terça-feira, 25 de março de 2014

Este Deus Fraco...

A imagem de um Deus Amoroso e Todo-Poderoso é assombrosa. Ela é tão complicada de se compreender que por volta dos anos 200 antes da nossa era, o Filósofo Epicuro já criara o dilema tão difícil de ser respondido:

"Ou Deus quer eliminar o mal do mundo mas não pode; ou pode, mas não quer eliminá-lo; ou não pode e nem quer; ou pode e quer. Se quer e não pode é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não quer e nem pode, não é o Deus bom, e ademais é impotente; se pode e quer - e isto é o mais seguro -, então de onde vem o mal real e por que ele não o elimina?"

Não apenas ele, mais de milênio depois, Dietrich Bonhoeffer nos revela que "só o Deus sofredor pode ajudar-nos". A ideia de um Deus que sofre, vai na contra-mão do pensamento de um Deus soberano que não pode ser afetado por nada. Se Deus sofre, se Deus pode ser afetado por algo que lhe causa dor, então, de fato, estamos falando de um Deus que não está acima de todas as coisas. No sentindo, óbvio, de existir alguma coisa capaz de lhe causar dor.

Também se torna bastante perturbadora a visão de um Deus que pode tudo, e que tudo que ocorre tem seu aval, ou sua permissão. Sendo assim, estamos falando, praticamente, de um Deus sádico. E aí caímos na "armadilha" de Epicuro. Pois, se Deus é bom e pode todas as coisas, então, porque permitir o mal? Muitas são as respostas e, sinceramente, nenhuma traz consigo um argumento que satisfaça a todas as exigências da lógica e do bom senso: o mal origina-se no diabo; o ser humano trouxe o mal ao mundo. Deus eliminará o mal no fim dos dias.

Nada, simplesmente nada disso responde a inquietante pergunta de Jesus na cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Grito este que ainda denuncia a dor, o desamparo e a solidão  em que vivem milhares de pessoas. Estas carregam o jugo da miséria, da opressão, da doença e da desilusão, aguardando o momento em que a morte eliminará seus sofrimentos. O grito de Jesus ecoa até hoje nos ouvidos de Deus, mas vindo de outros lábios sofredores. E, assim como Jesus, estas mesmas pessoas padecem sem resposta .

A religião não pode se manter alheia a tais sofrimentos e responsabilizar pecados ou maldições, a fim de des-concretizar os reais motivos das dores. Não pode alimentar esperanças que dificultam o amadurecimento psíquico e espiritual. E nem transformar a fé em fonte alimentadora da ilusão. A religião deve servir como fonte libertadora. Deve contribuir para que o ser humano descubra os reais motivos da miséria e do sofrimento e, guiados pela força do Deus que sabe o que é sofrer, lutar contra a legitimação das dores.

É aí que mora a verdadeira coragem do credo Cristão, ao afirmar a divindade de Jesus. Nesta coragem de confessar a divindade em um homem comum, que morre como bandido na cruz da vergonha, os judeus-cristãos testemunharam sua crença na fragilidade de Deus. Negaram a supremacia que distancia Deus dos homens e aproximaram-no de nós. Ele ficou tão perto, mas tão perto, que chegou a sofrer a dor do desamparo que somente os abandonados pelo "Deus-Poderoso-Sádico" conhecem.

O Deus que é "enxotado" do mundo, expulso da terra dos viventes e rejeitado pelos que lhe são caros, é o Deus que está tão próximo da dor que não consegue ser indiferente ao sofrimento alheio. Muito distante do Deus mágico, imponente e completamente intolerante com a natureza humana. Deus este que a religião tenta injetar na veia das pessoas e, com isto, ainda que sem querer, manter a ilusão de que vivemos em débito e sempre merecedores da dor e do castigo.

O Deus que pode ser ferido - fraco, por assim dizer - não é a resposta para o porquê da permanência do mal no mundo. Mas aponta o próprio Deus como vítima deste mesmo mal e que, como toda a vítima, anseia estar livre e participar da vida abundante que vence o próprio silêncio e desconsolo, causados pela morte. O Deus que sabe o que é morrer, é justamente o Deus que sabe o valor da vida, o valor do amor e o valor da libertação. O Deus que clama por salvação (passa de mim este cálice) é o mesmo Deus que anseia a liberdade dos seus filhos.

E, como diz Bonhoeffer, é nessa fraqueza e nessa impotência que Deus nos dá assistência e nos mantém fortes e potentes. É na humanidade de Deus que descobrimos a divindade humana. A parcela divina presente em nós e, justamente por isso, Jesus é também chamado de nosso irmão. Por ele, somos então, participantes desta divindade e, acima disso, desta perfeita humanidade, capaz de transcender suas dores e vencer as instituições e os poderes que, com mão de ferro escondida em luva de seda, justificam a opressão. Nas palavras do grande teólogo Leonardo Boff, "humano como Jesus, só podia ser Deus mesmo". E, assim, nas palavras de Jesus "sois deuses, pois sois todos filhos do Deus Altíssimo".

quinta-feira, 6 de março de 2014

Paz na terra, aos homens de be(ns)m

Sou uma pessoa de bem. Para que se entenda o que quero dizer como "pessoa de bem", vou explicar:

Pago meus impostos;
Não roubo;
Sei ler e escrever;
Não me drogo;
E sou trabalhador.

Qualidades difíceis de encontrar em uma pessoa que me qualificam como "pessoa de bem". Mas, infelizmente, vivo em um país onde existe a incapacidade do governo de gerar pessoas que, pelo menos, se pareçam comigo. E aí surge essa classe de "bandidos" ou "marginais". Pessoas que não quiseram seguir meu exemplo e não lutaram por seu lugar ao sol. São pessoas que se entregaram às drogas e às ruas. Estas são invejosas. Querem meu carro; meu dinheiro; meu smartphone; meus cartões de crédito; e, acredite, até minhas roupas.

Elas ficam à espreita, esperando qualquer desatenção, a fim de me roubar ou até matar. Eu nem duvido que, se eu fosse mulher, correria até o risco de estupro. E aí, óbvio, há o risco de DST e uma gravidez indesejada! Quem, em algum lugar do mundo, pode desejar carregar no ventre o filho de um estuprador, aliás, do seu estuprador? E, claro, gravidez ocorre pela vontade de Deus e, por causa disso, ainda teria que carregar e educar esta criança pela vida toda. Aborto? Nem pensar! Sou uma "pessoa de bem".

Nestes últimos dias algumas pessoas como eu (de bem) pegaram um "trombadinha" - informação esta confirmada pela prisão dele em uma tentativa de assalto - bateram, tiraram a roupa e prenderam em um poste. Sinceramente! Quantas pessoas ele não roubou, não bateu ou não deixou nuas? Não era uma "pessoa de bem", não era um "bom cidadão". Por que pessoas boas, como eu, devem viver temendo pessoas como estas?

Ainda culpam a pobre da jornalista que concordou com algo que qualquer um concordaria. Somente quem nunca ficou refém, ou mesmo teve algo roubado, consegue ter pena de pessoas como aquela pessoa má, se é que posso chamar de pessoa. Está com pena? Pega pra criar!

Falta na mente destes metidos a Cristo a recordação de dores iguais. Quero ver manter esse discurso se as filhas, mães, esposas ou namoradas sofrerem na mão dessa "gente ruim"! Ah! Como eu queria! Rapidamente iriam espancar ou até matar o "FDP" que cometeu tal violência. E eu nem acho ruim! Ter condições de bater, espancar e humilhar essa gente é o bônus por nossa bondade! Não sou racista, mas a maioria é preta sim e se não for preta, tá fazendo "pretisse". E nossa maldade em humilhar estes "pretos" tem que ser vista como "bônus da bondade". Como permissão para extravasar a maldade contida que há em nós. Não devíamos nem ir para a prisão ou delegacia. Cada pessoa que agisse assim deveria receber uma medalha de bom cidadão.

Estou usando o termo "violência", mas, na verdade, nem se aplica. Não existe violência quando a pessoa merece correção. Cada um tem aquilo que merece! A oportunidade está ai para todos. Vivemos em um país livre, quem quiser arrumar trabalho, arruma. Deus ajuda e dá o sustento! Estas pessoas não querem nada com Deus e nada com nada! Então não se trata de violência. O "bandido" está colhendo o que plantou! E eu as "pessoas de bem", que matam, humilham ou espancam esses "males da sociedade", estão desfrutando do bônus de ser bom! Quer estar do lado da verdade, do apoio da sociedade quando quiser bater em alguém? Então ande direito!

Eles não nos roubam? Roubamos a roupa deles! Eles não nos batem? Batemos neles! Não nos humilham? Humilhamos a eles! Eles começaram! Apenas, estamos dando o troco! E quem discorda é hipócrita porque, dentro de você, certamente, existe essa "violência justificada" a arder.

Essa é minha alegria em ser um "homem de bem": poder executar a maldade que há em mim com o apoio da sociedade, que entende que isto é o bônus de ser uma "pessoa boa". Portanto, prendo, espanco, humilho e, se der mole, mato, porque sou uma pessoa de be(ns) m!

"nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento". - Clarice Lispector