terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Alguns Gêneros Literários da Bíblia - Como ler?

A Bíblia, como biblioteca, possui diversos livros e cada livro seu próprio gênero literário. A identificação de um gênero literário é importante para sabermos como, de fato, devemos conduzir nossa leitura e interpretação. São diversos os estilos! Seria exaustivo falar de cada gênero e de como cada um deles recebe seu tratamento. Vale, também, a lembrança de que em um livro podemos encontrar vários tipos de gêneros. Isto porque, por vezes, um autor pode ter necessidade de "lançar mão" de mais de um para comunicar sua mensagem. Deve-se encarar este fato: os livros da bíblia possuem mensagens. Não estão escritos "por escrever" e, tão pouco, são informativos, à semelhança do nosso jornalismo. E essas mensagens existem dentro das "regras" de determinado estilo literário.

Alguns gêneros que julgo importantes: Mito, Fábula e Apocalíptica.

Mito

Infelizmente há uma confusão entre duas palavras: Mito e Mentira. E ela acaba por dificultar o relacionamento entre o leitor e o texto. Ao classificar alguma obra bíblica como "Mito", os leitores mais devotos, por considerarem o termo como "Mentira", sentem-se desconfortáveis e rejeitam a classificação. Em sua mente, o texto, por ser bíblico, já é verdade. E, por "verdade", entendem como "factual". A herança desta confusão impede de que uma verdade possa ser mitológica ou divulgada por meio de personagens míticos.

Na realidade, a narrativa mitológica faz parte de um conjunto de crenças de determinada cultura. A grande característica da sua escrita é o caráter fantasioso e a participação ativa de deuses. Justamente por conta da fantasia as pessoas tendem a classificar como "não-verdadeiro". Entretanto, uma mentira é uma história ou algo que tenta se passar como verdade. Seu objetivo, no fim, é enganar. A narrativa mitológica não tem um sentido próprio. Como qualquer literatura, pode ser usada para o bem ou para o mal. Nos duas possibilidades, porém, procura comunicar algo impossível de ser transmitido sem as figuras do gênero mitológico.

O mito, de forma fantástica, fala de uma verdade ou procura explicar algum enigma. Estes podem ser, em termos atuais, científicos, éticos ou religiosos. Na Bíblia, o nascimento virginal de Jesus, por exemplo, seria uma narrativa mitológica: O fantástico estaria em uma mulher virgem, sem a participação de um sêmen, ficar grávida; A agraciada recebe a visita de um anjo que lhe transmite a mensagem Divina. Literariamente, esta história, pertence a forma mitológica de composição.

Como ler o Mito?

O texto mitológico não pode ser lido com olhos "lógicos". A lógica é plenamente desrespeitada no mito: o lógico é que uma mulher fique grávida após seu óvulo ser fecundado por um espermatozoide. E, se tratando de mundo antigo, através da relação sexual (não havia inseminação artificial). O mito procura comunicar uma verdade real que determinado grupo aceita, acredita ou deve passar a acreditar. É a mensagem comunicada que importa no mito e não sua factualidade. Esta pode, inclusive, estar sendo narrada. Mas não é o objetivo. Como exemplo: é histórico afirmar que Augusto dominou a maior parte do mundo antigo. É mitológico dizer que ele o fez por sua divindade ou por ser filho do Deus Apolo. Ao lermos que suas conquistas possuíam ligação a esta filiação, entendemos a intenção da história real sendo contada de forma mitológica. O que se quer transmitir com isso? O fato de estarmos distante do tempo em que o saber mitológico é natural, nos obriga ao esforço mental pra entender o que os autores dos mitos desejavam enfatizar.

Assim, o mito deve ser lido respeitando sua localização geográfica, seu tempo e sua cultura. Não deve ser encarado como "mentirinha", "conto de fadas", ou "Mentira manipuladora".

Fábula

São histórias ficcionais que tem como grande diferencial a presença de animais que possuem características humanas: como fala, moral e inteligência. Um grande exemplo está na fábula de Balaão e a jumenta ou a própria serpente do jardim do Éden. Estas, contudo, normalmente, chamadas de fábulas mitológicas, pela presença de anjos e/ou Deus.

Apocalíptica

São histórias que envolvem acontecimentos cósmicos, normalmente guiados por Deus. Também se pode perceber a dualidade entre Bem X Mal. Suas características são a relação entre mitos, símbolos, signos e números. Como gênero religioso, são chamadas de "profecia pós evento". Neste sentido, é comum o uso de um personagem real (ou mitológico, mas conhecido dos destinatários) de tempos passados como autor. Na verdade, um autor contemporâneo dos destinatários assina a autoria como se este personagem, no passado distante, tivesse "previsto" todos os acontecimentos "futuros" (na verdade contemporâneos aos destinatários) descritos na obra.

Como nasce a partir de um movimento dissidente do judaísmo, por volta do século II antes da nossa Era, seu caráter secreto é confirmado pelos escritos simbólicos. Apenas os destinatários possuem as chaves para decodificar as mensagens dos textos. Que, em grande maioria, possuem objetivo de rebelião pacífica à ordem estabelecida.

Existem diversos outros gêneros: parábola, epístola, evangelho, conto e etc. Entretanto, acredito que identificando estes há grande possibilidade de uma leitura mais "segura" dos textos bíblicos.

Por que saber o Gênero é importante?

A identificação do gênero literário em que o texto se encontra é uma dica de como nos aproximarmos dele e, óbvio, como lermos. Isto não desqualifica e tão pouco empobrece o texto sagrado. É preciso encarar que a "novidade" aparente da identificação das características dos textos não representa algo novo. Novidade é a leitura literal e que desrespeita a forma de escrever do mundo antigo. Hoje, na modernidade, cada vez mais nos interessam as narrativas documentárias, biográficas ou jornalísticas. Tais gêneros são os que estamos acostumados a conferir "confiabilidade".

No mundo antigo, os textos que hoje recebem a fama de "mentirinha", "ficção", "bobagem" e etc, são os que representavam a confiança. Não há ingenuidade nos nossos ancestrais. Esses gêneros eram as formas de escrever e descrever o mundo, a cultura, a religião, a política, a economia e tudo o mais que fazia parte de sua sua vida. Ler o texto que escreveram com a ótica atual é ser infiel a suas ideias e intenções. Conhecer o gênero, respeitando seu chão e sua origem, é a única forma de fazer justiça às mensagens das Escrituras.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Por uma leitura atualizada da Bíblia

Os livros da Bíblia, como qualquer outro livro que imaginarmos, possuem influências social, cultural, econômica e, obviamente, temporal. Não se pode ler um texto antigo como se o mesmo nascesse hoje. Colocar para dentro de um livro (bíblico ou não) as realidades do mundo atual, fatalmente, nos levará a uma falsa compreensão do texto. Está claro que, para a fé, a mensagem bíblica é renovável. Contudo, esta renovação não modifica o contexto e as situações que levaram os autores a escrever. A atualização da mensagem bíblica fica, necessariamente, sob a responsabilidade do leitor. Este, por sua fé, necessita de inspiração divina e transpiração própria para realizar tal tarefa.

A homoafetividade, por exemplo, dentro do que falamos hoje ou a forma como é vista hoje, está longe de representar os textos de Levítico ou de Romanos. Sim, lá se encontra a condenação do relacionamento sexual entre pessoas de mesmo gênero. Porém, não está compreendida a noção de hetero ou homoafetividade dos tempos atuais. Dentre outros fatores, a exigência social e religiosa de que o homem tivesse filhos, por si só, era suficiente para a condenação de tal prática. Mais aceita em um ambiente grego, onde o homem poderia ter seu namorado, contudo, ainda assim, deveria ser casado e ter filhos. A exigência deveria ser cumprida.

Interessante que os que reprovam o tema anterior a partir dos textos antigos, não os usam para promover a poligamia. Abraão, Jacó, Davi, Elcana, Judá (que se deitou com Tamar, sua nora, pensando ser prostituta) e tantos outros "homens de Deus" que "usavam" prostitutas ou eram bígamos. Cito este fato para demonstrar que, quando o contexto cultural é CLARAMENTE bastante diverso, mesmo os fundamentalistas conseguem compreender que o ambiente de "ontem" é diferente do de "hoje" e, por isso, algumas práticas, mesmo que bíblicas, devem ser ignoradas ou "não incentivadas". Se esse cuidado não for respeitado, as mulheres continuarão em situação "oficialmente" menor nos cultos e nas hierarquias religiosas. Bem como nessa tolice de serem "guiadas" pelo cabeça do lar (marido). Embora, graças a Deus, historicamente,
sempre souberam se rebelar maravilhosamente a esse patriarcalismo.

O mundo é outro. E por mais que isso pareça querer dizer que o texto bíblico está defasado, tomo a coragem de dizer que defasado está o olhar sobre as Escrituras. Um olhar que não compreende o que representava o divórcio no passado e como ele é hoje. Que não entende que o próprio modelo familiar foi profundamente modificado. Isso já é um fato! E não quer dizer que o modelo antigo fracassou! O antigo está aí! Está vivo! Dividindo espaço com tantos outros que nasceram a partir das alterações sociais, culturais e econômicas que o mundo constantemente passa. E "constantemente passa" é uma realidade impossível de se controlar. Ao mesmo tempo que dificilmente perceptível. Estamos sempre modificando! Nada se mantém por igual de um dia para o outro. Ninguém, atualmente, ousa dizer que a rainha da Inglaterra é uma deusa ou filha direta de um Deus, como seria tratada no passado. A partir do voto popular não se pode encarar que Deus estabeleceu a Dilma no poder. Do contrário, tantos cristãos, que ousam tirá-la de lá, estariam indo contra a determinação divina. A política se separou da religião no que diz respeito ao conhecimento de que os representantes não são por Deus estabelecidos. Mas, ainda assim, há pastores e líderes religiosos que alimentam essa sensação para justificarem a presença deles ou de amigos seus no poder. Sobre política, cabe a luta pela justiça e pela paz. Objetivos reais dos profetas mas que, hoje, precisam ser atualizados na sua forma de realizar.

Quero lembrar que Abraão tinha escravos, Jesus fala de escravos em sua parábola e a própria figura do "senhor e escravo" é uma das imagens usadas para definir a relação entre Deus e o seu fiel. Contudo, quem ousaria dizer que Deus é a favor do trabalho escravo? O que falar do ecumenismo? A Bíblia é MUITO ecumênica. Mas isso exige um estudo mais profundo. Não tão perceptível ao que tem por hábito ler à Bíblia. E, por não estar facilmente observável, o tema aparece como infidelidade ou loucura aos olhos não treinados. 

Enfim, embora pareça que os escritos bíblicos tratem de assuntos do nosso mundo, é preciso entender que seus autores não conheciam a modernidade. Os focos eram o mundo deles e as situações que, direta ou indiretamente, mexiam com a sociedade de sua época. Em termos gerais são os mesmos que os nossos: injustiça, corrupção, exploração indevida, opressão e morte. No que diz respeito à moralidade, contudo, PARECE, e tão somente PARECE, falar da nossa moral. Mas não, não falam! Quando atacam a moralidade ou a imoralidade de sua época, tinham em mente que uma ou outra estavam realizando um desserviço à ética e ao ideal e Javé. Contudo, o que um autor aprovou no passado, séculos depois, outro condenou (o apedrejamento de uma mulher em flagrante adultério nos serve como exemplo). Até mesmo a Bíblia sabe que o mundo muda! Infelizmente, seus leitores, não.