segunda-feira, 13 de abril de 2015

Religião e suas Metamorfoses

Engana-se o indivíduo que trata o religare como algo pronto. A palavra religião tomou conotação ríspida e imutável.

O simbologismo de metamorfose de Raul Seixas, cantor e poeta da existência contemporânea, nos permite uma leitura do homem como ser mutável, de decisões modificadas ao longo do tempo, preferindo ser uma metamorfose ambulante do que ter uma velha opinião formada sobre tudo. Da mesma forma Rubem Alves diz: "não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses". Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

A petrificação do comportamento religioso é algo preocupante. De certa forma, arrogante. Idéias congeladas do que é certo e errado tornaram mentes libertas em grandes cativeiros. A negativa da presença das angústias, das tristezas, das incertezas nos religiosos é patética, caminhando na contra mão da filosofia existencialista que nos apresenta o sujeito como o sujeito humano, não meramente o sujeito pensante, mas com ações, sentimentos e a vivência de um ser humano individual e normal. A soberba religiosa da ausência das dúvidas é traiçoeira. Concomitantemente o nordestino cantor Belchior explicitamente grita em uma das suas canções: “estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol”. Concluo o parágrafo com um questionamento: por que cantores, poetas, cidadãos que não falam claramente de religião expressam suas emoções internas com tanta facilidade e “nós” religiosos somos tão duros e cheios de repostas prontas através de versículos bíblicos tão descontextualizados?

Defendendo sua fé, a carta de São Pedro diz: "antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor..." 1 Pedro 3:15-16. Nota-se o caráter do apóstolo manso e cheio de temor. Seu livre pensar sobre sua fé foi divulgada, mas como mansidão e temor, diferentemente dos religiosos engaiolados cheios de raiva e maldade que empurram seus pensamentos de forma ignominiosa e perversa. Só o fato de ser manso com aquele que é contrário ao seu pensamento já é uma forma de recuar, de compreender que existem possibilidades de diálogo na réplica ou na tréplica.

Concluo com o seguinte pensamento: para o mundo pós-moderno de respostas prontas e enjauladas, o meu entendimento é algo positivo: a religião é feita por ações dos bem-aventurados, que são capazes de recuar sem negar suas convicções, de saber que o seu próximo também tem tristezas, angústias e decepções. Das pessoas que sabem se atualizar e contextualizar com mansidão e amor. Dos humanos que “modificam” seus pensamentos prontos para encaixar o melhor relacionamento entre Deus e a humanidade. Devemos nos despir de frases feitas.

Religião é uma “laço” entre Deus e os homens. Deus sonda sua criação na sua mais profunda existência. Sejamos mais brandos e adaptáveis a realidade do outro.