quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre Deus e a Derrota

Vivemos dias preocupantes. Essa afirmação pode vir acompanhada de "o ser humano está destruindo o meio ambiente", "há  falta de amor no mundo" e, a frase preferida dos evangélicos, "estão tentando destruir a família". Contudo, os dias atuais são preocupantes por um outro motivo que aqui tento mostrar. Trata-se do fato de vivermos em um mundo de vencedores. Há um fortíssimo apelo para que a geração atual seja vencedora. Milhares e milhares de livros e palestras são oferecidos com o intuito de ensinar como ser um vencedor. A derrota não é admitida. Há de se lançar luzes sobre a compreensão desses "caminhos" e se apontar a presença da derrota na vida de Deus e dos homens. É importante observar, antes de mais nada, a etimologia do termo "derrota". A palavra "rota" tem, originalmente, o sentido de ruptura. Está ligada ao sentido militar, onde o inimigo obriga o exército à ruptura, à quebra da formação e, assim, obriga o mesmo a seguir por outro caminho.

Já na abertura da Bíblia encontramos a história de Adão e Eva e a derrota de Deus. Como já exposto em outras postagens, Deus teve que expulsar o homem pois este venceu. Se tornará um ser igual e portanto, independente de Deus.

Na história que introduz Noé e a Arca, a de-rota invade o coração de Deus e ele se rende:

"Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração" - Gn 6.5-6

Já não era possível seguir o caminho planejado. Deus teve que mudar de caminho, mudar de rota. As circunstâncias lhe conferiram outra derrota.

Também não deu pra Deus se manter como rei do povo. A teocracia já  não representava um caminho seguro. Os filhos de Samuel não seguiam os caminhos honestos do pai (estranhamente Samuel hereditarizou o carisma, depositando nas mãos dos filhos a responsabilidade que somente aos "erquidos por Jave" era confiada). O povo, entendendo que os tempos eram outros e observando a "ultrapassada" forma de governo, rejeita a teocracia e opta pela  monarquia. Jave foi tirado, mais uma vez, da rota. Samuel se sente rejeitado. Jave confessa que a rejeição é  dele  (de Jave) e acolhe sua derrota:

"Disse o Senhor a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não é a ti que têm rejeitado, porém a mim, para que eu não reine sobre eles" - 1 Samuel 8.7

O que dizer da grande derrocada de Jesus? Na cruz reclamara de abandono; lamentou em forma de perdão o sofrimento vivido como um equívoco da ignorância dos condenadores, assumindo, assim, sua de-rota. Sua incapacidade de se manter no caminho, de realizar o que julgava ser a vontade daquele que o abandonou; e em João é confessada a expulsam da sinagoga - que os cristãos viveram - como a rejeição do Filho de Deus:

"Veio para o que era seu, e os seus não o receberam" -  João 1.11

Muito se fala nos ambientes corporativos sobre "pensar grande" ou "pensar como um vencedor". O apelo  secular encontra seu eco nas confissões religiosas. Onde Deus é  visto como um Deus dos vencedores. Ouso dizer que não! Deus é o Deus dos escravizados; Deus dos órfãos e das viúvas; Deus dos empobrecidos; Deus dos mártires. Deus dos derrotados! Os vencedores legitimam seu poder sobre os vencidos, lhes tiram a voz e publicam sua versão da história. Negando aos de-rota-dos o direito de se pronunciarem sobre o caminho, sobre a história.

No uso de textos que afirmam frases como "somos mais que vencedores" se encontra não  a vitória coletiva da comum-unidade, mas da vitória individual. E a pluralidade da confissão dá  lugar a vencedores individuais, ou à busca por vitória sobre os outros, vitória sobre o semelhante.

Lembro-me do saudoso Rubem Alves que, em uma palestra que assisti, disse que lhe perguntaram sobre como chegar onde ele chegou. Queriam saber, nas palavras do Rubem, "o caminho das pedras para o sucesso". Rubem disse: cheguei onde cheguei porque tudo que planejei deu errado.

Há quem "vença NA vida" pelo caminho da vitória individual e faz dos vencidos o seu troféu. Mas há  Rubens Alves, que "vencem A vida", pelo caminho da mudança. Pelo caminho  da de-rota. E é nesta experiência de mudança forçada pelas consequências da vida ou pela opressão dos vencedores que o Deus derrotado se revela.

O desejo insaciável por vitória, por ser vencedor, também gera frustração. No lugar de gerar pessoas saudavelmente ambiciosas, em seu lugar, cria pessoas que não assumem sua de-rota e insistem em seguir o mesmo caminho. Temem o rótulo de de-rota-dos. Seguem firmemente para a morte. O orgulho, alimentado pelo desejo do maior lugar do pódio, destroem suas forças. Não são heróis de guerra. São marionetes na mão de um sistema que busca, tão somente, ser alimentado, legitimado e sustentado.

A inadmissão da de-rota é incapaz de segurá-la. Inadmitir é apenas "bater pezinho". É infantilizar-se. Frustrações, decepções e, por assim dizer, derrotas, fazem parte da vida e, tal como a morte, não podem ser observadas como acidente ou como problemas. A evolução humana, aquilo que como sociedade se construiu de bom, é fruto mais de derrotas do que de vitórias. É fruto mais de mudanças advindas da dor, do que mudanças originadas das vitórias. Os vitoriosos nada sabem. Os que, por outro lado, experimentaram as dores da vida e as receberam como parte de sua existência e aceitaram sua de-rota, como parte do caminho a ser construído, conheceram a verdadeira humanidade. Caio Fábio, que não representa muito do que penso, cunhou uma frase interessante "melhor sabe da graça, quem sabe da queda". Melhor conhece a vida quem a abraçou com todas as suas contradições.

Na de-rota não há  fim de caminhada ou fim de caminho. Há  mudanças! O caminho não acaba. Ele está sendo re - feito a todo instante. Como diz o poeta "é  caminhando que se faz o caminho". Não há  caminho das pedras pois ninguém trilhou o caminho. Ele ainda está sendo construído. Não há  preparação ou segredo de  sucessos.  Há  a vida que, por forças aleatórias, nos força  a de-rota ou, por forças opressores, nos força à mudança. Mas de-rota é apenas troca de terreno. No fim, o caminho continua com a caminhada. Bem disse o Qoelet:

"Observei ainda e vi que debaixo do sol não é dos ligeiros a corrida, nem dos fortes a vitória, nem tampouco dos sábios o pão, nem ainda dos prudentes a riqueza, nem dos entendidos o favor; mas que tudo depende do tempo e do ACASO" - Ec 9.11

Longe de nós o desejo por sermos vencedores, individualmente. O que importa é estar ao lado dos derrotados. É  na cadeira da derrota que Jesus está sentado. É tomando como sua a derrotacada de cada ser humano que ele se torna o Deus da vencidos. E na unidade dos vencidos que se conhece a vitória coletiva.

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