domingo, 18 de janeiro de 2015

A Pena de Morte e a Moral Cristã X A Ética de Cristo

Desde que e execução de Marco Archer foi confirmada pela mídia, diversas manifestações surgiram. Dentre elas, uma quantidade enorme de gente que concorda com a execução e deseja que, aqui, no Brasil, tal ato fosse comum, Em outras palavras, são a favor de pena de morte. Muitas dessas pessoas, inclusive, manifestam a crença em um Deus amoroso. Em um Deus da vida.

Tenho conversado sobre isso ultimamente. Sobre como existe, no meio cristão, uma moral invertida. Uma moral que se contrapõe à ética do evangelho. Esta ética que alguns cristãos se sentiram desejosos em seguir.

Não quero aqui discutir se nosso sistema penitenciário reeduca os prisioneiros. Sabemos que não. Também não quero ficar constantemente falando de Direitos Humanos. Existe a onda dos "Humanos Direitos". Um classe que se julga superior por seguir regras da sociedade e, portanto, legitima que quem assim não faz, não é "direito", então, não tem Direitos. Toda esta discussão não se terminará aqui. Muito menos com registro de apenas uma das opiniões. Meu interesse é outro. É a discussão sobre essa "moral invertida". Sobre a valorização do culto em detrimento da vida.

Não sou muito fã de mandamentos. Interpreto Decálogo como uma forma de se viver muito mais paleativa do que a ideal. Creio que o código de santidade (Lev 17-26) reflita a união de pontos de vista diferentes que compreenderam que os Dez Mandamentos eram importanes, mas que precisavam de complementos. É nesse código que encontramos "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo". Muito além de "Não matarás", muito além de "Não cobiçarás". Não à toa, o judaísmo entendeu que toda a Lei e as mensagens proféticas  dependiam de dois mandamentos: "Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças" e "mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor". 

Partindo disso, o Talmud Judaico diz: "O que pareça odioso para você, não faça a seu próximo. Essa é a única Lei; tudo o mais é comentário". A religião, por conta disso, demonstra sua dificuldade em lidar com os "culpados". Ela mesma, porém, era aquela que condenava "transgressores" à morte. Entendia, inclusive, que adúlteros, assim, deveriam ser condenados. Jesus, fiel a parte do judaísmo de seu tempo, questionava tais mandamentos de morte.

É preciso compreender que a "mulher adúltera", para nós, parece não merecer a morte pelo ato cometido. Contudo, estamos falando de uma cultura que condenava quem fosse adúltero. Ela não era uma mulher que "traiu seu marido". Ela era uma transgressora, uma criminosa. Não cumpriu a lei que exigia fidelidade. Aos olhos da Lei ela deveria morrer, sim. Quer você concorde ou não. Nossa visão moral atual não foi consultada por uma cultura do passado. Logo, estamos falando de uma mulher sentenciada à morte. Uma mulher no corredor da morte que, de Jesus, recebeu o seguinte convite de diãlogo:

"E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais" - João 8:10-11

Jesus livra uma mulher do corredor da morte. Podemos diminuir o valor do pecado dela. Afinal, em nossos dias, "todos podemos trair". Para a cultura da época não existe isso. Ela era uma criminosa. Que tenham montado todo o "cenário" para pegar Jesus ou que, na verdade, este relato nem represente uma história real sobre Jesus. Como um acréscimo dado, mais tarde ao Evangelho de João, podemos pensar nisso. O que importa é que a comunidade cristã original via, em todos, a possibilidade de "ir e não pecar mais". Rejeitava a ideia do uso da pena de morte como um exemplo para gerar temor. No que diz respeito à ética e ao senso de humanidade, a comunidade cristã original está para além de nosso conhecimento moderno.

Não poderia ser diferente, pois, diante da expressão do Talmude, já dita, "O que pareça odioso para você, não faça a seu próximo", Jesus apresenta outra "regra de ouro":

"Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas" - Mateus 7:12. 

Jesus não segue a linha do não fazer o mal ao próximo. Isto pode, de alguma forma, conduzir à passividade. Jesus entende que  DEVEMOS FAZER com os outros o que QUEREMOS que façam com a gente. E deixa claro que nisto estão a Lei (Pentateuco) e os Profetas (Js, Jz, I Sm, II Sm, I Rs, II Rs, Is, Jr, Ez e o Livro dos Doze Profetas).

Daí não compreendo a chamada "moral invertida". Esta tem grande zelo pelos instrumentos da igreja; pelos serviços e programações da comunidade de fé; teme falar ou brincar com "coisas de Deus"; são fiéis nos dízimos e nas ofertas;  e, no entanto, desejam a pena de morte. Desejam a morte de um semelhante sem dar a este a oportunidade  - até a morte - de ir e não pecar mais. Não se trata de inocentar. Como diz as Escrituras: Deus não inocenta o culpado (Naum 1:3). Não se trata de ser "bonzinho" ou de perdoar crimes. Trata-se de, ao culpado, permitir "segundas" chances. O cristão que não observa isso, ainda não aprendeu como convém a um seguidor de Cristo.

Há quem diga "mas e você? se alguém matar sua mãe, seu pai, estuprar sua filha? Vai perdoar?". Não se trata de perdão e nem do desejo de vingança que certamente brotaria em mim. Neste momento, de grande dor, precisaria de um amigo para dizer: "você é melhor do que isso. Contenha-se". Que de alguma forma me fizesse rememorar que sigo um caminho de paz. Não me exija o perdão, não me exija o aperto de mão! Mas a sanidade e a fidelidade à vida. Termino falando de Clarisse Lispector. Já que a Bíblia perdeu seu valor para os que dizem seguir  a Jesus mas amam a morte alheia, que ouçam Clarisse:

"(...)nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento".

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A fé marginal

Existem, na Bíblia, várias teologias. Isto porque, segundo Trebolle Barrera, os judeus entendiam a verdade como inalcansável. Portanto, de acordo com as exigências da atualidade de cada autor, pontos da fé eram revistos. Exemplos disso são a teologia da retribuição, defendida com unhas e dentes em alguns livros, mas fortemente combatida nos livros de Jó e Eclesiastes, principalmente;  e também a esperança pós -morte. Dado inexistente na fé judaica até o contato com a religião persa.

Mas no meio de tantas visões que persistiam ou eram revistas, existiam duas fortes visões que competiam : a visão sacerdotal e a visão profética. O sacerdote tinha o discurso oficial. Ele ensinava e interpretava às leis e costumes. O profeta, contudo, estava à margem da religião. Jeremias e Amos chegam a se levantar fortemente contra os sacrifícios. Jeremias acusa à pratica, inclusive, de traição à tradição fundante. E por falar em fundação,  o próprio Amós critica a exclusividade do Êxodo para Israel.

No ambiente do novo testamento, os saduceus representam a crença sacerdotal. Era a chamada religião do templo que, tempos antes de Jesus, foi desprezada por um grupo de sacerdotes que viam a deturpação da fé judaica em seus costumes e alianças com o império. Estes fundaram a escola dos essênios.

Jesus segue a linha dos profetas. Não à toa, é identificado como Jeremias ou com algum profeta que teria voltado à vida. O templo, desde a denúncia de Amos à ira de Jesus, tem sido um lugar onde ladrões se reúnem, segundo os profetas. Faziam uso da lógica da religião para oprimir ao povo. Óbvio que o profeta fala de forma geral. No meio do povo existiam os falsos profetas e, nos templos, sacerdotes elogiados. Havia, inclusive,  os de linhagem sacerdotal que se tornavam profetas. Mas o discurso e acusações dos profetas são,  normalmente, focado na generalização: reinado, exército, sacerdotes, aristocracia e, em muitos momentos,  o próprio povo que se comportava como cúmplice de todo sistema infiel e opressor.

Estamos em mais de dois milênios depois do ministério profético literário e, ainda hoje, existe a briga entre templo e a fé marginal. Há profetas aqui e profetas lá; como sacerdotes em ambos os lados. O cristianismo tem recebido denúncias de todos os lados. E o templo, ou a religião "templar", tem sido o grande alvo. Ainda em nossos dias há uma relação amistosa entre mercado e templo. E essa relação tem gerado consumistas, elites e um grupo de pessoas que desconhece sua fé. Cria-se outra no lugar. E esta criada é a favor do capital, da exploração e do comércio religiosos. Que a única diferença  do secular está a exibição do nome "Jesus". A diferença se torna tão insignificante, pois "Jesus", no caso, não passa de uma combinação de caracteres do alfabeto, que o mercado não religioso de torna amplamente alimentado e legitimado. Uma fé que nasceu de forma marginal e contrária às práticas dialogais entre templo e sistema - que sequer precisou de templo - hoje é oficialmente religião dos poderosos: políticos, pastores-estrelas e estrelas gospel. Tudo servindo de alimento para o dragão.
Quem se levanta contra isso se torna marginal, herege e polêmico. E daí?  Este deve seguir os passos do marginal, herege e polêmico de Nazaré. Acaso não foi ele considerado bandido e perigoso? Não descumpria mandamentos da tradição que pra nada serviam? Que marginal! Não se diz,  no evangelho,  que se dizia filho de Deus? Não era ele o que expulsava os cambistas que lucravam com a fé? Não curava no sábado? Não mandava que homens fizessem esforço nesse dia? Não atacava os homens exemplares,  acusando-os de artistas da fé? Que cara polêmico e herege!

Quem diz estar nele, deve andar como ele andou. É o que João diz em sua carta.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A liberdade tem limite... e brincadeiras também...

Amo à liberdade e dela reconheço o direito de qualquer ser. Acredito que a capacidade humana é ampliada por meio do exercício do livre pensar, livre agir e livre falar. A liberdade, entretanto, possui seu "outro lado". Ela é "para tudo" e, justamente, por isso criamos leis. Para controlar o mau uso da liberdade: sou livre o suficiente para matar, mas a lei não me permite. Contudo, a quantidade de transgressores pode aumentar muito, ainda assim. Neste momento as leis tendem a se torna cada vez mais severas. Mas quem disse que isso nos pára?

Há quem faça uso da própria lei para transgredi-la. É o chamado "buraco" nas redações das leis. E existem aquelas que, de tão "antigas", são transgredidas sem medo. Lembro-me do caso em que nossa legislação condenava o adultério. Essa prática se tornou tão publicamente comum, que a própria sociedade riu ao saber sua lei condenada o que ela tolerava.

A liberdade não tem limites e lei alguma conseguirá mudar isso. Tudo o que vivemos ontem, hoje e sempre foi, é e será consequência dessa liberdade plena: O ladrão, o traficante, o assassino, o adúltero, os corruptos, os corruptores e tantos outros, do mundo atual, como nós, nasceram em uma sociedade e cultura prontas. Ninguém sentou ao nosso lado e perguntou o que achávamos dessa ou daquela lei. Quando o código de Hamurabi (inspirador de muitas das leis antigas e "modernas") foi criado, ninguém me consultou para que opinasse sobre o conhecido "olho por olho, dente por dente". Nem mesmo meus representantes, eleitos por mim, estavam lá.

Por isso somos transgressores, porque somos livres. Houve, contudo, tempos atrás em que se lutou contra a liberdade. Os impérios e ditaduras limitavam o "ir e vir", mas não a condição de "ir e vir". Hoje, entretanto, em grande parte do planeta, se fala em liberdade. Liberdade de impressa, liberdade de opinião e liberdade nas escolhas. O que se pouco discute é sobre os limites dessa tal liberdade.

Cabe a liberdade sem respeito? Cabe a liberdade sem ética? É interessante manter uma liberdade que não considera o outro? Enfim, esse tal pensamento ou expressão livre tem sido usado, por vezes, como mecanismo de propagação do ódio, da intolerância e do fim da ética nas relações. Em nome da liberdade, se ataca a liberdade alheia. Em nome do livre pensar, se menospreza o pensamento e as escolhas do outro. A consequência disso está justamente na radicalização do uso da liberdade. Óbvio que não se justifica tamanha dor causada (aqui me refiro ao atentado em Paris). Vale, contudo, o seguinte pensamento de fácil construção:

1- Cartunistas do Charlie Hebdo fazem imagens desrespeitosas a Maomé.
2- Maomé, na religião muçulmana, não pode receber nenhum tipo de retratação. Nem em honra!
3- Todos sabemos que existem, em qualquer ideologia, os ultra-fundamentalistas. E que estes estão preparados para ferir qualquer pessoa que, em sua ótica, desrespeitar seus símbolos, doutrinas e líderes. Com o Islã não é diferente;
4- A reação ultra-fundamentalista era mais do que esperada.

Não aprovo e não aprovarei a violência. Considero um péssimo uso do dom da liberdade. Entretanto, o que vale não é minha opinião, ou a opinião Ocidental, ou a cultura judaico-cristã liberal. O que vale é entender que há outras opiniões e, no caso, particularmente, a opinião e a interpretação dos chamados "Terroristas". Para estes, os cartunistas estavam sendo violentos e, ainda em seu ponto de vista, violência se ataca com violência. Embora considerem a "violência" de sua parte uma forma de honrar ao seu profeta, portanto, em seu ponto de vista, mesmo que matem, trata-se de menos violência e mais zelo pela sua fé.

É monoculturalista o pensamento que julga como "errados" os que agem diferente da nossa cultura. O respeito às diversas formas de pensar é o limite saudável que a liberdade precisa ter. Não se deve observar a ação "terrorista" como luta contra a liberdade de imprensa. Sua ação está de acordo com o que julga ser fiel ao seu Deus e ao seu profeta maior (Maomé). O Ocidente precisa aprender a observar às outras culturas como dignas de seu lugar. Óbvio que existem "N" grupos muçulmanos que reprovam veementemente a atitude dos "terroristas", contudo, certamente, esses mesmos, sentem-se incomodados com as imagens desrespeitosas do Charlie Hebdo. Não pegariam e não pegarão em armas para "resolver a questão". Porém, compartilham da ofensa e da necessidade de respeito. A imprensa não pode, de forma alguma, usar o pretexto da liberdade para justificar ofensas e tão-pouco entender-se dotada de salvo-conduto em toda e qualquer cultura. Em outras palavras, cabe a seguinte expressão, que ouvia quando criança, "brincadeira tem limite". Infelizmente, o ocidente se comove demais quando pessoas "brancas", "inteligentes" e "civilizadas" sofrem esse tipo de ataque. Mas fecha seus olhos para o ataque que estas mesmas, bem como seus ancestrais, fazem e fizeram ao mundo atual, medieval e antigo. Que não haja necessidade de mais sangue derramado para entendermos o sentido de respeito e ética. Estes que devem ser os únicos limites à liberdade.