quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sobre diversidade - Um olhar sobre a Torre de Babel

A Torre de Babel é bem interessante: um momento em que Deus confunde os humanos e cria os idiomas. Há de se ter  mente o contexto babilônico do relato: Babilônia impunha sua cultura, idioma e sua centralidade no mundo e no culto.

Ela seria o protótipo da imagem simbólica da Torre denunciado pelos autores: um só idioma, uma só cultura, uma só capital e todos os povos feitos em um só.

A priori, isso pode ser visto como algo bom e bem romântico. Contudo, outras palavras definem bem essa ideologia: império, colonização, etnocentrismo e monoculturalismo.

A diversidade de línguas é relatada de forma simbólica para dizer que Deus é a favor da pluralidade. Defende a diversidade cultural. E esta deve ser defendida e mantida.

O cristianismo,  assim como outras religiões e culturas passadas, chegou rapidamente ao império e, desde então, mesmo em sua vertente protestante (EUA), tem pregado e difundido o evangelho da dominação (com significativas exceções).

Com isso, procura reconstruir a simbólica Torre. Ou, melhor, terminar a construção! Babel nunca foi destruída, nem no texto. A tentação de dominar e a própria dominação esteve presente em toda a história humana. Talvez,  cada nova pessoa que alimenta esse sonho megalomaníaco esteja,  na verdade, carregando seu próprio tijolo para a contribuição desse projeto desumano e anticristão. Aqui, o termo "cristão", obviamente,  aplicado na fidelidade do seguimento de Jesus e não no sentido institucional, que é o criticado neste texto.

Numa interpretação até interessante,  os cristãos pregam que a descida do Espírito Santo, com a distribuição de línguas, é uma antítese do que ocorre na torre de Babel. Ok... mas vamos ao texto:

"Habitavam então em Jerusalém judeus, homens piedosos, de todas as nações que há debaixo do céu. Ouvindo-se, pois, aquele ruído, ajuntou-se a multidão; e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se admiravam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses que estão falando? Como é, pois, que os ouvimos falar cada um na própria língua em que nascemos? Nós, partos, medos, e elamitas; e os que habitamos a Mesopotâmia, a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito e as partes da Líbia próximas a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes - ouvímo-los em nossas línguas, falar das grandezas de Deus. E todos pasmavam e estavam perplexos, dizendo uns aos outros: Que quer dizer isto?" (Atos 2.5-12)

Deve-se notar que não foi um idioma falado e todos o entendiam. Mas alguém falava e cada pessoa entendia em sua própria língua de origem.

Seria eu falar em português e um japonês, um alemão,  um inglês,  cada um, entender em seu próprio idioma. Não houve uma união de idiomas. Cada língua e cada cultura  (pois não existe idioma sem cultura) foram respeitadas. A diversidade  não foi banida, antes foi mantida. Toda cultura precisa ser entendida,  defendida, respeitada e tem o que ensinar e aprender. Quem sabe não seja essa a forma que o livro de Atos interpretou a comunicação o evangelho nas diversas culturas daquele tempo? 

É preciso se fazer uma análise: o evangelho pregado é um novo tijolo na Torre de Babel ou um respeitador da diversidade cultural? Proclama a libertação de um sistema opressor, ou oprime em nome de Deus?

O idioma imposto pela Torre é  desprezado pela confusão das línguas. Que mostram um Deus a favor da pluralidade. Uma só  fala comunicar a todos os idiomas as grandezas de Deus (Atos) é uma forma  de respeitar e demonstrar Deus em todas as culturas.

Por isso mesmo sou e sigo sendo ecumênico e macroecumênico. Reconheço Deus fora do cristianismo e fora do judaísmo. Assim como o reconheço neles em seus seguimentos originais, óbvio.

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