sábado, 7 de fevereiro de 2015

Por uma leitura atualizada da Bíblia

Os livros da Bíblia, como qualquer outro livro que imaginarmos, possuem influências social, cultural, econômica e, obviamente, temporal. Não se pode ler um texto antigo como se o mesmo nascesse hoje. Colocar para dentro de um livro (bíblico ou não) as realidades do mundo atual, fatalmente, nos levará a uma falsa compreensão do texto. Está claro que, para a fé, a mensagem bíblica é renovável. Contudo, esta renovação não modifica o contexto e as situações que levaram os autores a escrever. A atualização da mensagem bíblica fica, necessariamente, sob a responsabilidade do leitor. Este, por sua fé, necessita de inspiração divina e transpiração própria para realizar tal tarefa.

A homoafetividade, por exemplo, dentro do que falamos hoje ou a forma como é vista hoje, está longe de representar os textos de Levítico ou de Romanos. Sim, lá se encontra a condenação do relacionamento sexual entre pessoas de mesmo gênero. Porém, não está compreendida a noção de hetero ou homoafetividade dos tempos atuais. Dentre outros fatores, a exigência social e religiosa de que o homem tivesse filhos, por si só, era suficiente para a condenação de tal prática. Mais aceita em um ambiente grego, onde o homem poderia ter seu namorado, contudo, ainda assim, deveria ser casado e ter filhos. A exigência deveria ser cumprida.

Interessante que os que reprovam o tema anterior a partir dos textos antigos, não os usam para promover a poligamia. Abraão, Jacó, Davi, Elcana, Judá (que se deitou com Tamar, sua nora, pensando ser prostituta) e tantos outros "homens de Deus" que "usavam" prostitutas ou eram bígamos. Cito este fato para demonstrar que, quando o contexto cultural é CLARAMENTE bastante diverso, mesmo os fundamentalistas conseguem compreender que o ambiente de "ontem" é diferente do de "hoje" e, por isso, algumas práticas, mesmo que bíblicas, devem ser ignoradas ou "não incentivadas". Se esse cuidado não for respeitado, as mulheres continuarão em situação "oficialmente" menor nos cultos e nas hierarquias religiosas. Bem como nessa tolice de serem "guiadas" pelo cabeça do lar (marido). Embora, graças a Deus, historicamente,
sempre souberam se rebelar maravilhosamente a esse patriarcalismo.

O mundo é outro. E por mais que isso pareça querer dizer que o texto bíblico está defasado, tomo a coragem de dizer que defasado está o olhar sobre as Escrituras. Um olhar que não compreende o que representava o divórcio no passado e como ele é hoje. Que não entende que o próprio modelo familiar foi profundamente modificado. Isso já é um fato! E não quer dizer que o modelo antigo fracassou! O antigo está aí! Está vivo! Dividindo espaço com tantos outros que nasceram a partir das alterações sociais, culturais e econômicas que o mundo constantemente passa. E "constantemente passa" é uma realidade impossível de se controlar. Ao mesmo tempo que dificilmente perceptível. Estamos sempre modificando! Nada se mantém por igual de um dia para o outro. Ninguém, atualmente, ousa dizer que a rainha da Inglaterra é uma deusa ou filha direta de um Deus, como seria tratada no passado. A partir do voto popular não se pode encarar que Deus estabeleceu a Dilma no poder. Do contrário, tantos cristãos, que ousam tirá-la de lá, estariam indo contra a determinação divina. A política se separou da religião no que diz respeito ao conhecimento de que os representantes não são por Deus estabelecidos. Mas, ainda assim, há pastores e líderes religiosos que alimentam essa sensação para justificarem a presença deles ou de amigos seus no poder. Sobre política, cabe a luta pela justiça e pela paz. Objetivos reais dos profetas mas que, hoje, precisam ser atualizados na sua forma de realizar.

Quero lembrar que Abraão tinha escravos, Jesus fala de escravos em sua parábola e a própria figura do "senhor e escravo" é uma das imagens usadas para definir a relação entre Deus e o seu fiel. Contudo, quem ousaria dizer que Deus é a favor do trabalho escravo? O que falar do ecumenismo? A Bíblia é MUITO ecumênica. Mas isso exige um estudo mais profundo. Não tão perceptível ao que tem por hábito ler à Bíblia. E, por não estar facilmente observável, o tema aparece como infidelidade ou loucura aos olhos não treinados. 

Enfim, embora pareça que os escritos bíblicos tratem de assuntos do nosso mundo, é preciso entender que seus autores não conheciam a modernidade. Os focos eram o mundo deles e as situações que, direta ou indiretamente, mexiam com a sociedade de sua época. Em termos gerais são os mesmos que os nossos: injustiça, corrupção, exploração indevida, opressão e morte. No que diz respeito à moralidade, contudo, PARECE, e tão somente PARECE, falar da nossa moral. Mas não, não falam! Quando atacam a moralidade ou a imoralidade de sua época, tinham em mente que uma ou outra estavam realizando um desserviço à ética e ao ideal e Javé. Contudo, o que um autor aprovou no passado, séculos depois, outro condenou (o apedrejamento de uma mulher em flagrante adultério nos serve como exemplo). Até mesmo a Bíblia sabe que o mundo muda! Infelizmente, seus leitores, não.

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