, à fé. E para a fé que os textos nascem. Entretanto, "o tempo passa e nem tudo fica". Surgem novos pensamentos teológicos e novas tradições nascem ou se afirmam sobre outras. Assim, os textos passam por modificações. E essas alterações, muitas vezes sem querer e outras totalmente deliberadas, estão longe de possuir um caráter negativo. Demonstram, pelo contrário, a preocupação em manter atualizada a fé depositada nos textos. E, por isso mesmo, tais mudanças não estavam escondidas dos olhos da fé eram, antes, por ela aprovada.

Para demonstrar um pouco dessas mudanças que parecem tão pequenas, mas que possuem consequências enormes, vale uma comparação do Codex Sinaiticus, um dos manuscritos mais antigos contendo todo o Novo Testamento, com o texto que nós temos em mãos. É certo que levantará questões bem interessantes:


O Relato da Ressurreição de Jesusx
Almeida Revista e Atualizada
Sinaiticus
1 Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamá-lo.
2 E, muito cedo, no primeiro dia da semana, ao despontar do sol, foram ao túmulo.
3 Diziam umas às outras: Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo?
4 E, olhando, viram que a pedra já estava removida; pois era muito grande.
5 Entrando no túmulo, viram um jovem assentado ao lado direito, vestido de branco, e ficaram surpreendidas e atemorizadas.
6 Ele, porém, lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; ele ressuscitou, não está mais aqui; vede o lugar onde o tinham posto.
7 Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galiléia; lá o vereis, como ele vos disse.
8 E, saindo elas, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e de assombro; e, de medo, nada disseram a ninguém.
9 Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios.
10 E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam.
11 Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto por ela, não acreditaram.
12 Depois disto, manifestou-se em outra forma a dois deles que estavam de caminho para o campo.
13 E, indo, eles o anunciaram aos demais, mas também a estes dois eles não deram crédito.
14 Finalmente, apareceu Jesus aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado.
15 E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
16 Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.
17 Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas;
18 pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados.
19 De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus.20 E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam.
1 "E quando o sábado foi passado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas, que elas pudessem vir e ungi-lo.
2 E muito no início da manhã do primeiro dia da semana, foram ao sepulcro ao nascer do sol.
3 E elas disseram entre si: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?
4 E quando elas olharam, viram que a pedra estava revolvida; e era ela muito grande.
5 e entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido de uma roupa comprida, branca; e ficaram espantadas.
6 E ele lhes disse: Não te espantes; buscais a Jesus de Nazaré, que foi crucificado: ele ressuscitou; ele não está aqui; eis o lugar onde o puseram.
7 Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, como ele vos disse.
8 E, saindo elas apressadamente, fugiram do sepulcro; porque elas tremeram e ficaram maravilhadas a ninguém dizia qualquer coisa a qualquer homem;porque temiam.

A adição acima já foi tratada nesta postagem, mas vale relembrar. Claramente, há um grande acréscimo ao texto de Marcos que conhecemos. Mas há ainda outras comparações interessantes.


O Pai nosso de Mateus
Almeida Revista e Atualizada
Sinaiticus
9 Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
10 venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;
11 o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;
12 e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores;
13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!
Pai, Santificado seja o teu nome, Venha o teu reino. Tua vontade será feita, como no céu, assim na terra. Dá-nos a cada dia o nosso pão de . E perdoa os nossos pecados, como também nós perdoamos a cada um que está em dívida para conosco.
 E  não nos guie em tentação.
Versículos e Trechos Inexistentes
Almeida Revista e Atualizada
Sinaiticus
Lucas 41.51 Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. Não há"elevado para o céu."
Marcos 1.1 Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Não há "Filho de Deus".
Lucas 9.55-56 Jesus, porém, voltando-se os repreendeu [e disse: Vós não sabeis de que espírito sois]. [Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.] E seguiram para outra aldeia. Não presente.

É importante prestar atenção ao detalhe da ausência do "elevado para o céu" , pois isso elimina, na versão do Sinaiticus qualquer ascensão de Jesus dos evangelhos. Mateus não tem (em nenhuma versão), Marcos não possui as adições (no Sinaiticus) , João não tem e, sobrando Lucas, não possui também essa tradição de Cristo sendo elevado aos céus.

Outro dado interessante é a plena ausência no Sinaiticus do relado ta mulher adúltera, tão querido e tão pregado para os leitores do Evangelho de João.

O que muda com isso? Nada, do ponto de vista da fé. Mas do ponto de vista da pesquisa, surgem algumas questões. Na verdade elas são antigas, mas vale colocar aqui como algo "novo" para contribuir com a reflexão.

Algumas interessantes questões são: Considerando que Marcos seja o primeiro evangelho, por que os outros evangelistas viram a necessidade de narrar detalhes do encontro dos discípulos com o Ressuscitado? E, considerando Marcos, por que esse final do evangelho tão inesperado e não conclusivo (recomendo a leitura do post citado lá em cima).

Como costumo dizer aos meus alunos, vale a pena não brigar por algo ao ponto de condenar a interpretação alheia (caso ela não produza dano ao próximo e ao interpretador). As vezes se briga por uma palavra, um pedacinho do texto bíblico e se tira várias conclusões a partir desse único verbete, que as vezes nem consta nos originais mais antigos... Vale a reflexão...

(recortes de http://www.biblicalarchaeology.org/)

Ah Eclesiastes! Esse santo herege...

Que proveito tira o trabalhador de sua obra? Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens:
todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.
Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida; e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.
Eclesiastes 3:9-13

E disse em seguida ao homem: "Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar."
Gênesis 3:17-19


A sabedoria de Israel é um movimento "herético" no melhor sentido da palavra. Questiona todos as teologias. Desde as que nascem no templo, com seu discurso oficial, até as que vivem à margem da religião. As populares, por assim dizer. O livro de Eclesiastes põe em xeque a crença na retribuição a partir de atitudes boas (teologia oficial) e a esperança de uma vida após a morte (teologia de dissidência). A primeira, a vida nos ensina que ele está certo. A segunda, temos esperança, a partir da experiência do Cristo Ressuscitado, de que esteja errado.

Contudo, o foco aqui é outro. Lado a lado estão colocados dois textos. Um deles apresenta o fruto do trabalho como um dom de Deus. Enquanto em outro texto, mais antigo que o Eclesiastes, há uma referência de que o pão, como fruto do trabalho, seria um castigo de Deus.

Podemos notar que o autor de Eclesiastes conhecia esse texto de Gênesis. Ele responde a pergunta dizendo que viu o trabalho que Deus "impôs aos homens", como também a outra referência ao texto de Gênesis em "todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo".

Entretanto, ele se separa de Gênesis. Ele contesta a pergunta que, em si, tinha um caráter retórico cuja resposta seria: não há nenhum proveito. O Qoelet, pelo contrário, diz que há sim! E que não há nada melhor para o homem do que trabalhar (procurar o bem-estar durante a vida e comer, beber e gozar do fruto do seu trabalho). E ainda diz que isto é dom de Deus, e não castigo.

Como unir esse pensamento? Não há como unir! Acredito que, na verdade, há uma outra forma de ler o texto de Gênesis. Isso já cheguei a tratar em outra postagem aqui. Mas, contudo, neste momento, podemos olhar para a própria Bíblia como, segundo se entende, a grande intérprete dela mesma. Os ditos populares afirmam que "o trabalho enobrece o homem". Um tipo de pensamento que vai no caminho do Qoelet. Ele olha para o texto Bíblico e o reinterpreta de forma diferente. Olha com outros olhos para aquilo que possui uma interpretação "pronta".

Este desafio do Qoelet é o desafio de todo aquele que procura realizar uma hermenêutica sincera. É preciso olhar as implicâncias de uma interpretação pronta. Olhar sua validade. Compreender as consequências daquela interpretação tão massificada. E, ao notar algo nocivo, procurar perguntar ao texto: o que mais você tem a me dizer?

O Qoelet perguntou ao texto e encontrou. E nós? Se perguntarmos ao Eclesiastes "como você viu dom de Deus em um texto que narra que Deus impôs aos homens, como você mesmo mencionou?". O Qoelet nos diz: olhe a vida! Olhe o rosto de um pai ao encontrar um trabalho. Olhe o rosto de um jovem ao conquistar o primeiro emprego. Veja o prazer do pai de família ao comprar o alimento que conseguiu com seu suor. Como pode isso ser uma maldição?

Alguns dirão que a maldição é ter que trabalhar para conseguir o alimento. E o Qolet diria que não há nada melhor para o homem do gozar do fruto do seu trabalho. Logo, sem essa "maldição", a "melhor coisa" não existiria. É, portanto, chamada de dom de Deus. 

É interessante perceber que Deus também trabalhou e se alegrou ao ponto de, no Sábado, descansar e desfrutar do seu trabalho: "Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. Ele abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse dia repousara de toda a obra da Criação" (Gênesis 2:2,3). O próprio Deus é um trabalhador. No outra versão sobre a origem de tudo (História de Adão e Eva), Deus é um lavrador. Deus planta um jardim. Deus é um trabalhador.

Na controvérsia sobre o sábado, Jesus disse:

"Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" João 5:17

Embora a questão não passe por aí, e independente da contradição criada por Jesus - onde aponta que Deus não descansa e continua trabalhando - há a demonstração de que, na bíblia, o trabalho, por vezes, é visto como algo bom. A questão, entretanto, é outra. Voltemos ao ponto focal.

A sabedoria olha para a vida e busca, nela, a inspiração para a compreensão dos mistérios "reveláveis" de Deus. Ao olhar o texto bíblico, não o percebe como algo pronto. Como uma "caixinha de promessas". Compreende, contudo, como algo que precisa ser relido à luz da vida. A vida, o cotidiano, o Deus presente na vida do ser são as ferramentas do sábio.

No que aprendemos com isso? Que tal reler o texto de Gênesis à luz do Qoelet?

Deus diz: "Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente
Gênesis 2:16,17

A serpente diz:

"Oh, não! - tornou a serpente - vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal."
Gênesis 3:4,5

E eis o motivo da expulsão do Jardim:

E o Senhor Deus disse: "Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente."
Gênesis 3:22

Parece que a serpente estava falando a verdade...

Trata-se uma provocação! De uma forma de observarmos os textos bíblicos e repararmos essas "santas heresias" que nos permitem investigar, questionar e encontrar um novo sentido em textos tão "prontos" e com interpretação tão "segura". Que, na verdade, nem tão segura assim. O olhar atento do Qoelet precisa ser o olhar atento de todo aquele que se aproxima dos textos bíblicos. De todo aquele que aceita o caminho da Teologia.

Um Desabafo, apenas um Desabafo

Há apenas uma certeza sobre o que pretendo falar. Antes, contudo, preciso ponderar algumas coisas: não importa se você mora no campo, na favela ou nos grandes centros; se vive uma cobertura no Leblon ou em uma favela esquecida. Você, certamente, não gostaria de ser discriminado e você, certamente, não gostaria de ser assaltado. Aquilo que não gostamos de que seja feito conosco, é justamente o que fazemos ou o que, de certa forma, aprovamos.

Leio discursos que me doem as vistas e ouço falas que me machucam os ouvidos: "cidadão de bem", "pessoas honestas" e tantas outras qualificações que me deixam, ao mesmo tempo, indignado e perdido. E completando, há outras que me causam semelhantes dores: "marginais", "bandido bom é bandido morto" e similares. Expressões que me fazem perguntar: do que estamos falando?

Meu pai é lanterneiro e minha mãe era manicure, costureira e cabeleireira. Ele estudou até a 4ª série e ela até a 7ª. Todos viemos de Pernambuco (meus pais, dois irmãos mais velhos e eu). Morando na parte pobre da Baixada Fluminense, vivi uma época em que as pessoas mais ricas que eu conhecia eram as que tinham carro e telefone, em casa. E, ainda assim, essas eram as pobres, diante de tanta riqueza concentrada na Zona Sul que, confesso, lembro-me de ter ido duas vezes quando criança: na Praia de Copacabana e na Praia da Urca. Não me recordo de discriminação pois, embora filho de mulato e descendente de índio, era, até meus 16 anos, considerado loiro (ou de cabelo claro), meu irmão do meio era moreno de cabelo tão liso que nem se precisava pentear e meu irmão mais velho, branco. 

Cedo, encontrei na Igreja Metodista a possibilidade de conhecer outras pessoas e de outros mundos, até então desconhecidos para mim. Em encontros regionais e nacionais, conheci adolescentes muito ricos e outros mais pobres do que eu. Contudo, ali, no meio, eu não tinha "malícia" suficiente para saber quem era quem e nem me importava com isso. A inocência de minha adolescência era gigante. Por algum motivo, alguns "ricos" achavam que eu fazia parte do mesmo grupo e deles ouvia comentários que me deixavam assustado. 

Devido a estes encontros e conhecer "novos mundos", consegui notar o que não via: Dentro da minha comunidade de fé havia a discriminação racial e, também, social. O que me tornou um adolescente fechado para algumas pessoas e com grande dificuldade de entender certos comportamentos. Mas uma coisa eu tinha certeza, eu era bem pobre e por mais que, por motivos alheios ao meu entendimento, me sentisse bem recebido em determinados grupos, ainda assim, não me sentia parte e, por vezes, me indignava estar ali.

Meu irmão mais velho, um dia, resolveu se sacrificar e me pagar um curso de informática básica (Windows, Word, Excel e PowerPoint). Foi onde descobri que tinha talento para o mundo tecnológico. Um tempo depois, um amigo me indicou para trabalhar em uma empresa que fazia impressão de crachás e cartões de crédito. Lá notei ser autodidata: aprendi, sozinho (pois a Internet era discada e não poderia usar para pesquisa) a usar o Corel Draw e o Photoshop. Incluindo, assim, no meu trabalho, não apenas a impressão dos dados, mas a arte dos Crachás e Cartões de Crédito. Contratado por uma concorrente, fui trabalhar na Zona Norte. Em Cascadura. Meu primeiro emprego fora da Baixada Fluminense. Até aí, nenhum problema. Todos éramos da "parte pobre" do Estado. Nos dávamos muito bem! Eu só havia conhecido o preconceito dentro da Igreja e por parte de adolescentes e jovens. Algo que era fácil "driblar" na mente.

Da Zona Norte, fui dar aula de Informática em Queimados, na Baixada. Lá tive contato com pessoas de todo o tipo. Reencontrei o preconceito entre os próprios alunos. Como era muito jovem (20 anos), era fácil encontrar alunos mais velhos e mais novos. Lidando com o mundo da informática e tendo meu primeiro computador (usado), pude, em casa, ver que o desenvolvimento de sistemas e sites era parte do talento que havia descoberto. Facilmente, aprendi o suficiente para trabalhar em outra empresa, como desenvolvedor web. Onde fiz tanto a intranet quanto o Site. Lá conheci pessoas, também, de outros lugares onde, em momento algum, classifiquei como inferiores. Embora, por vezes, ouvia a necessidade de eu me mudar. De sair de Mesquita para um lugar melhor. 

Ouvia isso de pessoas que NUNCA haviam pisado no chão da minha cidade. Foi o início real do que eu entendi ser rotulado, simplesmente, por morar em um lugar afastado do grande centro. Engraçado que o rótulo foi de julgarem que eu tinha condições de morar em outra lugar. Seria bem-vindo numa área melhor. Queriam que eu fizesse parte de um grupo mais elevado, em termos territoriais.

Mas nada foi pior do que a experiência de cursar a Faculdade de Teologia do Bennett, no Flamengo/RJ, no sentido do que estou falando, claro.. Algumas pessoas me consideravam inteligente e quando ouviam que eu morava em Mesquita, estranhavam e diziam que eu parecia ser alguém da Zona Sul. Porque tinha "a cabeça muito boa para quem mora na Baixada". Alguns juravam que eu era membro da Igreja do Catete, o que me irritava, mas não em condições de externalizar. Apenas olhava com cara de paisagem para aquelas pessoas que pensavam estar me fazendo um elogio.

Dessa empresa, fui para onde estou até hoje (desde 2008). Já com nível superior e com especialização em Engenharia de Software e, agora, membro da chama Classe Média. Aqui testemunhei todo tipo de discriminação possível. Ao ponto de ouvir que as pessoas que andavam de trem eram "gente sem educação e sem acesso ao conhecimento". A pessoa não sabia que eu era um dos tais. Mas devo dizer que, com 31 anos de idade, vindo da camada pobre e, agora, fazendo parte da chamada classe média, testemunhei discriminação somente nas classes superiores. No máximo, percebi trauma e ferimento do lugar de onde vim.

Quando era criança ou adolescente, brincando entre os que eram, sem eu saber, rotulados como pobres, éramos todos iguais. Brigas e disputas eram e são bem naturais. De forma que quando ouço alguém se julgando "cidadão de bem", porque tem o que ser roubado, eu me sinto parte daqueles que não recebem esse "apelido". Contudo, "vítima da sociedade" é um pouco pesado demais para mim. Mas a tentação de roubar, a tentação de conseguir o que você acha que JAMAIS vai conseguir, é real. Tanto que levou alguns amigos meus. Levou para o caminho do roubo e para o caminho da morte. Na mente lembro de alguns que tinham a minha idade e outros ainda mais novos que hoje levam a vida que, apenas Deus sabe o motivo, não segui.

Fiz essa caminhada da minha vida profissional, justamente, para que os que pensam na  verdade da frase "não trabalha quem não quer" e "quem corre atrás consegue mudar sua vida", possam cair na minha armadilha e achar que isso faz realmente algum sentido.

Não, não posso dizer de FORMA ALGUMA, que me esforcei. Tudo era uma aventura e uma brincadeira, para mim. Entender códigos, padrões, desenvolver, conhecer essa máquina que estou usando para para digitar esse texto era e é, apenas, diversão. Alguém, louco, resolveu me pagar para que eu pudesse "brincar". Mas, por outro lado, eu vim da camada mais pobre e cheguei mesmo a conhecer o que era ter apenas água na geladeira. E, por lá, eu vi amigos lutarem e morrerem lutando por um lugar ao sol, sem cair na tentação do roubo. E outros que só conseguiram por estudar muito e passar em um concurso público.

Certeza de quem veio de lá: a oportunidade não está ao alcance de todos. Isso é lenda! A meritocracia é uma ilusão! Não há mérito algum para uma pessoa nascer em uma cobertura no Leblon. Como não há mérito algum de outra nascer na favela. E não tenham a ilusão de que ambos têm a mesma chance. Porque não têm!

Se a meritocracia funcionou para você, sorte sua! Mas não pense que sempre haverá condições de você estar no mesmo nível da pirâmide social daquele que sempre teve tudo desde o berço. Há quem consiga! Há quem nada tinha e se torna um dos homens mais ricos que você possa conhecer. Para este, o capitalismo foi perfeito! Mas não se iluda! A pirâmide social é mais larga embaixo. E é ali que cabe mais gente. Cada camada acima é sempre menor. E a mobilidade social ocorre sim. Mas ocorre quando um governo resolve trabalhar para que isso ocorra. E não haverá mobilidade sem peso no bolso rico! Sem peso no bolso da classe média! Jamais teremos um "quadrado social".

Não se sinta um cidadão de bem, porque espanca ou mata o pobre que foi fraco de espírito o suficiente para ver no roubo sua chance de conseguir algo. Você não é alguém de bem! Você é do mal! Você serve ao mal! E continuará a servir se assim seguir porque o preconceito nasce em você! Foi sua classe que definiu que pode e quem não pode. Quem é aceito e quem não é. Ao outro cabe seguir a honestidade em humilhação, ou se tornar um bandido. Como bandido, deve ser preso, deve ser julgado e ser tratado segundo a lei. Mas xenofobia, preconceito racial e preconceito social eu vi! Eu testemunhei! Está presente nos almoços de trabalho! Nas conversas de corredores das empresas. Nas comunidades cristãs! Na sua leitura matinal do jornal. Na sua mentalidade limitada que acha que conhece bem o que é ser pobre! Ou na sua amnésia, por ter vindo da pobreza e não se lembrar do que é ser tentado, inicialmente, a pegar um biscoito que está exposto no mercado e resistir a isso, mesmo tendo apenas água em casa!

Você serve ao mal! E continuará servindo por não perceber que há políticos e juízes que mantém toda essa bagunça! Que estão acima do bem e do mal e tornam a vida do pobre pior do que ela já seria. Você que nunca passou por isso, não sabe o que é ser honesto e devolver uma carteira achada no chão, não tendo dinheiro em casa. Não sabe o que é encontrar um celular melhor do que o seu e ficar horas tentando entrar em contato com a pessoa e você mesmo ir entregar! Não sabe o que é devolver o troco errado. Não entende que honestidade real é quando você não aceita levar pra casa o que não é seu, mesmo sendo o que você precisa para levar para casa. Esse seu ódio voltado contra menores ou maiores infratores mostra que você, no lugar deles, não resistiria à tentação. Pois a tentação de matar e espancar o "pobre bandido" é a tentação que coube a você. E você não resistiu. Ainda que apenas em palavras, você mata, você espanca, você caiu na armadilha da "desonestidade rica".

É muito fácil o forte bater no fraco. É muito fácil espancar o mendigo, queimá-lo, surrar o gay pobre (pois há muitos gays ricos e alguns podem ser seus pais que temem se expor) e entender que todos são menores do que você é. Mas não são! O que separa você deles se chama oportunidade e educação. Alguns tiveram, e não souberam aproveitar, outros, sequer, entendem bem o que isso significa. São culpados pelos crimes? São! São vítimas da sociedade? Não! Mas do sistema sim! Tanto quanto você! Eles por se tornarem aquilo que você abomina e você por abominá-los. Pois essa mentalidade nasce, justamente, de alguém que, "vitimado" (ou preferido) pelo sistema, se considera superior.

E como resolver o problema dos arrastões e da criminalidade no centro? Essa é a questão que falei no início! Há apenas uma certeza nisso tudo. Não é a de como resolver. Mas a de como não resolver: violência e segregação. Tenham certeza de uma coisa: o pobre e o favelado não são cachorros de rua. Eles revidam! E lembre-se de outra coisa: eles são a maioria. Sempre! Um conselho de quem, um dia, quando foi à praia, certamente foi rotulado como favelado ou como "gente esquisita". Que, hoje, por algum motivo besta, você pensa que faz parte do seu grupo: mude sua cabeça. São pessoas como você que se tornam líderes do povo, governam a sociedade e, no fim, apenas preservam toda essa dor. Tanto do pobre, quanto do rico. Tanto de quem não tem dinheiro para "ir e vir" e cai na tentação de roubar, quanto de quem nunca soube o que é ter fome, mas saberá o que é ser assaltado e, infelizmente, até morto.

Antes que sua mente viaje muito e você pense que defendo. Não defendo! Criminoso, pobre ou rico, deve ser preso. Mas não suporto o criminoso pobre e negro, que roubou seu celular, ser preso, enquanto seus pais, que sonegam impostos ou você mesmo, que bate em morador de rua, gay ou humilha empregados, se mantém solto. Você ou os seus são tão criminosos quanto ele. Matam, tanto quanto ele! Quero todos na cadeia! Quero todos presos! Mas, acima de tudo, quero todos corrigidos! Olhe nossas cadeias, olhe nossos centro para adolescentes que cometem crimes, olhe nossas favelas, olhe nosso senso real de justiça, observe os argumentos dos advogados para que os bandidos de colarinho branco fiquem soltos e me responda: acha mesmo que bater em adolescente é a solução? Consegue realmente aprovar isso? De fato o problema maior que temos é esse e assim se resolve?

Pense... e, mais uma vez, mude a cabeça. E, por favor, aprenda de uma vez por todas, não faço parte do seu grupo!