segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A liberdade tem limite... e brincadeiras também...

Amo à liberdade e dela reconheço o direito de qualquer ser. Acredito que a capacidade humana é ampliada por meio do exercício do livre pensar, livre agir e livre falar. A liberdade, entretanto, possui seu "outro lado". Ela é "para tudo" e, justamente, por isso criamos leis. Para controlar o mau uso da liberdade: sou livre o suficiente para matar, mas a lei não me permite. Contudo, a quantidade de transgressores pode aumentar muito, ainda assim. Neste momento as leis tendem a se torna cada vez mais severas. Mas quem disse que isso nos pára?

Há quem faça uso da própria lei para transgredi-la. É o chamado "buraco" nas redações das leis. E existem aquelas que, de tão "antigas", são transgredidas sem medo. Lembro-me do caso em que nossa legislação condenava o adultério. Essa prática se tornou tão publicamente comum, que a própria sociedade riu ao saber sua lei condenada o que ela tolerava.

A liberdade não tem limites e lei alguma conseguirá mudar isso. Tudo o que vivemos ontem, hoje e sempre foi, é e será consequência dessa liberdade plena: O ladrão, o traficante, o assassino, o adúltero, os corruptos, os corruptores e tantos outros, do mundo atual, como nós, nasceram em uma sociedade e cultura prontas. Ninguém sentou ao nosso lado e perguntou o que achávamos dessa ou daquela lei. Quando o código de Hamurabi (inspirador de muitas das leis antigas e "modernas") foi criado, ninguém me consultou para que opinasse sobre o conhecido "olho por olho, dente por dente". Nem mesmo meus representantes, eleitos por mim, estavam lá.

Por isso somos transgressores, porque somos livres. Houve, contudo, tempos atrás em que se lutou contra a liberdade. Os impérios e ditaduras limitavam o "ir e vir", mas não a condição de "ir e vir". Hoje, entretanto, em grande parte do planeta, se fala em liberdade. Liberdade de impressa, liberdade de opinião e liberdade nas escolhas. O que se pouco discute é sobre os limites dessa tal liberdade.

Cabe a liberdade sem respeito? Cabe a liberdade sem ética? É interessante manter uma liberdade que não considera o outro? Enfim, esse tal pensamento ou expressão livre tem sido usado, por vezes, como mecanismo de propagação do ódio, da intolerância e do fim da ética nas relações. Em nome da liberdade, se ataca a liberdade alheia. Em nome do livre pensar, se menospreza o pensamento e as escolhas do outro. A consequência disso está justamente na radicalização do uso da liberdade. Óbvio que não se justifica tamanha dor causada (aqui me refiro ao atentado em Paris). Vale, contudo, o seguinte pensamento de fácil construção:

1- Cartunistas do Charlie Hebdo fazem imagens desrespeitosas a Maomé.
2- Maomé, na religião muçulmana, não pode receber nenhum tipo de retratação. Nem em honra!
3- Todos sabemos que existem, em qualquer ideologia, os ultra-fundamentalistas. E que estes estão preparados para ferir qualquer pessoa que, em sua ótica, desrespeitar seus símbolos, doutrinas e líderes. Com o Islã não é diferente;
4- A reação ultra-fundamentalista era mais do que esperada.

Não aprovo e não aprovarei a violência. Considero um péssimo uso do dom da liberdade. Entretanto, o que vale não é minha opinião, ou a opinião Ocidental, ou a cultura judaico-cristã liberal. O que vale é entender que há outras opiniões e, no caso, particularmente, a opinião e a interpretação dos chamados "Terroristas". Para estes, os cartunistas estavam sendo violentos e, ainda em seu ponto de vista, violência se ataca com violência. Embora considerem a "violência" de sua parte uma forma de honrar ao seu profeta, portanto, em seu ponto de vista, mesmo que matem, trata-se de menos violência e mais zelo pela sua fé.

É monoculturalista o pensamento que julga como "errados" os que agem diferente da nossa cultura. O respeito às diversas formas de pensar é o limite saudável que a liberdade precisa ter. Não se deve observar a ação "terrorista" como luta contra a liberdade de imprensa. Sua ação está de acordo com o que julga ser fiel ao seu Deus e ao seu profeta maior (Maomé). O Ocidente precisa aprender a observar às outras culturas como dignas de seu lugar. Óbvio que existem "N" grupos muçulmanos que reprovam veementemente a atitude dos "terroristas", contudo, certamente, esses mesmos, sentem-se incomodados com as imagens desrespeitosas do Charlie Hebdo. Não pegariam e não pegarão em armas para "resolver a questão". Porém, compartilham da ofensa e da necessidade de respeito. A imprensa não pode, de forma alguma, usar o pretexto da liberdade para justificar ofensas e tão-pouco entender-se dotada de salvo-conduto em toda e qualquer cultura. Em outras palavras, cabe a seguinte expressão, que ouvia quando criança, "brincadeira tem limite". Infelizmente, o ocidente se comove demais quando pessoas "brancas", "inteligentes" e "civilizadas" sofrem esse tipo de ataque. Mas fecha seus olhos para o ataque que estas mesmas, bem como seus ancestrais, fazem e fizeram ao mundo atual, medieval e antigo. Que não haja necessidade de mais sangue derramado para entendermos o sentido de respeito e ética. Estes que devem ser os únicos limites à liberdade.

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