sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre o Tempo

Há no ser humano  uma disposição à  transcendentalidade. Não  nos relacionamos com o ambiente, ou com as situações de forma passiva: criamos barcos e aviões; enviamos robôs à  Marte; enfim, estamos sempre indo para além do conhecido.

Mais do que nos conformarmos  (embora também ocorra), nós  transformamos. Cada vez mais criamos artifícios para vencer a distância. Como não podemos, literalmente, encurtar o espaço, fazemos uso do tempo. O menor tempo é  visto  como demorado: aviões e barcos mais rápidos; leis para demora tolerável em filas; Internet, redes internas e portas usb mais  rápidas; carros  que respondam em menos tempo; tudo isso para que nos sintamos encurtando o espaço e conquistando o mundo. São  km/h e m/s. De forma que o tempo transforme km em m e até  cm. Enfim, tudo relacionado entre tempo e espaço.

Mas não  apenas  as explorações das invenções procuram vencer o espaço por meio do tempo, também vencemos o espaço propriamente dito: Desviamos rios, criamos aterros e erguemos edifícios. O próprio espaço é  visto como um desafio que se pode vencer. Mas, no fundo, nisso tudo, há  sempre o risco  de uma torre de babel.

Todo o tempo que gastamos para vencer o espaço, não  gastou um nanosegundo do tempo universal. E este  é  quem sempre vence. É  ele quem determina  que não podemos mais conquistar  nada. Nosso lugar é  oferecido a outros. Morremos...

Nossa temporalidade é  vencida. O tempo e o espaço permanecem. O tempo determina nossa brevidade. Impõe até quando podemos desfrutar o espaço. Até as coisas do espaço  determinam nossa temporalidade.  Nossas próprias invenções, que vencem o espaço, eliminam nosso tempo. Como um desastre de avião ou o naufrágio de um navio.

Nessa limitação temporal, nosso constante  desejo de explorar mais o espaço faz com que não admitamos o fim da vida. Planejamos o futuro contando sempre com a presença  do  nosso presente. Mas nem sempre esse presente se concretiza. E quando não  ocorre, o futuro já não  será  o planejado e, contudo, ele mesmo nunca sofreu alteração, pois não existia. Senão  na nossa mente, que já se foi.

Precisamos de algo ou alguém  que nos garanta uma vida atemporal, uma vida eterna, por assim  dizer. Daí  surge a religião. Uma invenção que nos fornece vitória definitiva sobre o tempo  (não - morte) e vitória concreta sobre o espaço  (segurança e deleite).

O fim da grande maioria das religiões  é  o pós - morte. A religião  vem justamente tentar atender definitivamente a essa necessidade de transcender. A essa necessidade  de conquistas sem fim. Há  quem  diga que  toda essa nossa transcendentalidade temporal seja uma sombra da nossa transcendentalidade atemporal  (corpo e espírito). O ser humano é  composto de tempo e eternidade, de espacial e supra espacial. Kierkegaard chamava de tensão  entre finito e infinito.

Até  que ponto  essa tensão está  no ser ou fora projetado por ele, a partir de uma consciência cultural, não  se pode garantir. Precisaríamos monitorar uma pessoa vivendo só e longe de qualquer influência social. A probabilidade, contudo, dela, a seu jeito, deificar o sol, a lua, o trovão  e etc, como o homem antigo fez, é  bem real.

Em nossa  origem mais antiga deificamos o tempo e o espaço. Ao coisifica-los, nos secularizamos. Contudo, é  bem nítido que as conquistas espaciais não nos são suficientes. Vamos ao espaço sideral para buscar uma resposta sobre nossa existência. Morremos sem encontrar respostas, na esperança de que um dia alguém as encontre. Porém, o tempo que  resolvemos quantificar; que transformamos em números; que nunca conseguimos vencer; que jamais será  coisificado; que somente chamamos de hora, minutos e segundos para que não nos percamos nele e, assim, consigamos fingir  que lhe possuímos; que está a serviço da eternidade; este tempo nos alerta que o futuro e a infinitude da morte devem ser respeitados.

Ainda que algo esteja do outro lado, ou que este outro lado realmente exista, aqui, neste espaço e neste tempo se concretiza nosso ciclo vital. O único que estamos seguros de ter. E o tempo nos convida a olhar a vida e percebermos,  nessa transcendentalidade humana, um apelo por relacionar-se.

Criamos e encontramos deuses. Fazemos imagens de nós  mesmos e lhes conferimos dons, aptidões e níveis de virtudes que estão vivas nas utopias de nossos corações. E lhes chamamos "Meu Deus".

Que exista um Deus independente das imagens deturpadas que se faz dele, não me permito negar e jamais ousarei duvidar. Mas se desejo encontra-lo será  nesse tempo que, segundo Toquinho é o futuro "uma astronave que tentamos pilotar. Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar". É  nessas possibilidades do riso e do choro; da dor e do consolo; da vida e da morte; todas realizadas neste espaço e em alguns tempos, que encontramos esse  Deus, esse Tempo.

Na ânsia  por conquista, esse Deus-Tempo, que confissões Biblicas chamam de "Princípio e Fim", que Guita chama de "O Início, o Fim  e o Meio de todas as coisas", acaba por ser ignorado. Mas um dia ele se apresenta. E, como diz o texto bíblico (sobre aquele que julgava ter conquistado todo o espaço necessário e que agora achava que podia ter tempo para desfrutar de sua conquista), nos diz: louco, hoje pedirão  tua alma.

Perdemos nossa temporalidade  em conquistas  que nos impedem de desfrutar o Tempo.  Gastamos nossa finitude sem desfrutar de nossa infinitude.

Nada contra conquistas. O espaço  nos foi dado, segundo  a tradição  bíblica, para ser, por nós, governado. Mas as conquistas de nossa infinitude (espiritualidade ou transcendentalidade, como quiserem) residem na autoconsciência e no momento de parar para ouvir  o Tempo. Nos alertando que o tempo passa... ou, como diz Cazuza, que ele não  pára. Ouçamos  esse Tempo que os filósofos dizem estar em nós e que a religião chama de Deus em nós. Dando o nome que for, ouçamos  e, no lugar de vivermos pra conquistar, vivamos por viver. Porque assim, na verdade, que o é. Esse é  o presente (tempo e dádiva) que o Tempo  nos deu, por pouco  tempo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A religião criativa

A humanidade convive com o conceito de espiritualidade já desde os tempos mais remotos. Por diversas formas esse conceito foi trabalhado e sistematizado. Daí surgiram os diversos deuses e as diversas facetas dessa espiritualidade, que aprendemos a chamar de religião. A religião é, assim, fruto da criatividade e da capacidade inventiva do ser humano. Seus dogmas, suas orientações, seus símbolos, ritos e mitos derivam da imaginação humana e servem à vontade humana.

Verdade que os chamados "misticismos" geraram, no lugar de serviço à criatividade, um des-serviço e, ao mesmo tempo, uma contribuição à opressão e idiotização. Por meio das mágicas e em nome dos diversos deuses, grandes impérios realizavam (e realizam) seu domínio sobre outros povos. Para vencer isso, ou, no mínimo, se opôr essas realidades dominadoras, os escritores dos textos bíblicos fizeram uso de sua criatividade e imaginação reinventando sua crença e transformando o que era mágico-dominador em mentira-inimiga, em propaganda a ser  vencida.

Um bom exemplo disso se encontra no Salmo 82:

"Elohim (Deus) está na assembléia de El (divina); julga no meio dos  elohim (deuses):

-Até quando julgareis injustamente, e tereis respeito às pessoas dos ímpios? Fazei justiça ao pobre e ao órfão; procedei retamente com o aflito e o desamparado. Livrai o pobre e o necessitado, livrai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, nem entendem; andam vagueando às escuras; abalam-se todos os fundamentos da terra.

Eu disse: Vós sois Elohim ben Elyown (deuses, filhos do Altíssimo), todos vós. Todavia, como homens, haveis de morrer e, como qualquer dos príncipes, haveis de cair.

Levanta-te, ó Deus, julga a terra; pois a ti pertencem todas as nações".

Elohim é  o plural de "Eloha" (Deus). Embora  haja confusão com a presença do termo, que em alguns momentos se traduz "Deus" e em outros  "Deuses",  a compreensão  é  fácil:

O hebraico  possui o que chamamos de "plural de majestade". Refere-se ao uso no singular  mas com conotação de engrandecimento. Logo, quando o termo "Elohim" vem acompanhado de um verbo no singular  ("está na assembléia" e "julga") quer se dizer que estamos diante  de um Deus dos Deuses. Quando se usa o termo acompanhado de nada (observando  o contexto) ou de um verbo plural, estamos diante  dos "Deuses". É  um jogo de palavras  (o Elohim em oposição aos elohim) que o autor faz.

Neste caso, o Deus do salmista está  presidindo uma reunião  entre os demais deuses. Aqui mora  a raiz da crítica  real ao que Israel  chamou de idolatria. Não  se trata de outros nomes  ou existência  ou não  de outras divindades. Mas que estas divindades eram usadas como justificativa  e legitimidade para: julgamentos injustos; prosperidade  do opressor. Os justos e os desamparados (órfãos  e viúvas) eram explorados e sua  exploração  justificada pela religião. Como  o cristianismo  fez em  um passado  não  muito  distante. Quando  justificou a escravização  dos negros através  da maldição  de Cão, filho  de Noé.

Os deuses não  eram  rejeitados por conta de pura disputa religiosa. Mas porque suas religiões  estavam a serviço  da opressão  e da exploração. Este salmo é  fruto de mãos  oprimidas que buscam incentivar aos seus destinatários a não  temer as ameaças de maldições  e nem se dobrar a lógicas religiosas, discursos profeticos e sacerdotais, que justificavam as situações  de miséria  e exploração.

Uma prova da ausência  de implicância  por implicância  está  no Deus Altíssimo. Que no texto coloquei  a tradução do  hebraico "Elyown". Tratava-se do pai de todos  esses deuses que estão  na assembléia. Era pai de Baal, por exemplo, segundo  o panteão cananeu. El Elyown , em Gênesis, no relato do sacerdote  Melquisedeque e Abraão, é  facilmente venerado  pelo patriarca  bíblico. Reconhecido  como uma imagem ou o próprio Jave.

O chamado Deus Altíssimo era conhecido como um pai bondoso. Aqui, no salmo, seus filhos que estão a serviço da maldade, são  mortos e o Deus dos Deuses se torna o único  Deus  existente. Assim, o monoteísmo se torna uma forma de resistência às dominações  culturais, religiosas, políticas e econômicas.

Um exemplo da religião em seu uso libertador. Nenhum leitor  era convidado a crer  que tal assembléia  de fato existiu. Mas era, pelo mito, convencido de que as lutas no "mundo dos deuses" já  estavam vencidas. Nada os impedia de lutar por si só. Nada mais  justificava  a dominação.

Fato que durante  séculos esse mesmo monoteísmo serviu de justificativa  para  a opressão e demonização  de todas as demais  religiões, desde então, perseguidas pelo cristianismo. Assim se pode perceber  que a capacidade  criativa  está  presente  tanto na luta contra, quanto  na propagação da dominação imperial.

Contudo, como exemplo, vale a afirmação de que a imaginação e a criatividade humanas conseguem estar sempre de  pé, por meio do discurso  religioso que visa estabelecer  a justiça. Como diz outro salmista: justiça e juízo são a base  do trono  de Deus. O ser humano se apega à  imagem  de um Deus que está a favor  e jamais  contra  o bem. Que a religião  possa onerar mais do que beneficiar à  vida, não  há  dúvida. Mas os antigos  judeus  já  diziam:

Antes sacrificar ao mandamento pelo bem do homem, do que sacrificar ao homem pelo bem do mandamento.

Expressão essa bem entendida por Jesus ao dizer  que o sábado  foi feito para o homem  e não  o homem  para o sábado. A religião, como fruto da imaginaçã libertadora  do homem, deve estar a serviço  da criação. Com a finalidade de contribuir  para sua evolução. No caso  do homem, como bem diz o Dalai Lama: tornar o ser humano  melhor.

A espiritualidade tem, assim, sua meta: demonstrar a capacidade de transcender realidades e de ligar  o ser humano a utopias libertadoras. Que a fé ousa chamar  de "boa, agradável e perfeita vontade de Deus".

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Emanuel...

A Bíblia deve ser lida não como um livro constituído para assim ser. Um livro possui um sentido próprio e um raciocínio que segue em busca desse sentido. Dividido em começo, meio e fim, cada etapa consiste em uma revelação do interesse do autor.

Com a Bíblia não se dá desta forma. Como uma verdadeira biblioteca,  cada livro possui seu objetivo,  seu sentido e seu raciocínio.  Fora escritos que constituem uma só obra dividida em X livros,  não há diálogo original entre os mesmos.

Há possibilidade de se falar em dependência ou reinterpretação.  Onde um livro faz uso de outro(s) e cria sua própria mensagem,  derivada de outra(s). Contudo,  ainda assim,  são livros e não uma obra uníssona. Mesmo dentro de um grande livro,  se pode notar a presença de divisões independentes que,  por alguma unidade Teológica ou fonte autoral, são combinados e formam a grande obra.

Dentro desta perspectiva,  contribui muito encarar os textos, ainda os dependentes em composição,  como unidades que possuem sentidos em si mesmos. A exemplo: o autor de Marcos não conheceu o texto de Lucas. Logo, Marcos,  em sua mensagem e história,  é independente de Lucas. Conclui-se que os destinatários de Marcos não precisaram de Lucas para entender o evangelho marcano.

O leitor de Mateus  não pode ter Lucas em mente e nem os textos de Marcos a partir do versículo 9 do capítulo 16. Esqueçamos os outros! Mateus é nosso único evangelho, no momento.

Com essa grande introdução,  me permito olhar Mateus.  Que embora pudesse conhecer histórias sobre a ascensão de Jesus,  as ignora em seu livro. A bem da verdade que o distanciamento que a "espera" de Jesus trouxe, acabou por fazer esmorecer os que confiavam que eventos como a grande tribulação dos anos 70 dC trariam Jesus dos céus.

Portanto,  na abertura do seu evangelho, Mateus já apresenta Jesus como filho dos homens (Davi e Abraão) e filho de Deus.  Nele está presente tanto o céu como a terra. Nele há unidade entre Deus e os homens.  Por isso culmina com um nome bem revelador: Emanuel. Que ele mesmo se preocupa em traduzir: Deus conosco.

Todo o seu evangelho não vai apontar para o "abandono" de Marcos.  Que com toda ousadia desafiou os cristãos a crerem em tempos de perseguição.  Demonstrando que a dúvida e o medo faziam parte.  Também assolaram os primeiros discípulos e discípulas.

Mateus vai por outro caminho.  Pelo caminho da presença.  Começa com o anúncio de um Deus Conosco.  Demonstra a presença desse Deus em diversos momentos da vida humana. Mas não é o "Deus conosco" apenas como consolo, conforto e ânimo.  Sem dúvida o é.  Mas há,  também,  a presença do "Deus conosco" por meio do sofrimento.  Identifica-se com a dor ao ponto de, com seus "pequeninos irmãos, sofrer a tristeza de ser rejeitado,  desprezado e negada assistência:

"Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes" - Mt 25,42-43.

O "Deus conosco" está presente no outro. Não é apenas o que nos ajuda, mas o que, na dor do outro, carece de nossa ajuda. A presença desse Deus é sentida onde existe miséria.  Onde os homens julgam que Deus não está.

Com a sua morte e sua posterior ressurreição,  a Presença não se torna ausência.  Não há, em Mateus, espaço para a crença em uma ascensão aos céus.  Não é lá que encontramos Jesus. Um "Deus conosco" não pode estar tão longe. Assim disse ele às discípulas que vão ao túmulo e o encontram vivo:

"Então lhes disse Jesus: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galiléia; ali me verão"- Mt 28,10

O encontrarão não em Jerusalém, na cidade santa que o matou. Mas na chamada Galiléia dos gentios. Onde tudo começou.  Encontrarão Jesus lá.  Não no  céu,  não à destra de Deus, mas como a destra de Deus no mundo.

E numa conclusão que faz perfeita ponte com seu início,  Mateus termina seu evangelho da presença de Deus ao nosso lado. Começou dizendo que a criança se chamaria Deus conosco;  mostrou sua presença poderosa,  acalentadora e interpeladora; e conclui com esse Emanuel dizendo:

"e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" - Mt 28,20b

Não!  Não devemos, segundo Mateus, olhar o céu.  Jamais imaginar que existe algo a esperar. Mateus nega que a espera passiva faça parte do legado de Cristo.  Ele ainda está conosco e continuará. Não foi para um céu - de onde veio - continua aqui, perto,  no chão, no mundo, Deus está em sua Terra.   Se o querem achar, que não seja no templo, na cidade ou lugar santo. Mas na constante exigência de justiça; na denúncia corajosa; na utopia de todos os corações.

E também na dor; na ferida aberta; na fome; no exílio;  na nudez vergonhosa; na prisão e na doença. Onde ninguém vê Deus, é onde ele também está.  Exigindo de nós assistência, salvação.

Eis que o Deus conosco está conosco até a consumação dos séculos.  Como consolo e como exigência.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Os Encontros com o Ressuscitado

As tradições sobre a aparição do Jesus ressuscitado,  canonicamente,  possuem dois relatos básicos: o de Paulo e o de Mateus.

Embora Marcos tenha sido o primeiro a evangelho a ser escrito (70 D.C.), seu relato da aparição do ressuscitado é um acréscimo posterior ao evangelho de João (100 D.C.). Originalmente seu texto termina no versículo 8 do capítulo 16. Este assunto já foi abordado em outro texto do blog. Contudo,  na ocasião as aparições não foram devidamente exploradas, pois o foco era a obra marcana. Aqui veremos as duas narrativas das aparições.  As, digamos, narrativas bases que possuímos. Primeiro a mais antiga:

"Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos;" - 1 Co 15. 3-7

Paulo afirma ter recebido esta tradição.  Ele está escrevendo antes da década de 60 D.C. e após 50 D.C. Relativamente próximo do evento da crucificação.  Entretanto,  fica difícil encontrar canonicamente quem entre em acordo com ele. Há considerável consenso na pesquisa bíblica de que o esquema abaixo foi realizado:
  1. Marcos escreve em 70 d.C. a partir de fontes externas e criação sua;
  2. Mateus escreve pouco depois de 80 d.C., a partir de Marcos, outras fontes e criação sua;
  3. Lucas escreve mais ou menos em 95 d.C., a partir de Marcos,  Mateus, outras fontes e criação sua;
  4. João escreve em 100 d.C., a partir dos outros evangelistas, outras fontes e GRANDE composição sua;
  5. Depois de tudo isso, alguns cristãos pegaram os relatos das aparições de Jesus ressuscitado de Mateus, Lucas e João e, a partir deles, compuseram aquilo que passou a ser acréscimo nos textos de Marcos (do versículo 9 do último capítulo ao fim do evangelho).
Como ficou o esquema final a partir de Mateus?

Mateus:
  1. Jesus aparece às Mulheres que, diferente do que Marcos diz, depois de serem avisadas da ressurreição,  alegres e correm para anunciar aos discípulos.
  2. Jesus aparece aos ONZE apóstolos - pois Judas havia se enforcado - alguns acreditam e outros não.
Lucas:
  1. As mulheres não encontram a Jesus, mas, avisadas pelos anjos,  correm a anunciar aos ONZE e a todos os outros que Jesus ressuscitou;
  2. Jesus aparece a dois discípulos a caminho de Emaús (possivelmente Cleopas e sua esposa) que ao retornarem, ficam sabendo que Jesus já apareceu a Simão (Pedro);
  3. Jesus aparece a todos os reunidos.
João
  1. Jesus aparece a Maria Madalena;
  2. Aparece aos discípulos. Dos doze, falta Tomé. 
  3. Aparece a todos incluindo Tomé. 
  4. Aparece a sete discípulos que já o tinham visto antes.
O único em quem não se pode garantir a discordância em 100%, de Paulo, é Lucas:

Os discípulos a caminho de Emaús, no retorno à Jerusalém, ouvem dos discípulos:

"Os quais diziam: Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão" - Lucas 24:34

Nisto ele concorda que Pedro foi o primeiro a ver Jesus? Possivelmente sim, entretanto, Jesus pode ter aparecido para esses dois e, somente depois, a Pedro. Fica então a possibilidade;

Da mesma forma, quando ele concorda com Mateus da presença dos onze, há espaço para uma concordância paulina. Mateus afirma que são onze por conta do enforcamento de Judas Iscariotes. Lucas não explica o motivo, mas na continuidade de sua obra - o livro de Atos - ele explica que a morte (?) de Judas é o motivo. Concordando, em princípio, com Mateus. Mas, na expressão do evangelho lucano "os que estavam com eles" (Lucas 24:33), Lucas bem pode já perceber a presença de Matias, que futuramente passaria a compor o novo grupo dos doze. Assim, haveria, também, concordância com Paulo de que Jesus apareceu aos "doze".

O mesmo grupo (os que estavam com eles), pode conter "todos os apóstolos" e os "quinhentos irmãos", narrados por Paulo; Há, ainda, a possível informação de que Tiago estava com os discípulos após a despedida de Jesus:

"Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria mãe de Jesus, e com seus irmãos" - Atos 1:14

Nisto, pode concordar que Tiago, antes de Paulo, foi o último a ver o Senhor. O número, contudo, de "quinhentos" não condiz com a quantidade que Lucas aponta em Atos, onde conta que eram cento e vinte pessoas, QUASE. Obviamente que o texto Bíblico ao tratar de números pensa mais em qualidade do que quantidade. O símbolo do número diz mais do que seu valor absoluto;

Lucas, então, parece ser o que mais se aproxima da história de Paulo, o que já era esperado, já que é um paulino confesso, em Atos.

João parece seguir a mesma linha de Lucas, entendendo que doze viram Jesus. Para ele, contudo, a ausência não é de Judas, mas sim do incrédulo Tomé. João parece concordar que Jesus apareceu aos doze. Mas discorda que a preferência esteja sobre Pedro. O primeiro a "ver", foi o discípulo amado. O último a ter sua verdadeira revelação, foi Pedro, enquanto estava com outros seis discípulos, no diálogo do "tu me amas". Acrescentado à narrativa (?).

Mesmo dependentes de Mateus, há sensíveis discordâncias. O esquema principal da tradição a partir de Marcos, contudo, é mantida:
  1. Jesus é sepultado por conta de um pedido influente;
  2. Mulheres vão ao túmulo de manhã;
  3. Um(ns) mensageiro(s) transcendental(is) informa(m) que ele ressuscitou;
O eixo da narração aponta para uma possível tradição, escondida no relato de Marcos? Ao que parece, a preocupação de se manter, consideravelmente, os 3 pontos em comum, faz com que se possa acreditar não na criação de Marcos sobre os pontos, mas de sua composição a partir dos pontos. Feito que Mateus, Lucas e João repetem. Bem poderíamos reconstruir o mesmo eixo fazendo com que a história que Paulo recebeu esteja em pleno acordo, a partir do evangelho de Marcos.

Como perceber que Paulo está citando algo de sua cabeça ou que de fato tenha recebido? A fórmula introdutória de Paulo dá a entender que ele transmite algo. É repetidor fiel de uma tradição e não seu criador. Usa a mesma expressão para a eucaristia:

"Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído(...)" - 1 Coríntios 11:23-25

Sendo escrito bem antes do evangelho de Marcos (o primeiro e que nem conta a histórias das aparições), pode se compreender a tradição de Paulo como, sim, a mais antiga e conhecida. Me distancio de alguns exegetas que veem o túmulo vazio como criação de Marcos. Paulo já cita um "sepultamento" e os evangelhos canônicos e apócrifos (que relatam a ressurreição) mantém o mesmo eixo narrativo. Mas há composição de Marcos na presença ou nas reações das mulheres. Pois "cai como uma luva" em seu objetivo. 

Enfim, o que se pode concluir, com segurança, é a liberdade de composição. A liberdade que os autores têm de - fiéis a um mesmo eixo - elaborar uma mensagem que sirva para seu objetivo. Sendo assim, o texto bíblico ganha seu sentido de "parábola da vida". Muito mais do que biografia histórica, trata da biografia de todos os seres. O sentido da vida é seu objetivo, mais do que os fatos. Com a liberdade dos autores de filmes, seguem a linha do "baseado em fatos reais". Cuja realidade dos fatos está confirmada na fé e a "liberdade poética", nos objetivos de renovar a fé, manter a esperança e fortalecer os corações dos que aceitaram o desafio de, em sua história, viver a utopia concretizável do filho de Deus.