quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

E quem é Jesus?

Marcos, Mateus e Lucas nos deixam registrado um episódio bem interessante. Segundo a versão mais antiga:

"e no caminho perguntou aos seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que eu sou? E eles responderam: João o Batista; e outros: Elias; mas outros: Um dos profetas. E ele lhes disse: Mas vós, quem dizeis que eu sou? E, respondendo Pedro, lhe disse: Tu és o Cristo". Marcos 8:27-29

Já Mateus e Lucas acrescentam a informação "Filho do Deus vivo" e "Filho de Deus", respectivamente. João não nos informa esse episódio, mas mantém a declaração, agora, nos lábios de Marta, que diz "Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo" - João 11:27. Em comum, em todas as versões, está a declaração pessoal de Pedro - que fala em nome dos discípulos - e de Marta, que, mesmo em luto, compreende a auto declaração de Jesus "Eu sou a Ressurreição e a Vida".

Mas e hoje? Quem seria Jesus? Há livros que o chamam de psicólogo; outros copiam sua forma de liderança com o intuito de aumentar o lucro de suas corporações; há quem o julgue como o líder fundador de uma grande religião; Mas há os cristãos que - além de existir no meio deles essas mesmas declarações - dizem que ele é o Filho de Deus. Usam a mesma palavra de Pedro e que Marta. E, com essa declaração, não dizem absolutamente nada. Uns reduzem Jesus, outros, nada dizem dele.

Tentando voltar nossa mente para o que se passava antigamente, lembraremos de um imperador romano chamado César Augusto. Para quem não sabe, seu nome original era Caio Otaviano (ou Cai Otávio). Filho adotivo de Júlio César que, ao se tornar imperador, seu nome ficou conhecido como Imperador Augusto, ou Imperador César Augusto, Filho de Deus (Imperator Caesar Divi Filius Augustus).

Júlio César, segundo o Senado Romano, foi recebido entre o deuses como um igual e ganhou o título de Deus (apoteose). Augusto, sendo filho de Júlio, era, então, o Divi Filius, o  filho de Deus. É preciso entender que isso não se trata simplesmente de um título sem fundamento religioso. Muito pelo contrário! Havia estátuas e cultos ao imperador, à sua essência divina. Ao mesmo tempo, este título possuía um apelativo político, posto que o cabeça de Roma era um deus. O título Augusto é bem isso: digno de adoração, de veneração - Sebastos, em grego.

O que os primeiros cristãos deveriam responder quando perguntavam quem é Jesus?

Essa é a grande questão! Os cristãos sabiam bem que era Jesus e havia, certamente, muitos rumores sobre ele. Roma não teria problema algum em receber mais um deus em seu panteão. Havia espaço, certamente! O grande problema era a resposta que os cristãos davam sobre Jesus.... De um lado estava o "Imperador César Augusto", do outro o "Senhor Jesus Cristo". Mas não se tratava de apenas uma oposição nomina. Era uma oposição real! Ao ser chamado de Cristo (e somente Cristo), os cristãos já deixavam claro que sobre ele havia a verdadeira realeza dos judeus. Jesus era o ungido de Javé, prometido pelos profetas e que, certamente, livraria do jugo de Roma. Ao acrescentar "Filho de Deus", ou "Filho do Deus vivo", colocavam-no em "pé de igualdade" com o romano imperador. Entretanto, esse "pé de igualdade" é totalmente questionável, já que Augusto é filho do deus Júlio César, divindade não reconhecida pela cultura de Jesus e de seus seguidores. Jesus é o filho de Javé! Nas preciosas palavras de Mateus, filho do Deus Vivo. Em João a coisa fica ainda mais pesada e mais clara! João afirma que "Deus enviou seu unigênito filho". Deus envio o único filho que gerou ao mundo! Único! Nenhum outro pode ser chamado "Divi Filius".

Tal intitulação não tinha nenhuma ignorância política! Era política! Tal intitulação não tinha nenhuma ignorância religiosa! Era religiosa! Numa união indivisível entre religião e política, a declaração cristã tinha como olho atacar diretamente o culto e a cultura dominadora de Roma. O contrário do que se diz hoje, Jesus, mesmo que morto por Roma, continuava sendo aquele que lutava contra o império romano. Sua luta nunca foi despolitizada! Era política! Sua luta nunca deixou de olhar a vida humana em sua dimensão espiritual! Era Espiritual! A espiritualidade está não apenas nos atos de piedade... A espiritualidade humana envolve sua vida consigo, com o outro e com o meio. É, portanto, psicológica, social e política! Declarar Jesus como "Filho de Deus" era abarcar todas essas dimensões e, ao mesmo tempo, confrontar aqueles "dominadores deste mundo tenebroso". Que, infelizmente, a igreja aprendeu a pensar ser o diabo e não o diabólico imperador.

Dizer, hoje, que Jesus é o filho de Deus, nada comunica! Nada fala! Nada acrescenta! Ainda mais em um mundo onde todos se declaram filhos de Deus. É preciso resgatar a força dessa declaração, apresentando um Jesus que está dentro da sociedade e não em um "alto e sublime trono". Aliás, a imagem desse trono já deixa clara, também, sua visão política: Deus é o rei!

É triste quando o evangelho se torna algo religioso, preocupado em salvar as pessoas do inferno. Dando garantias sobre algo que ninguém garante nada (pós-morte). É triste quando o evangelho vira um engodo para se conseguir dinheiro, fama e sucesso. É triste quando o nome de Jesus sai das lutas sociais, se distancia da periferia, some dos prostíbulos, desaparece do cotidiano por ser "puro demais". É imensamente doloroso quando Jesus se torna defensor da moral e dos bons costumes  - atitude de Augusto que se tornou "Pai das famílias de Roma". Não! Jesus não é o pai das famílias e nem fica lutando pelas famílias de modelo "comercial de margarina". Jesus é o Jesus dos leprosos, dos doentes, das prostitutas, dos publicanos traidores, dos marginalizados, daqueles que são considerados impuros. A pureza mantém Jesus elevado. Enaltece o Cristo como um imperador romano!  A miséria conhece o Jesus que anseia por dividir pães e peixes; bagunçar um templo dedicado a Deus onde as pessoas ganham dinheiro; conhece o Jesus que trata as mulheres como mães e as prostitutas como irmãs. Um Jesus que não se preocupava em nos livrar do inferno, mas construir, aqui, um paraíso. E ao céu ele promete levar o "malfeitor" da cruz, enquanto, que para os religiosos, diz “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Estes que, segundo Mateus, tiveram dele as seguintes palavras: Ai de vós, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um convertido; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.

Esse é o Jesus que eu conheço... Se me perguntar é o que responderei.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sobre as Fabíolas...

Quando gargalhamos da tragédia alheia algo realmente está errado. Não sou moralista e tão pouco situações como a que recentemente se tornou viral me fazem buscar o culpado. Apenas me fazem refletir o quanto estamos prontos a tornar tudo piada. Existe uma palavra muito simples cujo significado não é bem percebido no cotidiano: empatia. A palavra vem do grego "empatheia" e tem o sentido de se estar "dentro do sentimento do outro". É a capacidade de se pensar "como eu agiria no lugar dessa pessoa?", ou ainda e, talvez, melhor, "o que eu sentiria nas mesmas circunstâncias?".

Sim, falo do "caso Fabíola". Dele fiquei sabendo ainda no trem quando alguém exibia, na minha frente, o vídeo para uma colega. Não ouvi som algum e até agora não sei as palavras usadas. Mas parte das imagens foi suficiente para que eu não me preocupasse em continuar vendo. Não me interessei e nem procurei saber sobre o que se tratava. Alguém que ficou interessado ou até recebido informações, deve saber o nome das três pessoas. Eu, no entanto, durante a maior parte do momento só ouvia falar de "Fabíola". Não conhecia nada dela! Apenas o nome! E já sabia que ela era "vagabunda", que "não se dava o respeito", que era "piranha", "safada" e que muitos homens, por acharem isso dela, sentiam (ainda que veladamente) uma inveja erotizada do "amante". Sim... Nesse mundo onde o machismo reina, mulher "vagabunda" não serve para nada, mas para sexo serve muito. E quando se torna "publicamente safada", passa a ser publicamente desejada e perde sua "autoridade" de negar qualquer investida. Essa é a Fabíola que todo o Brasil conhece. E ainda que ela tenha o "comportamento sexual" imoral (ou imoralizado), isso nada tem a ver com ela. O ser humano é muito mais do que isso. O ser humano, em uma sociedade, é filho, irmão, amigo, profissional, vizinho e, acima de tudo, é um universo de valores éticos e antiéticos, morais e imorais que somente ele conhece. Já dizia a tão admirada Clarice "Se for falar mal de mim, me chame. Sei coisas horríveis a meu respeito!".

Mas falo também do desequilíbrio emocional do marido machista que acha que por ser traído tem o direito de bater, humilhar e expor aquela a quem dia antes disse "te amo". Dizem que o amor é algo que não exige retorno. E é bem verdade... quantos homens não amam mulheres que não correspondem? Ou mulheres que amam homens que nada sentem por elas? O amor não exige retorno para existir, mas nós exigimos retorno para permitir que o amor nos guie. Na ausência de retorno, nos tornamos donos. Sendo homens (falo como uma pessoa do sexo masculino) temos todo o discurso de nossos breves antepassados que nos permitem "lavar nossa honra". Expor as mulheres que nos traem é uma forma de esconder nossa culpa e fazê-las únicas culpadas. Haverá quem nos console, haverá quem nos zoe, mas, acima de tudo, haverá justiça! Não carregaremos nossa vergonha sozinhos! Se sentimos vergonha, que as mulheres que amamos e devotamos respeito, por terem não correspondido a esse jogo de interesse que chamamos "amor", sejam crucificadas. E, assim, a irracionalidade toma conta e o "corno" se torna "maluco", "retardado", "imbecil" e "idiota". Classificações que com o tempo somem e, sinceramente, até brincando se chama um amigo assim. Ela, entretanto, se torna a "vagabunda". E isso a marcará para todo o sempre.

Mas quem se importa? Quem se lembra que sabe coisas horríveis de si mesmo? Quem se importa se havia amor naquele encontro de motel e não apenas "lascívia"? Quem se importa com o prejuízo material (carro), emocional, psicológico, social e com o profundo medo de sair na rua? Da profunda vergonha de se olhar no espelho e do desejo insistente de suicídio? Ninguém se importa... é tudo piada e motivo para rirmos. Empatia? Aquele sentimento que nos torna humanos e nos faz pensar o que eu sentiria nas mesmas situações (exposição na hora e exposição contínua na internet) não tem significado algum...

Jesus, um tempo atrás, viveu algo semelhante. Um pessoal se reuniu na "rede social" da época e "postou" um "vídeo" expondo uma mulher pega em flagrante adultério. A postura do mestre foi a de "não ver o vídeo" e, sem olhar para ele, convidar cada um a "deletar" o arquivo, ao dar condições de fazerem pensar sobre as "coisas horríveis" que cada um sabia a seu respeito e que, nessas horas, a gente infelizmente esquece. E ninguém ousou continuar tacando "adjetivos" nela. E Jesus, que nem viu o vídeo e por isso não foi testemunha de nada, não tinha nada a dizer a ela a não ser "vai cuidar da sua vida e se preserve". Uma verdadeira aula de empatia...

Acho que nem precisa dizer o que nos tornamos... fica bem fácil entender qual seria o sentido de antipatia. Se por algum motivo fica difícil, essa também vem do grego e o sentido é o oposto de empatia e nada tem a ver com ser chato ou metido. Antipático é aquele que sente o contrário do que o alheio sente. Isso quer dizer exatamente o que somos. Enquanto as pessoas sofrem de verdade, a gente ri do sofrimento delas. O sofrimento virou piada. Somos isso... antipáticos. Ai dos outros, por isso...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O Reino não é desse mundo...

O reino de Deus, ou reino dos Céus, segundo Mateus, era o centro da mensagem de Jesus de Nazaré.  Gosto da expressão "Senhorio de Deus". Creio que traduza melhor a ideia, mas seguirei com "Reino de Deus", para melhor guiar dentro dos textos bíblicos. Leonardo Boff diz que Jesus não veio pregar a Igreja, mas pregar o reino de Deus. Mais do que caminho comum na pesquisa bíblica, está a oposição: Reino de Deus de um lado e Império Romano de outro. Como uma proposta política que diverge da proposta imperial.

No Império, César é a cabeça de Roma e sua forma de domínio, baseada na "pax romana", prega a superioridade do império e da cultura romana sobre os demais povos. Há, de fato, de se reconhecer a superioridade bélica, de engenharia e higiênica: mais fortes, mais limpos e com grandes construções, os romanos tinham motivo de sobra para se sentirem superiores. Contudo, um povo resolveu resistir suas tentações culturais e seu domínio (não apenas este, mas este é o que importa no momento): os judeus.

A resistência judaica era  bastante presente nos movimentos populares que erguiam Messias com promessas de libertação e independência política (hoje, certamente, chamaríamos de terroristas, se fôssemos pró-Roma): Judas o Galileu, Teudas, a Revolta Judaica de 64 e Simão Barcovah são alguns exemplos. Todos estes usavam a mesma lógica romana para guerrear contra ela: a lógica bélica. A lógica da vitória a partir da guerra, a partir da violência. Alimentados pela esperança de uma manifestação divina, os judeus que se uniam a estes Messias estavam dispostos, inclusive, ao martírio, para instaurar o reino de Deus, independente e superior ao império romano.

Eis que no cenário surge um Mestre judeu chamado Jesus, filho de José; ou Jesus, filho de Maria; ou ainda, Jesus de Nazaré. Como sempre falo, dele temos poucas informações. O que sabemos com maior segurança é aquilo que seus discípulos interpretaram sobre ele. E eles afirmaram categoricamente: Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo. Entendiam Jesus como Messias e como o libertador do jugo de Roma. Mas nos escritos que deixaram para nós, não entendiam sua proposta política como uma nova Roma: conquistadora, dominadora, temida e reverenciada. Entendiam o reino não como uma colonização, mas como uma manifestação da bondade, liberdade, fraternidade e justiça. A oposição contra Roma não se tratava de uma guerra nos termos bélicos. Mas de uma ideologia que fazia de todos os seres humanos irmãos, membros da família de Deus. Quando perguntado sobre seu Reino, o Jesus joanino dizia:

O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui
João 18:36

Seu reino não pertencia a essa forma de pensar e agir dos "reinos do mundo". Jesus não estava simplesmente, em uma conotação fora da realidade, dizendo que seu reino pertencia a uma esfera superior, como que separando o mundo secular do mundo religioso. Jesus está afirmando que seu reino não pertence a esse sistema. Não segue a mesma linha que o que Roma seguia, do contrário, ele não seria entregue. Ele foi entregue justamente por seguir uma outra lógica: a lógica do "YHWH Shalom" e não da "Pax Romana".

Falo sobre isso, de início, para escrever sobre outra coisa. É comum o pensamento religioso colocar o Reino de Deus como um lugar lá no céu, longe desse "Mundo tenebroso". Uma verdadeira rejeição a este mundo criado. Uma condenação a este mundo que as Escrituras Sagradas chamam de mundo de Deus. Esperam a aparição apocalíptica de um Deus descendo dos altos céus, se manifestando e demonstrando sua superioridade contra a humanidade corrompida, corrupta e corruptora. Há outro texto, contudo, que demonstra a existência de outra forma de entender. Estas palavras vêm diretamente do Jesus lucano:

E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior.Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós.
Lucas 17:20,21

Oposto ao desejo alienante de um futuro hollywoodiano, onde Deus, de forma muito infantil, se manifesta e diz a ateus e membros de outras religiões: "Vejam minha glória e minha superioridade! Os cristãos estavam certos". Este cenário encontra total apoio na mentalidade do império romano, mas destoa das propostas interpretadas pelos evangelistas. Assim diz o Jesus, segundo Marcos:

Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles; Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Marcos 10:42-45

Um reino onde o Rei (Jesus, no caso) é, na verdade, servo. Serve aos seus seguidores e não se assenhora. O reino onde o rei é um igual e exige igualdade. Um reino onde o rei não age como superioridade, mas como um igual, um irmão. Tal situação foi muito bem entendida por outro evangelista, João, ao substituir o relato da santa ceia pelo "lava pés" (tarefa destinadas a escravos):

Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes. João 13:12-17

A superioridade da proposta política de Jesus é, por isso, chamada de utopia (sem lugar, não lugar). Não há lugar para isso nesse sistema. Não existem condições de se viver isso dentro do império Romano. É um sacrilégio des-divinizar ao César e torná-lo, por exemplo, igual a um escravo. É demasiadamente louco colocar um sacerdote em pé de igualdade com um cego mendicante. Como um mestre judeu, que deveria estar em acordo com as regras de pureza, ousa tocar em um leproso? As castas ou classes sociais se continuarem existindo, nessa proposta, existirão como que inexistentes: todos são iguais. Já não há tarefa de servo, tarefa de senhor, serviçais e senhores. Todos deveriam ser iguais.

Lógica completamente inexistente nos cristianismos de discipulados ou de falsa apostolicidade de nossos dias. Da mesma forma, inexistente nas propostas cristãs de superioridade religiosa ou cultural. O movimento pós-pascal não nasce para ser superior, mas para ser servo. Para demonstrar, pela fraternidade, o quão malignas são as armas e opressões político-religiosas.

Costumam utilizar um texto interessante para transformar o reino de Deus em uma mágica. Em um poder sobrenatural sobre o cotidiano humano:

Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. Mateus 6:31-34

Colocam nos seguintes termos: frequentem uma igreja, jejuem, leiam a bíblia, preguem o evangelho e todas essas necessidades serão supridas. Como se Deus, de alguma forma, por você estar trabalhando para a ampliação da instituição religiosa que você congrega (sob a desculpa de estar fazendo para Deus), fizesse com que todas as suas necessidades fossem supridas.

Não! É justamente buscar (ζητέω) com esforço, dedicação, com exigência, com o intuito de realmente encontrar o reino de Deus. Essa busca, ou procura, não é por um lugar visível. Em todo caso, por algo que possa ser encontrado. Como alguém que sabe que sua busca encontrará resultado. É necessário procurar por esse reino e por sua justiça (δικαιοσύνη). Uma palavra grega que traduz a Tsedacá, hebraico. Cujo sentido é igualdade. Como que "ajustando" o que está "fora do eixo". O judaísmo entendia que a Tsedacá aproximava a vinda do Messias. Na procura pelo reino de Deus e na busca (prática) da justiça desse reino, óbvio, a consequência é todas as necessidades serem supridas.

Um reino de justiça, amor, igualdade e fraternidade, elimina a fome, a miséria e a desigualdade social. Logo, a busca e implantação dos valores do Reino de Deus (um reino utópico, por assim dizer) faz com que "todas essas coisas sejam acrescentadas". A busca por essas coisas, sem a justiça e sem a igualdade (o que é comum em nosso mundo, em nosso reino), nos coloca em competição, amplia o desejo pela desigualdade e nos faz, inclusive, invejosos e disputadores. Tudo o que é bem aceito e sua nocividade escondida  pelo falso senso de meritocracia. No reino de Deus não há meritocracia. Há misericórdia, compaixão e igualdade. Por isso mesmo, "não é desse mundo". Não é desse sistema desigual! Não ergue uns acima dos outros. Elimina a pirâmide. Por isso mesmo... não nos interessa. Somos desse mundo! E quem deseja implantar essa blasfêmia entre nós, crucificamos! Pois é assim que funciona no mundo dos homens.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Devemos ter cuidado com essa religião...

Relato verdadeiro de um homem ao visitar uma aldeia afastada:

Sempre considerei todas as religiões válidas. Qualquer "ismo" que a criatividade humana inventar ou inspiração transcendental possa revelar.

Minha credulidade, contudo, "entrou em xeque" diante de uma aberração que encontrei (me perdoem, mas não consigo usar outra expressão) em uma aldeia antiga que fui visitar para realizar a pesquisa de campo de minha tese de mestrado. Uma religião que os adeptos afirmam ser muito antiga. Mas desconheço qualquer relato dela e tão-pouco de seus rituais. Aqui irei escrever algumas de suas práticas que me trariam grande preocupação, caso a mesma chegue ao nosso país.

Sua religião já começa desafiando qualquer pensamento moderno. Por favor, acho muito importante divulgar isso, posto que, sim, jamais isso deve chegar em nossa terra. Há, entre eles, um contínuo incentivo para relações incestuosas. Afirmam que é correto que um homem e uma mulher, filhos do mesmo pai, se casem. Chegam a considerar um falta ao deus deles se isso não for dessa maneira. Caso alguém resolva se envolver com uma pessoa de outra família, esta deve ser adotada pelo pai do(a) fiel. Isso mesmo! O pai do(a) fiel deverá adotá-la para que esta união seja considerada válida.

Embora isso possa causar espanto, nada mais estranho do que o ritual em que o iniciado deve passar. Após o pai da família adotá-lo, este deve se banhar no sangue de um "animal" que esse pai deve dar para o sacrifício. Digo "animal" (entre aspas) porque uma vertente mais radical diz que deve ser um homem. Pasmem! Cometem homicídio e usam o sangue do morto com parte do ritual. Dizem que o homicídio executado traz paz para a alma do iniciado.

Após o banho no sangue do assassinado, o que acabou de aderiar a fé será recebido na família que o adotou e poderá comer um pedaço do corpo do morto. O canibalismo é fortemente incentivado entre os membros da aldeia. Me arrepiei de medo quando o sacerdote trouxe em uma bandeja pedaços das vísseras do imolado (que, sinceramente, fiquei com medo de perguntar se era um animal ou um homem).

Para afugentar os espíritos maus, os membros da aldeia usam palavras mágicas. Eu quase corri de medo ao notar que o uso dessas palavras fez um homem, aparentemente são, cair no chão em convulsões assustadoras.

O nível de maldade dessa gente é horrível. O sacerdote celebrou o crescimento do ódio, da desnutrição que existia em volta deles e mesmo de terremotos onde milhares morreram logo no país vizinho. Segundo o sacerdote, o ódio e os males oriundos dele e as catástrofes são profetas do seu deus. São eles quem realmente demonstram a verdade das palavras dessa divindade.

Há entre eles alguns que são considerados zumbis. Segundo acreditam, essas pessoas foram mortas e o que mantém falantes é um espírito. Elas são defuntas, um espírito, que não é o delas, as mantém animadas. Em outra aldeia, achei grupos onde todos confessam-se zumbis. O que me fez entender o porquê de matarem um homem para sua refeição ritualística.

Aviso a qualquer um que ler essa mensagem: se ouvirem falar dos seguidores do Yeshu, corram! Não os receba em casa!

Nota de esclarecimento: é notório que a religião retratada se refere ao cristianismo. O objetivo foi escrever como alguém, sem nenhum conhecimento, cultural ou de estudo, sobre a religião, a interpretaria baseado unicamente no seu vocabulário cotidiano e nas coisas que são ditas em seus cultos. Assim, obviamente, pretendo que se reflita como demonizamos religiões diversas simplesmente por não conhecê-las a partir delas mesmas. Mas interpretamos informações de segunda mão ou daquilo que nos atinge visivelmente.

Vamos nos aproximar do diferente e permitir que ele nos diga sobre si. Nem tudo que parece, de fato o é.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Penélope

É com grande alegria e satisfação que apresento aqui meu primeiro livro: Penélope. Uma drama fictício de fácil leitura. O livro, narrado em primeira pessoa, conta a história de Heitor e de sua família.


O personagem é um jovem de 25 anos que recebeu do pai doente a missão de procurar pela irmã dois anos mais nova. Penélope, com um ano de idade, foi levada pela mãe, que abandonou filho e marido. Contrariado, o jovem sai em busca da irmã com a ajuda de Faris, um amigo de infância – descendente de uma tribo antiga, portadora dos saberes místicos da vida.Nessa procura, contudo, Heitor viverá experiências que vão da alegria à tristeza; do ganho à perda. Experiências que desafiarão sua visão de vida e de mundo. Um convite ao amadurecimento e ao mergulho dentro de si mesmo.


Este livro trata não apenas da história de uma família desfeita e de seus conflitos. Mas dos nossos conflitos, das nossas dificuldades. É um livro para se envolver, rir, chorar e se surpreender. Contudo, ao mesmo tempo, é um drama que nos interpela. Conduz-nos em reflexão sobre as consequências reais de nossas atitudes e nossa posição frente a elas. Não apenas no que diz respeito às outras pessoas, mas, também, a nós mesmos.

É uma história de amizade e de amores fraternos, que nos leva a pensar sobre até onde vamos e até onde devemos ir pelos outros e por nós mesmos.

Curta a página do livro no Facebook: https://www.facebook.com/livroPenelope

Onde comprar?






Ou, para um exemplar autografado, mande um e-mail para silviorazec@gmail.com .

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Textos Bíblicos: Acréscimos e Ausências

A comparação entre manuscritos nos permite perceber partes de textos que descendem de outra tradição, acréscimos realizados e mesmo, até, investigar o porque deles. Isso é importante pois, de verdade, se torna o primeiro passo para uma abertura de mente. Olhando as Escrituras defendidas em um pensamento "engessador" por outro prisma, se pode notar que "inspiração" nada tem a ver com "imutabilidade", antes, deve, unicamente, à fé. E para a fé que os textos nascem. Entretanto, "o tempo passa e nem tudo fica". Surgem novos pensamentos teológicos e novas tradições nascem ou se afirmam sobre outras. Assim, os textos passam por modificações. E essas alterações, muitas vezes sem querer e outras totalmente deliberadas, estão longe de possuir um caráter negativo. Demonstram, pelo contrário, a preocupação em manter atualizada a fé depositada nos textos. E, por isso mesmo, tais mudanças não estavam escondidas dos olhos da fé eram, antes, por ela aprovada.

Para demonstrar um pouco dessas mudanças que parecem tão pequenas, mas que possuem consequências enormes, vale uma comparação do Codex Sinaiticus, um dos manuscritos mais antigos contendo todo o Novo Testamento, com o texto que nós temos em mãos. É certo que levantará questões bem interessantes:


O Relato da Ressurreição de Jesusx
Almeida Revista e Atualizada
Sinaiticus
1 Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem embalsamá-lo.
2 E, muito cedo, no primeiro dia da semana, ao despontar do sol, foram ao túmulo.
3 Diziam umas às outras: Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo?
4 E, olhando, viram que a pedra já estava removida; pois era muito grande.
5 Entrando no túmulo, viram um jovem assentado ao lado direito, vestido de branco, e ficaram surpreendidas e atemorizadas.
6 Ele, porém, lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; ele ressuscitou, não está mais aqui; vede o lugar onde o tinham posto.
7 Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galiléia; lá o vereis, como ele vos disse.
8 E, saindo elas, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e de assombro; e, de medo, nada disseram a ninguém.
9 Havendo ele ressuscitado de manhã cedo no primeiro dia da semana, apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual expelira sete demônios.
10 E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam.
11 Estes, ouvindo que ele vivia e que fora visto por ela, não acreditaram.
12 Depois disto, manifestou-se em outra forma a dois deles que estavam de caminho para o campo.
13 E, indo, eles o anunciaram aos demais, mas também a estes dois eles não deram crédito.
14 Finalmente, apareceu Jesus aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado.
15 E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
16 Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.
17 Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas;
18 pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados.
19 De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus.20 E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam.
1 "E quando o sábado foi passado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas, que elas pudessem vir e ungi-lo.
2 E muito no início da manhã do primeiro dia da semana, foram ao sepulcro ao nascer do sol.
3 E elas disseram entre si: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?
4 E quando elas olharam, viram que a pedra estava revolvida; e era ela muito grande.
5 e entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido de uma roupa comprida, branca; e ficaram espantadas.
6 E ele lhes disse: Não te espantes; buscais a Jesus de Nazaré, que foi crucificado: ele ressuscitou; ele não está aqui; eis o lugar onde o puseram.
7 Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, como ele vos disse.
8 E, saindo elas apressadamente, fugiram do sepulcro; porque elas tremeram e ficaram maravilhadas a ninguém dizia qualquer coisa a qualquer homem;porque temiam.

A adição acima já foi tratada nesta postagem, mas vale relembrar. Claramente, há um grande acréscimo ao texto de Marcos que conhecemos. Mas há ainda outras comparações interessantes.


O Pai nosso de Mateus
Almeida Revista e Atualizada
Sinaiticus
9 Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
10 venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;
11 o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;
12 e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores;
13 e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal [pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!
Pai, Santificado seja o teu nome, Venha o teu reino. Tua vontade será feita, como no céu, assim na terra. Dá-nos a cada dia o nosso pão de . E perdoa os nossos pecados, como também nós perdoamos a cada um que está em dívida para conosco.
 E  não nos guie em tentação.
Versículos e Trechos Inexistentes
Almeida Revista e Atualizada
Sinaiticus
Lucas 41.51 Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. Não há"elevado para o céu."
Marcos 1.1 Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Não há "Filho de Deus".
Lucas 9.55-56 Jesus, porém, voltando-se os repreendeu [e disse: Vós não sabeis de que espírito sois]. [Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.] E seguiram para outra aldeia. Não presente.

É importante prestar atenção ao detalhe da ausência do "elevado para o céu" , pois isso elimina, na versão do Sinaiticus qualquer ascensão de Jesus dos evangelhos. Mateus não tem (em nenhuma versão), Marcos não possui as adições (no Sinaiticus) , João não tem e, sobrando Lucas, não possui também essa tradição de Cristo sendo elevado aos céus.

Outro dado interessante é a plena ausência no Sinaiticus do relado ta mulher adúltera, tão querido e tão pregado para os leitores do Evangelho de João.

O que muda com isso? Nada, do ponto de vista da fé. Mas do ponto de vista da pesquisa, surgem algumas questões. Na verdade elas são antigas, mas vale colocar aqui como algo "novo" para contribuir com a reflexão.

Algumas interessantes questões são: Considerando que Marcos seja o primeiro evangelho, por que os outros evangelistas viram a necessidade de narrar detalhes do encontro dos discípulos com o Ressuscitado? E, considerando Marcos, por que esse final do evangelho tão inesperado e não conclusivo (recomendo a leitura do post citado lá em cima).

Como costumo dizer aos meus alunos, vale a pena não brigar por algo ao ponto de condenar a interpretação alheia (caso ela não produza dano ao próximo e ao interpretador). As vezes se briga por uma palavra, um pedacinho do texto bíblico e se tira várias conclusões a partir desse único verbete, que as vezes nem consta nos originais mais antigos... Vale a reflexão...

(recortes de http://www.biblicalarchaeology.org/)

Ah Eclesiastes! Esse santo herege...

Que proveito tira o trabalhador de sua obra? Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens:
todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro.
Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida; e que comer, beber e gozar do fruto de seu trabalho é um dom de Deus.
Eclesiastes 3:9-13

E disse em seguida ao homem: "Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar."
Gênesis 3:17-19


A sabedoria de Israel é um movimento "herético" no melhor sentido da palavra. Questiona todos as teologias. Desde as que nascem no templo, com seu discurso oficial, até as que vivem à margem da religião. As populares, por assim dizer. O livro de Eclesiastes põe em xeque a crença na retribuição a partir de atitudes boas (teologia oficial) e a esperança de uma vida após a morte (teologia de dissidência). A primeira, a vida nos ensina que ele está certo. A segunda, temos esperança, a partir da experiência do Cristo Ressuscitado, de que esteja errado.

Contudo, o foco aqui é outro. Lado a lado estão colocados dois textos. Um deles apresenta o fruto do trabalho como um dom de Deus. Enquanto em outro texto, mais antigo que o Eclesiastes, há uma referência de que o pão, como fruto do trabalho, seria um castigo de Deus.

Podemos notar que o autor de Eclesiastes conhecia esse texto de Gênesis. Ele responde a pergunta dizendo que viu o trabalho que Deus "impôs aos homens", como também a outra referência ao texto de Gênesis em "todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo".

Entretanto, ele se separa de Gênesis. Ele contesta a pergunta que, em si, tinha um caráter retórico cuja resposta seria: não há nenhum proveito. O Qoelet, pelo contrário, diz que há sim! E que não há nada melhor para o homem do que trabalhar (procurar o bem-estar durante a vida e comer, beber e gozar do fruto do seu trabalho). E ainda diz que isto é dom de Deus, e não castigo.

Como unir esse pensamento? Não há como unir! Acredito que, na verdade, há uma outra forma de ler o texto de Gênesis. Isso já cheguei a tratar em outra postagem aqui. Mas, contudo, neste momento, podemos olhar para a própria Bíblia como, segundo se entende, a grande intérprete dela mesma. Os ditos populares afirmam que "o trabalho enobrece o homem". Um tipo de pensamento que vai no caminho do Qoelet. Ele olha para o texto Bíblico e o reinterpreta de forma diferente. Olha com outros olhos para aquilo que possui uma interpretação "pronta".

Este desafio do Qoelet é o desafio de todo aquele que procura realizar uma hermenêutica sincera. É preciso olhar as implicâncias de uma interpretação pronta. Olhar sua validade. Compreender as consequências daquela interpretação tão massificada. E, ao notar algo nocivo, procurar perguntar ao texto: o que mais você tem a me dizer?

O Qoelet perguntou ao texto e encontrou. E nós? Se perguntarmos ao Eclesiastes "como você viu dom de Deus em um texto que narra que Deus impôs aos homens, como você mesmo mencionou?". O Qoelet nos diz: olhe a vida! Olhe o rosto de um pai ao encontrar um trabalho. Olhe o rosto de um jovem ao conquistar o primeiro emprego. Veja o prazer do pai de família ao comprar o alimento que conseguiu com seu suor. Como pode isso ser uma maldição?

Alguns dirão que a maldição é ter que trabalhar para conseguir o alimento. E o Qolet diria que não há nada melhor para o homem do gozar do fruto do seu trabalho. Logo, sem essa "maldição", a "melhor coisa" não existiria. É, portanto, chamada de dom de Deus. 

É interessante perceber que Deus também trabalhou e se alegrou ao ponto de, no Sábado, descansar e desfrutar do seu trabalho: "Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. Ele abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse dia repousara de toda a obra da Criação" (Gênesis 2:2,3). O próprio Deus é um trabalhador. No outra versão sobre a origem de tudo (História de Adão e Eva), Deus é um lavrador. Deus planta um jardim. Deus é um trabalhador.

Na controvérsia sobre o sábado, Jesus disse:

"Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" João 5:17

Embora a questão não passe por aí, e independente da contradição criada por Jesus - onde aponta que Deus não descansa e continua trabalhando - há a demonstração de que, na bíblia, o trabalho, por vezes, é visto como algo bom. A questão, entretanto, é outra. Voltemos ao ponto focal.

A sabedoria olha para a vida e busca, nela, a inspiração para a compreensão dos mistérios "reveláveis" de Deus. Ao olhar o texto bíblico, não o percebe como algo pronto. Como uma "caixinha de promessas". Compreende, contudo, como algo que precisa ser relido à luz da vida. A vida, o cotidiano, o Deus presente na vida do ser são as ferramentas do sábio.

No que aprendemos com isso? Que tal reler o texto de Gênesis à luz do Qoelet?

Deus diz: "Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente
Gênesis 2:16,17

A serpente diz:

"Oh, não! - tornou a serpente - vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal."
Gênesis 3:4,5

E eis o motivo da expulsão do Jardim:

E o Senhor Deus disse: "Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente."
Gênesis 3:22

Parece que a serpente estava falando a verdade...

Trata-se uma provocação! De uma forma de observarmos os textos bíblicos e repararmos essas "santas heresias" que nos permitem investigar, questionar e encontrar um novo sentido em textos tão "prontos" e com interpretação tão "segura". Que, na verdade, nem tão segura assim. O olhar atento do Qoelet precisa ser o olhar atento de todo aquele que se aproxima dos textos bíblicos. De todo aquele que aceita o caminho da Teologia.

Um Desabafo, apenas um Desabafo

Há apenas uma certeza sobre o que pretendo falar. Antes, contudo, preciso ponderar algumas coisas: não importa se você mora no campo, na favela ou nos grandes centros; se vive uma cobertura no Leblon ou em uma favela esquecida. Você, certamente, não gostaria de ser discriminado e você, certamente, não gostaria de ser assaltado. Aquilo que não gostamos de que seja feito conosco, é justamente o que fazemos ou o que, de certa forma, aprovamos.

Leio discursos que me doem as vistas e ouço falas que me machucam os ouvidos: "cidadão de bem", "pessoas honestas" e tantas outras qualificações que me deixam, ao mesmo tempo, indignado e perdido. E completando, há outras que me causam semelhantes dores: "marginais", "bandido bom é bandido morto" e similares. Expressões que me fazem perguntar: do que estamos falando?

Meu pai é lanterneiro e minha mãe era manicure, costureira e cabeleireira. Ele estudou até a 4ª série e ela até a 7ª. Todos viemos de Pernambuco (meus pais, dois irmãos mais velhos e eu). Morando na parte pobre da Baixada Fluminense, vivi uma época em que as pessoas mais ricas que eu conhecia eram as que tinham carro e telefone, em casa. E, ainda assim, essas eram as pobres, diante de tanta riqueza concentrada na Zona Sul que, confesso, lembro-me de ter ido duas vezes quando criança: na Praia de Copacabana e na Praia da Urca. Não me recordo de discriminação pois, embora filho de mulato e descendente de índio, era, até meus 16 anos, considerado loiro (ou de cabelo claro), meu irmão do meio era moreno de cabelo tão liso que nem se precisava pentear e meu irmão mais velho, branco. 

Cedo, encontrei na Igreja Metodista a possibilidade de conhecer outras pessoas e de outros mundos, até então desconhecidos para mim. Em encontros regionais e nacionais, conheci adolescentes muito ricos e outros mais pobres do que eu. Contudo, ali, no meio, eu não tinha "malícia" suficiente para saber quem era quem e nem me importava com isso. A inocência de minha adolescência era gigante. Por algum motivo, alguns "ricos" achavam que eu fazia parte do mesmo grupo e deles ouvia comentários que me deixavam assustado. 

Devido a estes encontros e conhecer "novos mundos", consegui notar o que não via: Dentro da minha comunidade de fé havia a discriminação racial e, também, social. O que me tornou um adolescente fechado para algumas pessoas e com grande dificuldade de entender certos comportamentos. Mas uma coisa eu tinha certeza, eu era bem pobre e por mais que, por motivos alheios ao meu entendimento, me sentisse bem recebido em determinados grupos, ainda assim, não me sentia parte e, por vezes, me indignava estar ali.

Meu irmão mais velho, um dia, resolveu se sacrificar e me pagar um curso de informática básica (Windows, Word, Excel e PowerPoint). Foi onde descobri que tinha talento para o mundo tecnológico. Um tempo depois, um amigo me indicou para trabalhar em uma empresa que fazia impressão de crachás e cartões de crédito. Lá notei ser autodidata: aprendi, sozinho (pois a Internet era discada e não poderia usar para pesquisa) a usar o Corel Draw e o Photoshop. Incluindo, assim, no meu trabalho, não apenas a impressão dos dados, mas a arte dos Crachás e Cartões de Crédito. Contratado por uma concorrente, fui trabalhar na Zona Norte. Em Cascadura. Meu primeiro emprego fora da Baixada Fluminense. Até aí, nenhum problema. Todos éramos da "parte pobre" do Estado. Nos dávamos muito bem! Eu só havia conhecido o preconceito dentro da Igreja e por parte de adolescentes e jovens. Algo que era fácil "driblar" na mente.

Da Zona Norte, fui dar aula de Informática em Queimados, na Baixada. Lá tive contato com pessoas de todo o tipo. Reencontrei o preconceito entre os próprios alunos. Como era muito jovem (20 anos), era fácil encontrar alunos mais velhos e mais novos. Lidando com o mundo da informática e tendo meu primeiro computador (usado), pude, em casa, ver que o desenvolvimento de sistemas e sites era parte do talento que havia descoberto. Facilmente, aprendi o suficiente para trabalhar em outra empresa, como desenvolvedor web. Onde fiz tanto a intranet quanto o Site. Lá conheci pessoas, também, de outros lugares onde, em momento algum, classifiquei como inferiores. Embora, por vezes, ouvia a necessidade de eu me mudar. De sair de Mesquita para um lugar melhor. 

Ouvia isso de pessoas que NUNCA haviam pisado no chão da minha cidade. Foi o início real do que eu entendi ser rotulado, simplesmente, por morar em um lugar afastado do grande centro. Engraçado que o rótulo foi de julgarem que eu tinha condições de morar em outra lugar. Seria bem-vindo numa área melhor. Queriam que eu fizesse parte de um grupo mais elevado, em termos territoriais.

Mas nada foi pior do que a experiência de cursar a Faculdade de Teologia do Bennett, no Flamengo/RJ, no sentido do que estou falando, claro.. Algumas pessoas me consideravam inteligente e quando ouviam que eu morava em Mesquita, estranhavam e diziam que eu parecia ser alguém da Zona Sul. Porque tinha "a cabeça muito boa para quem mora na Baixada". Alguns juravam que eu era membro da Igreja do Catete, o que me irritava, mas não em condições de externalizar. Apenas olhava com cara de paisagem para aquelas pessoas que pensavam estar me fazendo um elogio.

Dessa empresa, fui para onde estou até hoje (desde 2008). Já com nível superior e com especialização em Engenharia de Software e, agora, membro da chama Classe Média. Aqui testemunhei todo tipo de discriminação possível. Ao ponto de ouvir que as pessoas que andavam de trem eram "gente sem educação e sem acesso ao conhecimento". A pessoa não sabia que eu era um dos tais. Mas devo dizer que, com 31 anos de idade, vindo da camada pobre e, agora, fazendo parte da chamada classe média, testemunhei discriminação somente nas classes superiores. No máximo, percebi trauma e ferimento do lugar de onde vim.

Quando era criança ou adolescente, brincando entre os que eram, sem eu saber, rotulados como pobres, éramos todos iguais. Brigas e disputas eram e são bem naturais. De forma que quando ouço alguém se julgando "cidadão de bem", porque tem o que ser roubado, eu me sinto parte daqueles que não recebem esse "apelido". Contudo, "vítima da sociedade" é um pouco pesado demais para mim. Mas a tentação de roubar, a tentação de conseguir o que você acha que JAMAIS vai conseguir, é real. Tanto que levou alguns amigos meus. Levou para o caminho do roubo e para o caminho da morte. Na mente lembro de alguns que tinham a minha idade e outros ainda mais novos que hoje levam a vida que, apenas Deus sabe o motivo, não segui.

Fiz essa caminhada da minha vida profissional, justamente, para que os que pensam na  verdade da frase "não trabalha quem não quer" e "quem corre atrás consegue mudar sua vida", possam cair na minha armadilha e achar que isso faz realmente algum sentido.

Não, não posso dizer de FORMA ALGUMA, que me esforcei. Tudo era uma aventura e uma brincadeira, para mim. Entender códigos, padrões, desenvolver, conhecer essa máquina que estou usando para para digitar esse texto era e é, apenas, diversão. Alguém, louco, resolveu me pagar para que eu pudesse "brincar". Mas, por outro lado, eu vim da camada mais pobre e cheguei mesmo a conhecer o que era ter apenas água na geladeira. E, por lá, eu vi amigos lutarem e morrerem lutando por um lugar ao sol, sem cair na tentação do roubo. E outros que só conseguiram por estudar muito e passar em um concurso público.

Certeza de quem veio de lá: a oportunidade não está ao alcance de todos. Isso é lenda! A meritocracia é uma ilusão! Não há mérito algum para uma pessoa nascer em uma cobertura no Leblon. Como não há mérito algum de outra nascer na favela. E não tenham a ilusão de que ambos têm a mesma chance. Porque não têm!

Se a meritocracia funcionou para você, sorte sua! Mas não pense que sempre haverá condições de você estar no mesmo nível da pirâmide social daquele que sempre teve tudo desde o berço. Há quem consiga! Há quem nada tinha e se torna um dos homens mais ricos que você possa conhecer. Para este, o capitalismo foi perfeito! Mas não se iluda! A pirâmide social é mais larga embaixo. E é ali que cabe mais gente. Cada camada acima é sempre menor. E a mobilidade social ocorre sim. Mas ocorre quando um governo resolve trabalhar para que isso ocorra. E não haverá mobilidade sem peso no bolso rico! Sem peso no bolso da classe média! Jamais teremos um "quadrado social".

Não se sinta um cidadão de bem, porque espanca ou mata o pobre que foi fraco de espírito o suficiente para ver no roubo sua chance de conseguir algo. Você não é alguém de bem! Você é do mal! Você serve ao mal! E continuará a servir se assim seguir porque o preconceito nasce em você! Foi sua classe que definiu que pode e quem não pode. Quem é aceito e quem não é. Ao outro cabe seguir a honestidade em humilhação, ou se tornar um bandido. Como bandido, deve ser preso, deve ser julgado e ser tratado segundo a lei. Mas xenofobia, preconceito racial e preconceito social eu vi! Eu testemunhei! Está presente nos almoços de trabalho! Nas conversas de corredores das empresas. Nas comunidades cristãs! Na sua leitura matinal do jornal. Na sua mentalidade limitada que acha que conhece bem o que é ser pobre! Ou na sua amnésia, por ter vindo da pobreza e não se lembrar do que é ser tentado, inicialmente, a pegar um biscoito que está exposto no mercado e resistir a isso, mesmo tendo apenas água em casa!

Você serve ao mal! E continuará servindo por não perceber que há políticos e juízes que mantém toda essa bagunça! Que estão acima do bem e do mal e tornam a vida do pobre pior do que ela já seria. Você que nunca passou por isso, não sabe o que é ser honesto e devolver uma carteira achada no chão, não tendo dinheiro em casa. Não sabe o que é encontrar um celular melhor do que o seu e ficar horas tentando entrar em contato com a pessoa e você mesmo ir entregar! Não sabe o que é devolver o troco errado. Não entende que honestidade real é quando você não aceita levar pra casa o que não é seu, mesmo sendo o que você precisa para levar para casa. Esse seu ódio voltado contra menores ou maiores infratores mostra que você, no lugar deles, não resistiria à tentação. Pois a tentação de matar e espancar o "pobre bandido" é a tentação que coube a você. E você não resistiu. Ainda que apenas em palavras, você mata, você espanca, você caiu na armadilha da "desonestidade rica".

É muito fácil o forte bater no fraco. É muito fácil espancar o mendigo, queimá-lo, surrar o gay pobre (pois há muitos gays ricos e alguns podem ser seus pais que temem se expor) e entender que todos são menores do que você é. Mas não são! O que separa você deles se chama oportunidade e educação. Alguns tiveram, e não souberam aproveitar, outros, sequer, entendem bem o que isso significa. São culpados pelos crimes? São! São vítimas da sociedade? Não! Mas do sistema sim! Tanto quanto você! Eles por se tornarem aquilo que você abomina e você por abominá-los. Pois essa mentalidade nasce, justamente, de alguém que, "vitimado" (ou preferido) pelo sistema, se considera superior.

E como resolver o problema dos arrastões e da criminalidade no centro? Essa é a questão que falei no início! Há apenas uma certeza nisso tudo. Não é a de como resolver. Mas a de como não resolver: violência e segregação. Tenham certeza de uma coisa: o pobre e o favelado não são cachorros de rua. Eles revidam! E lembre-se de outra coisa: eles são a maioria. Sempre! Um conselho de quem, um dia, quando foi à praia, certamente foi rotulado como favelado ou como "gente esquisita". Que, hoje, por algum motivo besta, você pensa que faz parte do seu grupo: mude sua cabeça. São pessoas como você que se tornam líderes do povo, governam a sociedade e, no fim, apenas preservam toda essa dor. Tanto do pobre, quanto do rico. Tanto de quem não tem dinheiro para "ir e vir" e cai na tentação de roubar, quanto de quem nunca soube o que é ter fome, mas saberá o que é ser assaltado e, infelizmente, até morto.

Antes que sua mente viaje muito e você pense que defendo. Não defendo! Criminoso, pobre ou rico, deve ser preso. Mas não suporto o criminoso pobre e negro, que roubou seu celular, ser preso, enquanto seus pais, que sonegam impostos ou você mesmo, que bate em morador de rua, gay ou humilha empregados, se mantém solto. Você ou os seus são tão criminosos quanto ele. Matam, tanto quanto ele! Quero todos na cadeia! Quero todos presos! Mas, acima de tudo, quero todos corrigidos! Olhe nossas cadeias, olhe nossos centro para adolescentes que cometem crimes, olhe nossas favelas, olhe nosso senso real de justiça, observe os argumentos dos advogados para que os bandidos de colarinho branco fiquem soltos e me responda: acha mesmo que bater em adolescente é a solução? Consegue realmente aprovar isso? De fato o problema maior que temos é esse e assim se resolve?

Pense... e, mais uma vez, mude a cabeça. E, por favor, aprenda de uma vez por todas, não faço parte do seu grupo!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

E o Satanás?

"Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele. Então, ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e o poder, e o reino do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo; porque já foi lançado fora o acusador de nossos irmãos, o qual diante do nosso Deus os acusava dia e noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até a morte. Pelo que alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Mas ai da terra e do mar! porque o Diabo desceu a vós com grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta (Ap12.7-12)".

O caminho percorrido pela fé até a crença no demônio como hoje em dia é crido, é MUITO extenso. Este caminho, um dia, será assunto de um futuro trabalho. No momento, contudo, cabe uma breve releitura de alguns textos que podem iluminar um pouco desse longo percurso.

Satanás e Miguel aparecem como personagens antagônicos na literatura judaica. A oposição, como registro bíblico, se encontra em Judas. Onde o autor se vale de uma narrativa apócrifa sobre a disputa pelo corpo de Moisés. Nesta versão, Satan ouve de Miguel uma censura: "O Senhor te repreenda".

Um dado interessante está na disputa que há entre um "Anjo do Senhor" e Satan sobre o julgamento do sumo sacerdote Josué, segundo uma visão do apocalíptico Zacarias. As mesmas palavras de censura são usadas contra Satan, pelo "Anjo do Senhor" - o texto siríaco omite "Anjo" - (Zc 3). Há quem veja nesse "anjo" a figura de Miguel, posto que seria ele, segundo Daniel, o príncipe transcendental de Israel: uma crença antiga onde acreditava que cada território estaria sob o domínio ou responsabilidade de um anjo. Se podemos notar aí a presença de Miguel, não há garantia e nem creio que exista essa real preocupação. A cena, contudo, nos permite encontrar a origem da visão de Zacarias e a de João (no Apocalipse).

Havia um costume antigo, referente ao julgamento de um pleito, onde do lado direito do acusado ficavam o Satan e o Goêl. É preciso retirar a "capa espiritualizada" desses termos para que se consiga alcançar suas raízes populares. Satan não pode ser entendido, aqui neste parágrafo, como um ser transcendental e, tão pouco uma referência a ele. O personagem que mais tarde foi chamado de "demônio" é que nasce a partir desse Satan da corte de justiça. Satan, aqui, significa "acusador". Um homem que, no julgamento de uma causa, tem a responsabilidade de acusar ao réu. Apresentar argumentos que condenem. Pensando em termos atuais, seria, em um julgamento, o promotor. O Goêl, por outro lado, nessa tradição, seria aquele que luta pela causa do réu. Seria um homem que faz o papel de advogado. De remidor do acusado.

Essa imagem do julgamento antigo foi jogada para as esferas espirituais no período da apocalíptica judaica. No caso da visão de Zacarias, o Anjo faz o papel do Juiz e conclui como o Goêl. Defende a causa e declara a inocência ou o perdão sobre o réu Josué. Satan, agora personificado, é sempre visto como "acusador" ou "astuto" na tradição judaica. Nas palavras de Nilton Bonder, do "folclore judaico". Ambos trazem seus argumentos diante do Juiz, que é Deus. Essa imagem do acusador é bem mais fiel às tradições bíblicas do pós - exílio, do que a figura do inimigo de Deus, da tradição apocalíptica enóquica, por exemplo.

Esta última tradição acabou se tornando a que vigorou todo o Novo Testamento. Principalmente, na figura do imperador romano, que por diversas vezes, é visto como esse Satan inimigo de Deus e não mais como o Satan de Zacarias, Jó e Crônicas. Onde seu papel é acusar e apresentar argumentos a Deus (o juiz) para a condenação do homem.

Daí a grande novidade desse fragmento do texto de Apocalipse. Muito provavelmente, aqui não se encontra a uma composição joanina, mas, sim, uma referência - dentro da composição - à tradição judaica. Nessa expulsão de Satan, la dos céus, se revela a crença de que para os "justos" já não há mais julgamento. Eles já estão salvos! Crença presente na comunidade apocalíptica  de Qunram e, também, no evangelho de João. Este, no entanto, se referindo aos seguidores de Jesus.

No ambiente do Antigo Testamento a causa pode ser defendida pelo próprio Javé (vide Jó). No Novo, vemos a figura do παράκλητον (parákleton), traduzido como advogado em 1Jo 2.1. Onde, obviamente, se refere a Jesus. A vitória sobre o acusador (Satan) se deu pelos "argumentos" do advogado. Satan, perdeu, assim, sua utilidade como promotor. As acusações contra os seres humanos perderam sua eficácia pelas argumentações do advogado.

Os apocalípticos realmente acreditavam dessa forma, ou se trata apenas de uma figura simbólica? Não se pode diminuir uma "figura simbólica" com o termo "apenas". O simbologia, religiosa ou não, possui um poder tão grande que, por vezes, é confundida com o próprio fato que deseja apontar. Assim é o símbolo: não é o "algo", mas aponta para o "algo". E, esse símbolo, se bem marcante, aponta de tal forma para esse "algo" que se confunde com ele.

Peguemos a bíblia como exemplo: trata-se de um livro. E o um livro é a união de papeis para formarem miolo e capa e palavras impressas. Se o mesmo papel utilizado para fazer uma bíblia for usado para se fazer um caderno, nenhum cristão se sente mal em rasgar o papel do caderno. Contudo, se esse mesmo papel, no lugar de ser usado para compor um caderno, compor uma bíblia, um cristão terá certo "bloqueio" de rasgar sua página. Isto porque o papel perdeu sua condição de papel, ele, agora, faz parte da "Palavra de Deus". Óbvio que alguns cristãos entenderão que a bíblia simboliza essa palavra. Não é a palavra de fato. Se for rasgada, o livro estará em péssimo estado, a Palavra, por outro lado, estará intacta E, por isso, não terão pudores de rasgar suas folhas. Para eles, nesse momento que rasgam, o papel perdeu sua simbologia e voltou a ser papel.

Sendo assim, o fato de crerem que a corte de justiça terrena serve de figura para explicar o que acontece no "mundo espiritual", obviamente, levarão esse símbolo em seus discursos, sermões, ensinamentos e vivência diária. Jamais dirão que as coisas se dão exatamente dessa forma, mas, para explicar o indizível, lançarão mão do cotidiano.

E como de um anjo da corte celestial, Satan se tornou um inimigo de Deus?

A resposta se encontra em outra tradição judaica, chamada de "judaísmo enóquico". Onde Enoque figura o principal "revelador de mistérios". No livro que leva seu nome, ele revela que os vigilantes tiveram filhos com as mulheres e, os espíritos de seus filhos, depois da morte destes, recebem o título de "espíritos maus"  e "cheios de maldade, cometem atos de violência, destroem, agridem, brigam, promovem a devastação sobre a terra e instauram por toda a parte a confusão". Nesta tradição nascem os demônios que, segundo o "Livro dos Jubileus", uma décima parte não ficou aprisionada, mas sob a liderança de Satan. Essa duas versões sobre a origem de Satan são de fora da bíblia mas, ao mesmo tempo, são pelos autores bíblicos, aceitas e até combinadas.

Isso quer dizer que são verdadeiras?

Quanto a crer na factualidade ou não, isso não cabe ao propósito do texto. E, sim, apenas demonstrar, em parte e de forma bem resumida, como o "Satan", de um título humano que significava "acusador", se tornou o nome de um líder dos demônios. Independente da factualidade ou da simbologia, a mensagem do Apocalipse permanece: não há mais acusador. Uma mensagem que Paulo já entendia: De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. Romanos 8:1

Tendo paz em nossos corações, que aprendamos a nos perdoar, pois não há acusação nenhuma!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O que é Bíblico e o que Não é?

A Bíblia é, de fato, a mãe de todas as heresias. Já dizia a velha frase. O cristianismo atual se acostumou a definir ensinamentos como "bíblicos e anti-bíblicos". Óbvio que existem sim ensinamentos que são contrários à Bíblia e outros a favor. Mas a pergunta que fica é: de que Bíblia estamos falando?

Como costumo deixar claro para meus alunos, a Bíblia deve ser encarada como uma grande "biblioteca de bolso". Se você for católico, como uma biblioteca de 73 livros e se for protestante, de 66. Tais livros estão distantes temporariamente em décadas e até séculos. Há livros, como o de Isaías, que foram escritos em situações bem diferentes por autores diferentes (um mesmo livro): antes do cativeiro, durante o cativeiro e mesmo pós-cativeiro babilônico.

Em todo esse tempo a sociedade mundial e local (dos autores dos textos) passaram por diversas transformações e, como toda religião, houve mudanças ou dissidências. Assim, há textos que claramente afirmam que não há vida após a morte. E outros que lançam a esperança da Ressurreição e vida eterna. Pode-se dizer, por exemplo, que a afirmação de que não há vida após à morte é um ensino bíblico. Como se pode dizer que a vida eterna - que em si é contrária ao primeiro ensinamento - é, também, ensino bíblico. Podemos citar a teologia da retribuição, afirmada na Torah e nos profetas, mas negada pelos livros que são frutos do movimento de sabedoria, em Israel. Assim como maldição hereditária e responsabilidade pessoal.

Em outras palavras, muita coisa pode ser bíblica! Até ensinamentos contraditórios encontram seu amparo nas Escrituras. Uma briga onde se lança textos na face de um e se recebe textos na face, procurando justificar essa ou aquela ideia como certas, é um tanto quanto irracional. É preciso encarar que Israel pensava dessa e daquela forma, contudo em momentos diferentes. Cada texto, é, assim, uma "foto" de um pensamento e não representa sua perenidade. O texto se mantém, o pensamento, a crença, nem sempre. Há evolução nos pensamentos judaico e cristão. Isso faz com que se separe da Bíblia? Não! Pois o texto que traz a "nova ideia" também é Bíblico. Em termos gerais, pode se falar em que se separa de determinado ensino bíblico, enquanto apresenta ou se aproxima de outro. Mas jamais se separa da tradição bíblica. 

Um texto bíblico diz que mulheres não podem ensinar e nem falar nos cultos. A tradição bíblica, que é aquela tradição que se rever, se reavaliar e se reinventar, nunca se limitando ao que foi dito uma vez, contudo, afirma igualdade entre homens e mulheres. Qual modelo adotar, diante disso? Essa é a grande questão! Não se pode justificar abertamente um ensino baseado em um texto bíblico que despreze a origem desse  mesmo texto, como ele nasceu.

Em um ambiente antigo, como o da formação dos dez mandamentos, há a ordem para que se deixe o escravo descansar no sábado. Seria a Bíblia a favor da escravidão? Durante muito tempo se pensou que sim, justamente por conta de exemplos como esses. Se a Bíblia fala como tratar um escravo (com dignidade), então ela permite que um homem escravize ao outro. Embora seja bastante errado dizer "a bíblia fala", posto que, na verdade, um livro dela diz. Não necessariamente toda a biblioteca.

Acredito que a melhor forma de entender seja aceitar que os textos são situacionais. Pertencem a um tempo e fazem a leitura daquele tempo. A melhor forma, no passado, de se lutar em favor do escravo foi a defesa de suas dignidades física e moral. Os Direitos Humanos, contudo, nos interpelam e fazem com que, sequer, cogitemos isso hoje. Ora, se um cristão quiser escravizar alguém estaria amplamente apoiado pela bíblia! Mas não pela tradição bíblica! Que sempre procura trazer sua mensagem para o tempo que se vive. Resgatar ideias de um mundo antigo, inaplicáveis ao mundo atual, é trair o texto bíblico, engessá-lo e transformá-lo em um texto que serve para o mal. Assim, os Direitos Humanos, de certa forma recebidos por nossa cultura, acabam por, sem percebermos, iluminar as interpretações dos textos antigos. Julgamos o texto passado sob nossa ótica moderna. O que, em si, é comum, mas um grande equívoco na hora de interpretá-lo.

Não foi o que Jesus fez ao, seguindo a tradição dos comentaristas da Torah, ensinar sobre a superioridade do amor ao próximo. O texto é morto se alguém, sem vida, interpretá-lo. Ouço muita gente se justificando pela existência de pastoras; mulheres sem véu; defesa da liberdade; guarda do domingo, no lugar do sábado, dentre tantas outras coisas, por meio da expressão "isso era cultural". Ora... o que não é cultural? Que costume, lei, religião, criação humana não estão sob o espectro cultural? Tudo que é produzido pelo homem é cultura. Nada é alheio aos costumes. No máximo ainda não incorporado a toda a sociedade mas, se pertence a um indivíduo que seja, esta é sua cultura, sua produção.

Toda a bíblia é fruto de uma cultura que se modificou no tempo e de outras culturas que se dialogaram com essa "cultura mutante". Ou, para usar as palavras de Ernst Wurthwein, cultura de caráter "polêmico e usurpador", que é a judaica. Não se pode, portanto, interpretar nenhum texto sem considerar a cultura deles, segundo o tempo da escrita, e a nossa, segundo a evolução ou involução sociais.

Não acredito que o melhor caminho, portanto, seja brigar sobre o que é bíblico ou o que não é. É bíblico matar o filho desobediente, por exemplo. Ensinamento de morte ou de vida se pode tirar da bíblia. Tudo depende não dela, mas de nós mesmos. Cada um retira da bíblia aquilo que é, e não aquilo que ela tem a oferecer. Junto a outras grandes verdades está o entendimento de que quem fala sobre a Bíblia, fala de si mesmo e não dela.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sobre ser Deus e ser Humano

A humanidade de Jesus é um tema  complicado para alguns cristãos. A igreja não consegue humaniza-lo plenamente, mas o diviniza em tons grosseiros. Muitas são as afirmações bíblicas da humanidade de Jesus. Mas como pode ser humano e divino ao mesmo tempo?  Nesse incansável debate, que já dura desde a experiência da ressurreição, a confissão 100% homem e 100% Deus sempre sofre.

Há de se assumir que a divindade de Jesus é um dado da fé. Sua humanidade, por outro lado, um dado histórico. Aceitando as evidências históricas de que um homem chamado Jesus existiu, a primeira coisa a se reconhecer é sua humanidade.

Jesus faz parte da genealogia humana. Nasce, cresce, aprende a falar,  aprende a andar, aprende a comer sozinho, aprende a se vestir sozinho, aprende a tradição e cultura do seu povo, aprende a questionar,  aprende a ensinar e aprende! Aprende,  aprende e aprende.

Repito inúmeras vezes o termo para transmitir o que a humanidade de Jesus o obriga a fazer. O faço também para que se compreenda que não existe "aprender" sem "errar". A palavra "erro" é retirada de Jesus porque nela se encontra, equivocadamente, o sinônimo de "pecado". Para salvar a divindade de Jesus,  se aniquila sua humanidade. Esvazia-se o ser humano para se testemunhar o divino. Triste engano...

Esvaziar ( κένωσις)  é justamente o termo utilizado por Paulo para o movimento inverso. Para o dado da fé, Deus se esvaziou e assumiu humanidade. Jesus é o movimento contrário da apoteose. A divindade dá lugar à humanidade. O Deus é recebido entre os homens como um igual.

A grande questão está no pecado e na limitação da razão humana. Esses limites não são facilmente aceitos na pessoa de Jesus. Frases como "errar é humano" e "a mente humana é limitada" são expressões que não se aplicam a Jesus, para a maioria dos cristãos: ele sempre soube de tudo, ele nunca errou.

E, desta forma,  o cristianismo supersticioso acaba por criar um outro ser. Uma coisa nem humana e nem divina. Os pontos que fazem as pessoas ver a humanidade de Jesus são expressões de choro, fome e cansaço. É apenas isso que traz aos ouvidos cristãos a beleza da humanidade de Jesus.

Reitero o que disse no início: a única coisa que existe concretamente  (aceitando os dados históricos) é que Jesus é um homem!  A divindade é um dado da fé. A fé não pode destruir a história! A fé só poderá interpreta-la. A história existe e isso é um fato inegável. É a fé que, olhando o homem Jesus, o interpreta como divino.

Como ser humano,  há de se considerar: descobrimento de sua sexualidade; atração sexual; necessidades fisiológicas de cunho escatológico  (fezes e urina); cair no chão,  quando aprender a andar; pedir colo da mãe e do pai; brigar com os irmãos e etc. Toda a beleza da vida humana estão embarcadas na existência humana. Se a fé afirma a encarnação de Deus, deve,  portanto,  afirmar a participação das vitórias e derrotas dessa carne.

Como bem disse Leonardo Boff: humano como Jesus,  só podia ser Deus mesmo. É na humanidade de Jesus que ele é,  pela fé,  chamado de Deus. A experiência com o Deus Jesus só existe a partir do encontro com sua humanidade. Ela é o dado objetivo. A divindade,  porém é subjetiva. O Deus Jesus pode ser negado pela incredulidade de não - cristãos. Mas, jamais, sua humanidade será negada por eles. Infelizmente,  a fé cristã,  por vezes, nega o humano em nome do divino.

Duas naturezas confessadas opostas sao plenamente harmonizadas em Jesus. Ele revelou o que de divino há em qualquer um de nós. Talvez seja exatamente isso: quanto mais humano,  mais divino. E quanto mais divino, mais humano. Em outras palavras,  não se divinize,  se humanize. Esse foi o caminho trilhado por Cristo: caminho da humanização plena.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sobre diversidade - Um olhar sobre a Torre de Babel

A Torre de Babel é bem interessante: um momento em que Deus confunde os humanos e cria os idiomas. Há de se ter  mente o contexto babilônico do relato: Babilônia impunha sua cultura, idioma e sua centralidade no mundo e no culto.

Ela seria o protótipo da imagem simbólica da Torre denunciado pelos autores: um só idioma, uma só cultura, uma só capital e todos os povos feitos em um só.

A priori, isso pode ser visto como algo bom e bem romântico. Contudo, outras palavras definem bem essa ideologia: império, colonização, etnocentrismo e monoculturalismo.

A diversidade de línguas é relatada de forma simbólica para dizer que Deus é a favor da pluralidade. Defende a diversidade cultural. E esta deve ser defendida e mantida.

O cristianismo,  assim como outras religiões e culturas passadas, chegou rapidamente ao império e, desde então, mesmo em sua vertente protestante (EUA), tem pregado e difundido o evangelho da dominação (com significativas exceções).

Com isso, procura reconstruir a simbólica Torre. Ou, melhor, terminar a construção! Babel nunca foi destruída, nem no texto. A tentação de dominar e a própria dominação esteve presente em toda a história humana. Talvez,  cada nova pessoa que alimenta esse sonho megalomaníaco esteja,  na verdade, carregando seu próprio tijolo para a contribuição desse projeto desumano e anticristão. Aqui, o termo "cristão", obviamente,  aplicado na fidelidade do seguimento de Jesus e não no sentido institucional, que é o criticado neste texto.

Numa interpretação até interessante,  os cristãos pregam que a descida do Espírito Santo, com a distribuição de línguas, é uma antítese do que ocorre na torre de Babel. Ok... mas vamos ao texto:

"Habitavam então em Jerusalém judeus, homens piedosos, de todas as nações que há debaixo do céu. Ouvindo-se, pois, aquele ruído, ajuntou-se a multidão; e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se admiravam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses que estão falando? Como é, pois, que os ouvimos falar cada um na própria língua em que nascemos? Nós, partos, medos, e elamitas; e os que habitamos a Mesopotâmia, a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito e as partes da Líbia próximas a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes - ouvímo-los em nossas línguas, falar das grandezas de Deus. E todos pasmavam e estavam perplexos, dizendo uns aos outros: Que quer dizer isto?" (Atos 2.5-12)

Deve-se notar que não foi um idioma falado e todos o entendiam. Mas alguém falava e cada pessoa entendia em sua própria língua de origem.

Seria eu falar em português e um japonês, um alemão,  um inglês,  cada um, entender em seu próprio idioma. Não houve uma união de idiomas. Cada língua e cada cultura  (pois não existe idioma sem cultura) foram respeitadas. A diversidade  não foi banida, antes foi mantida. Toda cultura precisa ser entendida,  defendida, respeitada e tem o que ensinar e aprender. Quem sabe não seja essa a forma que o livro de Atos interpretou a comunicação o evangelho nas diversas culturas daquele tempo? 

É preciso se fazer uma análise: o evangelho pregado é um novo tijolo na Torre de Babel ou um respeitador da diversidade cultural? Proclama a libertação de um sistema opressor, ou oprime em nome de Deus?

O idioma imposto pela Torre é  desprezado pela confusão das línguas. Que mostram um Deus a favor da pluralidade. Uma só  fala comunicar a todos os idiomas as grandezas de Deus (Atos) é uma forma  de respeitar e demonstrar Deus em todas as culturas.

Por isso mesmo sou e sigo sendo ecumênico e macroecumênico. Reconheço Deus fora do cristianismo e fora do judaísmo. Assim como o reconheço neles em seus seguimentos originais, óbvio.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Menos Agápe, por favor...

Todo cristão conhece, ou pensa conhecer, o significado do termo Agápe (ἀγάπη), do grego. Traduzem como "amor perfeito", "amor de Deus", "amor serviço", "amor sacrificial", "amor incondicional" e etc. Na verdade, o cristianismo amou tanto essa palavra que a sacralizou excessivamente. Fazendo, inclusive, com que este amor se torne um peso, uma obrigação no regimento das relações.

O mandamento "Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor" (Levítico 19.18) foi traduzido, na Lxx (versão grega da Bíblia Hebraica) como

"καὶ οὐκ ἐκδικᾶταί σου ἡ χείρ καὶ οὐ μηνιεῖς τοῖς υἱοῖς τοῦ λαοῦ σου καὶ ἀγαπήσεις (AGAPÉSEIS) τὸν πλησίον σου ὡς σεαυτόν ἐγώ εἰμι κύριος".

E, como o novo testamento está em grego, é justamente esta a palavra que se repete constantemente. Principalmente para definir o relacionamento entre Jesus e seus discípulos e a relação entre os primeiros membros do cristianismo primitivo. A própria reunião da comunidade, onde partilhavam o pão, era chamada de Agápe.

E tudo isso, infelizmente, fez com que as pessoas "pisassem na bola", na hora de falar sobre o termo. Antes de tudo, que fique claro que esse termo não é "bom" por si só. No texto de II Timóteo 4.10 vemos que a palavra Agápe foi utilizada de forma negativa:

"Δημᾶς γάρ με ἐγκατέλιπεν ἀγαπήσας (AGAPÉSAS) τὸν νῦν αἰῶνα καὶ ἐπορεύθη εἰς Θεσσαλονίκην Κρήσκης εἰς Γαλατίαν Τίτος εἰς Δαλματίαν"

"pois Demas me abandonou, tendo AMADO o mundo presente, e foi para Tessalônica"

O agápe pode, sim, ser um amor voltado para algo que destrói, para algo ruim. Logo, não se trata de "amor de Deus" ou "amor serviço". Mas de uma palavra que não possui valor positivo, antes, ela precisa de um complemento para ser algo bom ou ruim.

O amor (ἀγαπάω = agapao) pode ser devotado, por exemplo:
  • ao poder e a fama (Lucas 11.43);
  • mais às trevas do que à Luz (João 3.19);
  • mais à gloria dos homens do que à glória de Deus (João 12.43).
Nota-se que é possível, também, devotar um "maior agápe" a isso do que àquilo. E esse "aquilo" ser o oposto do "isso". Amaram MAIS às trevas do que à luz; MAIS à glória dos homens do que a glória de Deus. O intuito é mostrar que o agápe não deve ser visto como algo positivo em si mesmo. E, nem sempre, como algo aconselhável sempre.

Há uma onda doutrinária que "exige" ou "aconselha" o agápe para a relação entre marido e mulher. Não creio que isto seja o ideal. Nada mais belo para essa relação do que o conceito do Eros. O Eros, bastante tratado no "Banquete de Platão", é, pelo filósofo, retirado da condição de deus e posto como ligação, uma união entre os deuses e os homens. E, claro, é daí que surgiu o termpo "amor platônico". Aquele amor onde você deseja ardentemente o que não tem. O que é fabuloso não apenas para a relação romântica mas, também, para a relação divina. Deseja-se aquilo que nunca é possuído. E, mesmo que possuído, escorre entre os dedos e você precisa ir à caça novamente.

Assim é, de fato, a relação entre um casal. A necessidade que tantos falam de "regar" ou "cuidar" do seu relacionamento é justamente a natureza do Eros. Pois nunca se deve pensar que se "conquistou" alguém. Essa pessoa sempre está temporariamente conquistada. Há de se precisar "regar", "cuidar", "envolver", "seduzir", para se manter viva a chama desse amor. Para manter de pé esse relacionamento.

A exigência do amor agápe nas relações de casamento é completamente doentia! Não posso me envolver sexualmente com quem não tem esse desejo por mim. Não posso beijar quem não quero e não posso me permitir viver situações onde sou humilhado em nome de um amor "incondicional". Não! Se há a exigência de que eu ame incondicionalmente e minha parceira também a mim, aí já se anula a incondicionalidade do amor: eu amo e espero ser amado. Ademais, embora eu deva amar ao outro, devo, também, amar a mim mesmo (ame ao próximo como a ti mesmo).

Ao olhar o Eros como um amor sexual, apenas, se perde o que de precioso há nele: prazer (não sexual), alegria, força, entrega, busca e desejo! Erradamente seria chamado de paixão. Não se trata disso! A paixão é cega e fruto daquele mito de "Tristão e Isolda" - origem do amor romântico que pouco tem nos dado, além de bons filmes e bons livros.

Haverá um momento em que se precisará amar incondicionalmente seu cônjuge? Acredito que sim! Entretanto, que, mesmo com sua presença (do agápe), que não falte o Eros. Pois é ele quem mantém um casal unido, mesmo nas adversidades que a vida traz.

O mesmo ocorre com os amigos! A amizade é fruto de uma entrega mútua. Não dá para ser amigo de quem não te considera amigo. Isso se chama doença! Não ame incondicionalmente seu amigo. Isso é brutal! Pois, por ser seu amigo, você, necessariamente, espera dele a amizade. E é esse amor "philial" que deve ser alimentando por ambos.

Onde fica o Agápe então?

Talvez naquela relação onde você precisa dar a vida por alguém (se der a vida por alguém, não há como exigir que ele faça o mesmo, pois sua vida já se foi). Talvez quando você note que se precisa suprir a necessidade de alguém, ciente de que essa pessoa nunca poderá retribuir nada em troca. É, por isso mesmo, muito bem traduzido como "Caridade". O termo, hoje em dia, certamente, foi empobrecido e tido como assistencialismo. Entretanto, caridade é o ato de dar algo a alguém, doar-se a alguém sem esperar nada em troca. A recompensa é o próprio amor! Por isso os homens podem amar (agápe) ao poder e à fama. A fama e o poder são as próprias recompensas. Claro que o poder e a fama trazem algo. Mas o "algo" do poder e da fama é, na verdade, a própria fama e poder. O amor a isso é exatamente a recompensa esperada. Também assim com as trevas e assim com qualquer coisa que se torna o fim em si mesmo.

Quando falamos que Deus ama (agápe) a todos, não estamos equivocados. Mas erramos quando falamos que se você não ama a Deus irá para o inferno. Pois, se Deus espera de nós que o amemos (caso contrário nos mandará para o castigo eterno), seu amor não pode ser interpretado como agápe e sim, talvez, nem como amor, mas como uma pessoa mimada que exige atenção plena.  Porém, isso é outro assunto.

Algo interessante deve ser considerado, para concluir: os textos do novo testamento traduzem, para o grego, os termos originais hebraico. Sendo assim, discutir efetivamente sobre agápe, philia ou eros, de fato, é bem atrativo e muito importante. Mas quando Mateus, Lucas, Paulo, João e etc falam de amar ao próximo, estão, na verdade, pensando em hebraico e não em grego. Estão colocando os mandamentos segundo a tradução oficial da bíblia hebraica, a LXX. Mas o pensamento de Jesus e Mateus está lá no mandamento de Levítico segundo o termo hebraico. Agápe é, portanto, em si, já uma tradução e, por isso mesmo, não vamos ficar discutindo sobre um termo que, no texto de origem (hebraico), nem existe.

A palavra hebraica para amor é ahava (אהבה) que forma a raiz da palavra hav que significa "dar". O alef (א) muda para ahav que significa "eu dou" e ainda "amado". Pode-se ler o mandamento assim: ofereça ao outro o mesmo que você oferece a você. Ou, se dê ao outro na mesma medida em que você se dá a você mesmo.

Dessa forma, pode-se aplicar esse termo amor em todas as relações: devo amar meu cônjuge como anseio ser amado e como me amo; o mesmo para o amigo ou para o necessitado.

Em suma: retiremos a obrigação de que os casais precisam se amar incondicionalmente. Em si, a matemática já não bate. Porque se eu sei que há essa exigência para ela, como há para mim, é este amor que esperarei ter, ainda que diga que não.

Casais, amigos e irmãos, por favor, mais Eros, mais Philia e menos Agápe nas relações: Mais doação na mesma medida que se espera.