quinta-feira, 20 de agosto de 2015

E o Satanás?

"Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele. Então, ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e o poder, e o reino do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo; porque já foi lançado fora o acusador de nossos irmãos, o qual diante do nosso Deus os acusava dia e noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até a morte. Pelo que alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Mas ai da terra e do mar! porque o Diabo desceu a vós com grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta (Ap12.7-12)".

O caminho percorrido pela fé até a crença no demônio como hoje em dia é crido, é MUITO extenso. Este caminho, um dia, será assunto de um futuro trabalho. No momento, contudo, cabe uma breve releitura de alguns textos que podem iluminar um pouco desse longo percurso.

Satanás e Miguel aparecem como personagens antagônicos na literatura judaica. A oposição, como registro bíblico, se encontra em Judas. Onde o autor se vale de uma narrativa apócrifa sobre a disputa pelo corpo de Moisés. Nesta versão, Satan ouve de Miguel uma censura: "O Senhor te repreenda".

Um dado interessante está na disputa que há entre um "Anjo do Senhor" e Satan sobre o julgamento do sumo sacerdote Josué, segundo uma visão do apocalíptico Zacarias. As mesmas palavras de censura são usadas contra Satan, pelo "Anjo do Senhor" - o texto siríaco omite "Anjo" - (Zc 3). Há quem veja nesse "anjo" a figura de Miguel, posto que seria ele, segundo Daniel, o príncipe transcendental de Israel: uma crença antiga onde acreditava que cada território estaria sob o domínio ou responsabilidade de um anjo. Se podemos notar aí a presença de Miguel, não há garantia e nem creio que exista essa real preocupação. A cena, contudo, nos permite encontrar a origem da visão de Zacarias e a de João (no Apocalipse).

Havia um costume antigo, referente ao julgamento de um pleito, onde do lado direito do acusado ficavam o Satan e o Goêl. É preciso retirar a "capa espiritualizada" desses termos para que se consiga alcançar suas raízes populares. Satan não pode ser entendido, aqui neste parágrafo, como um ser transcendental e, tão pouco uma referência a ele. O personagem que mais tarde foi chamado de "demônio" é que nasce a partir desse Satan da corte de justiça. Satan, aqui, significa "acusador". Um homem que, no julgamento de uma causa, tem a responsabilidade de acusar ao réu. Apresentar argumentos que condenem. Pensando em termos atuais, seria, em um julgamento, o promotor. O Goêl, por outro lado, nessa tradição, seria aquele que luta pela causa do réu. Seria um homem que faz o papel de advogado. De remidor do acusado.

Essa imagem do julgamento antigo foi jogada para as esferas espirituais no período da apocalíptica judaica. No caso da visão de Zacarias, o Anjo faz o papel do Juiz e conclui como o Goêl. Defende a causa e declara a inocência ou o perdão sobre o réu Josué. Satan, agora personificado, é sempre visto como "acusador" ou "astuto" na tradição judaica. Nas palavras de Nilton Bonder, do "folclore judaico". Ambos trazem seus argumentos diante do Juiz, que é Deus. Essa imagem do acusador é bem mais fiel às tradições bíblicas do pós - exílio, do que a figura do inimigo de Deus, da tradição apocalíptica enóquica, por exemplo.

Esta última tradição acabou se tornando a que vigorou todo o Novo Testamento. Principalmente, na figura do imperador romano, que por diversas vezes, é visto como esse Satan inimigo de Deus e não mais como o Satan de Zacarias, Jó e Crônicas. Onde seu papel é acusar e apresentar argumentos a Deus (o juiz) para a condenação do homem.

Daí a grande novidade desse fragmento do texto de Apocalipse. Muito provavelmente, aqui não se encontra a uma composição joanina, mas, sim, uma referência - dentro da composição - à tradição judaica. Nessa expulsão de Satan, la dos céus, se revela a crença de que para os "justos" já não há mais julgamento. Eles já estão salvos! Crença presente na comunidade apocalíptica  de Qunram e, também, no evangelho de João. Este, no entanto, se referindo aos seguidores de Jesus.

No ambiente do Antigo Testamento a causa pode ser defendida pelo próprio Javé (vide Jó). No Novo, vemos a figura do παράκλητον (parákleton), traduzido como advogado em 1Jo 2.1. Onde, obviamente, se refere a Jesus. A vitória sobre o acusador (Satan) se deu pelos "argumentos" do advogado. Satan, perdeu, assim, sua utilidade como promotor. As acusações contra os seres humanos perderam sua eficácia pelas argumentações do advogado.

Os apocalípticos realmente acreditavam dessa forma, ou se trata apenas de uma figura simbólica? Não se pode diminuir uma "figura simbólica" com o termo "apenas". O simbologia, religiosa ou não, possui um poder tão grande que, por vezes, é confundida com o próprio fato que deseja apontar. Assim é o símbolo: não é o "algo", mas aponta para o "algo". E, esse símbolo, se bem marcante, aponta de tal forma para esse "algo" que se confunde com ele.

Peguemos a bíblia como exemplo: trata-se de um livro. E o um livro é a união de papeis para formarem miolo e capa e palavras impressas. Se o mesmo papel utilizado para fazer uma bíblia for usado para se fazer um caderno, nenhum cristão se sente mal em rasgar o papel do caderno. Contudo, se esse mesmo papel, no lugar de ser usado para compor um caderno, compor uma bíblia, um cristão terá certo "bloqueio" de rasgar sua página. Isto porque o papel perdeu sua condição de papel, ele, agora, faz parte da "Palavra de Deus". Óbvio que alguns cristãos entenderão que a bíblia simboliza essa palavra. Não é a palavra de fato. Se for rasgada, o livro estará em péssimo estado, a Palavra, por outro lado, estará intacta E, por isso, não terão pudores de rasgar suas folhas. Para eles, nesse momento que rasgam, o papel perdeu sua simbologia e voltou a ser papel.

Sendo assim, o fato de crerem que a corte de justiça terrena serve de figura para explicar o que acontece no "mundo espiritual", obviamente, levarão esse símbolo em seus discursos, sermões, ensinamentos e vivência diária. Jamais dirão que as coisas se dão exatamente dessa forma, mas, para explicar o indizível, lançarão mão do cotidiano.

E como de um anjo da corte celestial, Satan se tornou um inimigo de Deus?

A resposta se encontra em outra tradição judaica, chamada de "judaísmo enóquico". Onde Enoque figura o principal "revelador de mistérios". No livro que leva seu nome, ele revela que os vigilantes tiveram filhos com as mulheres e, os espíritos de seus filhos, depois da morte destes, recebem o título de "espíritos maus"  e "cheios de maldade, cometem atos de violência, destroem, agridem, brigam, promovem a devastação sobre a terra e instauram por toda a parte a confusão". Nesta tradição nascem os demônios que, segundo o "Livro dos Jubileus", uma décima parte não ficou aprisionada, mas sob a liderança de Satan. Essa duas versões sobre a origem de Satan são de fora da bíblia mas, ao mesmo tempo, são pelos autores bíblicos, aceitas e até combinadas.

Isso quer dizer que são verdadeiras?

Quanto a crer na factualidade ou não, isso não cabe ao propósito do texto. E, sim, apenas demonstrar, em parte e de forma bem resumida, como o "Satan", de um título humano que significava "acusador", se tornou o nome de um líder dos demônios. Independente da factualidade ou da simbologia, a mensagem do Apocalipse permanece: não há mais acusador. Uma mensagem que Paulo já entendia: De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. Romanos 8:1

Tendo paz em nossos corações, que aprendamos a nos perdoar, pois não há acusação nenhuma!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O que é Bíblico e o que Não é?

A Bíblia é, de fato, a mãe de todas as heresias. Já dizia a velha frase. O cristianismo atual se acostumou a definir ensinamentos como "bíblicos e anti-bíblicos". Óbvio que existem sim ensinamentos que são contrários à Bíblia e outros a favor. Mas a pergunta que fica é: de que Bíblia estamos falando?

Como costumo deixar claro para meus alunos, a Bíblia deve ser encarada como uma grande "biblioteca de bolso". Se você for católico, como uma biblioteca de 73 livros e se for protestante, de 66. Tais livros estão distantes temporariamente em décadas e até séculos. Há livros, como o de Isaías, que foram escritos em situações bem diferentes por autores diferentes (um mesmo livro): antes do cativeiro, durante o cativeiro e mesmo pós-cativeiro babilônico.

Em todo esse tempo a sociedade mundial e local (dos autores dos textos) passaram por diversas transformações e, como toda religião, houve mudanças ou dissidências. Assim, há textos que claramente afirmam que não há vida após a morte. E outros que lançam a esperança da Ressurreição e vida eterna. Pode-se dizer, por exemplo, que a afirmação de que não há vida após à morte é um ensino bíblico. Como se pode dizer que a vida eterna - que em si é contrária ao primeiro ensinamento - é, também, ensino bíblico. Podemos citar a teologia da retribuição, afirmada na Torah e nos profetas, mas negada pelos livros que são frutos do movimento de sabedoria, em Israel. Assim como maldição hereditária e responsabilidade pessoal.

Em outras palavras, muita coisa pode ser bíblica! Até ensinamentos contraditórios encontram seu amparo nas Escrituras. Uma briga onde se lança textos na face de um e se recebe textos na face, procurando justificar essa ou aquela ideia como certas, é um tanto quanto irracional. É preciso encarar que Israel pensava dessa e daquela forma, contudo em momentos diferentes. Cada texto, é, assim, uma "foto" de um pensamento e não representa sua perenidade. O texto se mantém, o pensamento, a crença, nem sempre. Há evolução nos pensamentos judaico e cristão. Isso faz com que se separe da Bíblia? Não! Pois o texto que traz a "nova ideia" também é Bíblico. Em termos gerais, pode se falar em que se separa de determinado ensino bíblico, enquanto apresenta ou se aproxima de outro. Mas jamais se separa da tradição bíblica. 

Um texto bíblico diz que mulheres não podem ensinar e nem falar nos cultos. A tradição bíblica, que é aquela tradição que se rever, se reavaliar e se reinventar, nunca se limitando ao que foi dito uma vez, contudo, afirma igualdade entre homens e mulheres. Qual modelo adotar, diante disso? Essa é a grande questão! Não se pode justificar abertamente um ensino baseado em um texto bíblico que despreze a origem desse  mesmo texto, como ele nasceu.

Em um ambiente antigo, como o da formação dos dez mandamentos, há a ordem para que se deixe o escravo descansar no sábado. Seria a Bíblia a favor da escravidão? Durante muito tempo se pensou que sim, justamente por conta de exemplos como esses. Se a Bíblia fala como tratar um escravo (com dignidade), então ela permite que um homem escravize ao outro. Embora seja bastante errado dizer "a bíblia fala", posto que, na verdade, um livro dela diz. Não necessariamente toda a biblioteca.

Acredito que a melhor forma de entender seja aceitar que os textos são situacionais. Pertencem a um tempo e fazem a leitura daquele tempo. A melhor forma, no passado, de se lutar em favor do escravo foi a defesa de suas dignidades física e moral. Os Direitos Humanos, contudo, nos interpelam e fazem com que, sequer, cogitemos isso hoje. Ora, se um cristão quiser escravizar alguém estaria amplamente apoiado pela bíblia! Mas não pela tradição bíblica! Que sempre procura trazer sua mensagem para o tempo que se vive. Resgatar ideias de um mundo antigo, inaplicáveis ao mundo atual, é trair o texto bíblico, engessá-lo e transformá-lo em um texto que serve para o mal. Assim, os Direitos Humanos, de certa forma recebidos por nossa cultura, acabam por, sem percebermos, iluminar as interpretações dos textos antigos. Julgamos o texto passado sob nossa ótica moderna. O que, em si, é comum, mas um grande equívoco na hora de interpretá-lo.

Não foi o que Jesus fez ao, seguindo a tradição dos comentaristas da Torah, ensinar sobre a superioridade do amor ao próximo. O texto é morto se alguém, sem vida, interpretá-lo. Ouço muita gente se justificando pela existência de pastoras; mulheres sem véu; defesa da liberdade; guarda do domingo, no lugar do sábado, dentre tantas outras coisas, por meio da expressão "isso era cultural". Ora... o que não é cultural? Que costume, lei, religião, criação humana não estão sob o espectro cultural? Tudo que é produzido pelo homem é cultura. Nada é alheio aos costumes. No máximo ainda não incorporado a toda a sociedade mas, se pertence a um indivíduo que seja, esta é sua cultura, sua produção.

Toda a bíblia é fruto de uma cultura que se modificou no tempo e de outras culturas que se dialogaram com essa "cultura mutante". Ou, para usar as palavras de Ernst Wurthwein, cultura de caráter "polêmico e usurpador", que é a judaica. Não se pode, portanto, interpretar nenhum texto sem considerar a cultura deles, segundo o tempo da escrita, e a nossa, segundo a evolução ou involução sociais.

Não acredito que o melhor caminho, portanto, seja brigar sobre o que é bíblico ou o que não é. É bíblico matar o filho desobediente, por exemplo. Ensinamento de morte ou de vida se pode tirar da bíblia. Tudo depende não dela, mas de nós mesmos. Cada um retira da bíblia aquilo que é, e não aquilo que ela tem a oferecer. Junto a outras grandes verdades está o entendimento de que quem fala sobre a Bíblia, fala de si mesmo e não dela.