segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sobre Acréscimos

Causa estranheza o termo "acréscimo" quando se fala em textos bíblicos. A piedade popular logo traz à memória o texto apocalíptico:

"Eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro; e se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão descritas neste livro". - Apocalipse: 22. 18-19

Dessa forma, para alguns, ocorre a interpretação de que não se pode acrescentar nada aos textos bíblicos. Há, contudo, que se organizar o pensamento sobre algumas coisas:

Os autores bíblicos  (com exceção dos "autores" da Torah) não sabiam estar escrevendo uma Bíblia. Suas obras podiam até estar baseadas em outros livros e até fazer referência a eles - alguns até que nem entraram na Bíblia. Entretanto, suas obras eram temporais e situacionais. Nenhum imaginou que, centenas de anos depois, seus livros ainda existiriam.

Cabe também a lembrança de que nem todos os livros bíblicos  tem um fim neles mesmos. Temos obras grandes como a Deuteronomista, que compreende os livros de Dt (12-26), Js, Jz, Sm e Rs. São livros que se completam. Que iniciam onde o anterior terminou.

Mesmo assim, o Dt sofreu longas alterações para compor outra grande obra: a Torah, ou pentateuco. Que compreende Gn, Ex, Lv, Nm e Dt (completo).

O conceito de "Bíblia" - uma coleção de livros canônicos - é bem tardio. Quando o livro do Apocalipse foi escrito, e mesmo depois dele, não havia uma coleção de fechada de livros. E existiam inúmeros outros escritos cristãos e judaicos que alimentavam a fé de ambas religiões. Textos que eram considerados inspirados. Mass que não foram reconhecidos como canônicos pela Igreja. Como também ocorreu com o judaísmo.

Partindo deste raciocínio, o autor dos versículos que amaldiçoam quem reduz ou amplia AS PROFECIAS, não poderia estar se referindo à Bíblia. Pois ela não existia e o livro do Apocalipse não pertencia a nenhum cânon. Era ele e ele, apenas.

É aceitável concluir que, então, ele estaria se referindo a ele mesmo e não a outros livros.

Ainda assim, é de comum acordo, na maioria das pesquisas, que o livro do Apocalipse foi composto por muitas mãos em espaços de tempo. Isso já anúncia, certamente,  de que houve acréscimos ao texto original.

Entretanto,  Apocalipse não foi o único a passar por novas redações. A grande maioria dos livros do AT, Evangelhos e mesmo cartas passaram por mais de um escritor em tempos diferentes. Sem contar as cartas que foram compostas a partir de diversos bilhetes de Paulo.

Há ainda acréscimos que ocorreram por erros dos copistas: copiavam comentários como partes do textos; pulavam a linha posterior do texto copiado (erro comum em leituras) e pra não jogar fora "arrumavam" o escrito, modificando o texto original; fora as mudanças feitas deliberadamente, para explicar ou facilitar o entendimento de um texto.

É preciso aceitar tais situações e rever nosso conceito engessado sobre a Bíblia. A própria tradição judaica fazia suas atualizações e interpretações por meio da Torah Oral. E, nisto, ela acabava por fazer "correções".

Negar as mudanças dos textos bem como a contribuição ou não de tais mudanças é ir pelo caminho mais fácil: da crença cega. E, assim, caminhar para o fim mais triste: a dificuldade de pensar; a alienação.