terça-feira, 4 de novembro de 2014

A César Nada!

O movimento de Jesus foi de origem popular. Iniciado entre os camponeses da Galiléia e tendo como  líder um morador da pequena e desprezível Nazaré, foi entre os pobres que esse movimento nasceu. Tinha como crítica central a condenação ao sistema de governo romano e às alianças entre sacerdócio e aristocracia com o império dominador. A demonização dos poderes romanos e o ataque direto às suas políticas e a fraternidade de todos mediante à fé em Jave eram marcas desse movimento.

Sinais do ataque ao império romano podem ser percebidos nos exemplos a seguir:
  1. O uso do termo Evangelho de Jesus Cristo, em oposição ao Evangelho dos Flavianos;
  2. A demonização do Imperador na tentação do deserto;
  3. A demonização do Imperador em João 8 e no Apocalipse;
  4. O demônio Legião em clara referência às Legiões Romanas;
  5. A crucificação de Jesus, condenação dada para presos políticos;
  6. Os títulos dado a Jesus, que são tomados do Imperador: Salvador do Mundo, Deus de Deus, Escrituras Sagradas, Senhor.
  7. A negação de que o Imperador era um Divi filius (Filho de Deus). Pois Jesus era o Filho Unigênito de Deus.
Essas oposições tanto do movimento de Jesus, quanto do que dele derivou, mostram claramente o caráter político do Evangelho. Não se tratava de uma religião nos moldes de hoje. Onde as preocupações com o bem estar interno e a vida após a morte compõem o eixo central. A despolitização do cristianismo transformou as palavras e atitudes de Jesus em mágica, milagres descontextualizados e trouxe seu foco para a alma humana. Hoje o cristianismo se reduziu à fuga do inferno e sua missão  tornou-se dominar todas as culturas por meio do proselitismo que desqualifica e firma o preconceito às diversas confissões religiosas.

Um exemplo que exploraremos é o de Marcos 12.17 lemos a resposta bem conhecida:

Disse-lhes Jesus: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele.

Em uma interpretação simplista e que se alinha perfeitamente à deturpação da mensagem cristã, Jesus se torna legitimador dos impostos à César e faz separação entre as obrigações com o Estado e 
as obrigações a Deus. Nada mais escandaloso do que isso!

Era comum, entre o povo, a grande revolta por ter que pagar impostos à César.  Roma tinha a política de "contratar" naturais da terra conquistada para a função de arrecadar os tributos. Estes eram os chamados "Publicanos". Considerados como traidores justamente por arrecadar impostos dos seus semelhantes, enriquecendo e sustentando o Império opressor.

Na tradição judaica, a terra pertencia a Javé. Ele a dava de graça. Logo, a cobrança de impostos para alguém fora da terra que, na prática, os explorava, era, também, uma afronta ao próprio Deus. Jesus era judeu e fiel à tradição judaica que atribuía a Deus a pertença de todas as coisas. Como diz, dentre outros salmos, o de número 24:

"Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam. Porque ele a fundou sobre os mares, e a firmou sobre os rios". Salmos 24:1-2

César, diferente da visão dos romanos, para um judeu tradicional, não era "Senhor" ou "Deus". Como bem dizia Paulo:

"Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele".1 Coríntios 8:5-6

Fiel a esta visão, a forma mais coerente de interpretação do texto, é sim, um protesto ao pagamento de tributos. Entretanto, o intuito era pegar Jesus. Como o próprio Marcos nos orienta, antes de contar qual foi a resposta do Mestre:

"Então ele, conhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que a veja". Marcos 12:15

Todo o povo sente o peso da máquina romana e sofre por conta das cobranças serem injustas. O que lhes força à "sonegação" para, de alguma forma, sobreviver. Sem contar que a tradição de sua fé condena os tributos romanos. O imposta à César lhes atinge na vida social, econômica, política e religiosa. Principalmente porque, naquela época, não havia a divisão (hoje apenas ideológica, de fato) entre estado e religião. Como já dito, o próprio imperador não é um homem. Ele é divinizado. Portanto, a religião judaica ia contra a opressão política e a política popular judaica, defendia sua fé e cultura.

Jesus é filho desse povo. Herdeiro das mesmas culturas e sofre a mesma opressão. Em plena Jerusalém, perto da Páscoa, perguntar a Jesus se era lícito pagar tributo à César era coloca-lo em uma armadilha:
  1. Se respondesse que era lícito, o povo se revoltaria contra ele. E o Mestre cairia em descrédito;
  2. Se, por outro lado, dissesse que não era lícito, seria preso e condenado como rebelde. A pena seria a crucificação - vale lembrar que a acusação de dizer que era contra o pagamento de tributos foi apresentada contra ele perante Pilatos.
Ao falar que se deve dar a César o que é dele, na mente judaica e mesmo para os soldados romanos, Jesus falava da moeda. Contudo, Jesus acrescenta o fator Deus. Dar a Deus o que era de Deus era, ao mesmo tempo, confessar Deus como Senhor de tudo. César, perto de Deus, não possui nada. Os soldados romanos não entenderiam isso. Os judeus, contudo, entenderam perfeitamente que aquelas moedas não deveriam estar na terra de Israel. Deveriam ser devolvidas a César, tal qual a terra, o povo e tudo o que há na terra deveriam ser entregues a Deus e, obviamente, tomados do Imperador.

Jesus, diferente da visão de um líder religioso preocupado com a alma humana, era, de fato, um Mestre preocupado com a vida. Todas as áreas do viver humano estão abarcadas no objetivo do Evangelho. Assim, reduzir a mensagem cristã ao "mundinho" religioso e ao proselitismo preconceituoso, é trair, escandalosamente, o movimento do Mestre de Nazaré. Hoje, precisamos de um Evangelho que vá além da contemplação. Que lute contra as instituições opressoras e que faça desta vida um verdadeiro presente divino. Deus está na sua criação e não no céu da religião. E estar na criação, envolve cada área, cada estágio e cada situação em que esta criação se encontra. O movimento de Jesus, em uma visão moderna, seria um movimento religioso, político e social. E, assim, o cristianismo atual, se deseja ser fiel ao seu fundador e Senhor, precisa ser.

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