quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Por que acredito em Deus?

Não acho válida e tão pouco segura uma explanação que objetive afirmar as provas da existência de Deus. Nada, nada, para mim, pode, com segurança, comprovar que Deus existe. O conceito de comprovação, ou empirismo, acredito ser extremamente válido para N situações: medicina, estudos biológicos, ambientais, tecnológicos e tudo o mais que nos permita segurança, saúde, conforto (responsável, diga-se) e etc. Mas não creio que o conhecimento com comprovação seja o único caminho válido de conhecimento.

Não seria extremamente injusto jogar fora anos e anos de conhecimento subjetivo que nos trouxeram, dentre tantos outros valores, a ética, a filosofia, as leis (justas e injustas sim) e os valores que nos permitem, em algum momento, esperar e lutar por um mundo melhor?

Como posso afirmar, dentro da ideia de conhecimento válido, que tenho CERTEZA de que sou amado? O que nossos amigos e familiares fazem para COMPROVAR CIENTIFICAMENTE que nos amam? Não poderiam ser interesses? Mentiras? Sim, poderiam! O conhecimento científico, contudo, não engana: a lei da gravidade é real , comprovada e existe antes mesmo de sua sistematização. Já os relacionamentos, estes são pautados na fé. Fé aqui entendida como o "salto no escuro" de Kierkegaard , ou como certeza das coisas que não se podem ser vistas ou comprovadas.

Esperança e amor são duas coisas que não são alimentadas pela comprovação. Esta é pautado no que é: é porque é, se não fosse não seria. Na pura lógica: se não é, não pode ser; e se não pode ser não é. O ser humano, contudo, não se prende a lógica na vida ou mesmo nos relacionamentos. Uma criança que nasce em uma favela pode se tornar uma das pessoas mais ricas do mundo. A probabilidade nunca definiu o futuro e tão pouco o determinismo tem se mostrado real. O ser humano, NEM SEMPRE, é produto do meio. Somos seres de transcendência. E como tais, jamais, nos limitarão ao conhecimento científico. Como seres de transcendência, fugimos, inúmeras vezes, da lógica. Somos um grande mistério.

Como disse antes, não pretendo aqui afirmar que Deus existe. Essa não é a questão para mim. O que cabe aqui é dizer que o conhecimento subjetivo (que inclusive é usado para afirmar: Deus existe) é válido tanto quanto o empírico e não pode ser desprezado. Tanto um quanto outro devem fazer uso da razão, mas estão, obviamente, com objetivos diferentes e, juntos, mantém a harmonia dessa maravilhosa máquina chamada "ser humano". De forma que afirmar que Deus existe, com base em seus sentimentos ou experiências pessoais e subjetivas, para àquele que as tem, é completamente válido e não deve ser refutada e nem desprezada por aquele que não tem. Pois aquele que não tem essa convicção da existência divina, não a tem, também, por sua experiência subjetiva e, jamais, pela lógica científica.

Um exemplo dessa força subjetiva é o caso de um filho adotivo. O pai diz: esse é meu filho! Não, cientificamente não o é. Mas o é em afeição, amor, criação e tudo o mais que faz com que as pessoas digam: pai é quem cria e não quem faz. “Errado! Pai é quem faz! O outro é apenas alguém que adotou”, diria um cientista frio. Contudo, o amor e a afeição são capazes de transpor os limites da consanguinidade e ir contra toda a lógica da genética e conduzirem o pai a dizer: meu filho!

Duvidar é um direito que cabe a qualquer um e por qualquer motivo. Quem dúvida, por mais louco que pareça, merece ter voz. Assim como quem não duvida, por mais doido que aparente. Pode um ateu provar a inexistência de Deus? Não! Ninguém pode comprovar que algo não existe. Fazer uso da ideia de "nunca vi", torna Deus inexistente apenas para aquele que nunca viu. Portanto, "crença" na inexistência de Deus por sua experiência pessoal. Sua subjetividade. Tanto a não crença em Deus quanto a crença partem do mesmo ponto: fé! Ter fé na inexistência de Deus é simplesmente duvidar que alguém possa comprovar cientificamente que ele existe. Assim, do mesmo jeito, o crente não comprova que ele existe, mas diz experimentá-lo.

A ciência (diga-se amo a ciência) possui seu limite. O conhecimento empírico, jamais, servirá como parâmetro para reger os relacionamentos. A esse campo cabe a fé, confiança, o arriscar-se e o aventurar-se.

Deus não é algo palpável a ciência. E não creio que o será. É um ser comprovado pela fé e pela experiência pessoal. Em outras palavras, não se comprova Deus, se relaciona. Não se objetiva Deus. Ele é relacionamento. Talvez, e também por isso, João o chame Amor. Pois amor não pode ser comprovado, apenas vivido. experimentado e doado. E, nem por isso, se torne falso ou inexistente. Falso e verdadeiro são categorias da ciência e da fé. A comprovação da ciência se pauta no teste (se isso é, então, verdadeiro, senão, falso), para a fé, é apenas ela mesma. A própria fé é a certeza da falsidade e da veracidade de algo. E, portanto, pode e deve variar de ser para ser. Por isso podemos ser ateus, cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e etc. E, assim, cabe, a cada um, seu direito e seu respeito.

Termino com uma frase linda de Ruben Alves:

"Mas, e Deus, existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte é minha irmã? Ao que a alma religiosa só poderia responder: 'Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteiro. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido...'"

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