sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Os Encontros com o Ressuscitado

As tradições sobre a aparição do Jesus ressuscitado,  canonicamente,  possuem dois relatos básicos: o de Paulo e o de Mateus.

Embora Marcos tenha sido o primeiro a evangelho a ser escrito (70 D.C.), seu relato da aparição do ressuscitado é um acréscimo posterior ao evangelho de João (100 D.C.). Originalmente seu texto termina no versículo 8 do capítulo 16. Este assunto já foi abordado em outro texto do blog. Contudo,  na ocasião as aparições não foram devidamente exploradas, pois o foco era a obra marcana. Aqui veremos as duas narrativas das aparições.  As, digamos, narrativas bases que possuímos. Primeiro a mais antiga:

"Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos;" - 1 Co 15. 3-7

Paulo afirma ter recebido esta tradição.  Ele está escrevendo antes da década de 60 D.C. e após 50 D.C. Relativamente próximo do evento da crucificação.  Entretanto,  fica difícil encontrar canonicamente quem entre em acordo com ele. Há considerável consenso na pesquisa bíblica de que o esquema abaixo foi realizado:
  1. Marcos escreve em 70 d.C. a partir de fontes externas e criação sua;
  2. Mateus escreve pouco depois de 80 d.C., a partir de Marcos, outras fontes e criação sua;
  3. Lucas escreve mais ou menos em 95 d.C., a partir de Marcos,  Mateus, outras fontes e criação sua;
  4. João escreve em 100 d.C., a partir dos outros evangelistas, outras fontes e GRANDE composição sua;
  5. Depois de tudo isso, alguns cristãos pegaram os relatos das aparições de Jesus ressuscitado de Mateus, Lucas e João e, a partir deles, compuseram aquilo que passou a ser acréscimo nos textos de Marcos (do versículo 9 do último capítulo ao fim do evangelho).
Como ficou o esquema final a partir de Mateus?

Mateus:
  1. Jesus aparece às Mulheres que, diferente do que Marcos diz, depois de serem avisadas da ressurreição,  alegres e correm para anunciar aos discípulos.
  2. Jesus aparece aos ONZE apóstolos - pois Judas havia se enforcado - alguns acreditam e outros não.
Lucas:
  1. As mulheres não encontram a Jesus, mas, avisadas pelos anjos,  correm a anunciar aos ONZE e a todos os outros que Jesus ressuscitou;
  2. Jesus aparece a dois discípulos a caminho de Emaús (possivelmente Cleopas e sua esposa) que ao retornarem, ficam sabendo que Jesus já apareceu a Simão (Pedro);
  3. Jesus aparece a todos os reunidos.
João
  1. Jesus aparece a Maria Madalena;
  2. Aparece aos discípulos. Dos doze, falta Tomé. 
  3. Aparece a todos incluindo Tomé. 
  4. Aparece a sete discípulos que já o tinham visto antes.
O único em quem não se pode garantir a discordância em 100%, de Paulo, é Lucas:

Os discípulos a caminho de Emaús, no retorno à Jerusalém, ouvem dos discípulos:

"Os quais diziam: Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão" - Lucas 24:34

Nisto ele concorda que Pedro foi o primeiro a ver Jesus? Possivelmente sim, entretanto, Jesus pode ter aparecido para esses dois e, somente depois, a Pedro. Fica então a possibilidade;

Da mesma forma, quando ele concorda com Mateus da presença dos onze, há espaço para uma concordância paulina. Mateus afirma que são onze por conta do enforcamento de Judas Iscariotes. Lucas não explica o motivo, mas na continuidade de sua obra - o livro de Atos - ele explica que a morte (?) de Judas é o motivo. Concordando, em princípio, com Mateus. Mas, na expressão do evangelho lucano "os que estavam com eles" (Lucas 24:33), Lucas bem pode já perceber a presença de Matias, que futuramente passaria a compor o novo grupo dos doze. Assim, haveria, também, concordância com Paulo de que Jesus apareceu aos "doze".

O mesmo grupo (os que estavam com eles), pode conter "todos os apóstolos" e os "quinhentos irmãos", narrados por Paulo; Há, ainda, a possível informação de que Tiago estava com os discípulos após a despedida de Jesus:

"Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria mãe de Jesus, e com seus irmãos" - Atos 1:14

Nisto, pode concordar que Tiago, antes de Paulo, foi o último a ver o Senhor. O número, contudo, de "quinhentos" não condiz com a quantidade que Lucas aponta em Atos, onde conta que eram cento e vinte pessoas, QUASE. Obviamente que o texto Bíblico ao tratar de números pensa mais em qualidade do que quantidade. O símbolo do número diz mais do que seu valor absoluto;

Lucas, então, parece ser o que mais se aproxima da história de Paulo, o que já era esperado, já que é um paulino confesso, em Atos.

João parece seguir a mesma linha de Lucas, entendendo que doze viram Jesus. Para ele, contudo, a ausência não é de Judas, mas sim do incrédulo Tomé. João parece concordar que Jesus apareceu aos doze. Mas discorda que a preferência esteja sobre Pedro. O primeiro a "ver", foi o discípulo amado. O último a ter sua verdadeira revelação, foi Pedro, enquanto estava com outros seis discípulos, no diálogo do "tu me amas". Acrescentado à narrativa (?).

Mesmo dependentes de Mateus, há sensíveis discordâncias. O esquema principal da tradição a partir de Marcos, contudo, é mantida:
  1. Jesus é sepultado por conta de um pedido influente;
  2. Mulheres vão ao túmulo de manhã;
  3. Um(ns) mensageiro(s) transcendental(is) informa(m) que ele ressuscitou;
O eixo da narração aponta para uma possível tradição, escondida no relato de Marcos? Ao que parece, a preocupação de se manter, consideravelmente, os 3 pontos em comum, faz com que se possa acreditar não na criação de Marcos sobre os pontos, mas de sua composição a partir dos pontos. Feito que Mateus, Lucas e João repetem. Bem poderíamos reconstruir o mesmo eixo fazendo com que a história que Paulo recebeu esteja em pleno acordo, a partir do evangelho de Marcos.

Como perceber que Paulo está citando algo de sua cabeça ou que de fato tenha recebido? A fórmula introdutória de Paulo dá a entender que ele transmite algo. É repetidor fiel de uma tradição e não seu criador. Usa a mesma expressão para a eucaristia:

"Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído(...)" - 1 Coríntios 11:23-25

Sendo escrito bem antes do evangelho de Marcos (o primeiro e que nem conta a histórias das aparições), pode se compreender a tradição de Paulo como, sim, a mais antiga e conhecida. Me distancio de alguns exegetas que veem o túmulo vazio como criação de Marcos. Paulo já cita um "sepultamento" e os evangelhos canônicos e apócrifos (que relatam a ressurreição) mantém o mesmo eixo narrativo. Mas há composição de Marcos na presença ou nas reações das mulheres. Pois "cai como uma luva" em seu objetivo. 

Enfim, o que se pode concluir, com segurança, é a liberdade de composição. A liberdade que os autores têm de - fiéis a um mesmo eixo - elaborar uma mensagem que sirva para seu objetivo. Sendo assim, o texto bíblico ganha seu sentido de "parábola da vida". Muito mais do que biografia histórica, trata da biografia de todos os seres. O sentido da vida é seu objetivo, mais do que os fatos. Com a liberdade dos autores de filmes, seguem a linha do "baseado em fatos reais". Cuja realidade dos fatos está confirmada na fé e a "liberdade poética", nos objetivos de renovar a fé, manter a esperança e fortalecer os corações dos que aceitaram o desafio de, em sua história, viver a utopia concretizável do filho de Deus.

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