quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sobre ser Deus e ser Humano

A humanidade de Jesus é um tema  complicado para alguns cristãos. A igreja não consegue humaniza-lo plenamente, mas o diviniza em tons grosseiros. Muitas são as afirmações bíblicas da humanidade de Jesus. Mas como pode ser humano e divino ao mesmo tempo?  Nesse incansável debate, que já dura desde a experiência da ressurreição, a confissão 100% homem e 100% Deus sempre sofre.

Há de se assumir que a divindade de Jesus é um dado da fé. Sua humanidade, por outro lado, um dado histórico. Aceitando as evidências históricas de que um homem chamado Jesus existiu, a primeira coisa a se reconhecer é sua humanidade.

Jesus faz parte da genealogia humana. Nasce, cresce, aprende a falar,  aprende a andar, aprende a comer sozinho, aprende a se vestir sozinho, aprende a tradição e cultura do seu povo, aprende a questionar,  aprende a ensinar e aprende! Aprende,  aprende e aprende.

Repito inúmeras vezes o termo para transmitir o que a humanidade de Jesus o obriga a fazer. O faço também para que se compreenda que não existe "aprender" sem "errar". A palavra "erro" é retirada de Jesus porque nela se encontra, equivocadamente, o sinônimo de "pecado". Para salvar a divindade de Jesus,  se aniquila sua humanidade. Esvazia-se o ser humano para se testemunhar o divino. Triste engano...

Esvaziar ( κένωσις)  é justamente o termo utilizado por Paulo para o movimento inverso. Para o dado da fé, Deus se esvaziou e assumiu humanidade. Jesus é o movimento contrário da apoteose. A divindade dá lugar à humanidade. O Deus é recebido entre os homens como um igual.

A grande questão está no pecado e na limitação da razão humana. Esses limites não são facilmente aceitos na pessoa de Jesus. Frases como "errar é humano" e "a mente humana é limitada" são expressões que não se aplicam a Jesus, para a maioria dos cristãos: ele sempre soube de tudo, ele nunca errou.

E, desta forma,  o cristianismo supersticioso acaba por criar um outro ser. Uma coisa nem humana e nem divina. Os pontos que fazem as pessoas ver a humanidade de Jesus são expressões de choro, fome e cansaço. É apenas isso que traz aos ouvidos cristãos a beleza da humanidade de Jesus.

Reitero o que disse no início: a única coisa que existe concretamente  (aceitando os dados históricos) é que Jesus é um homem!  A divindade é um dado da fé. A fé não pode destruir a história! A fé só poderá interpreta-la. A história existe e isso é um fato inegável. É a fé que, olhando o homem Jesus, o interpreta como divino.

Como ser humano,  há de se considerar: descobrimento de sua sexualidade; atração sexual; necessidades fisiológicas de cunho escatológico  (fezes e urina); cair no chão,  quando aprender a andar; pedir colo da mãe e do pai; brigar com os irmãos e etc. Toda a beleza da vida humana estão embarcadas na existência humana. Se a fé afirma a encarnação de Deus, deve,  portanto,  afirmar a participação das vitórias e derrotas dessa carne.

Como bem disse Leonardo Boff: humano como Jesus,  só podia ser Deus mesmo. É na humanidade de Jesus que ele é,  pela fé,  chamado de Deus. A experiência com o Deus Jesus só existe a partir do encontro com sua humanidade. Ela é o dado objetivo. A divindade,  porém é subjetiva. O Deus Jesus pode ser negado pela incredulidade de não - cristãos. Mas, jamais, sua humanidade será negada por eles. Infelizmente,  a fé cristã,  por vezes, nega o humano em nome do divino.

Duas naturezas confessadas opostas sao plenamente harmonizadas em Jesus. Ele revelou o que de divino há em qualquer um de nós. Talvez seja exatamente isso: quanto mais humano,  mais divino. E quanto mais divino, mais humano. Em outras palavras,  não se divinize,  se humanize. Esse foi o caminho trilhado por Cristo: caminho da humanização plena.

Nenhum comentário:

Postar um comentário