segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sobre Violência e Torcida

"É um ser humano!", dizia o jogador Luiz Alberto, do Atlético Paranaense, aos torcedores que agrediam ferozmente a um torcedor do time adversário. Adversário... Acredito que esta palavra tenha sido elevada à máxima potência, naquele instante. Estou falando do jogo realizado no dia 8 de dezembro de 2013, na Arena Joinville, onde as duas torcidas entraram em confronto, chocando parte do país que ainda se choca com essas histórias... Ainda se choca... Há quem não se choque...

A cena me fez lembrar algo que nunca vimos. Mas que as páginas da história nos deixam imaginar: O grande coliseu romano. Nele, gladiadores se enfrentam até a morte. Armados com espadas, escudos, armaduras e o que mais se permitia utilizar naquela época. Lutam por suas vidas. Quem não mata, morre. Sangue, pedaços do corpo do inimigo, violência que só termina com a morte. Ao redor da grande arena, estão as arquibancadas repletas de gente. Fazem sua refeição enquanto assistem dois homens lutando não para matar, mas para se manterem vivos, ainda que tenham que assassinar alguém. Essas pessoas vibram com cada golpe. Fazem apostas para saber quem vai ganhar. Enquanto um geme de dor, eles gritam de prazer e euforia. Quando um deles não tem mais condições de luta, fica deitado aguardando o golpe final. Esse golpe, contudo, só virá se o imperador se colocar de pé e fizer um sinal com o polegar para baixo, indicando que o vencido deve morrer. Enquanto aguarda a decisão do imperador, para saber se vai morrer ou não, o vencido houve a massa gritando por "morte". Todos, sem exceção, vibrando com a morte de uma pessoa. Torcendo para aquele "ser humano", ser morto. Não, este ser humano não tinha feito nada contra eles, apenas era um gladiador e, como tal, devia viver, ou morrer em combate.

Dando um salto na história, podemos pensar na inquisição. Nela veremos mulheres sendo queimadas vivas na fogueira. Simplesmente porque eram "bruxas". Ou jogadas no rio com uma pedra amarrada aos seus pés. E os que não parentes ou amigos da condenada, celebram o cumprimento da vontade de Deus que expulsa o demônio do meio deles.

Podemos continuar dando saltos e mais saltos até chegar aos traficantes do Rio de Janeiro. Que colocam seus desafetos em pneus e colocam fogo, ou no, chamando, "microondas".

Peço perdão para aqueles que amam a vida e nessas linhas que escrevi sentem dor. Acreditem também as sinto. Mas era preciso para poder chegar a um ponto que julgo importante. Entretanto, antes de chegar lá, preciso narrar o que vi em um desenho. Não lembro qual e nem quando. Contudo, havia um diálogo entre dois extraterrestres. Um dizia que os terráqueos eram muito retrógrados. Que, se quer, tinham superado a guerra, ou o desejo por fazer guerra.

Voltando ao jogo, ouvi alguns críticos falarem sobre a ausência de policiamento. Sim, de fato isso foi um erro grave. Mas, algo me intriga...  Realmente não sei quem veio primeiro, "o ovo ou a galinha". Não sei, de verdade, qual é o pior erro: a ausência de policiamento, ou a necessidade de policiamento? Comparando, e não julgo que seja uma comparação ruim, me escandaliza um mundo que ensina mulheres a se defenderem de estupradores, sem, contudo, ter me ensinado, que sou homem, a importância de não violentá-las. A violência entre as torcidas está se tornando o padrão, ao ponto de policiamento ser exigido para conter isto. Ok! Há quem diga que não só por isso. Mas por isso, também. E a polícia chamada para tal contenção, talvez seja a mesma que espanca, mata e legitima pela farda a violência contra a população que se manifesta, ou que é negra e favelada.

No início do texto, fiz uma abordagem sobre a violência e sua "normalidade". Fiz com o intuito de demonstrar que "amamos” a violência. De alguma forma ela nos excita, sexual e emocionalmente. Há um êxtase oriundo do sofrimento alheio infligido por mim, ou por aquele que me representa (aquele que eu torço, no caso dos gladiadores). No caso do futebol, os gladiadores não estão na arena, e sim na arquibancada. Alheios ao jogo, alheios ao que se passa. Levam já suas armas: pedaços de pau com pregos na ponta, para ferir e matar o adversário que ousa torcer por um time diferente do meu. Que comete o grande abuso de zombar de mim, na minha casa, ou da situação triste que meu time se encontra. Provocam dor, matam, o motivo? Não importa! Qual era o motivo de torcer por um gladiador morrer? Qual era o motivo para celebrar que uma mulher morra queimada viva? Ou que real razão existe para matar alguém queimado vivo entre pneus? Todos os motivos são inúteis e plenamente desnecessários. Porque não há outra razão se não a simples resposta "porque eu quis". O desejo pela violência e pela dor alheia em prol do êxtase lúdico, religioso ou sexual. Prova-se a virilidade e a superioridade pela forma romana: a dominação sobre o outro. Não adianta criticar e dizer que se trata de um absurdo porque o futebol é para unir. Também não adianta afirmar que está tudo ruim. Acredito que a grande maioria de brasileiros discorda veementemente das atitudes dos torcedores. Embora justifiquem, em suas vidas, outros tipos de violências que possuem o mesmo fundo psíquico, que é a dominação do outro.

A crítica sobre policiamento, criação do "estatuto do torcedor" ou qualquer coisa que ouse controlar a violência nas arquibancadas, apenas trocará de posição o "ladrão" utilizado para expelir o excesso de violência contida. Há tristeza maior do que a existência do mandamento "não matarás"? Há coisa mais absurda do que a necessidade da lei "Maria da Penha"? A violência humana é algo dentro que lei nenhuma consegue conter. Como bem disse o desenho, não superamos nem a guerra!! Ainda usamos a guerra como forma de "negociação". Em comum o que foi dito sobre a história e o que vimos ontem, existe o fato de sempre existir torcida. Pois a torcida que via e se alegrava com a violência, em seu íntimo, a praticava e admirava aquele que a fazia sentir-se vitoriosa. A torcida e a violência, infelizmente, sempre andaram de mãos dadas.

E há algo de bom nisso tudo? Podemos aprender alguma coisa? Retirar algo que nos dê chances de ver com bons olhos? Não sou Poliana e não sei brincar de "jogo do contente". Não! Não vejo nada de bom... Apenas percebendo que cada época tem sua modalidade, ou modalidades de violência que gera prazer no violento ou em quem assiste. Antes eu pensava quem quando chegássemos ao precipício, iríamos dar meia volta... Hoje me pergunto se já não estamos caindo e nem tínhamos percebido...

Acredito que seja por isso que Jesus diz que os pacificadores serão chamados de filhos de Deus. São tão anormais e tão diferentes do padrão que nós criamos e internalizamos (pois creio que todo ser humano, essencialmente, é bom), que precisam ter outro título. Não são homens normais, são filhos de Deus.

Esperança? Sim... Ainda tenho... Como bem disse o Aldir Blanc, ela é uma artista equilibrista.

"A esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista 
“Tem que continuar...”

E ela continua, ardendo aqui dentro, sofrendo com a desumanização opcional, mas teimando e não deixando o show esperançoso morrer...

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