sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Esse tal Cristianismo-mamônico

Max Weber já obervava a forte ligação entre o pensamento protestante e o capitalismo. A Igreja Católica foi a primeira a falar de uma Teologia da Libertação  (há, contudo, quem diga que Rubem Alves tenha sido o real precursor desta Teologia). Reconhecendo o capitalismo como forte mecanismo de opressão.

Hoje, porém, dificilmente se percebe um movimento contrário ao capital. As igrejas, com suas doutrinas sobre a prosperidade, alimentam a ganância e o desejo pelo dinheiro. Nos púlpitos, pastores quem anseiam o poder. Numa troca sem sentido, os cristãos concedem poder ao líder religioso e, na barganha, recebem incentivos à riqueza. Incentivos que são alimentados por meio de testemunhos pessoais e sermões que afirmam uma tal de "lei da semeadura".

O Cristianismo evangélico "conseguiu" um milagre, por meio da Teologia da Prosperidade! Nem mesmo Jesus considerava isso possível (Mt 6.24)! Fizeram com que Deus e Mamon andassem de mãos dadas. Ter Deus é receber, aqui ou no céu  (aqui é mais importante), as bênçãos de Mamon. Ter Mamon em sua vida é a confirmação da presença de Deus. Antes inimigos declarados, Deus e Mamon se tornaram inseparáveis!

A fome pelo dinheiro e pelo poder, a justificação dessa ganância por  meio de textos bíblicos miseravelmente interpretados, associados a todo apelo consumista que o mercado faz, geram cristãos comprometidos somente com Mamon. Contudo, como é politicamente incorreto, mesmo em ambiente não cristão, se confessar ganancioso e egoísta, se escondem através de canções e eventos que afirmam sua ligação com a divindade.

A impossibilidade de se servir a Mamon e a Deus, confessada pelo pensamento do "retrógrado" Jesus, encontrou seu "jeitinho" de ocorrer: dando 10% para Deus as coisas ficam no "elas por elas". Compram a Deus, ou o Seu favor, por meio do dízimo e das ofertas. Ao mergulharem cada vez mais na miséria, entendem passar por uma provação que, no fim, os conduzirá a "lugares mais altos".

Como se Deus pudesse ser comprado, como se Deus pudesse ser iludido ou enganado. O engano não está direcionado a Jave. Mas sim ao próprio cristão  que mamoniza sua fé. Que faz do dinheiro seu verdadeiro Deus.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Desabafo...

O cristianismo midiático de massa se desviou de seu caminho. Isto não é novidade e, infelizmente, é vivido com tanta normalidade que confessar-se cristão se precisa de explicações: "mas não sou homofóbico", "mas não sou ganancioso", "não concordo com o Macedo", "mas também acho o Malafaia maluco". Sendo menos "azedo" e mais teológico, observo que esses cristãos fizeram um acordo de traição ao seguimento de Jesus, com consciência limpa.

A Teologia da Prosperidade conseguiu um feito maravilhoso: Deus e Mamon se tornaram amigos. Agora, estar com Mamon é ser abençoado por Deus e estar com Deus é receber Mamon em sua vida. Tal união, que o retrógrado Jesus considerava impossível, hoje se faz real. Os púlpitos protestantes venderam-se para aquilo de mais diabólico há na humanidade: a ganância desenfreada. Se assemelhando, em níveis de clonagem, ao o que um dia foi a igreja católica.

Como se não bastasse essa blasfêmia contra tudo que há de ético, se aliam ao preconceito. Rejeitam ao diferente! Quer este seja vinculado à outra religião, quer seja homossexual. Com isto se une a covardia de expôr suas opiniões. Escondem-se atrás de textos descontextualizados. Não consideram as situações sociais, culturais e econômicas que estão por trás das mensagens contra os deuses e contra a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo. Trocam o amor, maior herança do movimento iniciado pelo Nazareno, por um "prato de lentilhas", à semelhança do patriarca Esaú.

Dizem amar à liberdade de expressão, mas abusam da liberdade, fazendo mau uso dela, ao atacar com "unhas e dentes" àquilo que é contrário ao seu modo de viver. Ou, àquilo que, VERBALMENTE, discordam. Negam a contribuição de Karl Marx e abraçam com afagos ao capitalismo que vitimiza sem piedade. Atacam a ditadura política através do argumento de que precisamos de uma democracia. Contudo, instauram a cristianismo-fundamentalista-cracia. Nesta forma de governo, lançam todos os discordantes no Inferno. Este que foi criado por suas mentes violentas e vingativas. Nele depositam todo o seu ódio e toda a sua amargura camufladas por textos bíblicos. Usam o livro que uniu diferentes confissões de fé a Javé, que uniu irmãos, como arma separatista.

Defendem um modelo de família que melhor se adéqua ao que julgam certo. O termo "certo" se tornou mais importante do que a misericórdia, a compressão e a solidariedade. Consideram tudo o que é bom para o outro, mas que lhes aguça a inveja, como ilegal ou imoral.  Se consideram representantes de Cristo na terra, porém, seriam os primeiros a gritar "crucifica-o". Jesus, em sua história, gerou todo tipo de inveja e perseguição ao ficar ao lado dos que eram discriminados pela religião e pela tradição. De perseguidos, viramos perseguidores, pelo menos aqui, onde a liberdade nos permite a falta de educação e extinção do amor.

Quero relembrar uma parte de uma carta antiga (170 -180 de nossa era) que foi direcionada a Diogneto e, infelizmente - considerando as diferenças temporais -, reparar o quão traidores os cristãos são hoje:

"Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou  costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum  modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros.Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, as com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, a aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio". 

Nota de esclarecimento: A exceção existe, é compreendida, percebida e aceita. O texto se dirige ao cristianismo midiático.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A César Nada!

O movimento de Jesus foi de origem popular. Iniciado entre os camponeses da Galiléia e tendo como  líder um morador da pequena e desprezível Nazaré, foi entre os pobres que esse movimento nasceu. Tinha como crítica central a condenação ao sistema de governo romano e às alianças entre sacerdócio e aristocracia com o império dominador. A demonização dos poderes romanos e o ataque direto às suas políticas e a fraternidade de todos mediante à fé em Jave eram marcas desse movimento.

Sinais do ataque ao império romano podem ser percebidos nos exemplos a seguir:
  1. O uso do termo Evangelho de Jesus Cristo, em oposição ao Evangelho dos Flavianos;
  2. A demonização do Imperador na tentação do deserto;
  3. A demonização do Imperador em João 8 e no Apocalipse;
  4. O demônio Legião em clara referência às Legiões Romanas;
  5. A crucificação de Jesus, condenação dada para presos políticos;
  6. Os títulos dado a Jesus, que são tomados do Imperador: Salvador do Mundo, Deus de Deus, Escrituras Sagradas, Senhor.
  7. A negação de que o Imperador era um Divi filius (Filho de Deus). Pois Jesus era o Filho Unigênito de Deus.
Essas oposições tanto do movimento de Jesus, quanto do que dele derivou, mostram claramente o caráter político do Evangelho. Não se tratava de uma religião nos moldes de hoje. Onde as preocupações com o bem estar interno e a vida após a morte compõem o eixo central. A despolitização do cristianismo transformou as palavras e atitudes de Jesus em mágica, milagres descontextualizados e trouxe seu foco para a alma humana. Hoje o cristianismo se reduziu à fuga do inferno e sua missão  tornou-se dominar todas as culturas por meio do proselitismo que desqualifica e firma o preconceito às diversas confissões religiosas.

Um exemplo que exploraremos é o de Marcos 12.17 lemos a resposta bem conhecida:

Disse-lhes Jesus: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E admiravam-se dele.

Em uma interpretação simplista e que se alinha perfeitamente à deturpação da mensagem cristã, Jesus se torna legitimador dos impostos à César e faz separação entre as obrigações com o Estado e 
as obrigações a Deus. Nada mais escandaloso do que isso!

Era comum, entre o povo, a grande revolta por ter que pagar impostos à César.  Roma tinha a política de "contratar" naturais da terra conquistada para a função de arrecadar os tributos. Estes eram os chamados "Publicanos". Considerados como traidores justamente por arrecadar impostos dos seus semelhantes, enriquecendo e sustentando o Império opressor.

Na tradição judaica, a terra pertencia a Javé. Ele a dava de graça. Logo, a cobrança de impostos para alguém fora da terra que, na prática, os explorava, era, também, uma afronta ao próprio Deus. Jesus era judeu e fiel à tradição judaica que atribuía a Deus a pertença de todas as coisas. Como diz, dentre outros salmos, o de número 24:

"Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam. Porque ele a fundou sobre os mares, e a firmou sobre os rios". Salmos 24:1-2

César, diferente da visão dos romanos, para um judeu tradicional, não era "Senhor" ou "Deus". Como bem dizia Paulo:

"Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele".1 Coríntios 8:5-6

Fiel a esta visão, a forma mais coerente de interpretação do texto, é sim, um protesto ao pagamento de tributos. Entretanto, o intuito era pegar Jesus. Como o próprio Marcos nos orienta, antes de contar qual foi a resposta do Mestre:

"Então ele, conhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que a veja". Marcos 12:15

Todo o povo sente o peso da máquina romana e sofre por conta das cobranças serem injustas. O que lhes força à "sonegação" para, de alguma forma, sobreviver. Sem contar que a tradição de sua fé condena os tributos romanos. O imposta à César lhes atinge na vida social, econômica, política e religiosa. Principalmente porque, naquela época, não havia a divisão (hoje apenas ideológica, de fato) entre estado e religião. Como já dito, o próprio imperador não é um homem. Ele é divinizado. Portanto, a religião judaica ia contra a opressão política e a política popular judaica, defendia sua fé e cultura.

Jesus é filho desse povo. Herdeiro das mesmas culturas e sofre a mesma opressão. Em plena Jerusalém, perto da Páscoa, perguntar a Jesus se era lícito pagar tributo à César era coloca-lo em uma armadilha:
  1. Se respondesse que era lícito, o povo se revoltaria contra ele. E o Mestre cairia em descrédito;
  2. Se, por outro lado, dissesse que não era lícito, seria preso e condenado como rebelde. A pena seria a crucificação - vale lembrar que a acusação de dizer que era contra o pagamento de tributos foi apresentada contra ele perante Pilatos.
Ao falar que se deve dar a César o que é dele, na mente judaica e mesmo para os soldados romanos, Jesus falava da moeda. Contudo, Jesus acrescenta o fator Deus. Dar a Deus o que era de Deus era, ao mesmo tempo, confessar Deus como Senhor de tudo. César, perto de Deus, não possui nada. Os soldados romanos não entenderiam isso. Os judeus, contudo, entenderam perfeitamente que aquelas moedas não deveriam estar na terra de Israel. Deveriam ser devolvidas a César, tal qual a terra, o povo e tudo o que há na terra deveriam ser entregues a Deus e, obviamente, tomados do Imperador.

Jesus, diferente da visão de um líder religioso preocupado com a alma humana, era, de fato, um Mestre preocupado com a vida. Todas as áreas do viver humano estão abarcadas no objetivo do Evangelho. Assim, reduzir a mensagem cristã ao "mundinho" religioso e ao proselitismo preconceituoso, é trair, escandalosamente, o movimento do Mestre de Nazaré. Hoje, precisamos de um Evangelho que vá além da contemplação. Que lute contra as instituições opressoras e que faça desta vida um verdadeiro presente divino. Deus está na sua criação e não no céu da religião. E estar na criação, envolve cada área, cada estágio e cada situação em que esta criação se encontra. O movimento de Jesus, em uma visão moderna, seria um movimento religioso, político e social. E, assim, o cristianismo atual, se deseja ser fiel ao seu fundador e Senhor, precisa ser.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre Deus e a Derrota

Vivemos dias preocupantes. Essa afirmação pode vir acompanhada de "o ser humano está destruindo o meio ambiente", "há  falta de amor no mundo" e, a frase preferida dos evangélicos, "estão tentando destruir a família". Contudo, os dias atuais são preocupantes por um outro motivo que aqui tento mostrar. Trata-se do fato de vivermos em um mundo de vencedores. Há um fortíssimo apelo para que a geração atual seja vencedora. Milhares e milhares de livros e palestras são oferecidos com o intuito de ensinar como ser um vencedor. A derrota não é admitida. Há de se lançar luzes sobre a compreensão desses "caminhos" e se apontar a presença da derrota na vida de Deus e dos homens. É importante observar, antes de mais nada, a etimologia do termo "derrota". A palavra "rota" tem, originalmente, o sentido de ruptura. Está ligada ao sentido militar, onde o inimigo obriga o exército à ruptura, à quebra da formação e, assim, obriga o mesmo a seguir por outro caminho.

Já na abertura da Bíblia encontramos a história de Adão e Eva e a derrota de Deus. Como já exposto em outras postagens, Deus teve que expulsar o homem pois este venceu. Se tornará um ser igual e portanto, independente de Deus.

Na história que introduz Noé e a Arca, a de-rota invade o coração de Deus e ele se rende:

"Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração" - Gn 6.5-6

Já não era possível seguir o caminho planejado. Deus teve que mudar de caminho, mudar de rota. As circunstâncias lhe conferiram outra derrota.

Também não deu pra Deus se manter como rei do povo. A teocracia já  não representava um caminho seguro. Os filhos de Samuel não seguiam os caminhos honestos do pai (estranhamente Samuel hereditarizou o carisma, depositando nas mãos dos filhos a responsabilidade que somente aos "erquidos por Jave" era confiada). O povo, entendendo que os tempos eram outros e observando a "ultrapassada" forma de governo, rejeita a teocracia e opta pela  monarquia. Jave foi tirado, mais uma vez, da rota. Samuel se sente rejeitado. Jave confessa que a rejeição é  dele  (de Jave) e acolhe sua derrota:

"Disse o Senhor a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não é a ti que têm rejeitado, porém a mim, para que eu não reine sobre eles" - 1 Samuel 8.7

O que dizer da grande derrocada de Jesus? Na cruz reclamara de abandono; lamentou em forma de perdão o sofrimento vivido como um equívoco da ignorância dos condenadores, assumindo, assim, sua de-rota. Sua incapacidade de se manter no caminho, de realizar o que julgava ser a vontade daquele que o abandonou; e em João é confessada a expulsam da sinagoga - que os cristãos viveram - como a rejeição do Filho de Deus:

"Veio para o que era seu, e os seus não o receberam" -  João 1.11

Muito se fala nos ambientes corporativos sobre "pensar grande" ou "pensar como um vencedor". O apelo  secular encontra seu eco nas confissões religiosas. Onde Deus é  visto como um Deus dos vencedores. Ouso dizer que não! Deus é o Deus dos escravizados; Deus dos órfãos e das viúvas; Deus dos empobrecidos; Deus dos mártires. Deus dos derrotados! Os vencedores legitimam seu poder sobre os vencidos, lhes tiram a voz e publicam sua versão da história. Negando aos de-rota-dos o direito de se pronunciarem sobre o caminho, sobre a história.

No uso de textos que afirmam frases como "somos mais que vencedores" se encontra não  a vitória coletiva da comum-unidade, mas da vitória individual. E a pluralidade da confissão dá  lugar a vencedores individuais, ou à busca por vitória sobre os outros, vitória sobre o semelhante.

Lembro-me do saudoso Rubem Alves que, em uma palestra que assisti, disse que lhe perguntaram sobre como chegar onde ele chegou. Queriam saber, nas palavras do Rubem, "o caminho das pedras para o sucesso". Rubem disse: cheguei onde cheguei porque tudo que planejei deu errado.

Há quem "vença NA vida" pelo caminho da vitória individual e faz dos vencidos o seu troféu. Mas há  Rubens Alves, que "vencem A vida", pelo caminho da mudança. Pelo caminho  da de-rota. E é nesta experiência de mudança forçada pelas consequências da vida ou pela opressão dos vencedores que o Deus derrotado se revela.

O desejo insaciável por vitória, por ser vencedor, também gera frustração. No lugar de gerar pessoas saudavelmente ambiciosas, em seu lugar, cria pessoas que não assumem sua de-rota e insistem em seguir o mesmo caminho. Temem o rótulo de de-rota-dos. Seguem firmemente para a morte. O orgulho, alimentado pelo desejo do maior lugar do pódio, destroem suas forças. Não são heróis de guerra. São marionetes na mão de um sistema que busca, tão somente, ser alimentado, legitimado e sustentado.

A inadmissão da de-rota é incapaz de segurá-la. Inadmitir é apenas "bater pezinho". É infantilizar-se. Frustrações, decepções e, por assim dizer, derrotas, fazem parte da vida e, tal como a morte, não podem ser observadas como acidente ou como problemas. A evolução humana, aquilo que como sociedade se construiu de bom, é fruto mais de derrotas do que de vitórias. É fruto mais de mudanças advindas da dor, do que mudanças originadas das vitórias. Os vitoriosos nada sabem. Os que, por outro lado, experimentaram as dores da vida e as receberam como parte de sua existência e aceitaram sua de-rota, como parte do caminho a ser construído, conheceram a verdadeira humanidade. Caio Fábio, que não representa muito do que penso, cunhou uma frase interessante "melhor sabe da graça, quem sabe da queda". Melhor conhece a vida quem a abraçou com todas as suas contradições.

Na de-rota não há  fim de caminhada ou fim de caminho. Há  mudanças! O caminho não acaba. Ele está sendo re - feito a todo instante. Como diz o poeta "é  caminhando que se faz o caminho". Não há  caminho das pedras pois ninguém trilhou o caminho. Ele ainda está sendo construído. Não há  preparação ou segredo de  sucessos.  Há  a vida que, por forças aleatórias, nos força  a de-rota ou, por forças opressores, nos força à mudança. Mas de-rota é apenas troca de terreno. No fim, o caminho continua com a caminhada. Bem disse o Qoelet:

"Observei ainda e vi que debaixo do sol não é dos ligeiros a corrida, nem dos fortes a vitória, nem tampouco dos sábios o pão, nem ainda dos prudentes a riqueza, nem dos entendidos o favor; mas que tudo depende do tempo e do ACASO" - Ec 9.11

Longe de nós o desejo por sermos vencedores, individualmente. O que importa é estar ao lado dos derrotados. É  na cadeira da derrota que Jesus está sentado. É tomando como sua a derrotacada de cada ser humano que ele se torna o Deus da vencidos. E na unidade dos vencidos que se conhece a vitória coletiva.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre o Tempo

Há no ser humano  uma disposição à  transcendentalidade. Não  nos relacionamos com o ambiente, ou com as situações de forma passiva: criamos barcos e aviões; enviamos robôs à  Marte; enfim, estamos sempre indo para além do conhecido.

Mais do que nos conformarmos  (embora também ocorra), nós  transformamos. Cada vez mais criamos artifícios para vencer a distância. Como não podemos, literalmente, encurtar o espaço, fazemos uso do tempo. O menor tempo é  visto  como demorado: aviões e barcos mais rápidos; leis para demora tolerável em filas; Internet, redes internas e portas usb mais  rápidas; carros  que respondam em menos tempo; tudo isso para que nos sintamos encurtando o espaço e conquistando o mundo. São  km/h e m/s. De forma que o tempo transforme km em m e até  cm. Enfim, tudo relacionado entre tempo e espaço.

Mas não  apenas  as explorações das invenções procuram vencer o espaço por meio do tempo, também vencemos o espaço propriamente dito: Desviamos rios, criamos aterros e erguemos edifícios. O próprio espaço é  visto como um desafio que se pode vencer. Mas, no fundo, nisso tudo, há  sempre o risco  de uma torre de babel.

Todo o tempo que gastamos para vencer o espaço, não  gastou um nanosegundo do tempo universal. E este  é  quem sempre vence. É  ele quem determina  que não podemos mais conquistar  nada. Nosso lugar é  oferecido a outros. Morremos...

Nossa temporalidade é  vencida. O tempo e o espaço permanecem. O tempo determina nossa brevidade. Impõe até quando podemos desfrutar o espaço. Até as coisas do espaço  determinam nossa temporalidade.  Nossas próprias invenções, que vencem o espaço, eliminam nosso tempo. Como um desastre de avião ou o naufrágio de um navio.

Nessa limitação temporal, nosso constante  desejo de explorar mais o espaço faz com que não admitamos o fim da vida. Planejamos o futuro contando sempre com a presença  do  nosso presente. Mas nem sempre esse presente se concretiza. E quando não  ocorre, o futuro já não  será  o planejado e, contudo, ele mesmo nunca sofreu alteração, pois não existia. Senão  na nossa mente, que já se foi.

Precisamos de algo ou alguém  que nos garanta uma vida atemporal, uma vida eterna, por assim  dizer. Daí  surge a religião. Uma invenção que nos fornece vitória definitiva sobre o tempo  (não - morte) e vitória concreta sobre o espaço  (segurança e deleite).

O fim da grande maioria das religiões  é  o pós - morte. A religião  vem justamente tentar atender definitivamente a essa necessidade de transcender. A essa necessidade  de conquistas sem fim. Há  quem  diga que  toda essa nossa transcendentalidade temporal seja uma sombra da nossa transcendentalidade atemporal  (corpo e espírito). O ser humano é  composto de tempo e eternidade, de espacial e supra espacial. Kierkegaard chamava de tensão  entre finito e infinito.

Até  que ponto  essa tensão está  no ser ou fora projetado por ele, a partir de uma consciência cultural, não  se pode garantir. Precisaríamos monitorar uma pessoa vivendo só e longe de qualquer influência social. A probabilidade, contudo, dela, a seu jeito, deificar o sol, a lua, o trovão  e etc, como o homem antigo fez, é  bem real.

Em nossa  origem mais antiga deificamos o tempo e o espaço. Ao coisifica-los, nos secularizamos. Contudo, é  bem nítido que as conquistas espaciais não nos são suficientes. Vamos ao espaço sideral para buscar uma resposta sobre nossa existência. Morremos sem encontrar respostas, na esperança de que um dia alguém as encontre. Porém, o tempo que  resolvemos quantificar; que transformamos em números; que nunca conseguimos vencer; que jamais será  coisificado; que somente chamamos de hora, minutos e segundos para que não nos percamos nele e, assim, consigamos fingir  que lhe possuímos; que está a serviço da eternidade; este tempo nos alerta que o futuro e a infinitude da morte devem ser respeitados.

Ainda que algo esteja do outro lado, ou que este outro lado realmente exista, aqui, neste espaço e neste tempo se concretiza nosso ciclo vital. O único que estamos seguros de ter. E o tempo nos convida a olhar a vida e percebermos,  nessa transcendentalidade humana, um apelo por relacionar-se.

Criamos e encontramos deuses. Fazemos imagens de nós  mesmos e lhes conferimos dons, aptidões e níveis de virtudes que estão vivas nas utopias de nossos corações. E lhes chamamos "Meu Deus".

Que exista um Deus independente das imagens deturpadas que se faz dele, não me permito negar e jamais ousarei duvidar. Mas se desejo encontra-lo será  nesse tempo que, segundo Toquinho é o futuro "uma astronave que tentamos pilotar. Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar". É  nessas possibilidades do riso e do choro; da dor e do consolo; da vida e da morte; todas realizadas neste espaço e em alguns tempos, que encontramos esse  Deus, esse Tempo.

Na ânsia  por conquista, esse Deus-Tempo, que confissões Biblicas chamam de "Princípio e Fim", que Guita chama de "O Início, o Fim  e o Meio de todas as coisas", acaba por ser ignorado. Mas um dia ele se apresenta. E, como diz o texto bíblico (sobre aquele que julgava ter conquistado todo o espaço necessário e que agora achava que podia ter tempo para desfrutar de sua conquista), nos diz: louco, hoje pedirão  tua alma.

Perdemos nossa temporalidade  em conquistas  que nos impedem de desfrutar o Tempo.  Gastamos nossa finitude sem desfrutar de nossa infinitude.

Nada contra conquistas. O espaço  nos foi dado, segundo  a tradição  bíblica, para ser, por nós, governado. Mas as conquistas de nossa infinitude (espiritualidade ou transcendentalidade, como quiserem) residem na autoconsciência e no momento de parar para ouvir  o Tempo. Nos alertando que o tempo passa... ou, como diz Cazuza, que ele não  pára. Ouçamos  esse Tempo que os filósofos dizem estar em nós e que a religião chama de Deus em nós. Dando o nome que for, ouçamos  e, no lugar de vivermos pra conquistar, vivamos por viver. Porque assim, na verdade, que o é. Esse é  o presente (tempo e dádiva) que o Tempo  nos deu, por pouco  tempo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A religião criativa

A humanidade convive com o conceito de espiritualidade já desde os tempos mais remotos. Por diversas formas esse conceito foi trabalhado e sistematizado. Daí surgiram os diversos deuses e as diversas facetas dessa espiritualidade, que aprendemos a chamar de religião. A religião é, assim, fruto da criatividade e da capacidade inventiva do ser humano. Seus dogmas, suas orientações, seus símbolos, ritos e mitos derivam da imaginação humana e servem à vontade humana.

Verdade que os chamados "misticismos" geraram, no lugar de serviço à criatividade, um des-serviço e, ao mesmo tempo, uma contribuição à opressão e idiotização. Por meio das mágicas e em nome dos diversos deuses, grandes impérios realizavam (e realizam) seu domínio sobre outros povos. Para vencer isso, ou, no mínimo, se opôr essas realidades dominadoras, os escritores dos textos bíblicos fizeram uso de sua criatividade e imaginação reinventando sua crença e transformando o que era mágico-dominador em mentira-inimiga, em propaganda a ser  vencida.

Um bom exemplo disso se encontra no Salmo 82:

"Elohim (Deus) está na assembléia de El (divina); julga no meio dos  elohim (deuses):

-Até quando julgareis injustamente, e tereis respeito às pessoas dos ímpios? Fazei justiça ao pobre e ao órfão; procedei retamente com o aflito e o desamparado. Livrai o pobre e o necessitado, livrai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, nem entendem; andam vagueando às escuras; abalam-se todos os fundamentos da terra.

Eu disse: Vós sois Elohim ben Elyown (deuses, filhos do Altíssimo), todos vós. Todavia, como homens, haveis de morrer e, como qualquer dos príncipes, haveis de cair.

Levanta-te, ó Deus, julga a terra; pois a ti pertencem todas as nações".

Elohim é  o plural de "Eloha" (Deus). Embora  haja confusão com a presença do termo, que em alguns momentos se traduz "Deus" e em outros  "Deuses",  a compreensão  é  fácil:

O hebraico  possui o que chamamos de "plural de majestade". Refere-se ao uso no singular  mas com conotação de engrandecimento. Logo, quando o termo "Elohim" vem acompanhado de um verbo no singular  ("está na assembléia" e "julga") quer se dizer que estamos diante  de um Deus dos Deuses. Quando se usa o termo acompanhado de nada (observando  o contexto) ou de um verbo plural, estamos diante  dos "Deuses". É  um jogo de palavras  (o Elohim em oposição aos elohim) que o autor faz.

Neste caso, o Deus do salmista está  presidindo uma reunião  entre os demais deuses. Aqui mora  a raiz da crítica  real ao que Israel  chamou de idolatria. Não  se trata de outros nomes  ou existência  ou não  de outras divindades. Mas que estas divindades eram usadas como justificativa  e legitimidade para: julgamentos injustos; prosperidade  do opressor. Os justos e os desamparados (órfãos  e viúvas) eram explorados e sua  exploração  justificada pela religião. Como  o cristianismo  fez em  um passado  não  muito  distante. Quando  justificou a escravização  dos negros através  da maldição  de Cão, filho  de Noé.

Os deuses não  eram  rejeitados por conta de pura disputa religiosa. Mas porque suas religiões  estavam a serviço  da opressão  e da exploração. Este salmo é  fruto de mãos  oprimidas que buscam incentivar aos seus destinatários a não  temer as ameaças de maldições  e nem se dobrar a lógicas religiosas, discursos profeticos e sacerdotais, que justificavam as situações  de miséria  e exploração.

Uma prova da ausência  de implicância  por implicância  está  no Deus Altíssimo. Que no texto coloquei  a tradução do  hebraico "Elyown". Tratava-se do pai de todos  esses deuses que estão  na assembléia. Era pai de Baal, por exemplo, segundo  o panteão cananeu. El Elyown , em Gênesis, no relato do sacerdote  Melquisedeque e Abraão, é  facilmente venerado  pelo patriarca  bíblico. Reconhecido  como uma imagem ou o próprio Jave.

O chamado Deus Altíssimo era conhecido como um pai bondoso. Aqui, no salmo, seus filhos que estão a serviço da maldade, são  mortos e o Deus dos Deuses se torna o único  Deus  existente. Assim, o monoteísmo se torna uma forma de resistência às dominações  culturais, religiosas, políticas e econômicas.

Um exemplo da religião em seu uso libertador. Nenhum leitor  era convidado a crer  que tal assembléia  de fato existiu. Mas era, pelo mito, convencido de que as lutas no "mundo dos deuses" já  estavam vencidas. Nada os impedia de lutar por si só. Nada mais  justificava  a dominação.

Fato que durante  séculos esse mesmo monoteísmo serviu de justificativa  para  a opressão e demonização  de todas as demais  religiões, desde então, perseguidas pelo cristianismo. Assim se pode perceber  que a capacidade  criativa  está  presente  tanto na luta contra, quanto  na propagação da dominação imperial.

Contudo, como exemplo, vale a afirmação de que a imaginação e a criatividade humanas conseguem estar sempre de  pé, por meio do discurso  religioso que visa estabelecer  a justiça. Como diz outro salmista: justiça e juízo são a base  do trono  de Deus. O ser humano se apega à  imagem  de um Deus que está a favor  e jamais  contra  o bem. Que a religião  possa onerar mais do que beneficiar à  vida, não  há  dúvida. Mas os antigos  judeus  já  diziam:

Antes sacrificar ao mandamento pelo bem do homem, do que sacrificar ao homem pelo bem do mandamento.

Expressão essa bem entendida por Jesus ao dizer  que o sábado  foi feito para o homem  e não  o homem  para o sábado. A religião, como fruto da imaginaçã libertadora  do homem, deve estar a serviço  da criação. Com a finalidade de contribuir  para sua evolução. No caso  do homem, como bem diz o Dalai Lama: tornar o ser humano  melhor.

A espiritualidade tem, assim, sua meta: demonstrar a capacidade de transcender realidades e de ligar  o ser humano a utopias libertadoras. Que a fé ousa chamar  de "boa, agradável e perfeita vontade de Deus".

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Emanuel...

A Bíblia deve ser lida não como um livro constituído para assim ser. Um livro possui um sentido próprio e um raciocínio que segue em busca desse sentido. Dividido em começo, meio e fim, cada etapa consiste em uma revelação do interesse do autor.

Com a Bíblia não se dá desta forma. Como uma verdadeira biblioteca,  cada livro possui seu objetivo,  seu sentido e seu raciocínio.  Fora escritos que constituem uma só obra dividida em X livros,  não há diálogo original entre os mesmos.

Há possibilidade de se falar em dependência ou reinterpretação.  Onde um livro faz uso de outro(s) e cria sua própria mensagem,  derivada de outra(s). Contudo,  ainda assim,  são livros e não uma obra uníssona. Mesmo dentro de um grande livro,  se pode notar a presença de divisões independentes que,  por alguma unidade Teológica ou fonte autoral, são combinados e formam a grande obra.

Dentro desta perspectiva,  contribui muito encarar os textos, ainda os dependentes em composição,  como unidades que possuem sentidos em si mesmos. A exemplo: o autor de Marcos não conheceu o texto de Lucas. Logo, Marcos,  em sua mensagem e história,  é independente de Lucas. Conclui-se que os destinatários de Marcos não precisaram de Lucas para entender o evangelho marcano.

O leitor de Mateus  não pode ter Lucas em mente e nem os textos de Marcos a partir do versículo 9 do capítulo 16. Esqueçamos os outros! Mateus é nosso único evangelho, no momento.

Com essa grande introdução,  me permito olhar Mateus.  Que embora pudesse conhecer histórias sobre a ascensão de Jesus,  as ignora em seu livro. A bem da verdade que o distanciamento que a "espera" de Jesus trouxe, acabou por fazer esmorecer os que confiavam que eventos como a grande tribulação dos anos 70 dC trariam Jesus dos céus.

Portanto,  na abertura do seu evangelho, Mateus já apresenta Jesus como filho dos homens (Davi e Abraão) e filho de Deus.  Nele está presente tanto o céu como a terra. Nele há unidade entre Deus e os homens.  Por isso culmina com um nome bem revelador: Emanuel. Que ele mesmo se preocupa em traduzir: Deus conosco.

Todo o seu evangelho não vai apontar para o "abandono" de Marcos.  Que com toda ousadia desafiou os cristãos a crerem em tempos de perseguição.  Demonstrando que a dúvida e o medo faziam parte.  Também assolaram os primeiros discípulos e discípulas.

Mateus vai por outro caminho.  Pelo caminho da presença.  Começa com o anúncio de um Deus Conosco.  Demonstra a presença desse Deus em diversos momentos da vida humana. Mas não é o "Deus conosco" apenas como consolo, conforto e ânimo.  Sem dúvida o é.  Mas há,  também,  a presença do "Deus conosco" por meio do sofrimento.  Identifica-se com a dor ao ponto de, com seus "pequeninos irmãos, sofrer a tristeza de ser rejeitado,  desprezado e negada assistência:

"Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes" - Mt 25,42-43.

O "Deus conosco" está presente no outro. Não é apenas o que nos ajuda, mas o que, na dor do outro, carece de nossa ajuda. A presença desse Deus é sentida onde existe miséria.  Onde os homens julgam que Deus não está.

Com a sua morte e sua posterior ressurreição,  a Presença não se torna ausência.  Não há, em Mateus, espaço para a crença em uma ascensão aos céus.  Não é lá que encontramos Jesus. Um "Deus conosco" não pode estar tão longe. Assim disse ele às discípulas que vão ao túmulo e o encontram vivo:

"Então lhes disse Jesus: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galiléia; ali me verão"- Mt 28,10

O encontrarão não em Jerusalém, na cidade santa que o matou. Mas na chamada Galiléia dos gentios. Onde tudo começou.  Encontrarão Jesus lá.  Não no  céu,  não à destra de Deus, mas como a destra de Deus no mundo.

E numa conclusão que faz perfeita ponte com seu início,  Mateus termina seu evangelho da presença de Deus ao nosso lado. Começou dizendo que a criança se chamaria Deus conosco;  mostrou sua presença poderosa,  acalentadora e interpeladora; e conclui com esse Emanuel dizendo:

"e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" - Mt 28,20b

Não!  Não devemos, segundo Mateus, olhar o céu.  Jamais imaginar que existe algo a esperar. Mateus nega que a espera passiva faça parte do legado de Cristo.  Ele ainda está conosco e continuará. Não foi para um céu - de onde veio - continua aqui, perto,  no chão, no mundo, Deus está em sua Terra.   Se o querem achar, que não seja no templo, na cidade ou lugar santo. Mas na constante exigência de justiça; na denúncia corajosa; na utopia de todos os corações.

E também na dor; na ferida aberta; na fome; no exílio;  na nudez vergonhosa; na prisão e na doença. Onde ninguém vê Deus, é onde ele também está.  Exigindo de nós assistência, salvação.

Eis que o Deus conosco está conosco até a consumação dos séculos.  Como consolo e como exigência.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Os Encontros com o Ressuscitado

As tradições sobre a aparição do Jesus ressuscitado,  canonicamente,  possuem dois relatos básicos: o de Paulo e o de Mateus.

Embora Marcos tenha sido o primeiro a evangelho a ser escrito (70 D.C.), seu relato da aparição do ressuscitado é um acréscimo posterior ao evangelho de João (100 D.C.). Originalmente seu texto termina no versículo 8 do capítulo 16. Este assunto já foi abordado em outro texto do blog. Contudo,  na ocasião as aparições não foram devidamente exploradas, pois o foco era a obra marcana. Aqui veremos as duas narrativas das aparições.  As, digamos, narrativas bases que possuímos. Primeiro a mais antiga:

"Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos;" - 1 Co 15. 3-7

Paulo afirma ter recebido esta tradição.  Ele está escrevendo antes da década de 60 D.C. e após 50 D.C. Relativamente próximo do evento da crucificação.  Entretanto,  fica difícil encontrar canonicamente quem entre em acordo com ele. Há considerável consenso na pesquisa bíblica de que o esquema abaixo foi realizado:
  1. Marcos escreve em 70 d.C. a partir de fontes externas e criação sua;
  2. Mateus escreve pouco depois de 80 d.C., a partir de Marcos, outras fontes e criação sua;
  3. Lucas escreve mais ou menos em 95 d.C., a partir de Marcos,  Mateus, outras fontes e criação sua;
  4. João escreve em 100 d.C., a partir dos outros evangelistas, outras fontes e GRANDE composição sua;
  5. Depois de tudo isso, alguns cristãos pegaram os relatos das aparições de Jesus ressuscitado de Mateus, Lucas e João e, a partir deles, compuseram aquilo que passou a ser acréscimo nos textos de Marcos (do versículo 9 do último capítulo ao fim do evangelho).
Como ficou o esquema final a partir de Mateus?

Mateus:
  1. Jesus aparece às Mulheres que, diferente do que Marcos diz, depois de serem avisadas da ressurreição,  alegres e correm para anunciar aos discípulos.
  2. Jesus aparece aos ONZE apóstolos - pois Judas havia se enforcado - alguns acreditam e outros não.
Lucas:
  1. As mulheres não encontram a Jesus, mas, avisadas pelos anjos,  correm a anunciar aos ONZE e a todos os outros que Jesus ressuscitou;
  2. Jesus aparece a dois discípulos a caminho de Emaús (possivelmente Cleopas e sua esposa) que ao retornarem, ficam sabendo que Jesus já apareceu a Simão (Pedro);
  3. Jesus aparece a todos os reunidos.
João
  1. Jesus aparece a Maria Madalena;
  2. Aparece aos discípulos. Dos doze, falta Tomé. 
  3. Aparece a todos incluindo Tomé. 
  4. Aparece a sete discípulos que já o tinham visto antes.
O único em quem não se pode garantir a discordância em 100%, de Paulo, é Lucas:

Os discípulos a caminho de Emaús, no retorno à Jerusalém, ouvem dos discípulos:

"Os quais diziam: Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão" - Lucas 24:34

Nisto ele concorda que Pedro foi o primeiro a ver Jesus? Possivelmente sim, entretanto, Jesus pode ter aparecido para esses dois e, somente depois, a Pedro. Fica então a possibilidade;

Da mesma forma, quando ele concorda com Mateus da presença dos onze, há espaço para uma concordância paulina. Mateus afirma que são onze por conta do enforcamento de Judas Iscariotes. Lucas não explica o motivo, mas na continuidade de sua obra - o livro de Atos - ele explica que a morte (?) de Judas é o motivo. Concordando, em princípio, com Mateus. Mas, na expressão do evangelho lucano "os que estavam com eles" (Lucas 24:33), Lucas bem pode já perceber a presença de Matias, que futuramente passaria a compor o novo grupo dos doze. Assim, haveria, também, concordância com Paulo de que Jesus apareceu aos "doze".

O mesmo grupo (os que estavam com eles), pode conter "todos os apóstolos" e os "quinhentos irmãos", narrados por Paulo; Há, ainda, a possível informação de que Tiago estava com os discípulos após a despedida de Jesus:

"Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria mãe de Jesus, e com seus irmãos" - Atos 1:14

Nisto, pode concordar que Tiago, antes de Paulo, foi o último a ver o Senhor. O número, contudo, de "quinhentos" não condiz com a quantidade que Lucas aponta em Atos, onde conta que eram cento e vinte pessoas, QUASE. Obviamente que o texto Bíblico ao tratar de números pensa mais em qualidade do que quantidade. O símbolo do número diz mais do que seu valor absoluto;

Lucas, então, parece ser o que mais se aproxima da história de Paulo, o que já era esperado, já que é um paulino confesso, em Atos.

João parece seguir a mesma linha de Lucas, entendendo que doze viram Jesus. Para ele, contudo, a ausência não é de Judas, mas sim do incrédulo Tomé. João parece concordar que Jesus apareceu aos doze. Mas discorda que a preferência esteja sobre Pedro. O primeiro a "ver", foi o discípulo amado. O último a ter sua verdadeira revelação, foi Pedro, enquanto estava com outros seis discípulos, no diálogo do "tu me amas". Acrescentado à narrativa (?).

Mesmo dependentes de Mateus, há sensíveis discordâncias. O esquema principal da tradição a partir de Marcos, contudo, é mantida:
  1. Jesus é sepultado por conta de um pedido influente;
  2. Mulheres vão ao túmulo de manhã;
  3. Um(ns) mensageiro(s) transcendental(is) informa(m) que ele ressuscitou;
O eixo da narração aponta para uma possível tradição, escondida no relato de Marcos? Ao que parece, a preocupação de se manter, consideravelmente, os 3 pontos em comum, faz com que se possa acreditar não na criação de Marcos sobre os pontos, mas de sua composição a partir dos pontos. Feito que Mateus, Lucas e João repetem. Bem poderíamos reconstruir o mesmo eixo fazendo com que a história que Paulo recebeu esteja em pleno acordo, a partir do evangelho de Marcos.

Como perceber que Paulo está citando algo de sua cabeça ou que de fato tenha recebido? A fórmula introdutória de Paulo dá a entender que ele transmite algo. É repetidor fiel de uma tradição e não seu criador. Usa a mesma expressão para a eucaristia:

"Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído(...)" - 1 Coríntios 11:23-25

Sendo escrito bem antes do evangelho de Marcos (o primeiro e que nem conta a histórias das aparições), pode se compreender a tradição de Paulo como, sim, a mais antiga e conhecida. Me distancio de alguns exegetas que veem o túmulo vazio como criação de Marcos. Paulo já cita um "sepultamento" e os evangelhos canônicos e apócrifos (que relatam a ressurreição) mantém o mesmo eixo narrativo. Mas há composição de Marcos na presença ou nas reações das mulheres. Pois "cai como uma luva" em seu objetivo. 

Enfim, o que se pode concluir, com segurança, é a liberdade de composição. A liberdade que os autores têm de - fiéis a um mesmo eixo - elaborar uma mensagem que sirva para seu objetivo. Sendo assim, o texto bíblico ganha seu sentido de "parábola da vida". Muito mais do que biografia histórica, trata da biografia de todos os seres. O sentido da vida é seu objetivo, mais do que os fatos. Com a liberdade dos autores de filmes, seguem a linha do "baseado em fatos reais". Cuja realidade dos fatos está confirmada na fé e a "liberdade poética", nos objetivos de renovar a fé, manter a esperança e fortalecer os corações dos que aceitaram o desafio de, em sua história, viver a utopia concretizável do filho de Deus.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A distância entre Jesus e Cristo...

Muito se discute ainda sobre o Jesus Cristo. Obras importantes sobre o tema levantaram uma divisão acadêmica do personagem. Uma é chamada de "Jesus Histórico". Esta seria a visão das ciências históricas sobre Jesus de Nazaré. Procura elucidar as questões sobre onde nasceu; que influências políticas, sociais e econômicas vivenciou ou testemunhou; o que realmente saiu de seus lábios e o que se trata de uma construção posterior; quem de fato é a pessoa Jesus sem o "pacote" de influências religiosa. A outra divisão trata-se do "Cristo da fé"; Este, sim, é o Jesus dos evangelhos, de Atos dos Apóstolos, das cartas canônicas e do Apocalipse; Sobre este se discute como as comunidades de fé, original e posterior, interpretaram o "Mistério Cristo".

Albert Schweitzer foi o grande pioneiro sobre o tema. Chegando a conclusão de o Cristo da fé, de fato, é o único que temos e o que realmente basta. E aponta o Jesus de Nazaré como um "estranho para nós". Não saberemos dele e devemos desistir de procurá-lo. Causando divergências e, no entanto, criando - ainda que sem saber - uma escola: A Pesquisa do Jesus Histórico. Schweitzer se transformou no pontapé inicial das pesquisas atuais.

Muitas outras obras nasceram e, contudo, Jesus continua sendo um estranho para nós. Podemos olhar com saudade daquilo que nunca conhecemos e jamais conheceremos. O Jesus que dormiu, acordou, sentiu fome, ficou cansado, com medo, animou aos outros, ensinou e tudo o mais que acreditamos que tenha feito, simplesmente, se perdeu na "areia do tempo". Foi-se! Tal qual não tenho noção nem do nome dos meus antepassados que aqui viviam (índios), nem dos que para cá vieram (europeus) e nem dos que para cá foram trazidos (negros), não saberemos nada sobre esse Jesus.

Mas há que se perguntar sobre o Cristo da fé. Este, contudo, sempre o temos presente. É o Jesus que nunca se foi (estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos Mateus 28:20); é o Jesus que não ficou na cruz e a quem todas as coisas foram subordinadas, nas palavras de Paulo.

Obviamente que o Jesus da fé, é, certamente, o "Jesus das fés". De forma que, cada vez mais, a separação entre o homem histórico e o homem transcendental, aumenta. A ausência das informações reais do Jesus que existiu não podem justificar o abandono de sua existência. Com isto, quero dizer que o Cristo dos evangelhos está sim divinizado (em algum momento), mas, quer pelos olhos da fé, iluminados pela crença na Ressurreição, ou não, está, também, plenamente humanizado. E, talvez, daí tenha nascido sua divinização: da sua humanidade.

É nas palavras do mito da encarnação que encontramos o termo "sarx" ou ainda , na canção cristológica, "kenosis" - para Paulo. Expressões que procuram, a seu modo, informar que o Jesus transcendental foi, também, imanente. Era um homem! Feito de carne! Um homem como qualquer outro. Sua origem está para além do tempo, mas assumiu plenamente a temporalidade dos homens e se tornou igual a todos. É a primeira carta de João que une a realidade histórica com a força da fé:

"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada); O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. 1 João 1:1-3"

O Cristo da fé, em algum momento, foi o Jesus desconhecido. O homem "estranho", nos termos de Schweitzer. A fé que anula a humanidade de Jesus e o impede de sentir tudo o que sentimos, em nome do Cristo da fé, faz a própria crença do Cristianismo entrar em colapso e, talvez, em uma crise terminal.

A partir dos estudos de Junger Moltmann, o Teólogo - e meu professor - Edson Fernando de Almeida, chega à conclusão de que a força do credo de Niceno-Constantinopolitano não está em confirmar que Jesus é Deus, simplesmente. Mas em afirmar com todas as palavras que Deus foi atingindo pelo mal. Que Deus, de alguma forma, morreu. Que Deus e a humanidade estão inteiramente ligados no mistério da encarnação.

Não, não se pretende afirmar a historicidade da encarnação. O assunto do Jesus Histórico, concordo com Schweitzer, é fato "terminado". Não o podemos achar. É no discurso da mitologia, da fantasia originada da fé, da certeza transcendental, inexplicável e que dá sentido à vida, que uso o termo encarnação e historicidade do homem que foi visto como "o resplendor da sua (de Deus) glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas. Hebreus 1:3"

Nesta ideia, a fé Cristã precisa "abraçar" sua confiança e sua crença. Se ela afirma categoricamente a divindade do homem Jesus e a humanidade do Cristo, precisa dar a este Deus todas as experiências que o torna homem. Inclusive sua fragilidade que o difere de Deus, sua limitação que o separa da Divindade. Seu ser precisa ser tomado de toda a humanidade real, para que haja a divindade Misteriosa. É na humanidade do Jesus que conheceram, que os discípulos ousaram chamá-lo de "Cristo, o Filho do Deus vivo".

Seguir o Cristo da fé, hoje, se tornou uma missão impossível ao cristão. Melhor que lhe seja oferecido outro caminho. E que trilhe outras "revelações". Jesus Cristo, a cada canção que escuta e a cada ensino que se presencia, tem se tornado muito distante do homem que, embora desconhecido, um dia existiu em nosso solo.

Desafios sem sentido de força espiritual inabalável; fé exemplar; comportamento moralmente perfeito; preconceitos transformados em fidelidade; vinganças legitimadas por estar no "time de Deus"; filiação divina com consequências de acepção de pessoas; superioridade da religião cristã sobre as demais confissões religiosas; demonização do mundo. Tudo isso pautado na fé de que existe um Jesus que a isto tudo aprova.

Entretanto, os próprios evangelhos apontam que o "Jesus teológica e historicamente interpretado" foi alvo de preconceito, perseguição, desacreditado, abandonado, desprezado, humilhado e sumariamente torturado e executado. Este que se mostra como vítima similar a todos nós, se tornou Senhor que justifica as atitudes que ele mesmo sofreu.

Vejo isto como consequência do abandono da historicidade de Jesus. Não do Jesus histórico. Este nunca abandonamos, pois nunca tivemos. Mas do Cristo da fé, que nasce a partir da crença de que um homem, um dia, em algum lugar da Galileia, ensinou valores que inspiraram tantos outros. Estes, a partir da experiência com este homem, forjaram um grupo que acreditava na fraternidade humana. Aí sim que mora todo o problema. Na dificuldade de perceber que n'Ele, todos somos irmãos.

Temo que as palavras de Schweitzer sobre a estranheza do Jesus histórico, tenham se tornado real também para o Cristo da fé. Este que vejo nas atitudes cristãs, nas canções das igrejas, nos ensinos dos programas de TV e em muitos sermões de rua, trens e igrejas, para mim, é um verdadeiro estranho. Nunca conheci... E nem tenho interesse em conhecer.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O nascimento (virginal? ) de Jesus

Como o nascimento de Jesus deve ser compreendido hoje? Foi seu nascimento literalmente virginal? O que está por trás da crença do nascimento miraculoso?

Muito se discutiu isso no passado. Mas pouco se discute hoje nas comunidades de fé. Há, contudo, a necessidade de se averiguar essas questões. Mas antes de qualquer coisa, não se deve incorporar na narrativa uma história factual. As narrativas de Mateus se assemelham muito (e MUITO MESMO) com as lendas e com o retrato bíblico sobre como se deu o nascimento de Moisés e sua adoção pela filha de faraó. Fazer essa ponte "Moisés e Jesus" é importante para uma das intenções de Mateus.  Que é apresentar Jesus como o novo Moisés. Sem contar que as histórias de Mateus e de Lucas possuem grandes diferenças, destaco algumas principais:

Mateus: José é avisado em sonho sobre a gravidez de Maria.
Lucas: Maria é quem recebe o aviso - acordada - José é mero coadjuvante na versão Lucana.


Mateus: Jesus nasce na CASA da família
Lucas: Jesus nasce em uma estrebaria


Mateus: Magos vindo o oriente levam presentes ao menino.
Lucas: pastores recebem a revelação do anjo e vão ao encontro do menino nascido.


Mateus: Ocorre a matança dos inocentes
Lucas: não existe essa história


A partir destes fatos (lendas sobre como Moisés nasceu + registro bíblico do nascimento de Moisés + diferenças consideráveis entre Mateus e Lucas) devemos reconhecer que estamos diante de um relato teológico e não de um relato histórico. Diante de uma composição literária e não de um documentário biográfico. Diante de uma metáfora da vida e não de uma factualidade.

Com isto, entretanto, não se nega a historicidade de Jesus, ensinamentos e feitos. Uma coisa é o "Jesus histórico". O homem Jesus, membro da árvore genealógica humana. Outra é o Cristo da fé. Aquele de quem os textos falam e que possui sua história escrita a partir da fé de seus apóstolos.  Do primeiro quase nada sabemos. Do segundo, sabemos muito, ou aquilo que a comunidade antiga julgou ser importante falar. Trata-se do discurso da fé sobre o "mistério Jesus" e sobre a profunda crença de que nele habitava a plenitude de Deus. Sendo, ele mesmo, o próprio Deus encarnado. E, sobre Deus, só podemos falar a partir da fé, metáforas, poesias e teologias. Falar de Deus de forma histórica é fugir à certeza de que ele é e continuará sendo o grande Mistério.

Mas voltando ao que se que pretende,   Mateus é o único que coloca o nascimento virginal como cumprimento de uma profecia. Ele cita o texto de Isaías 7.14, que, segundo a versão brasileira Revista e Atualizada seria:

"Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel".

Contudo, em um post antigo tratei deste assunto, entre os exegetas é de comum acordo que a Bíblia dos escritores do Novo Testamento era a LXX. Esta é a tradução grega dos escritos antigos (Hebraico). No texto Hebraico a palavra usada por Isaías era עַלְמָה ('alma - literalmente "jovem mulher"). A expressão hebraica para virgem é בְּתוּלָה (bethulah). Logo, Isaías nunca falou "virgem conceberá", e sim "jovem conceberá". Ocorre que quando foram traduzir o texto de Isaías para o grego - em III a.C. - no lugar de colocarem "Jovem mulher", usaram a expressão "virgem" do grego (παρθένος - parthénos). A partir daí, o texto usado por Mateus estava com a tradução equivocada, o que gerou a idéia de cumprimento de profecia.

Entretanto, vale a pergunta se Mateus usou o texto antes da tradição do nascimento virginal, ou posterior a ela. Paulo, o primeiro escritor cristão, não faz menção a nenhum nascimento especial. Pelo contrário, apenas diz "nascido de mulher" (Gl 4:4). Onde usa o termo "gnaikós" - literalmente mulher.

Isto, contudo, não nega a existência da tradição do nascimento virginal. Porém, tal tradição não pode ser confirmada longe dos textos de Mateus. Acredito, porém, que Mateus não tenha inventado esta tradição, como também, penso que ele não quis dizer o que escreveu. Creio que exista mais coisas não ditas do que ditas e que, por trás do texto, há alguma mensagem mais forte.

Considerando que exista a tradição do nascimento virginal, mas que, em hipótese alguma haja seu respaldo nos textos mais antigos (Isaías), qual o seu objetivo? Seria uma das questões que proponho. Mas antes de responder - ou tentar - vamos continuar levantando mais questões.

Lucas utilizou o texto de Mateus para compôr seu evangelho. Logo, literariamente falando e, obviamente, limitado aos textos que conhecemos, Mateus foi o "criador" da tradição do nascimento virginal. Repito, literariamente falando e dentro dos textos que conhecemos. Portanto, pautarei esta investigação nele. Existem algumas respostas possíveis sobre o tema que, certamente, não terá nesta postagem o seu fim.

Um exemplo bem simples seria José ser biologicamente pai de Jesus. Há quem pense que não seria possível, pois Maria era noiva de José e, em uma sociedade conservadora, José não teria tida relações sexuais antes do casamento. Tal observação, entretanto, carece de verdade.

Segundo o costume antigo, Maria já era considerada esposa de José. Esse "noivado", não tem a conotação de hoje. Não é à toa que para ser desfeito, necessariamente Maria teria que ser repudiada (divórcio). Mesmo ela morando na casa dos pais - como se supõe. Não era incomum, por já ser esposa, ocorrer relações sexuais. Difícil responder se em uma comunidade pequena e conservadora como a de Nazaré isso seria um fato. Entretanto, é um argumento que não se pode mais sustentar com tanta firmeza.

Sendo assim, Maria poderia sim ter engravidado de José. O que mantém em pé a pergunta: por que o nascimento virginal? A tradução da LXX induziu Mateus, ou Mateus encontrou nela o respaldo para uma tradição já presente? Continuaremos seguindo a ideia de que Mateus, literariamente, criou a tradição.

Uma outra possibilidade, caso não tenha ocorrido relações sexuais, é a do estupro. Não se deve, porém, olhar tal pensamento de forma negativa. O Rabi Nilton Bonder conta que a raça judaica tinha como base a ascendência paterna.  Logo, para ser judeu, um bebê tinha que ter um pai judeu. Entretanto, os estupros executados por soldados romanos foram se tornando cada vez mais comuns e as crianças nascidas não eram consideradas judias. Eram filhas de soldados romanos. Sorte daquela que era adotada por algum pai judeu (o noivo ou esposo da estuprada,  por exemplo). Segundo a tradição judaica, se um homem afirmar "é meu filho", ninguém poderia contrariá-lo, ainda que biologicamente não o fosse. Entretanto, não era comum isso acontecer. Criar um filho de romano não era o sonho de nenhum judeu.

Para resolver o problema e a raça judaica não ser extinta, neste período e desde então, a descendência passou a ser matriarcal. Ou seja, para ser judeu é necessário nascer de um ventre judeu. Assim se preservou a raça judaica. Pois, mesmo diante dos estupros, os filhos de mulheres estupradas seriam considerados judeus.

Não se pode, contudo, retirar preconceitos a partir de leis. Isto quer dizer que algumas destas crianças, mesmo consideradas como parte do povo, ainda assim, não tinham um pai para adotá-las.

É possivelmente o caso de Barrabás. Segundo a crença, Deus seria considerado o pai destas crianças. Conforme alguns escritos de Mateus, o nome de Barrabás era Jesus (Yeshua). Seria "Yeshua Bar Aba" (Jesus Barrabás - Jesus filho do Pai, Jesus filho de um pai). Pois não foi encontrado alguém que o adotasse. Jesus, entretanto, foi adotado pelo esposo-noivo de sua mãe, José. E ninguém poderia contrariar, pois José afirmou ser ele seu filho.

O nascimento virginal pode, assim, ser considerado uma forma de "tirar" o sangue romano de Jesus? Considerando os destinatários do texto de Mateus, não duvido muito. Mas carece de confirmação. Pode ser, ainda, uma forma de mostrar a paternidade de Deus sobre todas as crianças nascidas como frutos de estupros. E legitimar sobre o "novo Moisés" esse dado que os judeus tiveram que incluir em sua cultura e religião.

A grandiosidade de reconhecer Jesus como filho biológico de José

O esvaziamento de Deus e seu nascimento como homem (confissão já presente  antes de Mateus, em Paulo) de forma natural, torna-o mais próximo de nós. Mais humano e, consequentemente, faz de todos os seus feitos e ditos não oriundos de alguém que, desde o nascimento, possuía uma "áurea" especial. Faz de Jesus uma pessoa que pode, com muita naturalidade, ser seguida e "imitada". A especialidade que torna impossível seu seguimento ou exalta sua santidade ao nível do inconcebível, tem que ser posta de lado. Pois estaríamos falando de um homem perfeitamente homem. E, como diz o Leonardo Boff, humano como ele, só Deus mesmo.
A grandiosidade de reconhecer Jesus como fruto de um estupro

Soma-se a tudo o que foi dito acima - pois é um nascimento biologicamente natural - a identificação com os sofrimentos humanos: o preconceito social, pois era filho de um romano, o que veladamente está entendido e discriminado pela sociedade; a humilhação que Maria sofre, sendo a perfeita ligação com a violência contra as mulheres. E mesmo a aula de humanidade e amor que José deu ao não repudiar Maria, antes amá-la  e adotar seu filho, fruto de uma gravidez indesejada. Jesus já nasce como vítima da violência humana e carente de um pai. Deus legitima os filhos estuprados como seus filhos de fato. Deus não planeja os estupros! Isto jamais!! Mas inclui em seus projetos os rejeitados e sofridos por causa da dominação patriarcal.

Uma forma não de legitimar a dominação machista, mas de manifestar seu afeto em aceitar os que sofreram com esta dominação. Eleva os humildes e humilhados ao grau de família santa e nasce nessa situação tão humilhante. E faz da estuprada e o justo José, seus pais, pais do filho de Deus.

O mundo antigo sabia ler e compreender estes textos. Afinal, tratava-se da forma deste mundo descrever e escrever. Era a compreensão antiga tão distante de nossa mentalidade lógica e fria. Vencer a tentação de ler textos bíblicos como se fossem escritos hoje, é o que a hermenêutica consciente busca. Seria esta, então, uma forma de atualizar e entender, em nosso mundo atual, este texto tão verdadeiro e tão comprometido com a fé libertadora? Acredito que seja uma possibilidade sim. E ficam a possibilidade e as perguntas não respondidas aqui. Pois há de dar pano para a manga.

terça-feira, 25 de março de 2014

Este Deus Fraco...

A imagem de um Deus Amoroso e Todo-Poderoso é assombrosa. Ela é tão complicada de se compreender que por volta dos anos 200 antes da nossa era, o Filósofo Epicuro já criara o dilema tão difícil de ser respondido:

"Ou Deus quer eliminar o mal do mundo mas não pode; ou pode, mas não quer eliminá-lo; ou não pode e nem quer; ou pode e quer. Se quer e não pode é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não quer e nem pode, não é o Deus bom, e ademais é impotente; se pode e quer - e isto é o mais seguro -, então de onde vem o mal real e por que ele não o elimina?"

Não apenas ele, mais de milênio depois, Dietrich Bonhoeffer nos revela que "só o Deus sofredor pode ajudar-nos". A ideia de um Deus que sofre, vai na contra-mão do pensamento de um Deus soberano que não pode ser afetado por nada. Se Deus sofre, se Deus pode ser afetado por algo que lhe causa dor, então, de fato, estamos falando de um Deus que não está acima de todas as coisas. No sentindo, óbvio, de existir alguma coisa capaz de lhe causar dor.

Também se torna bastante perturbadora a visão de um Deus que pode tudo, e que tudo que ocorre tem seu aval, ou sua permissão. Sendo assim, estamos falando, praticamente, de um Deus sádico. E aí caímos na "armadilha" de Epicuro. Pois, se Deus é bom e pode todas as coisas, então, porque permitir o mal? Muitas são as respostas e, sinceramente, nenhuma traz consigo um argumento que satisfaça a todas as exigências da lógica e do bom senso: o mal origina-se no diabo; o ser humano trouxe o mal ao mundo. Deus eliminará o mal no fim dos dias.

Nada, simplesmente nada disso responde a inquietante pergunta de Jesus na cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Grito este que ainda denuncia a dor, o desamparo e a solidão  em que vivem milhares de pessoas. Estas carregam o jugo da miséria, da opressão, da doença e da desilusão, aguardando o momento em que a morte eliminará seus sofrimentos. O grito de Jesus ecoa até hoje nos ouvidos de Deus, mas vindo de outros lábios sofredores. E, assim como Jesus, estas mesmas pessoas padecem sem resposta .

A religião não pode se manter alheia a tais sofrimentos e responsabilizar pecados ou maldições, a fim de des-concretizar os reais motivos das dores. Não pode alimentar esperanças que dificultam o amadurecimento psíquico e espiritual. E nem transformar a fé em fonte alimentadora da ilusão. A religião deve servir como fonte libertadora. Deve contribuir para que o ser humano descubra os reais motivos da miséria e do sofrimento e, guiados pela força do Deus que sabe o que é sofrer, lutar contra a legitimação das dores.

É aí que mora a verdadeira coragem do credo Cristão, ao afirmar a divindade de Jesus. Nesta coragem de confessar a divindade em um homem comum, que morre como bandido na cruz da vergonha, os judeus-cristãos testemunharam sua crença na fragilidade de Deus. Negaram a supremacia que distancia Deus dos homens e aproximaram-no de nós. Ele ficou tão perto, mas tão perto, que chegou a sofrer a dor do desamparo que somente os abandonados pelo "Deus-Poderoso-Sádico" conhecem.

O Deus que é "enxotado" do mundo, expulso da terra dos viventes e rejeitado pelos que lhe são caros, é o Deus que está tão próximo da dor que não consegue ser indiferente ao sofrimento alheio. Muito distante do Deus mágico, imponente e completamente intolerante com a natureza humana. Deus este que a religião tenta injetar na veia das pessoas e, com isto, ainda que sem querer, manter a ilusão de que vivemos em débito e sempre merecedores da dor e do castigo.

O Deus que pode ser ferido - fraco, por assim dizer - não é a resposta para o porquê da permanência do mal no mundo. Mas aponta o próprio Deus como vítima deste mesmo mal e que, como toda a vítima, anseia estar livre e participar da vida abundante que vence o próprio silêncio e desconsolo, causados pela morte. O Deus que sabe o que é morrer, é justamente o Deus que sabe o valor da vida, o valor do amor e o valor da libertação. O Deus que clama por salvação (passa de mim este cálice) é o mesmo Deus que anseia a liberdade dos seus filhos.

E, como diz Bonhoeffer, é nessa fraqueza e nessa impotência que Deus nos dá assistência e nos mantém fortes e potentes. É na humanidade de Deus que descobrimos a divindade humana. A parcela divina presente em nós e, justamente por isso, Jesus é também chamado de nosso irmão. Por ele, somos então, participantes desta divindade e, acima disso, desta perfeita humanidade, capaz de transcender suas dores e vencer as instituições e os poderes que, com mão de ferro escondida em luva de seda, justificam a opressão. Nas palavras do grande teólogo Leonardo Boff, "humano como Jesus, só podia ser Deus mesmo". E, assim, nas palavras de Jesus "sois deuses, pois sois todos filhos do Deus Altíssimo".

quinta-feira, 6 de março de 2014

Paz na terra, aos homens de be(ns)m

Sou uma pessoa de bem. Para que se entenda o que quero dizer como "pessoa de bem", vou explicar:

Pago meus impostos;
Não roubo;
Sei ler e escrever;
Não me drogo;
E sou trabalhador.

Qualidades difíceis de encontrar em uma pessoa que me qualificam como "pessoa de bem". Mas, infelizmente, vivo em um país onde existe a incapacidade do governo de gerar pessoas que, pelo menos, se pareçam comigo. E aí surge essa classe de "bandidos" ou "marginais". Pessoas que não quiseram seguir meu exemplo e não lutaram por seu lugar ao sol. São pessoas que se entregaram às drogas e às ruas. Estas são invejosas. Querem meu carro; meu dinheiro; meu smartphone; meus cartões de crédito; e, acredite, até minhas roupas.

Elas ficam à espreita, esperando qualquer desatenção, a fim de me roubar ou até matar. Eu nem duvido que, se eu fosse mulher, correria até o risco de estupro. E aí, óbvio, há o risco de DST e uma gravidez indesejada! Quem, em algum lugar do mundo, pode desejar carregar no ventre o filho de um estuprador, aliás, do seu estuprador? E, claro, gravidez ocorre pela vontade de Deus e, por causa disso, ainda teria que carregar e educar esta criança pela vida toda. Aborto? Nem pensar! Sou uma "pessoa de bem".

Nestes últimos dias algumas pessoas como eu (de bem) pegaram um "trombadinha" - informação esta confirmada pela prisão dele em uma tentativa de assalto - bateram, tiraram a roupa e prenderam em um poste. Sinceramente! Quantas pessoas ele não roubou, não bateu ou não deixou nuas? Não era uma "pessoa de bem", não era um "bom cidadão". Por que pessoas boas, como eu, devem viver temendo pessoas como estas?

Ainda culpam a pobre da jornalista que concordou com algo que qualquer um concordaria. Somente quem nunca ficou refém, ou mesmo teve algo roubado, consegue ter pena de pessoas como aquela pessoa má, se é que posso chamar de pessoa. Está com pena? Pega pra criar!

Falta na mente destes metidos a Cristo a recordação de dores iguais. Quero ver manter esse discurso se as filhas, mães, esposas ou namoradas sofrerem na mão dessa "gente ruim"! Ah! Como eu queria! Rapidamente iriam espancar ou até matar o "FDP" que cometeu tal violência. E eu nem acho ruim! Ter condições de bater, espancar e humilhar essa gente é o bônus por nossa bondade! Não sou racista, mas a maioria é preta sim e se não for preta, tá fazendo "pretisse". E nossa maldade em humilhar estes "pretos" tem que ser vista como "bônus da bondade". Como permissão para extravasar a maldade contida que há em nós. Não devíamos nem ir para a prisão ou delegacia. Cada pessoa que agisse assim deveria receber uma medalha de bom cidadão.

Estou usando o termo "violência", mas, na verdade, nem se aplica. Não existe violência quando a pessoa merece correção. Cada um tem aquilo que merece! A oportunidade está ai para todos. Vivemos em um país livre, quem quiser arrumar trabalho, arruma. Deus ajuda e dá o sustento! Estas pessoas não querem nada com Deus e nada com nada! Então não se trata de violência. O "bandido" está colhendo o que plantou! E eu as "pessoas de bem", que matam, humilham ou espancam esses "males da sociedade", estão desfrutando do bônus de ser bom! Quer estar do lado da verdade, do apoio da sociedade quando quiser bater em alguém? Então ande direito!

Eles não nos roubam? Roubamos a roupa deles! Eles não nos batem? Batemos neles! Não nos humilham? Humilhamos a eles! Eles começaram! Apenas, estamos dando o troco! E quem discorda é hipócrita porque, dentro de você, certamente, existe essa "violência justificada" a arder.

Essa é minha alegria em ser um "homem de bem": poder executar a maldade que há em mim com o apoio da sociedade, que entende que isto é o bônus de ser uma "pessoa boa". Portanto, prendo, espanco, humilho e, se der mole, mato, porque sou uma pessoa de be(ns) m!

"nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento". - Clarice Lispector

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sobre o Saber Virtual

Acredito que vivemos no momento da virtualização do saber, ou melhor, do saber virtual. Nunca vi tantos debates sobre política, direitos humanos e moralidades como hoje em dia. A grande maioria dos tons das "conversas" é de homens e mulheres que entendem a solução dos problemas. De um lado, religiosos indo contra à normalidade da homoafetividade; do outro, radicais homossexuais que ridicularizam o livro de fé de cristãos e judeus; Na outra briga temos a ala esquerda que não concorda com as atitudes do governo (que é de esquerda), do outro lado, os chamados radicais de esquerda - que estão sempre agindo como se estivéssemos, ainda, em plena ditadura militar e - neste caso - formando um triângulo de guerra , os da direita-reacionária (esqueci alguém?, desculpe); Em Outra briga estão os que defendem a moral e os bons costumes e, para isso, atacam BBB, novelas, funk, e toda a abundância de nádegas na TV, contra estes estão os que dão pleno ibope a tudo isso que, pelo número de telefones do BBB, são muitas pessoas, ou a maioria delas.

Entretanto, todos debatem ou postam em suas redes sociais posicionamentos a partir de informações da mesma rede social ou daquilo que a reportagem diz. E aí prevalece o discurso reacionário da Veja ou a fala de difícil definição, da Globo. Como já disse outras vezes, o fato ocorrido ninguém sabe. O que chega a nós é a história interpretada. Quer pelo olhar do repórter; pelo "postador" dos vídeos e imagens; pela edição do BBB; ou por quem diz que não acompanha novela, mas sabe (a partir de que?) do que criticar do programa; Enfim, brigamos e discutimos, tomamos partido de interpretações e nada mais. E não há problema algum nisso. Ou não haveria se, todavia, este saber não fosse "virtual". Pelo Facebook e pelo Twitter todos lutam por causas; pensam fazer "doações" a crianças doentes, ou à África; gente que nem sabe quem é Rubem Alves ou Cora Coralina postam frases que em determinado momento pertence ao primeiro, e, no outro, à Cora.

Mas é assim, agora, por conta do botão "compartilhar", todos somos cultos; todos somos politizados; temos a receita que salva o Brasil de qualquer crise; somos preconceituosos e legitimados pela "liberdade"; ou somos partidários acríticos, simplesmente porque ser polêmico é moda e, assim, externalizamos nossa opinião ultraconservadora ou  revolucionária irracional.

A bem da verdade é que nada sabemos... Nossas postagens apenas alimentam esse sistema e nada conscientizam. São perfeitas para expormos o que pensamos ou no que concordamos e nada mais. Agora, o quanto dessa opinião está baseada no saber virtual ou na firmeza da investigação crítica, somente o "re-postador" saberá. Ou não?

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

As boas origens pagãs do cristianismo

A religião cristã é filha do judaísmo. Mas não apenas dele. Inúmeros outros povos e culturas influenciaram filha e mãe (antes mesmo da existência de cristianismo). A bíblia registrou, em parte, essa influência. Abaixo listarei algumas:

  • Uma divindade Cananéia, chamada de El-Elyon (traduzido como Deus Altíssimo), tendo como sacerdote um tal de Melquisedeque, recebeu louvor e honra na bíblia e o patriarca da fé judaica, cristã e islâmica, Abraãao, deu o dízimo de tudo ao sacerdote;

  • Há outra divindade que PODE ser que seja a mesma. Simplesmente chamada de El. Este é pai do deus muito conhecido chamado Baal. A religião deste deus é considerada forte oponente da religião de Javé. O livro de reis demonstra essa inimizade no episódio da disputa entre os profetas de Baal e Elias, o profeta de Javé. El é apresentado como um deus pai bondoso. Na história, Javé lhe toma o reinado e acaba por herdar o seu nome (inclusive lhe toma a esposa). O salmo 82 narra a tomada desse lugar e como Deus se levanta para matar todos os deuses que não são justos, tornando-se o único Deus;

  • Os relatos do hino da criação (Gn 1), dilúvio e Jó, tratam-se de reproduções, segundo a fé e o protesto judaico, de mitos contados pelas religiões babilônicas. É o chamado sincretismo de superação, comumente praticado pela cultura judaica;

  • Os judeus não tinham uma fé que lhes permitia crer em anjos ou demônios. Todos os acontecimentos eram oriundos, na sua crença, diretamente de Deus. Coisas boas ou más eram geradas por Deus, por nenhum outro ser a mais. É justamente no contato com a religião persa que se deu a assimilação da existência de anjos e demônios. Também devemos a crença na ressurreição final (que permitiu a fé na ressurreição de Jesus) a esta mesma religião;

  • A chamada santa ceia nada mais é do que outro exemplo de sincretismo de superação. Onde o “original” está no relato da ceia do deus Mitra. Cultuado, principalmente, entre os soldados romanos. 
  • Ainda em Roma encontramos os títulos de Salvador do Mundo, Filho de Deus, Deus de Deus. Eles pertenciam ao Imperador Romano e o cristianismo os deu a Jesus.

Enfim, poderíamos ficar aqui escrevendo inúmeros outras misturas e influências que fizeram com que tenhamos, hoje, a religião cristã. Estes exemplos não foram retirados com o intuito de diminuir ou menosprezar ao cristianismo. Sou cristão, antes que se pense o contrário. A razão está na certeza histórica de que não existe religião pura ou revelação sem influência cultural.

O conhecimento religioso, tal qual o científico, modifica-se segundo os apelos da história. A escravidão já foi justificada pela bíblia; a mulher como parte submissa ao homem também (prefiro já tratar isso como passado); e a miséria já foi vista como vontade de Deus.

Enxergar que uma fé é devedora de tantas outras nos permite a aproximação com bons olhos de outras confissões religiosas. Tal visão tira de nós o peso de estarmos certos de tudo e nos permite aprender e ensinar às outras religiões. Somos todos membros do mesmo planeta e buscamos (religiosos sinceros) a paz. Infelizmente com discursos nem sempre tão amistosos assim. Mas o importante é co-existir. É permitir que o outro seja quem é e tomar coragem de assumir quem somos. Respeitar o direito alheio e honrar nossas convicções apenas contribuem para um mundo mais tolerante.