segunda-feira, 28 de julho de 2014

A distância entre Jesus e Cristo...

Muito se discute ainda sobre o Jesus Cristo. Obras importantes sobre o tema levantaram uma divisão acadêmica do personagem. Uma é chamada de "Jesus Histórico". Esta seria a visão das ciências históricas sobre Jesus de Nazaré. Procura elucidar as questões sobre onde nasceu; que influências políticas, sociais e econômicas vivenciou ou testemunhou; o que realmente saiu de seus lábios e o que se trata de uma construção posterior; quem de fato é a pessoa Jesus sem o "pacote" de influências religiosa. A outra divisão trata-se do "Cristo da fé"; Este, sim, é o Jesus dos evangelhos, de Atos dos Apóstolos, das cartas canônicas e do Apocalipse; Sobre este se discute como as comunidades de fé, original e posterior, interpretaram o "Mistério Cristo".

Albert Schweitzer foi o grande pioneiro sobre o tema. Chegando a conclusão de o Cristo da fé, de fato, é o único que temos e o que realmente basta. E aponta o Jesus de Nazaré como um "estranho para nós". Não saberemos dele e devemos desistir de procurá-lo. Causando divergências e, no entanto, criando - ainda que sem saber - uma escola: A Pesquisa do Jesus Histórico. Schweitzer se transformou no pontapé inicial das pesquisas atuais.

Muitas outras obras nasceram e, contudo, Jesus continua sendo um estranho para nós. Podemos olhar com saudade daquilo que nunca conhecemos e jamais conheceremos. O Jesus que dormiu, acordou, sentiu fome, ficou cansado, com medo, animou aos outros, ensinou e tudo o mais que acreditamos que tenha feito, simplesmente, se perdeu na "areia do tempo". Foi-se! Tal qual não tenho noção nem do nome dos meus antepassados que aqui viviam (índios), nem dos que para cá vieram (europeus) e nem dos que para cá foram trazidos (negros), não saberemos nada sobre esse Jesus.

Mas há que se perguntar sobre o Cristo da fé. Este, contudo, sempre o temos presente. É o Jesus que nunca se foi (estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos Mateus 28:20); é o Jesus que não ficou na cruz e a quem todas as coisas foram subordinadas, nas palavras de Paulo.

Obviamente que o Jesus da fé, é, certamente, o "Jesus das fés". De forma que, cada vez mais, a separação entre o homem histórico e o homem transcendental, aumenta. A ausência das informações reais do Jesus que existiu não podem justificar o abandono de sua existência. Com isto, quero dizer que o Cristo dos evangelhos está sim divinizado (em algum momento), mas, quer pelos olhos da fé, iluminados pela crença na Ressurreição, ou não, está, também, plenamente humanizado. E, talvez, daí tenha nascido sua divinização: da sua humanidade.

É nas palavras do mito da encarnação que encontramos o termo "sarx" ou ainda , na canção cristológica, "kenosis" - para Paulo. Expressões que procuram, a seu modo, informar que o Jesus transcendental foi, também, imanente. Era um homem! Feito de carne! Um homem como qualquer outro. Sua origem está para além do tempo, mas assumiu plenamente a temporalidade dos homens e se tornou igual a todos. É a primeira carta de João que une a realidade histórica com a força da fé:

"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada); O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. 1 João 1:1-3"

O Cristo da fé, em algum momento, foi o Jesus desconhecido. O homem "estranho", nos termos de Schweitzer. A fé que anula a humanidade de Jesus e o impede de sentir tudo o que sentimos, em nome do Cristo da fé, faz a própria crença do Cristianismo entrar em colapso e, talvez, em uma crise terminal.

A partir dos estudos de Junger Moltmann, o Teólogo - e meu professor - Edson Fernando de Almeida, chega à conclusão de que a força do credo de Niceno-Constantinopolitano não está em confirmar que Jesus é Deus, simplesmente. Mas em afirmar com todas as palavras que Deus foi atingindo pelo mal. Que Deus, de alguma forma, morreu. Que Deus e a humanidade estão inteiramente ligados no mistério da encarnação.

Não, não se pretende afirmar a historicidade da encarnação. O assunto do Jesus Histórico, concordo com Schweitzer, é fato "terminado". Não o podemos achar. É no discurso da mitologia, da fantasia originada da fé, da certeza transcendental, inexplicável e que dá sentido à vida, que uso o termo encarnação e historicidade do homem que foi visto como "o resplendor da sua (de Deus) glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas. Hebreus 1:3"

Nesta ideia, a fé Cristã precisa "abraçar" sua confiança e sua crença. Se ela afirma categoricamente a divindade do homem Jesus e a humanidade do Cristo, precisa dar a este Deus todas as experiências que o torna homem. Inclusive sua fragilidade que o difere de Deus, sua limitação que o separa da Divindade. Seu ser precisa ser tomado de toda a humanidade real, para que haja a divindade Misteriosa. É na humanidade do Jesus que conheceram, que os discípulos ousaram chamá-lo de "Cristo, o Filho do Deus vivo".

Seguir o Cristo da fé, hoje, se tornou uma missão impossível ao cristão. Melhor que lhe seja oferecido outro caminho. E que trilhe outras "revelações". Jesus Cristo, a cada canção que escuta e a cada ensino que se presencia, tem se tornado muito distante do homem que, embora desconhecido, um dia existiu em nosso solo.

Desafios sem sentido de força espiritual inabalável; fé exemplar; comportamento moralmente perfeito; preconceitos transformados em fidelidade; vinganças legitimadas por estar no "time de Deus"; filiação divina com consequências de acepção de pessoas; superioridade da religião cristã sobre as demais confissões religiosas; demonização do mundo. Tudo isso pautado na fé de que existe um Jesus que a isto tudo aprova.

Entretanto, os próprios evangelhos apontam que o "Jesus teológica e historicamente interpretado" foi alvo de preconceito, perseguição, desacreditado, abandonado, desprezado, humilhado e sumariamente torturado e executado. Este que se mostra como vítima similar a todos nós, se tornou Senhor que justifica as atitudes que ele mesmo sofreu.

Vejo isto como consequência do abandono da historicidade de Jesus. Não do Jesus histórico. Este nunca abandonamos, pois nunca tivemos. Mas do Cristo da fé, que nasce a partir da crença de que um homem, um dia, em algum lugar da Galileia, ensinou valores que inspiraram tantos outros. Estes, a partir da experiência com este homem, forjaram um grupo que acreditava na fraternidade humana. Aí sim que mora todo o problema. Na dificuldade de perceber que n'Ele, todos somos irmãos.

Temo que as palavras de Schweitzer sobre a estranheza do Jesus histórico, tenham se tornado real também para o Cristo da fé. Este que vejo nas atitudes cristãs, nas canções das igrejas, nos ensinos dos programas de TV e em muitos sermões de rua, trens e igrejas, para mim, é um verdadeiro estranho. Nunca conheci... E nem tenho interesse em conhecer.