sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre o Tempo

Há no ser humano  uma disposição à  transcendentalidade. Não  nos relacionamos com o ambiente, ou com as situações de forma passiva: criamos barcos e aviões; enviamos robôs à  Marte; enfim, estamos sempre indo para além do conhecido.

Mais do que nos conformarmos  (embora também ocorra), nós  transformamos. Cada vez mais criamos artifícios para vencer a distância. Como não podemos, literalmente, encurtar o espaço, fazemos uso do tempo. O menor tempo é  visto  como demorado: aviões e barcos mais rápidos; leis para demora tolerável em filas; Internet, redes internas e portas usb mais  rápidas; carros  que respondam em menos tempo; tudo isso para que nos sintamos encurtando o espaço e conquistando o mundo. São  km/h e m/s. De forma que o tempo transforme km em m e até  cm. Enfim, tudo relacionado entre tempo e espaço.

Mas não  apenas  as explorações das invenções procuram vencer o espaço por meio do tempo, também vencemos o espaço propriamente dito: Desviamos rios, criamos aterros e erguemos edifícios. O próprio espaço é  visto como um desafio que se pode vencer. Mas, no fundo, nisso tudo, há  sempre o risco  de uma torre de babel.

Todo o tempo que gastamos para vencer o espaço, não  gastou um nanosegundo do tempo universal. E este  é  quem sempre vence. É  ele quem determina  que não podemos mais conquistar  nada. Nosso lugar é  oferecido a outros. Morremos...

Nossa temporalidade é  vencida. O tempo e o espaço permanecem. O tempo determina nossa brevidade. Impõe até quando podemos desfrutar o espaço. Até as coisas do espaço  determinam nossa temporalidade.  Nossas próprias invenções, que vencem o espaço, eliminam nosso tempo. Como um desastre de avião ou o naufrágio de um navio.

Nessa limitação temporal, nosso constante  desejo de explorar mais o espaço faz com que não admitamos o fim da vida. Planejamos o futuro contando sempre com a presença  do  nosso presente. Mas nem sempre esse presente se concretiza. E quando não  ocorre, o futuro já não  será  o planejado e, contudo, ele mesmo nunca sofreu alteração, pois não existia. Senão  na nossa mente, que já se foi.

Precisamos de algo ou alguém  que nos garanta uma vida atemporal, uma vida eterna, por assim  dizer. Daí  surge a religião. Uma invenção que nos fornece vitória definitiva sobre o tempo  (não - morte) e vitória concreta sobre o espaço  (segurança e deleite).

O fim da grande maioria das religiões  é  o pós - morte. A religião  vem justamente tentar atender definitivamente a essa necessidade de transcender. A essa necessidade  de conquistas sem fim. Há  quem  diga que  toda essa nossa transcendentalidade temporal seja uma sombra da nossa transcendentalidade atemporal  (corpo e espírito). O ser humano é  composto de tempo e eternidade, de espacial e supra espacial. Kierkegaard chamava de tensão  entre finito e infinito.

Até  que ponto  essa tensão está  no ser ou fora projetado por ele, a partir de uma consciência cultural, não  se pode garantir. Precisaríamos monitorar uma pessoa vivendo só e longe de qualquer influência social. A probabilidade, contudo, dela, a seu jeito, deificar o sol, a lua, o trovão  e etc, como o homem antigo fez, é  bem real.

Em nossa  origem mais antiga deificamos o tempo e o espaço. Ao coisifica-los, nos secularizamos. Contudo, é  bem nítido que as conquistas espaciais não nos são suficientes. Vamos ao espaço sideral para buscar uma resposta sobre nossa existência. Morremos sem encontrar respostas, na esperança de que um dia alguém as encontre. Porém, o tempo que  resolvemos quantificar; que transformamos em números; que nunca conseguimos vencer; que jamais será  coisificado; que somente chamamos de hora, minutos e segundos para que não nos percamos nele e, assim, consigamos fingir  que lhe possuímos; que está a serviço da eternidade; este tempo nos alerta que o futuro e a infinitude da morte devem ser respeitados.

Ainda que algo esteja do outro lado, ou que este outro lado realmente exista, aqui, neste espaço e neste tempo se concretiza nosso ciclo vital. O único que estamos seguros de ter. E o tempo nos convida a olhar a vida e percebermos,  nessa transcendentalidade humana, um apelo por relacionar-se.

Criamos e encontramos deuses. Fazemos imagens de nós  mesmos e lhes conferimos dons, aptidões e níveis de virtudes que estão vivas nas utopias de nossos corações. E lhes chamamos "Meu Deus".

Que exista um Deus independente das imagens deturpadas que se faz dele, não me permito negar e jamais ousarei duvidar. Mas se desejo encontra-lo será  nesse tempo que, segundo Toquinho é o futuro "uma astronave que tentamos pilotar. Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar". É  nessas possibilidades do riso e do choro; da dor e do consolo; da vida e da morte; todas realizadas neste espaço e em alguns tempos, que encontramos esse  Deus, esse Tempo.

Na ânsia  por conquista, esse Deus-Tempo, que confissões Biblicas chamam de "Princípio e Fim", que Guita chama de "O Início, o Fim  e o Meio de todas as coisas", acaba por ser ignorado. Mas um dia ele se apresenta. E, como diz o texto bíblico (sobre aquele que julgava ter conquistado todo o espaço necessário e que agora achava que podia ter tempo para desfrutar de sua conquista), nos diz: louco, hoje pedirão  tua alma.

Perdemos nossa temporalidade  em conquistas  que nos impedem de desfrutar o Tempo.  Gastamos nossa finitude sem desfrutar de nossa infinitude.

Nada contra conquistas. O espaço  nos foi dado, segundo  a tradição  bíblica, para ser, por nós, governado. Mas as conquistas de nossa infinitude (espiritualidade ou transcendentalidade, como quiserem) residem na autoconsciência e no momento de parar para ouvir  o Tempo. Nos alertando que o tempo passa... ou, como diz Cazuza, que ele não  pára. Ouçamos  esse Tempo que os filósofos dizem estar em nós e que a religião chama de Deus em nós. Dando o nome que for, ouçamos  e, no lugar de vivermos pra conquistar, vivamos por viver. Porque assim, na verdade, que o é. Esse é  o presente (tempo e dádiva) que o Tempo  nos deu, por pouco  tempo.

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