terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Emanuel...

A Bíblia deve ser lida não como um livro constituído para assim ser. Um livro possui um sentido próprio e um raciocínio que segue em busca desse sentido. Dividido em começo, meio e fim, cada etapa consiste em uma revelação do interesse do autor.

Com a Bíblia não se dá desta forma. Como uma verdadeira biblioteca,  cada livro possui seu objetivo,  seu sentido e seu raciocínio.  Fora escritos que constituem uma só obra dividida em X livros,  não há diálogo original entre os mesmos.

Há possibilidade de se falar em dependência ou reinterpretação.  Onde um livro faz uso de outro(s) e cria sua própria mensagem,  derivada de outra(s). Contudo,  ainda assim,  são livros e não uma obra uníssona. Mesmo dentro de um grande livro,  se pode notar a presença de divisões independentes que,  por alguma unidade Teológica ou fonte autoral, são combinados e formam a grande obra.

Dentro desta perspectiva,  contribui muito encarar os textos, ainda os dependentes em composição,  como unidades que possuem sentidos em si mesmos. A exemplo: o autor de Marcos não conheceu o texto de Lucas. Logo, Marcos,  em sua mensagem e história,  é independente de Lucas. Conclui-se que os destinatários de Marcos não precisaram de Lucas para entender o evangelho marcano.

O leitor de Mateus  não pode ter Lucas em mente e nem os textos de Marcos a partir do versículo 9 do capítulo 16. Esqueçamos os outros! Mateus é nosso único evangelho, no momento.

Com essa grande introdução,  me permito olhar Mateus.  Que embora pudesse conhecer histórias sobre a ascensão de Jesus,  as ignora em seu livro. A bem da verdade que o distanciamento que a "espera" de Jesus trouxe, acabou por fazer esmorecer os que confiavam que eventos como a grande tribulação dos anos 70 dC trariam Jesus dos céus.

Portanto,  na abertura do seu evangelho, Mateus já apresenta Jesus como filho dos homens (Davi e Abraão) e filho de Deus.  Nele está presente tanto o céu como a terra. Nele há unidade entre Deus e os homens.  Por isso culmina com um nome bem revelador: Emanuel. Que ele mesmo se preocupa em traduzir: Deus conosco.

Todo o seu evangelho não vai apontar para o "abandono" de Marcos.  Que com toda ousadia desafiou os cristãos a crerem em tempos de perseguição.  Demonstrando que a dúvida e o medo faziam parte.  Também assolaram os primeiros discípulos e discípulas.

Mateus vai por outro caminho.  Pelo caminho da presença.  Começa com o anúncio de um Deus Conosco.  Demonstra a presença desse Deus em diversos momentos da vida humana. Mas não é o "Deus conosco" apenas como consolo, conforto e ânimo.  Sem dúvida o é.  Mas há,  também,  a presença do "Deus conosco" por meio do sofrimento.  Identifica-se com a dor ao ponto de, com seus "pequeninos irmãos, sofrer a tristeza de ser rejeitado,  desprezado e negada assistência:

"Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes" - Mt 25,42-43.

O "Deus conosco" está presente no outro. Não é apenas o que nos ajuda, mas o que, na dor do outro, carece de nossa ajuda. A presença desse Deus é sentida onde existe miséria.  Onde os homens julgam que Deus não está.

Com a sua morte e sua posterior ressurreição,  a Presença não se torna ausência.  Não há, em Mateus, espaço para a crença em uma ascensão aos céus.  Não é lá que encontramos Jesus. Um "Deus conosco" não pode estar tão longe. Assim disse ele às discípulas que vão ao túmulo e o encontram vivo:

"Então lhes disse Jesus: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galiléia; ali me verão"- Mt 28,10

O encontrarão não em Jerusalém, na cidade santa que o matou. Mas na chamada Galiléia dos gentios. Onde tudo começou.  Encontrarão Jesus lá.  Não no  céu,  não à destra de Deus, mas como a destra de Deus no mundo.

E numa conclusão que faz perfeita ponte com seu início,  Mateus termina seu evangelho da presença de Deus ao nosso lado. Começou dizendo que a criança se chamaria Deus conosco;  mostrou sua presença poderosa,  acalentadora e interpeladora; e conclui com esse Emanuel dizendo:

"e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" - Mt 28,20b

Não!  Não devemos, segundo Mateus, olhar o céu.  Jamais imaginar que existe algo a esperar. Mateus nega que a espera passiva faça parte do legado de Cristo.  Ele ainda está conosco e continuará. Não foi para um céu - de onde veio - continua aqui, perto,  no chão, no mundo, Deus está em sua Terra.   Se o querem achar, que não seja no templo, na cidade ou lugar santo. Mas na constante exigência de justiça; na denúncia corajosa; na utopia de todos os corações.

E também na dor; na ferida aberta; na fome; no exílio;  na nudez vergonhosa; na prisão e na doença. Onde ninguém vê Deus, é onde ele também está.  Exigindo de nós assistência, salvação.

Eis que o Deus conosco está conosco até a consumação dos séculos.  Como consolo e como exigência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário