sexta-feira, 10 de julho de 2015

Essa Moral Homicida...

O que me torna um assassino? O que me faz ser visto como um criminoso? Alguém diria que um assassino se torna assassino quando mata. Mas há quem julgue que o assassino sempre existiu dentro da pessoa. Ela, apenas, nunca havia matado alguém. Em outras palavras "a ocasião não faz o ladrão", este sempre esteve ali aguardando a ocasião para se manifestar. Talvez isso seja Freudiano demais ou até pareça ser um tipo de determinismo. A primeira talvez,  a segunda, jamais.

Tal pensamento não afirma que a ocasião virá. Podemos conhecer diversos homicidas que nunca matarão mesmo em uma caça. Mas ele está ali e se a ocasião vier, talvez nos surpreenda. Mas não devemos imaginar que quando se fala em "ocasião" pensa-se em "qualquer oportunidade".

O crivo moral, quer religioso ou o código penal, ou mesmo a própria ética, impedem bastante dessa "ocasião" aparecer. Talvez quando alguém diz "dá vontade de matar uma pessoa dessas" seja aí mesmo quando seu crivo o responde: fique apenas na vontade. E talvez seja essa a única diferença entre o que mata e o que apenas sente o desejo - motivado ou não por "vingança". Um possui moral diferenciada. o outro a moral social, o medo de ir pra cadeia ou qualquer outra "coisa comum".

Mas e quando a moral que o rege justifica o assassinato? E quando matar se torna um show digno de aplauso? E quando a aprovação social torna meu crime um motivo de honra? Aí, para não ficar feio, chamamos o assassino de "justiceiro". Assim ele se sente bem em realizar a tarefa. Talvez, se conhecer, sua memória o faça sentir aquele anti-herói da Marvel que exibe o símbolo da caveira em seu uniforme. Ou talvez lhe traga a memória outro herói dos quadrinhos que mantém "a paz e a ordem". Ou, quem sabe, sinta-se como o capitão Nascimento em "Tropa de Elite 2". Neste último caso, certamente, não entendeu a mensagem do filme.

Nós, por outro lado, que lhe chamamos "justiceiro", encontramos a pessoa que satisfará nosso desejo de matar. Alguém que "suja suas mãos" fazendo o que nosso crivo nos acovarda realizar. Mas convenhamos, homicídio é a palavra que define o ato de matar alguém. O ato de eliminar a vida de alguém. Não importa se estamos falando de Hitler ou de Ghand.

E assim, com essa mente e discurso de aprovação, revelamos o assassino encubado que habita em nós. Essa é a observação a se fazer ao ler ou ouvir comentários sobre o linchamento até a morte de um bandido ou suspeito de ser um - como aquele pobre moça que foi espancada até à morte por parecer com uma mulher acusada de sequestrar e matar crianças e tinha sua foto difundida nas redes sociais. Talvez por isso a exigência do apóstolo João, sobre o amor, seja tão forte. E, assim, diz sobre quem odeia:

Todo o que odeia a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele ( 1 João: 3. 15).

O ódio no coração é, em si mesmo, o suficiente para ser um homicida. Ainda que um tipo de assassino que "não saiu do armário". O ódio justifica a maldade e quando esta é contra àqueles que são sociopatas, ladrões, estupradores e etc, ainda se recebe o aplauso social. Dizem que "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão". Não sei quem é este que perdoa. Porém, ladrão que rouba ladrão, é ladrão. Homicida que mata assassino, é homicida. Em apenas um segundo, um "cidadão de bem" se torna aquilo que diz odiar.

E finalizo, mais uma vez, com Clarice:

 "(...) e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento".

Nenhum comentário:

Postar um comentário