quarta-feira, 15 de julho de 2015

Menos Agápe, por favor...

Todo cristão conhece, ou pensa conhecer, o significado do termo Agápe (ἀγάπη), do grego. Traduzem como "amor perfeito", "amor de Deus", "amor serviço", "amor sacrificial", "amor incondicional" e etc. Na verdade, o cristianismo amou tanto essa palavra que a sacralizou excessivamente. Fazendo, inclusive, com que este amor se torne um peso, uma obrigação no regimento das relações.

O mandamento "Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor" (Levítico 19.18) foi traduzido, na Lxx (versão grega da Bíblia Hebraica) como

"καὶ οὐκ ἐκδικᾶταί σου ἡ χείρ καὶ οὐ μηνιεῖς τοῖς υἱοῖς τοῦ λαοῦ σου καὶ ἀγαπήσεις (AGAPÉSEIS) τὸν πλησίον σου ὡς σεαυτόν ἐγώ εἰμι κύριος".

E, como o novo testamento está em grego, é justamente esta a palavra que se repete constantemente. Principalmente para definir o relacionamento entre Jesus e seus discípulos e a relação entre os primeiros membros do cristianismo primitivo. A própria reunião da comunidade, onde partilhavam o pão, era chamada de Agápe.

E tudo isso, infelizmente, fez com que as pessoas "pisassem na bola", na hora de falar sobre o termo. Antes de tudo, que fique claro que esse termo não é "bom" por si só. No texto de II Timóteo 4.10 vemos que a palavra Agápe foi utilizada de forma negativa:

"Δημᾶς γάρ με ἐγκατέλιπεν ἀγαπήσας (AGAPÉSAS) τὸν νῦν αἰῶνα καὶ ἐπορεύθη εἰς Θεσσαλονίκην Κρήσκης εἰς Γαλατίαν Τίτος εἰς Δαλματίαν"

"pois Demas me abandonou, tendo AMADO o mundo presente, e foi para Tessalônica"

O agápe pode, sim, ser um amor voltado para algo que destrói, para algo ruim. Logo, não se trata de "amor de Deus" ou "amor serviço". Mas de uma palavra que não possui valor positivo, antes, ela precisa de um complemento para ser algo bom ou ruim.

O amor (ἀγαπάω = agapao) pode ser devotado, por exemplo:
  • ao poder e a fama (Lucas 11.43);
  • mais às trevas do que à Luz (João 3.19);
  • mais à gloria dos homens do que à glória de Deus (João 12.43).
Nota-se que é possível, também, devotar um "maior agápe" a isso do que àquilo. E esse "aquilo" ser o oposto do "isso". Amaram MAIS às trevas do que à luz; MAIS à glória dos homens do que a glória de Deus. O intuito é mostrar que o agápe não deve ser visto como algo positivo em si mesmo. E, nem sempre, como algo aconselhável sempre.

Há uma onda doutrinária que "exige" ou "aconselha" o agápe para a relação entre marido e mulher. Não creio que isto seja o ideal. Nada mais belo para essa relação do que o conceito do Eros. O Eros, bastante tratado no "Banquete de Platão", é, pelo filósofo, retirado da condição de deus e posto como ligação, uma união entre os deuses e os homens. E, claro, é daí que surgiu o termpo "amor platônico". Aquele amor onde você deseja ardentemente o que não tem. O que é fabuloso não apenas para a relação romântica mas, também, para a relação divina. Deseja-se aquilo que nunca é possuído. E, mesmo que possuído, escorre entre os dedos e você precisa ir à caça novamente.

Assim é, de fato, a relação entre um casal. A necessidade que tantos falam de "regar" ou "cuidar" do seu relacionamento é justamente a natureza do Eros. Pois nunca se deve pensar que se "conquistou" alguém. Essa pessoa sempre está temporariamente conquistada. Há de se precisar "regar", "cuidar", "envolver", "seduzir", para se manter viva a chama desse amor. Para manter de pé esse relacionamento.

A exigência do amor agápe nas relações de casamento é completamente doentia! Não posso me envolver sexualmente com quem não tem esse desejo por mim. Não posso beijar quem não quero e não posso me permitir viver situações onde sou humilhado em nome de um amor "incondicional". Não! Se há a exigência de que eu ame incondicionalmente e minha parceira também a mim, aí já se anula a incondicionalidade do amor: eu amo e espero ser amado. Ademais, embora eu deva amar ao outro, devo, também, amar a mim mesmo (ame ao próximo como a ti mesmo).

Ao olhar o Eros como um amor sexual, apenas, se perde o que de precioso há nele: prazer (não sexual), alegria, força, entrega, busca e desejo! Erradamente seria chamado de paixão. Não se trata disso! A paixão é cega e fruto daquele mito de "Tristão e Isolda" - origem do amor romântico que pouco tem nos dado, além de bons filmes e bons livros.

Haverá um momento em que se precisará amar incondicionalmente seu cônjuge? Acredito que sim! Entretanto, que, mesmo com sua presença (do agápe), que não falte o Eros. Pois é ele quem mantém um casal unido, mesmo nas adversidades que a vida traz.

O mesmo ocorre com os amigos! A amizade é fruto de uma entrega mútua. Não dá para ser amigo de quem não te considera amigo. Isso se chama doença! Não ame incondicionalmente seu amigo. Isso é brutal! Pois, por ser seu amigo, você, necessariamente, espera dele a amizade. E é esse amor "philial" que deve ser alimentando por ambos.

Onde fica o Agápe então?

Talvez naquela relação onde você precisa dar a vida por alguém (se der a vida por alguém, não há como exigir que ele faça o mesmo, pois sua vida já se foi). Talvez quando você note que se precisa suprir a necessidade de alguém, ciente de que essa pessoa nunca poderá retribuir nada em troca. É, por isso mesmo, muito bem traduzido como "Caridade". O termo, hoje em dia, certamente, foi empobrecido e tido como assistencialismo. Entretanto, caridade é o ato de dar algo a alguém, doar-se a alguém sem esperar nada em troca. A recompensa é o próprio amor! Por isso os homens podem amar (agápe) ao poder e à fama. A fama e o poder são as próprias recompensas. Claro que o poder e a fama trazem algo. Mas o "algo" do poder e da fama é, na verdade, a própria fama e poder. O amor a isso é exatamente a recompensa esperada. Também assim com as trevas e assim com qualquer coisa que se torna o fim em si mesmo.

Quando falamos que Deus ama (agápe) a todos, não estamos equivocados. Mas erramos quando falamos que se você não ama a Deus irá para o inferno. Pois, se Deus espera de nós que o amemos (caso contrário nos mandará para o castigo eterno), seu amor não pode ser interpretado como agápe e sim, talvez, nem como amor, mas como uma pessoa mimada que exige atenção plena.  Porém, isso é outro assunto.

Algo interessante deve ser considerado, para concluir: os textos do novo testamento traduzem, para o grego, os termos originais hebraico. Sendo assim, discutir efetivamente sobre agápe, philia ou eros, de fato, é bem atrativo e muito importante. Mas quando Mateus, Lucas, Paulo, João e etc falam de amar ao próximo, estão, na verdade, pensando em hebraico e não em grego. Estão colocando os mandamentos segundo a tradução oficial da bíblia hebraica, a LXX. Mas o pensamento de Jesus e Mateus está lá no mandamento de Levítico segundo o termo hebraico. Agápe é, portanto, em si, já uma tradução e, por isso mesmo, não vamos ficar discutindo sobre um termo que, no texto de origem (hebraico), nem existe.

A palavra hebraica para amor é ahava (אהבה) que forma a raiz da palavra hav que significa "dar". O alef (א) muda para ahav que significa "eu dou" e ainda "amado". Pode-se ler o mandamento assim: ofereça ao outro o mesmo que você oferece a você. Ou, se dê ao outro na mesma medida em que você se dá a você mesmo.

Dessa forma, pode-se aplicar esse termo amor em todas as relações: devo amar meu cônjuge como anseio ser amado e como me amo; o mesmo para o amigo ou para o necessitado.

Em suma: retiremos a obrigação de que os casais precisam se amar incondicionalmente. Em si, a matemática já não bate. Porque se eu sei que há essa exigência para ela, como há para mim, é este amor que esperarei ter, ainda que diga que não.

Casais, amigos e irmãos, por favor, mais Eros, mais Philia e menos Agápe nas relações: Mais doação na mesma medida que se espera.

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