terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A fé marginal

Existem, na Bíblia, várias teologias. Isto porque, segundo Trebolle Barrera, os judeus entendiam a verdade como inalcansável. Portanto, de acordo com as exigências da atualidade de cada autor, pontos da fé eram revistos. Exemplos disso são a teologia da retribuição, defendida com unhas e dentes em alguns livros, mas fortemente combatida nos livros de Jó e Eclesiastes, principalmente;  e também a esperança pós -morte. Dado inexistente na fé judaica até o contato com a religião persa.

Mas no meio de tantas visões que persistiam ou eram revistas, existiam duas fortes visões que competiam : a visão sacerdotal e a visão profética. O sacerdote tinha o discurso oficial. Ele ensinava e interpretava às leis e costumes. O profeta, contudo, estava à margem da religião. Jeremias e Amos chegam a se levantar fortemente contra os sacrifícios. Jeremias acusa à pratica, inclusive, de traição à tradição fundante. E por falar em fundação,  o próprio Amós critica a exclusividade do Êxodo para Israel.

No ambiente do novo testamento, os saduceus representam a crença sacerdotal. Era a chamada religião do templo que, tempos antes de Jesus, foi desprezada por um grupo de sacerdotes que viam a deturpação da fé judaica em seus costumes e alianças com o império. Estes fundaram a escola dos essênios.

Jesus segue a linha dos profetas. Não à toa, é identificado como Jeremias ou com algum profeta que teria voltado à vida. O templo, desde a denúncia de Amos à ira de Jesus, tem sido um lugar onde ladrões se reúnem, segundo os profetas. Faziam uso da lógica da religião para oprimir ao povo. Óbvio que o profeta fala de forma geral. No meio do povo existiam os falsos profetas e, nos templos, sacerdotes elogiados. Havia, inclusive,  os de linhagem sacerdotal que se tornavam profetas. Mas o discurso e acusações dos profetas são,  normalmente, focado na generalização: reinado, exército, sacerdotes, aristocracia e, em muitos momentos,  o próprio povo que se comportava como cúmplice de todo sistema infiel e opressor.

Estamos em mais de dois milênios depois do ministério profético literário e, ainda hoje, existe a briga entre templo e a fé marginal. Há profetas aqui e profetas lá; como sacerdotes em ambos os lados. O cristianismo tem recebido denúncias de todos os lados. E o templo, ou a religião "templar", tem sido o grande alvo. Ainda em nossos dias há uma relação amistosa entre mercado e templo. E essa relação tem gerado consumistas, elites e um grupo de pessoas que desconhece sua fé. Cria-se outra no lugar. E esta criada é a favor do capital, da exploração e do comércio religiosos. Que a única diferença  do secular está a exibição do nome "Jesus". A diferença se torna tão insignificante, pois "Jesus", no caso, não passa de uma combinação de caracteres do alfabeto, que o mercado não religioso de torna amplamente alimentado e legitimado. Uma fé que nasceu de forma marginal e contrária às práticas dialogais entre templo e sistema - que sequer precisou de templo - hoje é oficialmente religião dos poderosos: políticos, pastores-estrelas e estrelas gospel. Tudo servindo de alimento para o dragão.
Quem se levanta contra isso se torna marginal, herege e polêmico. E daí?  Este deve seguir os passos do marginal, herege e polêmico de Nazaré. Acaso não foi ele considerado bandido e perigoso? Não descumpria mandamentos da tradição que pra nada serviam? Que marginal! Não se diz,  no evangelho,  que se dizia filho de Deus? Não era ele o que expulsava os cambistas que lucravam com a fé? Não curava no sábado? Não mandava que homens fizessem esforço nesse dia? Não atacava os homens exemplares,  acusando-os de artistas da fé? Que cara polêmico e herege!

Quem diz estar nele, deve andar como ele andou. É o que João diz em sua carta.

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