quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Silêncio diante de Amós

Os profetas do Primeiro Testamento me encantam. Destes, o que mais me chama atenção é o Amós. Sua mensagem é inspiradora e, ao mesmo tempo, desafiadora. Pouco se sabe desse homem, alguns alegam que era rico, outros que era pobre. Pobre o rico, tanto faz. O que importa é que, corajosamente desafiava a nobreza, o exército, o clero e toda classe dominante e dominadora.

No centro de sua mensagem estava a justiça. Principalmente a justiça em favor do empobrecido. Milton Schwantes gosta dessa expressão (empobrecido) porque ela define um ser passivo em sua situação de pobreza. Define que alguém, ou alguma instituição tornou-o pobre. Tiraram dele sua dignidade, sustento e tudo aquilo que saciaria sua necessidade como indivíduo, membro de uma família ou parte de um povo.

Amós defende, com unhas e dentes, o direito do empobrecido. Denuncia sua situação como injustiça e, em sua tradição religiosa, pecado contra Javé. O "profetizador"  faz com que a profecia se torne mais do que fonte de êxtase religioso. Sua sensibilidade está para além do culto e dos arrepios. Percebe a injustiça e a opressão e, fatalmente, nega que tal situação seja oriunda da decisão ou vontade do Eterno. A confiança de que o Senhor é justo e misericordioso gera no profeta a inconformidade e a negação: algo está fora do lugar. Enquanto a corrente religiosa legitimava, por meio das festas religiosas e do culto, a situação desesperadora do oprimido, Amós emprestava sua voz aos que não tinham quem e nem onde recorrer. Ele era o profeta do povo e, assim, tornou-se um profeta de Javé.

Nesta experiência prática e vivida no dia-a-dia e nesta sensibilidade para com a situação social de seu povo, Amós nos deixa constrangidos. A religião que se diz herdeira da força vital que mobilizou o profeta de Tecoa está para longe dos ideais sociais de seu pensamento religioso-social. Em um tempo em que religião e estado se confundiam e tanto um quanto o outro se justificavam (o rei era o ungido de Javé), Amós fez seu discurso social com forte apelo religioso e seu discurso religioso com forte apelo social. A modernidade, contudo, concebe a separação entre estado e religião. O estado deve ver o povo e não sua crença. Essa separação, porém, deve ser vivida apenas no âmbito político (e deve mesmo!). A religião, entretanto, não pode, jamais, conceber a situação miserável do povo como algo distante de sua espiritualidade.

Cabe ao cristianismo confessar a crença de que não existe paz espiritual sem comida, sem emprego, sem saúde, enfim, sem dignidade. Tão pouco deve mergulhar na mágica das orações como fonte de solução de problemas. O Evangelho deve ganhar às ruas e, como o profeta Amós, cobrar de quem de direito. Não com o discurso religioso. Sua motivação está na sua fidelidade a Javé e, conseqüentemente, ao povo. Seu silêncio é um pecado que fere os princípios de Cristo, que morre e ressuscita pelo ideal da justiça. Sua cobrança aos responsáveis, entretanto, se pauta no conceito de Sociedade, no engajamento popular e na certeza de que as instituições governamentais devem servir ao povo, jamais ao contrário.

Porém, o que se percebe é o distanciamento político-social da religião. Quando cito "política", não me refiro à política partidária. Esta está para longe dos reais desígnios de justiça. Refiro-me ao conceito de regular as relações do Estado, da garantia da cidadania e dos direitos daqueles que constituem o povo governado. A religião perdeu esta preocupação e vive em estado de contemplação. Olham o céu em busca de Deus, ou o governo, para se tornar um Deus. Vêem-se pastores e líderes religiosos lutando pelo poder. Alguns seguindo o caminho da candidatura e outros, o caminho do apoio político (garantia de votos, pois as ovelhas ouvem a voz do pastor que diz "votem nele") em troca de poderes e privilégios. Quando não fazem isso, entrando pelo caminho sujo e vergonhoso na política falida, se alienam do mundo. Fazem uso de pregações e canções que tornam seus seguidores em homens e mulheres movidos por ilusões e falsas certezas de que são melhores, superiores, ou, ainda, inabaláveis. Criam uma virtualização de mundo. Um mundo paralelo que faz com que fechem seus olhos para o que há de mais importante na religião: o viver bem, ou seja, a justiça social que deriva da fé em um Deus justo. Abandonam isso para viver suas lutas contra demônios, religiões demonizadas e um mergulho profundo em na alienação da vida e, ainda mais, na negação desta vida, apoiados em promessas de céus onde serão preguiçosos: não trabalharão e não lutarão por nada. Serão eternamente inúteis! É a idiotização da fé firmada em um "Deus" menor e inexistente. Em um ídolo, por assim dizer.


Amós gera em nós a compreensão da expressão de Renato Russo "saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi". O profeta nos emociona com suas palavras de desafio e denúncia. Foi um militante político, nas palavras atuais. E, nestas mesmas palavras, um servo fiel aos ideais da fé em Javé. Diante de nosso quadro vergonhoso, Amós nos causa vergonha. Não conseguiria olhar nos olhos do profeta e, sinceramente, não entendo como ainda ousam dizer olhar nos olhos de Deus.

Amós, sim, foi um profeta. Pois, antes de alegar ouvir a voz de Deus, ouviu a voz do povo...

Como posso me calar?
(Jorge Trevisol, Osmar Copi)

Como posso me calar? (4x)

Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos, cansados, com medo de amar
Meu grito calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar


Como posso me calar? (4x)

A tua palavra me queima
Questiona meu modo de ser
Me faz conhecer a verdade
Senhor, teu amor faz doer
Teu grito calar não consigo
Tua voz ninguém vai conter


Como posso me calar? (4x)

Eu sinto o que sentes do povo
Conheço o amor que lhe tens
Inquieto eu fico contigo até que a esperança não vem
Teu povo, Senhor, é meu povo
O teu grito é meu grito também

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