quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Deus do Natal

Sabe-se que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro; sabe-se que, originalmente, a festa desta data era devotada a Mitra, o "Sol Invictus"; O dia do nascimento de Mitra; sabe-se que o sincretismo ocorreu quando o cristianismo tornou-se religião oficial do império. 

Religiões são assim e não há como serem diferentes. Existem diálogos e mesmo influências. Lamentável é quem imagina que sua religião é pura. Não existe e jamais existirá uma religião que fuja a influência cultural (e, portanto, religiosa) do seu criador ou dos seus seguidores.

Assim, o cristianismo, filho e herdeiro direto do Judaísmo, já nasce, por si, sincrético. Sua religião mãe, desde os primórdios, principalmente a partir do império babilônico, praticava o chamado "Sincretismo de superação". Já trabalhado em outras postagens deste blog. Sendo seu filho, o movimento cristão não fugiu essa prática, recolhendo informações do império romano, tomando títulos do imperador e dando a Cristo: salvador do mundo, Filho de Deus, Deus de Deus e etc.

Com o natal foi um pouco diferente. Trata-se de sincretismo puro e direto. Mas, e daí? Essa preocupação histórica não influencia e não deve influenciar o sentimento que o Natal procura proporcionar. Ela, nem mesmo, é capaz de diminuí-la. A meu ver, enobrece! Seria, obviamente, ignorância fechar os olhos para o apelo comercial e, ao mesmo tempo, seria triste procurar o "sentido do Natal". Mas o Natal tem seu símbolo. E é no campo do simbólico que ele exala seu perfume que inspira nossas almas. A beleza da história do Deus que entrou em seu mundo na fragilidade de uma criança. O desapego pela Eternidade e o amor por essa carne, tão demonizada pela religião que lhe foi herdeira.

A humanização de Deus! Enquanto muitos procuram se divinizar e serem separados por "unções" e títulos religiosos (pastores, apóstolos, bispos, levitas, ungidos, líderes e etc.), Deus apenas quis ser humano. No caminho contrário da religião que busca incansavelmente alcançar a Deus, Deus vem ao seu encontro por meio da identificação plena. Torna-se igual. Participa da árvore genealógica da humanidade. E, portanto, nosso irmão, nosso igual.

Ouço canções das mais diversas que parecem ter esquecido ou mesmo desconhecer esse símbolo. Em minha mente vem um refrão de uma canção bastante cantada nos cultos evangélicos:

"Dá-me Tuas asas pra Te alcançar,
Nos lugares altos aonde Tu estás!
Estás assentado acima de todos!
Tão grande Tu és,
Mas mesmo assim habitas em mim!”

Quão inconciliável é esta canção com o símbolo natalino. Aquele, cuja canção exalta estar acima de tudo e sentado sobre todos, agora, está no colo de Maria. O que é erguido como grande Protetor e que se importa conosco, torna-se tão frágil e dependente, que Maria precisa protegê-lo. Maria precisa alimentá-lo. Maria precisa amá-lo. Se o abandonar, morrerá. Na fragilidade da vida, o Deus inalcançável, cujos cantores anseiam ganhar asas para encontrar, torna-se o que João faz questão de dizer:

"O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida (pois a vida se manifestou, e nós a temos visto, e testificamos dela, e vos anunciamos esta vida eterna que estava com o Pai e a nós se manifestou);" 1 João 1:1-2

"O que nossas mãos apalparam"... Eis o símbolo maior do Natal: Deus se torna apalpável. Muito mais do que alcançável! Deus faz o movimento contrário. Não fica no alto, esperando que seus seguidores cheguem até ele. Deus vem ao seu encontro! Mais do que proximidade, Deus se faz como seus seguidores. Nas palavras de Paulo: 

"esvaziou-se, tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens; e sendo reconhecido como homem" - Filipenses 2:7-8

Não importa se o Jesus não nasceu dia 25 de dezembro. Não importa a origem da festa e tão pouco importa o esforço humano-religioso de se achegar a Deus. Deus já está entre nós! Deus é semelhante a nós. Mais do que feitos à imagem e semelhança de Deus, Ele próprio se fez nossa imagem e nossa semelhança. No olhar o outro, eu vejo Deus. Eu vejo um membro da árvore genealógica que traz à vida nossa, o Filho de Deus. Entre nós, inclusive, vivem seus primos e sobrinhos distantes.

Eis um dos grandes símbolos do Natal que fica dessa forma, silencioso. Dito sem dizer. E, Deus, na contramão do sonho religioso, realiza o que a "santidade" tenta negar: quanto mais humanos, mais divinos; quanto mais humanos, mais parecidos com Jesus, nosso irmão, nosso sangue; nosso.

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