terça-feira, 4 de agosto de 2015

O que é Bíblico e o que Não é?

A Bíblia é, de fato, a mãe de todas as heresias. Já dizia a velha frase. O cristianismo atual se acostumou a definir ensinamentos como "bíblicos e anti-bíblicos". Óbvio que existem sim ensinamentos que são contrários à Bíblia e outros a favor. Mas a pergunta que fica é: de que Bíblia estamos falando?

Como costumo deixar claro para meus alunos, a Bíblia deve ser encarada como uma grande "biblioteca de bolso". Se você for católico, como uma biblioteca de 73 livros e se for protestante, de 66. Tais livros estão distantes temporariamente em décadas e até séculos. Há livros, como o de Isaías, que foram escritos em situações bem diferentes por autores diferentes (um mesmo livro): antes do cativeiro, durante o cativeiro e mesmo pós-cativeiro babilônico.

Em todo esse tempo a sociedade mundial e local (dos autores dos textos) passaram por diversas transformações e, como toda religião, houve mudanças ou dissidências. Assim, há textos que claramente afirmam que não há vida após a morte. E outros que lançam a esperança da Ressurreição e vida eterna. Pode-se dizer, por exemplo, que a afirmação de que não há vida após à morte é um ensino bíblico. Como se pode dizer que a vida eterna - que em si é contrária ao primeiro ensinamento - é, também, ensino bíblico. Podemos citar a teologia da retribuição, afirmada na Torah e nos profetas, mas negada pelos livros que são frutos do movimento de sabedoria, em Israel. Assim como maldição hereditária e responsabilidade pessoal.

Em outras palavras, muita coisa pode ser bíblica! Até ensinamentos contraditórios encontram seu amparo nas Escrituras. Uma briga onde se lança textos na face de um e se recebe textos na face, procurando justificar essa ou aquela ideia como certas, é um tanto quanto irracional. É preciso encarar que Israel pensava dessa e daquela forma, contudo em momentos diferentes. Cada texto, é, assim, uma "foto" de um pensamento e não representa sua perenidade. O texto se mantém, o pensamento, a crença, nem sempre. Há evolução nos pensamentos judaico e cristão. Isso faz com que se separe da Bíblia? Não! Pois o texto que traz a "nova ideia" também é Bíblico. Em termos gerais, pode se falar em que se separa de determinado ensino bíblico, enquanto apresenta ou se aproxima de outro. Mas jamais se separa da tradição bíblica. 

Um texto bíblico diz que mulheres não podem ensinar e nem falar nos cultos. A tradição bíblica, que é aquela tradição que se rever, se reavaliar e se reinventar, nunca se limitando ao que foi dito uma vez, contudo, afirma igualdade entre homens e mulheres. Qual modelo adotar, diante disso? Essa é a grande questão! Não se pode justificar abertamente um ensino baseado em um texto bíblico que despreze a origem desse  mesmo texto, como ele nasceu.

Em um ambiente antigo, como o da formação dos dez mandamentos, há a ordem para que se deixe o escravo descansar no sábado. Seria a Bíblia a favor da escravidão? Durante muito tempo se pensou que sim, justamente por conta de exemplos como esses. Se a Bíblia fala como tratar um escravo (com dignidade), então ela permite que um homem escravize ao outro. Embora seja bastante errado dizer "a bíblia fala", posto que, na verdade, um livro dela diz. Não necessariamente toda a biblioteca.

Acredito que a melhor forma de entender seja aceitar que os textos são situacionais. Pertencem a um tempo e fazem a leitura daquele tempo. A melhor forma, no passado, de se lutar em favor do escravo foi a defesa de suas dignidades física e moral. Os Direitos Humanos, contudo, nos interpelam e fazem com que, sequer, cogitemos isso hoje. Ora, se um cristão quiser escravizar alguém estaria amplamente apoiado pela bíblia! Mas não pela tradição bíblica! Que sempre procura trazer sua mensagem para o tempo que se vive. Resgatar ideias de um mundo antigo, inaplicáveis ao mundo atual, é trair o texto bíblico, engessá-lo e transformá-lo em um texto que serve para o mal. Assim, os Direitos Humanos, de certa forma recebidos por nossa cultura, acabam por, sem percebermos, iluminar as interpretações dos textos antigos. Julgamos o texto passado sob nossa ótica moderna. O que, em si, é comum, mas um grande equívoco na hora de interpretá-lo.

Não foi o que Jesus fez ao, seguindo a tradição dos comentaristas da Torah, ensinar sobre a superioridade do amor ao próximo. O texto é morto se alguém, sem vida, interpretá-lo. Ouço muita gente se justificando pela existência de pastoras; mulheres sem véu; defesa da liberdade; guarda do domingo, no lugar do sábado, dentre tantas outras coisas, por meio da expressão "isso era cultural". Ora... o que não é cultural? Que costume, lei, religião, criação humana não estão sob o espectro cultural? Tudo que é produzido pelo homem é cultura. Nada é alheio aos costumes. No máximo ainda não incorporado a toda a sociedade mas, se pertence a um indivíduo que seja, esta é sua cultura, sua produção.

Toda a bíblia é fruto de uma cultura que se modificou no tempo e de outras culturas que se dialogaram com essa "cultura mutante". Ou, para usar as palavras de Ernst Wurthwein, cultura de caráter "polêmico e usurpador", que é a judaica. Não se pode, portanto, interpretar nenhum texto sem considerar a cultura deles, segundo o tempo da escrita, e a nossa, segundo a evolução ou involução sociais.

Não acredito que o melhor caminho, portanto, seja brigar sobre o que é bíblico ou o que não é. É bíblico matar o filho desobediente, por exemplo. Ensinamento de morte ou de vida se pode tirar da bíblia. Tudo depende não dela, mas de nós mesmos. Cada um retira da bíblia aquilo que é, e não aquilo que ela tem a oferecer. Junto a outras grandes verdades está o entendimento de que quem fala sobre a Bíblia, fala de si mesmo e não dela.

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