quinta-feira, 6 de março de 2014

Paz na terra, aos homens de be(ns)m

Sou uma pessoa de bem. Para que se entenda o que quero dizer como "pessoa de bem", vou explicar:

Pago meus impostos;
Não roubo;
Sei ler e escrever;
Não me drogo;
E sou trabalhador.

Qualidades difíceis de encontrar em uma pessoa que me qualificam como "pessoa de bem". Mas, infelizmente, vivo em um país onde existe a incapacidade do governo de gerar pessoas que, pelo menos, se pareçam comigo. E aí surge essa classe de "bandidos" ou "marginais". Pessoas que não quiseram seguir meu exemplo e não lutaram por seu lugar ao sol. São pessoas que se entregaram às drogas e às ruas. Estas são invejosas. Querem meu carro; meu dinheiro; meu smartphone; meus cartões de crédito; e, acredite, até minhas roupas.

Elas ficam à espreita, esperando qualquer desatenção, a fim de me roubar ou até matar. Eu nem duvido que, se eu fosse mulher, correria até o risco de estupro. E aí, óbvio, há o risco de DST e uma gravidez indesejada! Quem, em algum lugar do mundo, pode desejar carregar no ventre o filho de um estuprador, aliás, do seu estuprador? E, claro, gravidez ocorre pela vontade de Deus e, por causa disso, ainda teria que carregar e educar esta criança pela vida toda. Aborto? Nem pensar! Sou uma "pessoa de bem".

Nestes últimos dias algumas pessoas como eu (de bem) pegaram um "trombadinha" - informação esta confirmada pela prisão dele em uma tentativa de assalto - bateram, tiraram a roupa e prenderam em um poste. Sinceramente! Quantas pessoas ele não roubou, não bateu ou não deixou nuas? Não era uma "pessoa de bem", não era um "bom cidadão". Por que pessoas boas, como eu, devem viver temendo pessoas como estas?

Ainda culpam a pobre da jornalista que concordou com algo que qualquer um concordaria. Somente quem nunca ficou refém, ou mesmo teve algo roubado, consegue ter pena de pessoas como aquela pessoa má, se é que posso chamar de pessoa. Está com pena? Pega pra criar!

Falta na mente destes metidos a Cristo a recordação de dores iguais. Quero ver manter esse discurso se as filhas, mães, esposas ou namoradas sofrerem na mão dessa "gente ruim"! Ah! Como eu queria! Rapidamente iriam espancar ou até matar o "FDP" que cometeu tal violência. E eu nem acho ruim! Ter condições de bater, espancar e humilhar essa gente é o bônus por nossa bondade! Não sou racista, mas a maioria é preta sim e se não for preta, tá fazendo "pretisse". E nossa maldade em humilhar estes "pretos" tem que ser vista como "bônus da bondade". Como permissão para extravasar a maldade contida que há em nós. Não devíamos nem ir para a prisão ou delegacia. Cada pessoa que agisse assim deveria receber uma medalha de bom cidadão.

Estou usando o termo "violência", mas, na verdade, nem se aplica. Não existe violência quando a pessoa merece correção. Cada um tem aquilo que merece! A oportunidade está ai para todos. Vivemos em um país livre, quem quiser arrumar trabalho, arruma. Deus ajuda e dá o sustento! Estas pessoas não querem nada com Deus e nada com nada! Então não se trata de violência. O "bandido" está colhendo o que plantou! E eu as "pessoas de bem", que matam, humilham ou espancam esses "males da sociedade", estão desfrutando do bônus de ser bom! Quer estar do lado da verdade, do apoio da sociedade quando quiser bater em alguém? Então ande direito!

Eles não nos roubam? Roubamos a roupa deles! Eles não nos batem? Batemos neles! Não nos humilham? Humilhamos a eles! Eles começaram! Apenas, estamos dando o troco! E quem discorda é hipócrita porque, dentro de você, certamente, existe essa "violência justificada" a arder.

Essa é minha alegria em ser um "homem de bem": poder executar a maldade que há em mim com o apoio da sociedade, que entende que isto é o bônus de ser uma "pessoa boa". Portanto, prendo, espanco, humilho e, se der mole, mato, porque sou uma pessoa de be(ns) m!

"nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento". - Clarice Lispector

Um comentário:

  1. Esta é a dura realidade... nos comportamos como juízes em tudo e contra todos.

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