quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A religião criativa

A humanidade convive com o conceito de espiritualidade já desde os tempos mais remotos. Por diversas formas esse conceito foi trabalhado e sistematizado. Daí surgiram os diversos deuses e as diversas facetas dessa espiritualidade, que aprendemos a chamar de religião. A religião é, assim, fruto da criatividade e da capacidade inventiva do ser humano. Seus dogmas, suas orientações, seus símbolos, ritos e mitos derivam da imaginação humana e servem à vontade humana.

Verdade que os chamados "misticismos" geraram, no lugar de serviço à criatividade, um des-serviço e, ao mesmo tempo, uma contribuição à opressão e idiotização. Por meio das mágicas e em nome dos diversos deuses, grandes impérios realizavam (e realizam) seu domínio sobre outros povos. Para vencer isso, ou, no mínimo, se opôr essas realidades dominadoras, os escritores dos textos bíblicos fizeram uso de sua criatividade e imaginação reinventando sua crença e transformando o que era mágico-dominador em mentira-inimiga, em propaganda a ser  vencida.

Um bom exemplo disso se encontra no Salmo 82:

"Elohim (Deus) está na assembléia de El (divina); julga no meio dos  elohim (deuses):

-Até quando julgareis injustamente, e tereis respeito às pessoas dos ímpios? Fazei justiça ao pobre e ao órfão; procedei retamente com o aflito e o desamparado. Livrai o pobre e o necessitado, livrai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, nem entendem; andam vagueando às escuras; abalam-se todos os fundamentos da terra.

Eu disse: Vós sois Elohim ben Elyown (deuses, filhos do Altíssimo), todos vós. Todavia, como homens, haveis de morrer e, como qualquer dos príncipes, haveis de cair.

Levanta-te, ó Deus, julga a terra; pois a ti pertencem todas as nações".

Elohim é  o plural de "Eloha" (Deus). Embora  haja confusão com a presença do termo, que em alguns momentos se traduz "Deus" e em outros  "Deuses",  a compreensão  é  fácil:

O hebraico  possui o que chamamos de "plural de majestade". Refere-se ao uso no singular  mas com conotação de engrandecimento. Logo, quando o termo "Elohim" vem acompanhado de um verbo no singular  ("está na assembléia" e "julga") quer se dizer que estamos diante  de um Deus dos Deuses. Quando se usa o termo acompanhado de nada (observando  o contexto) ou de um verbo plural, estamos diante  dos "Deuses". É  um jogo de palavras  (o Elohim em oposição aos elohim) que o autor faz.

Neste caso, o Deus do salmista está  presidindo uma reunião  entre os demais deuses. Aqui mora  a raiz da crítica  real ao que Israel  chamou de idolatria. Não  se trata de outros nomes  ou existência  ou não  de outras divindades. Mas que estas divindades eram usadas como justificativa  e legitimidade para: julgamentos injustos; prosperidade  do opressor. Os justos e os desamparados (órfãos  e viúvas) eram explorados e sua  exploração  justificada pela religião. Como  o cristianismo  fez em  um passado  não  muito  distante. Quando  justificou a escravização  dos negros através  da maldição  de Cão, filho  de Noé.

Os deuses não  eram  rejeitados por conta de pura disputa religiosa. Mas porque suas religiões  estavam a serviço  da opressão  e da exploração. Este salmo é  fruto de mãos  oprimidas que buscam incentivar aos seus destinatários a não  temer as ameaças de maldições  e nem se dobrar a lógicas religiosas, discursos profeticos e sacerdotais, que justificavam as situações  de miséria  e exploração.

Uma prova da ausência  de implicância  por implicância  está  no Deus Altíssimo. Que no texto coloquei  a tradução do  hebraico "Elyown". Tratava-se do pai de todos  esses deuses que estão  na assembléia. Era pai de Baal, por exemplo, segundo  o panteão cananeu. El Elyown , em Gênesis, no relato do sacerdote  Melquisedeque e Abraão, é  facilmente venerado  pelo patriarca  bíblico. Reconhecido  como uma imagem ou o próprio Jave.

O chamado Deus Altíssimo era conhecido como um pai bondoso. Aqui, no salmo, seus filhos que estão a serviço da maldade, são  mortos e o Deus dos Deuses se torna o único  Deus  existente. Assim, o monoteísmo se torna uma forma de resistência às dominações  culturais, religiosas, políticas e econômicas.

Um exemplo da religião em seu uso libertador. Nenhum leitor  era convidado a crer  que tal assembléia  de fato existiu. Mas era, pelo mito, convencido de que as lutas no "mundo dos deuses" já  estavam vencidas. Nada os impedia de lutar por si só. Nada mais  justificava  a dominação.

Fato que durante  séculos esse mesmo monoteísmo serviu de justificativa  para  a opressão e demonização  de todas as demais  religiões, desde então, perseguidas pelo cristianismo. Assim se pode perceber  que a capacidade  criativa  está  presente  tanto na luta contra, quanto  na propagação da dominação imperial.

Contudo, como exemplo, vale a afirmação de que a imaginação e a criatividade humanas conseguem estar sempre de  pé, por meio do discurso  religioso que visa estabelecer  a justiça. Como diz outro salmista: justiça e juízo são a base  do trono  de Deus. O ser humano se apega à  imagem  de um Deus que está a favor  e jamais  contra  o bem. Que a religião  possa onerar mais do que beneficiar à  vida, não  há  dúvida. Mas os antigos  judeus  já  diziam:

Antes sacrificar ao mandamento pelo bem do homem, do que sacrificar ao homem pelo bem do mandamento.

Expressão essa bem entendida por Jesus ao dizer  que o sábado  foi feito para o homem  e não  o homem  para o sábado. A religião, como fruto da imaginaçã libertadora  do homem, deve estar a serviço  da criação. Com a finalidade de contribuir  para sua evolução. No caso  do homem, como bem diz o Dalai Lama: tornar o ser humano  melhor.

A espiritualidade tem, assim, sua meta: demonstrar a capacidade de transcender realidades e de ligar  o ser humano a utopias libertadoras. Que a fé ousa chamar  de "boa, agradável e perfeita vontade de Deus".

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