quarta-feira, 16 de abril de 2014

O nascimento (virginal? ) de Jesus

Como o nascimento de Jesus deve ser compreendido hoje? Foi seu nascimento literalmente virginal? O que está por trás da crença do nascimento miraculoso?

Muito se discutiu isso no passado. Mas pouco se discute hoje nas comunidades de fé. Há, contudo, a necessidade de se averiguar essas questões. Mas antes de qualquer coisa, não se deve incorporar na narrativa uma história factual. As narrativas de Mateus se assemelham muito (e MUITO MESMO) com as lendas e com o retrato bíblico sobre como se deu o nascimento de Moisés e sua adoção pela filha de faraó. Fazer essa ponte "Moisés e Jesus" é importante para uma das intenções de Mateus.  Que é apresentar Jesus como o novo Moisés. Sem contar que as histórias de Mateus e de Lucas possuem grandes diferenças, destaco algumas principais:

Mateus: José é avisado em sonho sobre a gravidez de Maria.
Lucas: Maria é quem recebe o aviso - acordada - José é mero coadjuvante na versão Lucana.


Mateus: Jesus nasce na CASA da família
Lucas: Jesus nasce em uma estrebaria


Mateus: Magos vindo o oriente levam presentes ao menino.
Lucas: pastores recebem a revelação do anjo e vão ao encontro do menino nascido.


Mateus: Ocorre a matança dos inocentes
Lucas: não existe essa história


A partir destes fatos (lendas sobre como Moisés nasceu + registro bíblico do nascimento de Moisés + diferenças consideráveis entre Mateus e Lucas) devemos reconhecer que estamos diante de um relato teológico e não de um relato histórico. Diante de uma composição literária e não de um documentário biográfico. Diante de uma metáfora da vida e não de uma factualidade.

Com isto, entretanto, não se nega a historicidade de Jesus, ensinamentos e feitos. Uma coisa é o "Jesus histórico". O homem Jesus, membro da árvore genealógica humana. Outra é o Cristo da fé. Aquele de quem os textos falam e que possui sua história escrita a partir da fé de seus apóstolos.  Do primeiro quase nada sabemos. Do segundo, sabemos muito, ou aquilo que a comunidade antiga julgou ser importante falar. Trata-se do discurso da fé sobre o "mistério Jesus" e sobre a profunda crença de que nele habitava a plenitude de Deus. Sendo, ele mesmo, o próprio Deus encarnado. E, sobre Deus, só podemos falar a partir da fé, metáforas, poesias e teologias. Falar de Deus de forma histórica é fugir à certeza de que ele é e continuará sendo o grande Mistério.

Mas voltando ao que se que pretende,   Mateus é o único que coloca o nascimento virginal como cumprimento de uma profecia. Ele cita o texto de Isaías 7.14, que, segundo a versão brasileira Revista e Atualizada seria:

"Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel".

Contudo, em um post antigo tratei deste assunto, entre os exegetas é de comum acordo que a Bíblia dos escritores do Novo Testamento era a LXX. Esta é a tradução grega dos escritos antigos (Hebraico). No texto Hebraico a palavra usada por Isaías era עַלְמָה ('alma - literalmente "jovem mulher"). A expressão hebraica para virgem é בְּתוּלָה (bethulah). Logo, Isaías nunca falou "virgem conceberá", e sim "jovem conceberá". Ocorre que quando foram traduzir o texto de Isaías para o grego - em III a.C. - no lugar de colocarem "Jovem mulher", usaram a expressão "virgem" do grego (παρθένος - parthénos). A partir daí, o texto usado por Mateus estava com a tradução equivocada, o que gerou a idéia de cumprimento de profecia.

Entretanto, vale a pergunta se Mateus usou o texto antes da tradição do nascimento virginal, ou posterior a ela. Paulo, o primeiro escritor cristão, não faz menção a nenhum nascimento especial. Pelo contrário, apenas diz "nascido de mulher" (Gl 4:4). Onde usa o termo "gnaikós" - literalmente mulher.

Isto, contudo, não nega a existência da tradição do nascimento virginal. Porém, tal tradição não pode ser confirmada longe dos textos de Mateus. Acredito, porém, que Mateus não tenha inventado esta tradição, como também, penso que ele não quis dizer o que escreveu. Creio que exista mais coisas não ditas do que ditas e que, por trás do texto, há alguma mensagem mais forte.

Considerando que exista a tradição do nascimento virginal, mas que, em hipótese alguma haja seu respaldo nos textos mais antigos (Isaías), qual o seu objetivo? Seria uma das questões que proponho. Mas antes de responder - ou tentar - vamos continuar levantando mais questões.

Lucas utilizou o texto de Mateus para compôr seu evangelho. Logo, literariamente falando e, obviamente, limitado aos textos que conhecemos, Mateus foi o "criador" da tradição do nascimento virginal. Repito, literariamente falando e dentro dos textos que conhecemos. Portanto, pautarei esta investigação nele. Existem algumas respostas possíveis sobre o tema que, certamente, não terá nesta postagem o seu fim.

Um exemplo bem simples seria José ser biologicamente pai de Jesus. Há quem pense que não seria possível, pois Maria era noiva de José e, em uma sociedade conservadora, José não teria tida relações sexuais antes do casamento. Tal observação, entretanto, carece de verdade.

Segundo o costume antigo, Maria já era considerada esposa de José. Esse "noivado", não tem a conotação de hoje. Não é à toa que para ser desfeito, necessariamente Maria teria que ser repudiada (divórcio). Mesmo ela morando na casa dos pais - como se supõe. Não era incomum, por já ser esposa, ocorrer relações sexuais. Difícil responder se em uma comunidade pequena e conservadora como a de Nazaré isso seria um fato. Entretanto, é um argumento que não se pode mais sustentar com tanta firmeza.

Sendo assim, Maria poderia sim ter engravidado de José. O que mantém em pé a pergunta: por que o nascimento virginal? A tradução da LXX induziu Mateus, ou Mateus encontrou nela o respaldo para uma tradição já presente? Continuaremos seguindo a ideia de que Mateus, literariamente, criou a tradição.

Uma outra possibilidade, caso não tenha ocorrido relações sexuais, é a do estupro. Não se deve, porém, olhar tal pensamento de forma negativa. O Rabi Nilton Bonder conta que a raça judaica tinha como base a ascendência paterna.  Logo, para ser judeu, um bebê tinha que ter um pai judeu. Entretanto, os estupros executados por soldados romanos foram se tornando cada vez mais comuns e as crianças nascidas não eram consideradas judias. Eram filhas de soldados romanos. Sorte daquela que era adotada por algum pai judeu (o noivo ou esposo da estuprada,  por exemplo). Segundo a tradição judaica, se um homem afirmar "é meu filho", ninguém poderia contrariá-lo, ainda que biologicamente não o fosse. Entretanto, não era comum isso acontecer. Criar um filho de romano não era o sonho de nenhum judeu.

Para resolver o problema e a raça judaica não ser extinta, neste período e desde então, a descendência passou a ser matriarcal. Ou seja, para ser judeu é necessário nascer de um ventre judeu. Assim se preservou a raça judaica. Pois, mesmo diante dos estupros, os filhos de mulheres estupradas seriam considerados judeus.

Não se pode, contudo, retirar preconceitos a partir de leis. Isto quer dizer que algumas destas crianças, mesmo consideradas como parte do povo, ainda assim, não tinham um pai para adotá-las.

É possivelmente o caso de Barrabás. Segundo a crença, Deus seria considerado o pai destas crianças. Conforme alguns escritos de Mateus, o nome de Barrabás era Jesus (Yeshua). Seria "Yeshua Bar Aba" (Jesus Barrabás - Jesus filho do Pai, Jesus filho de um pai). Pois não foi encontrado alguém que o adotasse. Jesus, entretanto, foi adotado pelo esposo-noivo de sua mãe, José. E ninguém poderia contrariar, pois José afirmou ser ele seu filho.

O nascimento virginal pode, assim, ser considerado uma forma de "tirar" o sangue romano de Jesus? Considerando os destinatários do texto de Mateus, não duvido muito. Mas carece de confirmação. Pode ser, ainda, uma forma de mostrar a paternidade de Deus sobre todas as crianças nascidas como frutos de estupros. E legitimar sobre o "novo Moisés" esse dado que os judeus tiveram que incluir em sua cultura e religião.

A grandiosidade de reconhecer Jesus como filho biológico de José

O esvaziamento de Deus e seu nascimento como homem (confissão já presente  antes de Mateus, em Paulo) de forma natural, torna-o mais próximo de nós. Mais humano e, consequentemente, faz de todos os seus feitos e ditos não oriundos de alguém que, desde o nascimento, possuía uma "áurea" especial. Faz de Jesus uma pessoa que pode, com muita naturalidade, ser seguida e "imitada". A especialidade que torna impossível seu seguimento ou exalta sua santidade ao nível do inconcebível, tem que ser posta de lado. Pois estaríamos falando de um homem perfeitamente homem. E, como diz o Leonardo Boff, humano como ele, só Deus mesmo.
A grandiosidade de reconhecer Jesus como fruto de um estupro

Soma-se a tudo o que foi dito acima - pois é um nascimento biologicamente natural - a identificação com os sofrimentos humanos: o preconceito social, pois era filho de um romano, o que veladamente está entendido e discriminado pela sociedade; a humilhação que Maria sofre, sendo a perfeita ligação com a violência contra as mulheres. E mesmo a aula de humanidade e amor que José deu ao não repudiar Maria, antes amá-la  e adotar seu filho, fruto de uma gravidez indesejada. Jesus já nasce como vítima da violência humana e carente de um pai. Deus legitima os filhos estuprados como seus filhos de fato. Deus não planeja os estupros! Isto jamais!! Mas inclui em seus projetos os rejeitados e sofridos por causa da dominação patriarcal.

Uma forma não de legitimar a dominação machista, mas de manifestar seu afeto em aceitar os que sofreram com esta dominação. Eleva os humildes e humilhados ao grau de família santa e nasce nessa situação tão humilhante. E faz da estuprada e o justo José, seus pais, pais do filho de Deus.

O mundo antigo sabia ler e compreender estes textos. Afinal, tratava-se da forma deste mundo descrever e escrever. Era a compreensão antiga tão distante de nossa mentalidade lógica e fria. Vencer a tentação de ler textos bíblicos como se fossem escritos hoje, é o que a hermenêutica consciente busca. Seria esta, então, uma forma de atualizar e entender, em nosso mundo atual, este texto tão verdadeiro e tão comprometido com a fé libertadora? Acredito que seja uma possibilidade sim. E ficam a possibilidade e as perguntas não respondidas aqui. Pois há de dar pano para a manga.